Trópico de Câncer

Terça-feira, Outubro 31, 2006


Infernais
Os últimos 15 dias foram infernais. Noites mal dormidas, dores nas costas e na lombar, dificuldade para engolir alimentos, pés inchados por desnutrição, nariz invariavelmente entupido, incapacidade de respirar pelo excesso de líquido na pleura, ouvidos a meio pau, surdinho, tudo, enfim, para aumentar a tal da depressão profunda diante do barranco.

Tudo parece estar desmoronando, melhor os passeios do passado, no Barranco, com motivos mais torpes, algo como "ah, me dá mais um chope aí então". Mas, nem tudo está perdido, entre hoje e amanhã - uma cirurgia para drenar dois litros de líquido e grudar as paredes da pleura podem retirar da lista sinistra itens fundamentais para o meu bem-estar. Prometo manter os amigos informados.


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Segunda-feira, Outubro 16, 2006


Tempo
Os dias têm passado lentos, ligeiros, rápidos, vagarosos.... Tenho tido dores bem ruins durante o incio da noite até por volta das 24h. Precisei chamar a Unimed SOS algumas vezes para aplicarem Dolantina. Em geral, funciona.

Mas, no final de semana, minha querida Polly passou em nossa companhia. Rimos muito, conversamos bastante, especialmente Tata e ela, que fizeram um revival da adolescência muito legal de ouvir, imaginem participar. Alto nível.

Depois de uma deprê violenta - não registrada aqui a meu gosto - resolvi, em desespero, cumprir a promessa feita para Tata: que iria a uma psicologa.Senti em determinado momento que não tinha mais condições, não tinha força - nem física, nem psicológica - para continuar a batalha. Fui na semana retrasada: nota 03! semana passada: nota 06! .

Em meio às conversas com Tata sobre a vinda de Polly tive uma luz ontem. O dfícil está sendo esquecer que a batalha na verdade terminou. O câncer não é mais um alvo, mas um novo parceiro, a quem devo me irmanar em busca de qualidade de vida e longevidade. É notável, entretanto, a dificuldade que tenho para realizar a tarefa depois de três anos de guerra declarada, pública, sangrenta, um inimigo, enfim, tão traiçoeiro e cruel.. Vamos ver no que vai dar


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Quarta-feira, Setembro 20, 2006


"Visitas"
O fato de eu ter criado o blog e deixar claro que por vezes preciso de silêncio, solidão e nem queira atender o telefone de vez em quando não significa que os amigos não possam ligar para falar comigo ou mesmo combinar uma visita aqui em casa. Ou vice-versa, me convidar para adentrar a residência de vocês. Li nos posts muitas mensagens do pessoal dizendo que não entram em contato porque não querem me incomodar e tal... Tá certo, mas nem sempre estou em alfa ou fazendo meditação sobre a morte. Ainda olho futebol, jogo botão e logo logo acredito que voltarei com a cerveja ou com o vinho (de uva Isabel, o único que não arde na minha boca, embora sirva Casillero del Diablo para as visitas). Certo? Espero contato.

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"Bambas"
Não sou muito chegado em carnaval, mas estou precisando ir numa escola. Seja ela de fisioterapia ou de educação física. Meu preparo está pra lá de radicalmente fracote. Caminho com as pernas bambas, se me agacho uuuuh para levantar é algo que exige concentração e muitas vezes ajuda. No mínimo apoio de um corrimão. Já tomei alguns tombos por isso. Minhas pernas parecem pesar toneladas. Somado a isso o fato de q eu estava com as tais plaquetas do meu sangue piscando um SOS com os dizeres: "cuidado com hemorragias internas", "cuidado com hemorragias internas", "cuidado com hemorragias internas". Bem, andei sob cuidados e com muito cuidado essa semana passada. Ontem tomei uma bolsa com as plaquinhas via portocat e tudo voltou ao normal, pelo menos minhas assoadas de nariz. Para o desânimo e o cansaço tomei vitamina B-12, também via portocat (acesso venal fixo que coloquei no meu peito há mais de um ano para facilitar o ingresso de medicamentos, especialmente os da quimioterapia).


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Sábado, Agosto 26, 2006


Sobre o Câncer
Ficou decidido que iríamos atacar a rinofaringe da mesma maneira que a anterior: ou seja, com rádio e químio. Um cálculo que levou três dias para ser concluído fez Dr. Marquez encontrar no meu carcinoma um desafio. Acho eu. Ontem entrei na Clínica e perguntei para a física: quanto é dois mais dois? Ela percebeu alguma sacanagem por trás e respondeu:seis! Imediatamente perguntei sobre os cálculos da minha aplicação e ela disse que ficaram sensacionais. Tem que estar mesmo porque os tecídos moles atacados pelo câncer estão entre os olhos, no início do nariz. Se der alguma coisa errada, tenho 15% de chance, enfim, de ficar com problemas visuais, basta a mira não ser precisa em milímetros.Pelo menos foi o que entendi. Agora me ocorre que isso independa dos cálculos. O problema talvez esteja na proximidade do raio.

A ressaca da cisplatinha (a quimio já usada e citada aqui antes) resultou em uma chamada do SOS ontem a noite. Nada demais! Dolantina e deu... Até já conhecíamos o técnico.

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Novidades
Tenho que contar apenas o suficiente para pintar o quadro atual no aspecto mental. As coisas andam rasas. Arrecém estou lutando aqui dentro da cachola pelo entendimento de que agora o negócio é trabalhar e curtir a vida, o que no meu caso são coisas parecidas. Meu físico, entretanto, ainda não está lá essas coisas e por isso ainda não consegui fazer as coisas andarem. Pedi ao meu principl executivo que faça um relatório de como está a empresa e em que estágio estão os projetos que tínhamos elaborado. fou de me trazer segunda.


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Sexta-feira, Agosto 18, 2006


Rinofaringe: parte II
As coisas estão acontecendo em tal velocidade que quando dou por conta outro mês se foi. As dores foram vencidas com a redução da medicação e principlamente por causa da radioterapia. Baixei imediatamente o nível de morfina aplicada, que gerou algumas dores provocadas pela abstinência, mas nada demais. Ainda tenho dores nos ombros. Esta parte cumpre o final de uma fase. Agora, lutamos por causa da volta de um câncer na rinofaringe e outro possível no pulmão. Os dois tão temíveis quanto perigosos foram encontrados numa ressonância e numa tomo. O que será de mim? É o que perguntamos Tais e eu olhando para teto, vez por outra


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Quinta-feira, Julho 27, 2006


Manifestações
Passaram-se dias depois do último post. E a vida foi se encaixando no quebra-cabeça de acontecimentos. BeBein tomou conta da casa. Fui entrevistado por Zero Hora sobre o blog, fiz uma nova sessão de rádio. Todas as peças, enfim, foram se encaixando pouco a pouco. Não estou lá essas coisas porque algumas delas foram negras como uma noite de chuvas e trovoadas, delírios e pesadelos, anjos e demônios.Tive muitas dores por causa do Herpes Zoster, mesmo depois de aparentemente curado. Dra Mônica diz que é memória da dor. Já pensou? Nosso corpo é realmente um mistério cheio de surpresas. Fiquei particularmente emocionado com a manifestação da portuguesa Ana. Afinal é a primeira vez que uma estrangeira escreve no blog. Fique a vontade, Ana, se preferir envie mensagem para enrico@mandic.com.br para trocarmos idéias sobre o tratamento. Hoje fiz minha primeira sessão da quimio. O Taxol não é exatamente um desconhecido. Arrancou meus cabelos, entre outras coisas. Agora a dose será menor e tudo indica que nem mesmo enjôos nem náusea chegarei a sentir. Para encerrar, mato os invejosos com um jantar que terei em instantes, preparado pelas minhas sobrinhas Lily e Naninha, filhas de Zele, na foto, em preparação antes do histórico manjar. Um abraço muito especial para todos os amigos e novos amigos.


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Terça-feira, Julho 18, 2006


Mil Novidades
1) Fiz a primeira sessão de rádio no peito (10 emissões). Ainda faltam outras 15 na segunda sessão, que atingirá a coluna de cima a baixo. O importante é que a dor sumiu.
2) Adotamos uma cadela, BeBein, que revolucionou a casa e despeja macro quantidades de amor por hora para Tata. Eu que queria um companheiro para as tardes de trabalho, fiquei hiper satisfeito. É uma vira-lata toda branca, com uma mancha no olho esquerdo. Olhem abaixo.
3) A possibilidade de uma metástase pulmonar veio a partir de uma tomo no tórax que dizia que eu tinha um derrame pleural bilateral, o que poderia ou não ser uma manisfestação de câncer de pulmâo.
4) Nesse meio tempo, apareceu a malfadada Herpes Zoster. Dor, coceira, pomada e mais pílulas.
5) Os medicamentos estão desproporcionais à situação atual. Sinto um sono infernal durante todo o dia.
6) Estou com dificuldades para trabalhar em função disso tudo. Sinto medo de ser mal interpretado pelas manhãs de sono profundo.




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Segunda-feira, Julho 03, 2006


De volta à rádio
Quem lê assim pela primeira vez vai pensar que eu sou radialista. Mas para o bem da verdade confesso: sou sim, por que? Nunca me ouviu? Bem, a Ritinha já. E uma vez minha voz foi reconhecida num bar em plena Cidade Baixa, porque eu dei um tchau igual ao que eu dava na Ipanema FM, num programete de 2min sobre Informática. Isto sem falar que fiz um curso na Feplan, que me garante por certificação atuar pelo Brasil inteiro como radialista. Te mete!

Feita a introdução desnecessária, retomei a radioterapia sem que os dois institutos tenham sequer trocado um e-mailzito ou quem sabe um telefonema, nada. Teletipo? Fax? Telegrama? Nada. Cheguei na Clínica onde deixei bons amigos, a mesma que abandonei só por causa da químio, tendo plena confiança na rádio, e fui recebido como se tivesse estado lá ontem, tudo no bom sentido, por favor, sem críticas, além da que já me referi. E que não é pouca coisa, afinal, cheguei lá com metástase nos arcos costais e na escápula. Mas depois de uma cintilografia e de uma tomografia ficou claro para o Dr. Marquez, o radioterapeuta, que o disposto nos locais nâo poderia provocar a dor referida.

A explicação passaria por metástase na junção de algumas costelas com a coluna vertebral. E que de lá irradiaria dor para a região onde eu sinto verdadeiramente a maldita. Também onde os médicos da outra clínica desconfiavam ser o local a ser atacado (arcos costais e blablabla, lembram?). Algo assim, não me foi repassado ou eu não lembro o nome real da região. Mas é lá que há seis dias recebo uns três minutos de radiação. Marquez acredita que na primeira semana eu devo perder a dor. Hoje passei o dia trabalhando, esqueci de alguma doses de morfina, agora estou aqui, abusando, mas pelo menos ainda nâo senti dor.

Amanhã tenho consulta com Dra. Mônica e também com Dr. Senna. Será questionado o fato das Clínicas não terem se comunicado e as conseqüências disso. Também quero saber se não existe outra químio para substituir o Jenzar, que vinha mantendo as metástases sob guarda, mas o fato de terem se formado bases inimigas na região, que agora é de combate radioterápico, outro medicamento será necessário. Ele já foi proposto e pelo que sabemos perderei cabelo e terei náusea. A náusea eu aguento. Mas não gostaria de perder o cabelo. Será que entre as dezenas de medicações - todas capazes apenas de me manter vivo - já que ineficientes para matar o tal signo do zodiaco - não podem fazer o mesmo sem que eu perca os cabelos. Pode parecer bobagem, mesmo assim me interessa saber se há outra alternativa. Prefiro ficar careca quando desejo e não por obrigação.

Para encerrar, comuniquei ao pessoal da clínica de radioterapia o endereço do blog. Talvez tenha feito merda. Mas agora azar. De qualquer sorte, como a turma da tarde me recebeu com balões, beijos e torta-fria, troquei o horário e nem tive como me despedir das meninas da manhã.


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Sexta-feira, Junho 23, 2006


Notaram?
Notaram ou não? Ah... tenho certeza de que os leitores de coração frágil para romances, ah, esses notaram. Como não notariam? Não é nada demais, mas é uma demonstração de amor incontestável, até porque foi feito assim... como dizer... instintivamente! Com base na realidade, na verdade mais verdadeira, aquela que se dá em momentos difíceis, aparentemente sem solução. Eu tenho feito com frequência. Mais ainda recentemente. Quero ver quem acerta, descobre, grifa essa declaração de amor linda e tão bela, poética...


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Quinta-feira, Junho 22, 2006


Morfina
O que dizer dela. Legal, tira dor. Provoca problemas colaterais com o tempo. Tem o charme das drogas antigas, de escritores dentre outras personalidades da história mundial que eram viciadões. Já eu... comprovei que nem sempre tira a dor, que pra tirar tem de elevar a niveis perigosos para o coração. E que de charme, gurizada: NADA! Nem baratinho dá. Enfim, conforme posto no post anterior, procuramos insistentemente por telefone e pela secretárias o nosso ex-querido médico da dor. Depois de uma semana sofrendo que nem bicho, adotamos a tática da sempre presente e disposta dra Mônica.

Chamamos, então, um serviço chamado home care do meu plano de saúde e foi assim que além de aplicações subcutâneas também passamos a tomar intravenal de seis em seis horas. Fomos premiados com dois técnicos muito gentis, gente fina mesmo, que tão na luta e tal, com os quais conversamos muito às seis da manhã, meio dia, seis da tarde e meia-noite, aquelas coisas. Não adiantou muito, mas melhorei um pouco. O problema é que as crises continuavam e a cada crise estavamos injetando mais morfina sempre com algo de medo, principalmente por parte de Tata, porque eu... eu queria qualquer coisa, até aspirina! Acionei, inclusive, minha irmã Zeda, enfermeira, para aplicar intravenosa antes do home care ser acionado e depois para me fazer companhia nas tardes que pôde e que eu mais precisei. Show!

Mas a solução para esse inferno acabou aparecendo mesmo foi quando o eficiente-dr. da Dor apareceu no visor do celular. Desde então ela parece controlada, com pequenos ataques, embora tenha aumentado a metadona, o ibuprofeno e estou tomando duas miligramas (duas ampolas) de morfina a cada duas horas. Agora mesmo estava com alguma dor e não entendia porque. É que por volta das dez tomei mijada porque apenas me apliquei e esqueci as mais de seis pilulas que eu tinha que ter tomado. Agora empurrei elas mais a da meia noite e ainda toquei ficha em minha dose de morfina.

Espero que noite seja abençoada. Amanhã tenho que encarar a coluna do jornal e desta vez não consegui adiantar nada, pois fiz duas tomos e uma cintilografia para, ah, sim, iniciar uma nova radioterapia nos arcos costais e na escápula, pois o câncer progrediu, embora tudo seja confirmado mesmo quando as tomos ficarem prontas. Mamãe... conto com tua ajuda...


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Sexta-feira, Junho 16, 2006


Boletim de ocorrências
Perdõem o silêncio. Primeiramente foi por dificuldade para escrever qualquer coisa em nível pessoal. A concentração para tanto estava sendo consumida pelos textos profissionais. Um tempo depois, foi agregado a tal impedimento o maior de todos os fatores: dor. Nos arcos costais, principalmente. depois de raios x, os médicos acreditam que possa ter havido uma progressão. Daí, para tirar a dor, morfina! Por enquanto, mas o caminho deverá ser rádio, assim eliminamos a dor ao matar a metástase. Estamos todos péssimos. A impressão é de que estou sendo comido vivo. Tem um bicho do zodíaco roendo meus ossos e cartilágens. Um horror.


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Quinta-feira, Junho 01, 2006


A culpa foi nossa
Não sei mais o que fazer a respeito. Se chegamos na hora, esperamos em média 45 minutos para sermos atendidos. Hoje nos atrasamos 5min para a consulta com o fisiatra. Adivinhe o que fizemos depois de esperar 30min. Pois bem, reclamamos. E soubemos, então, que por termos nos atrasado seríamos os últimos a serem atendidos! Bollocks! Quando finalmente encontramos um consultório que aparentemente preocupa-se em atender no horário, a punição é passar horas e horas a mais lendo revistas mais atrasadas ainda? Demos uma de loucos e fomos embora. "Ofereça meu lugar para outro trouxa", ainda gritei. Agora, fazer o que... Estamos atrás de outro fisiatra. Quanto tempo perdido para quem valoriza a vida que leva, não?


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Domingo, Maio 28, 2006


Boletim
O que dizer. Estou com uma maldita infecção pulmonar. Por isso foi feita uma coleta de material no pulmão para que pudessemos, através de exames dos mais variados, "alguns em cultura", atacar as bactérias e/ou fungos com o antibiótico certo, específico para vencer aqueles bichinhos lá. As placas, depois feridas que tive na boca já sumiram.

Um exame de checagem já foi feito também e a mancha diminuiu. Por outro lado, eu ainda não estou livre de suadores e febres, especialmente durante as madrugadas. Ou seja, cá estou eu de novo com uma batalha menor, mas que me toma tempo, consome oportunidades profissionais e pessoais. Não é o fim do mundo, mas é um saco. Porque quando levanto a cabeça já foi um mês, entendem?

Não, né, difícil explicar mesmo. É que, entre o ânimo e o desâmino, provocado por tudo isso, acabo atrasando alguns projetos super legais, coisas que tenho que fazer, não adianta; e deixar para a última hora é suicídio, embora essa coisa de última hora também não seja exatamente uma novidade para mim, desde os tempos do primeiro grau. Creio que por isso sempre fui um cara com muitas notas 07 esplhadas pelo boletim.


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Quinta-feira, Maio 18, 2006


Visitas
Estou com um novo ciclo de medicações. A idéia é substituir a morfina pela metadona. Embora a morfina tivesse lá seu charme decadente, tava ficando chato se espetar de quatro em quatro horas. Um novo remédio também entrou na parada (atualizo aqui em breve para eventuais colegas de tumor). O resultado é que estou sem dor, até agora não tive nem meia crise sequer, então, creio que a coisa toda funcionou acima do esperado. Pelo menos acima do que eu e Tata esperávamos. Algumas coisas estranhas, entretanto, começaram a acontecer. Passo os dias sozinho aqui no escritório e então o nível de concentração é elevado. Muitos textos, revisões, etc. Isso tudo associado a uma sonolência muito leve, mas tão leve que nem bocejo, apenas dou aqueles pulos assustados na cadeira, conseguem me entender? Você está lá, hiper concentrado em algo e de repente: a sua cabeça chega a balançar para frente e você se equilibra em sobressalto! É isso que tem acontecido. Mas entre os sobressaltos e os textos, por vezes vultos passam atrás de mim. Não é nada que me faça saltar de medo, aparentemente eu sei que é minha sonolência no momento em que rola. O mais pirado é que também ouço vozes. Às vezes identifico claramente como sendo da minha mãe, bem jovem, com a voz limpa que a levou para cantar num coral de igreja por um período. Outras vezes são risadas de crianças que correm e somem. Agora mesmo, estava escrevendo este texto e parei, me concentrei para suportar o silêncio, mas não ouvi nada nem vi. Não são operados por controle remoto, certamente, mesmo estando - eventualmente - no MEU cérebro, sem a minha aparente PERMISSÃO.


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Segunda-feira, Maio 15, 2006


As filhas da mãe
As Filhas da Mãe deram um show no domingo em que as estrelas
era suas mamães. Que maldade carinhosa, não? Eu, q nao tinha
nada com isso baixei a cabeça. Baixei a cabeça para me deliciar
com aquele showzinho particular que todos nós curtimos. Baixei
também para fechar os olhos, fechar os olhos e sentir todinhos,
todinhos os sabores que ali estavam disponíveis, disponíveis para
os meus sentidos, todos os meus sentidos, minhas glândulas e
deixa pra lá o sei lá mais o que q possa ter sido aquilo tudo. E
também para comer, né. Éééééé, porque eu também comi, né.
Afinal também sou filho da mãe, da vovó, vovó que elas, sim,
porque elas, sem dúvida reverenciaram, é reverenciaram, sim,
reverenciaram aquela magnifica cozinheira, aquela que aprendeu
a cozinhar com a cunhada, a cunhada que lhe segredou os segredos,
os segredos que ela aperfeiçoou tão magnificamente ao longo dos
anos. É sim, eu sei que a gente não se dá conta, mas é a mais
pura... a mais pura das puras verdades: o tempo passa. Só que
ele passa, nos leva, mas nos inspira, inspira, inspira tanto
que vira inspiração, o que aquelas duas filhas da mãe tiveram
de sobra. Tanto que não sobrou nada! Nada! Nem as sobremesas,
ah, sim! Sim, porque eram uma, duas, três, três sobremesas. É.
Eram três. Três filhas da mãe, filhas da mãe Zele e filha da mãe
zeda. Foi bom demais, nossa se foi. Foi bom demais lembrar
de tudo isso agora aqui para mim. Ops, para vcs, é, para vcs.



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Sábado, Maio 13, 2006


Estamos concentrados no meu pulmão. Há uma infecção por bactérias já comprovada. Ingiro uma boa quantidade de antibióticos desde então. Meu apetite baixou entre outras conseqüências por cândida na boca, na garganta. Não tenho tosse. Alguma febre eventual, mas sempre alta, altíssima. Todos os sintomas remetem para fungos. Mas eles não foram encontrados numa broncofibroscopia. Por essas e outras talvez seja necessária uma biopsia. Mais anestesia, o que não deixa de ser uma boa notícia. Quando penso na morte, penso em algo como a anestesia geral. No meio de uma conversa e/ou de um olhar sssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssss ...




























































... e você volta seja lá como for... esbudegado ou sonolento... ou o nada.


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Segunda-feira, Abril 24, 2006


Brinde
Vai fazer um mês dia 29. Vai fazer um mês que não vejo minha mãe. Pérai, não pára de ler. Não é tão simples assim. Nem tão terrível também. Em todo caso, velhos amigos, tenho de contar. Afinal de contas, faz um mês. É claro que tudo foi mais fácil do que eu imaginava. Porque, bem, vou confessar. Ficava um bom tempo até sem ver Mamma. Usávamos o telefone como recurso mais freqüente. Só que hoje eu procurava alguém com a letra M... E lá estava o nome mae, escrito assim sem assento no meu celular. Deu vontade de ligar, uma ação tão sem sentido quanto mandar um e-mail para Cássia Eller no dia em que ela morreu... Bom, mas aí, agora de noite, Tata chega com fotos reveladas que haviamos esquecido na máquina fotográfica por causa da novidade da outra, a digital. Pois é, então, foi isso. Lá estava ela no seu aniversário, com todos nós em volta, todo mundo sorrindo, pouco menos de um mês antes da sua partida. Tem até uma comigo abraçadão e tal. Lembro que ela ainda me disse: "Nós, os batalhadores...". Foi assim... Foi assim que lamentei e me dei conta mais uma vez da sua ausência definitiva, definida, deflagrada há exatamente um mês, quando chegar o dia 29. Daí vai fazer um mês. Sim, um mês. Que saudade. Brindo desde já com lágrimas.


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Terça-feira, Abril 11, 2006


Cansaço
Eu e Tata estamos cansados. Não existe outra resposta para explicar as sensações que temos. Eu tô cansado de estar sempre doente de alguma coisinha, quando não é um coisão mesmo. Os meus dias se arrastam em meio a compromissos médicos enquanto Tata, além de me acompanhar, em todos os aspectos possíveis, ainda trabalha num ambiente pesadíssimo como a Febem. Tenho dó, porque não é do tipo que faz as coisas pela metade ou com irresponsabilidade. Ela assume, briosa, peito cheio de ar, todos os compromissos da agenda. O que seria de mim sem ela? Nada... Hoje fomos consultar uma médida recomendada por Dra. Mônica, uma pneumologista, para investigar meus pulmões. Restou uma mancha lá, do lado esquerdo. Não se sabe o que é. Não se sabe o que será. Então, as queridas decidiram que vão fazer uma bronco-endoscopia ou coisa parecida. Aposto que Tata sabe o nome.

Para terminar, um queixa. Boa parte do cansaço de hoje se deve a um fato: os médicos são os únicos seres humanos que estão "cagando para o cliente" e não vão à falência. Impressionante, já falei aqui em alguma ocasião. Uma hora de atraso é pouco para eles. Depois ainda fomos noutra seção do hospital para marcar a tal broncoseiláoquê. Mais 40 minutos e saímos sem um médico para assinar a solitação do procedimento ao nosso plano de saúde. Quer dizer, isso vai demandar mais algumas horas amanhã.

Ah, sim, como esquecer... A consula e depois a marcação do procedimento foram realizados no mesmo hospital onde minha Mamma se foi. No próximo feriado toda a família vai para Sant´Ana do Livramento. Embora não tenha sido planejado, nada como as raízes para recuperar o ânimo. Certamente será, entrentanto, um reencontro com nosso passado, com as coisas e manias de Mamma. Sobre isso, por sinal, um registro. As manas reuniram-se no final de semana passado para separar as roupas dela. Encontraram pelo armários buchas com cerca de mil e trezentos reais, que ela escondia para um motivo ou outro, alguns descritos em bilhetes que fazia para si. Não sabemos se ela tinha noção do que tinha e de onde estava cada uma. Eu apostaria que sim. :)


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Segunda-feira, Abril 10, 2006


Cabo Lúcio
Os anos passaram e Nely foi imergindo no cotidiano. Todo dia acompanhava Mãe Velha para lavar roupa no arroio. Pegava uma roupa pequena e ficava esfregando, imitando. Também a acompanhava na entrega da roupa já passada em fardos brancos sobre a cabeça. Uma das casas que freqüentavam era a do ator Paulo José. Nely brincava com ele, enquanto esperava Mãe Velha, comendo bolo, que de vez em quando serviam. Mãe Velha não gostava nada disso.

Na época, Mãe Velha sofreu muito com o negócio da tuberculose, que atacou suas irmãs. Nely acompanhou tudo muito de perto. Mas não podia olhar os doentes nem chegar perto. E quando alguém morria, queimavam as roupas e objetos pessoais em uma fogueira no pátio. Já Maria, enquanto isso, vivia em função de Nely, pelo menos logo que chegava do trabalho.

Um dia, no caminho de casa, Maria viu uns dez brigadianos chegarem lentamente, todos muito empoeirados, com os cavalos extenuados, até a praça. Entre eles notou aquele cujo cavalo era o mais possante, que não mostrava cansaço algum, embora carregasse a mesma poeira no uniforme. Moreno, de bigode fino, empertigado, parecia alto de tão altivo. Mas ao descer do baio notou que era baixinho, mas cheio de pose. Do jeito que gritava com os demais devia ser o chefe. Maria ouviu conversas de pequenos grupos ao seu lado. Aquele era um tal cabo Lúcio.

(Escrito com colaboração da Zele)


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Terça-feira, Abril 04, 2006


Medo
Nely não lidou nada bem com a novidade. Uma sensação de solidão apertou o peito. Maria agora seria o que? Tia, Tia Maria? Madastra? Ela era minha mãe, agora o que será? Tanta dúvida e tristeza a fez sentir pena de si pela primeira vez. Difícil perceber o bem que a vida havia lhe reservado depois de uma revelação tão forte. E a mãe verdadeira, uma prostituta? Não, não... Por que me foi dada a vida se teria passar por tudo isso? Assim, sofrendo, Nely correu pelos campos, como se no final do fôlego fosse encontrar algo além do cansaço.

Maria e Mãe Velha perceberam a tristeza de Nely e sofreram em silêncio. Estava na hora de Nely começar a entender a vida, por mais complicada que ela parecece ser.

Passam os dias e novos telegrafos chegam. Maria e Sirlei combinam horário e local para o encontro. Sirlei pede para ficar a sós com Nely um tempo. Maria teme que Sirlei tente roubar Nely num momento de distração. Não se sabe a verdade até hoje. A única certeza que temos é que a foto foi tirada. E lá está mais do que clara a tensão!

Tudo indica que Sirlei tinha intenções de levar Nely, mas nada foi feito porque Maria e Mãe Velha não lhe deram nem um minuto a sós com ela. Enquanto isso, dá para imaginar quanto sofrimento causou tudo isso para a menina. Tadinha, odiava a mãe por tê-la deixado. Amava a madastra por tê-la acolhido. Amava a mãe por querê-la de volta. Odiava a madastra por não ser sua mãe. Passado tudo, a verdade é que para Nely nunca houve outra mãe desde então que não Maria, aquela que um dia seria minha única e querida vó.


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Segunda-feira, Abril 03, 2006


A foto...
Nely cresceu linda e forte como toda criança daquela época. Corria livre e alegre pelos campos, brincava com coisas simples, a maoiria feitas a mão pelos tios, pela avó e pela mãe Maria. Pião, cavalinhos de osso, deitar na grama, respirar fundo e olhar para o céu, vendo desenhos imaginários nas núvens. Nem mesmo os dias de chuva eram tristes. Maria dizia que as gotas que caiam nas poças de água eram bailarinas dançando com suas lindas saias rodadas. Ela fechava os olhos e imaginava, imaginava...

O tempo passou e o carinho de todos por Nely cresceu como suas pernas finas e longas. Mãe Velha agora era só amor. Tirson vivia às brincadeiras com ela. E Maria.... Maria tinha realizado seu maior sonho. Era mãe! Agora, era preciso dar um pai para Nely. Sentada na escadinha que dava acesso à casa onde viviam, sonhava com um homem de verdade, capaz de lhe presentear com mais filhos, filhos nutridos na sua barriga, frutos de uma paixão de causar rubor enquanto pensava no assunto.

Um dia chegou uma carta para Tirso. Maria percebeu que ali tinha um conteúdo para o qual era a maior interessada. Suportou a curiosidade por todo o dia na sua saleta na sede dos Correios e Telégrafos. E se ela quisesse Nely de volta? E se ela realmente tivesse direito?

- Nunca! Ela é minha! Ela é minha Nequinha... Não vou deixar!

Quando o expediente terminou, Maria correu para casa, onde encontrou Tirso cevando o mate.

- Chegou estar carta pra ti.
- É da Sirlei.... a la putcha, é da Sirlei! Só falta...
- Abre, Tirso! Abre!

Tirso encostou o mate num canto da escadinha. Logo chegou Mãe Velha... Os três curvaram-se em direção a carta...

Tirso,

estou passando uns dias em é Alegrete. Pagam melhor, sabe como é. A vida não está fácil. Eu bem que tentei outras coisas pra fazer. Mas não compensa. Sinto falta da minha família, da vida de princesa que eu tinha lá. É uma lástima que eu tenha me perdido por causa de uma falso amor. Aquele maldito não moveu uma palha... Se tudo tivesse acontecido nos conformes eu não teria dado meu bebê. Como ela está? Pelos meus cálculos deve ter uns seis anos. Preciso ver ela. Não te preocupa, sei o que te prometi e sou mulher de palavra. Te escrevo para que possa tirar uma foto. Penso em ir até aí em setembro, dia 7, tiro a foto e me vou, não quero complicar com vocês. Espero que aceite meu pedido.

Com afeto,

Sirlei


Era agosto, ainda corria um vento frio e seco pelas manhãs. Maria não era mulher de chorar, por isso, pela coragem que sempre demonstrou, ela disse:

- Responde pra ela Tirso. Deixa ela tirar a foto. Ela é mãe. Vamos contar tudo pra Nely, tava mais do que na hora. Ela tem que saber.


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Quarta-feira, Março 29, 2006


Se fue
Mi madre se fue hoy a las 12h55. Cinco minutos antes del aviso oficial mi hermana Gis la vio en la puerta del centro de tratamiento intensivo y ella le dice:

- Ahora estoy bien... No tengo mas dolor.

Estamos todos muy tristes pero bien. La historia abajo cuento hasta el final quando todo esto se termine.

Gracias a todos.

Enrico


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Terça-feira, Março 28, 2006


Mamma
Foi numa noite quente. Depois de beber quase um litro de cachaça e suar como um porco nos braços de Sirlei que Tirso ouviu pela primeira vez o choro do nenê. Perguntou a ela de quem era, mas teve como resposta aquele tipo de silêncio que só as putas são capazes de fazer. Não deu bola e resolveu levantar. Vestiu seus trapos gaudérios e saiu pelas ruas de Cacequi, despertando a ira dos cuscos mais zelosos. Dois dias depois, entretanto, ao ouvir novamente o choro da criança, não agüentou:

- Isso aqui não é lugar de criança, Sirlei! Vô reclamá pra véia Oziris!
- Não faz isso, Tirso. Se mais alguém reclamá vô te que imbora! Tô procurando quem queira cuidar dele...
- Êta merda... que tô pra vê puta que não engravide!
- Meu caso é diferente! Virei puta porque engravidei! E agora sai, sai que já perdi a vontade por hoje!
- Humpf! Essa é a história mais besta que já ovi!

No dia seguinte, Domingo, lá estavam Tirso, Maria e Mãe Velha. A matriarca lavava pra fora. Cuidava das roupas de cama e de salão dos fazendeiros mais ricos de Cacequi. Maria separava os feijões espalhados em cima da mesa no patio, debaixo de uma parreira. Tirso afiava sua faca predileta numa pedra. E Mãe Velha olhava pro nada, sentada numa cadeira de balanço... fazendo um frivoletê. Há tempos queria uma toalhinha pra mesinha de canto da sala.

- Onte eu vi uma coza estranha lá na Oziris.
- Já te disse que não quero que tu prozeie sobre tua porquerada de omi aqui em casa, Tirso!
- Mas Mãe... Tinha um bebê lá!
- Pobre criança, pobrezinha... De quem Tirso? Pobrezinha...
- Maria!
- Mas Mãe, magina... coitadinha...
- Pozé, mas tava eu lá e ovi esse choro. Aí despôs eu sôbe. Era duma muié lá. Qué dá... porque o nenê chora e a Oziris perde cliente.
- Eu quero, Tirso. Pó trazê que eu quero!
- Maria, mas Maria... Quéissofia... Tu é menina moça, que vão pensá... Mas de jeito nenhum!
- Pótrazê, Tirso. Pótrazê...

Maria sempre foi uma mulher gentil, carinhosa. E já tinha seus 18 anos, queria casar e ter filhos. Acima de tudo ter filhos... Como já trabalhava no serviço de correio e telégrafo da cidade, ganhava seu dinheirito, o que de certa forma lhe dava alguma autonomia diante da Mãe. Apesar de delicada como um vaso de cristal, Maria era flor do campo, tinha idéias próprias sobre o amor e nem mesmo uma ventania como a Mãe a fazia mudar de idéia depois de tomada uma decisão.

Até hoje não se sabe se por estar bêbado ou porque sabia da fortaleza que era Maria, que pedia pela criança todo dia... O que se sabe é que duas ou três semanas depois, Tirso apareceu de madrugada com a criança. Ainda cheirando a cachaça, esticou os braços para que Maria acolhece o bebê... Ela abraçou quase chorando de alegria e perguntou:

- Ela tem nome?
- Tirso sorriu e soletrou, bêbado... É N-e-l-y... Nely hahahahaha... Nely!


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Domingo, Março 19, 2006


Gala. Garbo. Galante. Garbosa
Que noite! 18h. Tudo inicia com uma francesa - brut, e canapés agridoces. Ritinha foi a primeira a chegar, uma elegância só. Mimi e Eva a seguir. Acompanhada por um anjinho com gosto de chocolate, veio Claude. Minha mana Gis já estava conosco desde às 16h. Pouco depois chegou a cunhada e nossa querida amiga Tati, a rainha da bossa nova. Tata era um luxo só.

Quantas recordações, quanto afeto! Por volta das 22h todos haviam partido. Na cachola pensamentos positivos, no peito - corpo afora, sensações de amor e carinho. Existem reencontros que são irresistivelmente verdadeiros. Foi o caso do ocorrido ontem. Nem as dores que me dilaceraram até a 1h da manhã (fiz quimio na sexta) foram capazes de destruir tantos sabores. Nem mesmo agora, quando a maldita retorna acompanhada de febre, não posso negar:

- Como é bom estar vivo!


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Segunda-feira, Março 13, 2006


Merecimento
Sei lá, entende? As coisas estão ficando complexas. De minha parte, dores, morfina, madrugadas insones. Da parte da minha Mamma querida, desfibrilador, UTI, perspectivas? Hum... A verdade é que todas as rotinas são abalrroadas por fatalidades físicas. O psicológico até que vai bem, mas é claro que é muito difícil mesmo assim. Vivi, por exemplo, a suspeita de uma tuberculose. A pneumonia venci com calma e sem efeitos colaterais. Mas vamos ao que interessa. As notícias boas! Chegou a hora e a vez de finalmente receber aqui Claude, Mimi e Ritinha. Meu plano prevê um final de tarde regado a espumante, morangos e canapés no sábado que vem. Elas merecem e eu também.


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Sexta-feira, Fevereiro 24, 2006


Chegou
Tenho uma amiga que comprou um carro hoje. Ela vem aqui pra gente dar uma volta. Quero ver de perto, estou feliz por ela. Ela quer me mostrar o carro. Está feliz. Daí vamos rodar, rodar até uma lojinha no Centro buscar meu óculos que deixei para conserto. Pois é, quebrei. Enfim, estou enrolando aqui enquanto ela não chega. Será que estou abusando ao sugerir que o passeio tenha a direção do meu interesse? Ah, sim, a pneumonia está indo embora. Segundo Tata ela ainda está aí. Por isso continuo dentro de um ciclo da medicação que deixa meu cocô floquinho, mas não posso beber. Não pude no show dos Stones. Também não, naturalmente, no do U2. Grande coisa, você diz. Mas não é bem assim, quanto mais se tem gente em volta não só bebendo e - um prazer inexplicável - f u m a n d o ... Bom, daí que não é fácil. Me atraquei na cerveja sem alcool e descobri - sem sacanagem, claro - que a ressaca é maior do que quando se bebe com alcool. Foi o meu caso ao menos. Como eu poderia adivinhar que meu instestino - assim, do nada - iria prender os gases e provocar imensa dor? Olha, ao menos sobrevivi para contar que hoje retomei a químio. Supostamente isso é uma coisa boa. E as d


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Quinta-feira, Fevereiro 09, 2006


Borracharia
Bem, nem sempre tudo vai mal. A Ritinha, minha querida amiga dos tempos selvagens na empresa de previdencia privada que trabalhei durante oito anos na área de Comunicação, agora assina coluna no site da minha empresa. Ela está dando dicas para empresários escreverem melhor, já que na vida digital este fundamento é fundamental. Ela está super contente com a flor do lácio (*) que estamos regando. Eu também. Nem mesmo a borracharia onde estou meio estacionado por causa de uma pneumonia foi capaz de me abater. Quer dizer, mais ou menos, vá lá.

(*) A expressão "Última flor do Lácio, inculta e bela" é o primeiro verso de um famoso poema de Olavo Bilac. Esse verso é usado para designar o nosso idioma: a última flor é a língua portuguesa, considerada a última das filhas do latim, conforme cantou Camões antes mesmo de Bilac pelas minhas pesquisas. O termo inculta fica por conta de todos aqueles que a maltratam (falando e escrevendo errado), mas que continua a ser bela. Aguardemos os comentários de Ritinha sobre o assunto.


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Segunda-feira, Janeiro 16, 2006


Solação
Na semana passada, fiz quimioterapia, conforme o planejado. Quer dizer... Houve um incidente. Na sexta, tomei duas bolsas de sangue antes para amenizar a anemia. Aí o imprevisto... Como a primeira bolsa levou mais de duas horas para terminar... a segunda foi injetada com maior velocidade. Resultado: meus olhos incharam, mas incharam tanto que mal podia ver. A quimio, então, foi adiada para a segunda-feira. Na segunda, quase curado, tomei a tal. Na quarta e quinta tive a preguiceira geral... No sábado recebi a turma do Baguete para o tal churrasco de fim-de-ano. Não fizemos antes de 31 de dezembro por minha culpa. Acabou não aparecendo muita gente. Mau sinal. Tenho que cuidar pessoalmente do assunto. Foi um mau sinal. Se bem que duas faltas atualmente significa mais do que antes, porque o número de funcionários diminuiu, como planejei, aliás. No domingo aproveitei o sol e me esbaldei dentro d'água. A noite trouxe alguma febre para a cama, mas bem pouquinho, nada demais, não chegou a ser uma insolação, no máximo uma solação, talvez.


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Terça-feira, Janeiro 03, 2006


Oci
Eu rolava pela cama. Pernas cansadas. Cansaço de pouco mais de uma quadra. Exercício pesado para quem não desfila sua elegância decadente há já uns bons dias. Mas eu rolava pela cama. Ouvindo Patti Smitt em transmissão wireless via Rádio Terra. Minutos atrás ela havia convidado a platéia do Saturday Night Live para ir ao CBGBs no DVD em tributo ao programa de TV que o JJ me emprestou no domingo. Para que alguns entendam melhor, o CBGBs era uma espécie de Ocidente de Nova Iorque nos anos 70/80, isso se ainda não confundo ainda mais a cabeça de eventuais preconceitos. Em todo caso eu rolava na cama, esperando a morfina, ouvindo Patti em transmissão wireless... Virei a bunda pro lado... hey ho! E... Tata ainda avisou... é um! hehehe... é dois... hohoho! é três!!!! fffffffffffffffffffffffff....doeu, Mommo? Um sinal de positivo e era isso. Passado algum tempo eu resolvi contar pra vocês sobre tudo.


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Segunda-feira, Janeiro 02, 2006


Rumbo al Sur
O que dizer? Eu posso sentar na janela e olhar a vizinhança avançar para o nada. Hoje Tata falou em no futuro voltar a morar mais ao Centro. Mulheres... nem terminou de decorar a porra do duplex... E eu não consigo pensar em nada que preste. Estamos afundados na mais profunda depressão. E o que é pior: sem a companhia de um bom uísque e um ou dois maços de Marlboro.

Eu bem que poderia pegar o carro e deixar os pneus queimarem em direção ao sul, ouvindo um cassete do velho Tom Waits. Deixar para trás alguns instantes. Recuar no tempo alguns anos. Ficar distante de tanta desgraça e deixar o braço formar um triângulo da janela para fora. O vento comendo contra o sol nos óculos escuros. Por trás das cochilhas talvez ache algum pote de ouro falso. Em Rivera vendem de tudo! Quem sabe possa comprar algo por lá?

Olho pela vitrine e leio CARNICERIA. Y recuerdo de los carniceros hijos de puta q jodieran los brasos de Mamma! Acabaram as veias da Vieja! Inventaram um cateter que simplesmente não funcionou. E infectou! Van a matar mi Vieja!!

Eu passei Natal e Ano Novo enganando a mim e todos os demais sobre a profunda depressão. Dá vontade de vomitar de tão profunda a depressão. Dá pra ver daqui de cima do duplex quão profunda ela é. Eu fico olhando da cama a porta da janela que dá para a sacada... Posso contar imaginariamente quantos passos preciso dar para voar até o primeiro piso. Quantas vezes já pensei em voar... É de perder a forme! Não dá vontade de comer. Dá coceira.

Esqueço dos meus remédios duas vezes por dia, o que leva Tata a loucura. No rádio me contam que a primeira mulher do Pierce Brosnan morreu de câncer no ovário. Que legal... Ninguém consegue esquecer do assunto. Pero que me importa ahora sy estoy en mi auto rumbo al sur...


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Terça-feira, Dezembro 20, 2005


Fracos e oprimidos
Tem horas que a gente se sente um super-herói quando tem uma doença grave. Quando você tem uma doença grave e administra um blog, então... puxa, vc se sente um verdadeiro super homem, defensor dos fracos e oprimidos. Mas a verdade é que não passamos de simples defensores dos frascos e comprimidos, vigilantes dos horários agendados para a sua ingestão e, no caso dos frascos, da sua integridade física. O resto é uma restia de exibicionismo.

No dia que escrevi aqui que tudo estava bem, estava mesmo. Picanha na chapa servida como no Garota de Ipanema foi o que servi para o irmão do Riva, que sempre nos recebe bem no Rio, além de me levar pelo menos uma noite no Garota de Ipanema para nos encharcarmos de chope e comermos a tal picanha na chapa. A piscina ali do lado a disposiçã. Mamma passando bem... Profissionalmente, organizei um seminário com quatro painéis, que se não foi um sucesso de público em termos quantitativos certamente foi em termos qualitativos. Tinha só formadores de opinião lá. Isso tudo aconteceu em uma semana. Cronograma: Na sexta, fiz quimio. No sábado, festejos com o irmão do Riva. No domingo... febre... eritêmas nodosos no braço (caroços duros e avermelhados), dor aguda no peito quando respirava fundo! No meio da gemedeira, ligamos para Dra. Mônica... e eu, já delirante, aceitei, sem muito custo, o que não quero nunca, uma internação pra matar a saudade.

Enquanto isso, Mamma regride. Precisou fazer hemodiálise, o que para ela é uma tortura. Como eu, tem veias finas por causa do excesso de medicação. As fistulas que ela é obrigada a fazer para a hemo passam a ser sessões de tortura, portanto. Tanto que depois de inúmeras tentativas, optaram por colocar dois canudos, um em cada veia do pescoço, para iniciar as várias sessões que ela teve de fazer durante a semana. Chegou a perder a razão certa noite, a tadinha. Minha irmã Zele chegou a ficar assustada. Agora, a expectativa: se ela será capaz de se recuperar para passar o Natal em casa ou não. Eu já estou em casa desde domingo e com o diagnóstico na mão: líquido na pleura, infecção por bactéria ou fungo, aguardamos por exames de campo para saber que antibiótico vou usar. Por enquanto, tô tomando um outro qualquer.


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Sábado, Dezembro 10, 2005


Como estão?
Eu estou bem. Que dia lindo!


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Sexta-feira, Dezembro 02, 2005


Nada de novo no front
Os longos silêncios do blog são necessários. Porque eles significam paz. Não há o que contar. Falar de picadas e roxos nos braços, coxas, barriga e anca por causa da morfina de quatro em quatro horas não provoca muita emoção. Aliás, se fosse na veia, ainda teria alguma. Subcutâneas não dão barato. E eu sei, o que vocês querem é emoção hshshs... Estamos todos concentrados na Mamma, que deu baixa no hospital porque estava retendo líquido demais. Na minha imaginação cheguei a temer que do umbigo jorrasse um chafariz. Por sorte, não precisará de hemodialize permanente. Apenas algumas sessões. Sei também que terá de implantar um tal de tip, mas não sei ainda nem como se escreve nem como funciona. Não tenho ido muito no hospítal, apenas telefono, porque ela está muito triste e o pessoal acha que eu não devo ser contaminado por isso. Eu também. Embora já esteja mesmo assim. Me sinto culpado por não ajudar em nada. De resto, eu e tata abrimos a temporada da piscina. Estamos testando. Em breve alguns poucos poderão molhar as pernas na piletinha. Em toco caso, é pequena mas é minha!


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Segunda-feira, Novembro 21, 2005


Junkie
Certa manhã liguei para JK ao prantos, pedindo que viesse em nossa casa para aplicar morfina nas veias, porque simplesmente não aguentava mais de dor. Ele chegou aqui com Zeda, encontou uma espécie de Sid & Nancy santanense. Tata descabelada, estressada, cansada, enraivecida; eu nú, chuveiro ligado, sentado no Wanderley Cardozo há quanto tempo? Estiquei o braço, apontei o dedo para as veias véias e supliquei: - Tira a dor, JK, tira a dor... Foi o que ele fez. Tudo passou quando saí do banho. Encontrei sorrisos no quarto. Dormi. A semana já tinha sido infernal. Quando acordei, de bom humor, ainda insisti para que almoçassemos num clube náutico, à beira do rio, a pouca quadras daqui. Tudo escondido de Dra. Mônica, que queria me internar para exames, estava tâo preocupada com a febre que eu tinha quanto com as dores. Eu estava plaquetopênico ainda por cima - e eu lá sabia que plaquetas tinham pênis! - ou seja, qualquer queda ou sangramento - mesmo involuntário, se interno, provocaria uma hemorragia complicada de tratar, enfim. Ela já tinha acertado tudo com Tata quando entrei na jogada e tentei um acordo: se tivesse os sintomas novamente, faria as malas sem reclamar. Do contrário, que me deixasse em casa.... Desde então tive algumas dores, mas nada demais. E as febres tenho conseguido controlar. Um exame para cultura foi feito e nada foi encontrada. Febre tumoral? A dor foi resolvida com morfina de quatro em quatro horas. Primeiro Tata aplicava, foi divertido e tenso muitas vezes. Agora eu mesmo estou me aplicando. Na barriga, pernas, braços, ainda não fizemos na anca. Fazemos rodízio sob recomendação de Zeda, pra não judiar da pele como os caras da EccoSalva ou EcoSalva. Ugh! Por falar neles, não contrate! Fiquei com a impressão de que os médicos eram enfeirmeiros e os enfeirmeiros eram médicos. Fizeram muitas barberagens nas minhas veias (isso é um elogio ao enfermeiros e de certa forma aos bons médicos, se me expressei bem). Afora essa fase de agulhas e pavor, tudo vai bem... Também tomei algumas bolsas de sangue para ficar mais forte. E consegui cumprir mais uma etapa da químio. Em breve encaro a terceira.

Escrevam! Me faz muito bem ler os comentários.


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Sábado, Novembro 05, 2005


Osso dolorido de roer
As últimas semanas foram complicadas. Minha agenda profissional estava altamente positiva. Eu tinha uma palestra para fazer. Minha empresa formalizou a entrega de notícias publicadas digitalmente para um Museu num evento que reuniu praticamente todas as lideranças empresariais e políticas do segmento em que estamos inseridos. E ainda reuní num café da manhã os patrocinadores da minha coluna no jornal (já contei aqui antes) com a direção do impresso. Todos os eventos eram pela manhã. E em todos os dias eu tive dores lancinantes nos ossos. Afora os dias em que tive simplesmente dor, sem eventos para piorar a situação. A salvação passou por morfina. Meia ampola, por vezes uma inteira. Aplicadas sempre sob tensão por Tata depois de aturar longas horas de gemidos e até gritos de dor. Dóem, por vezes isoladamente, outras vezes em conjunto, a caixa torácica, a junção dos ombros, os joelhos, a virilha, o fêmur. Não consigo me levantar sem gritar de dor, girar o corpo na cama já é quase impossível. Foi também por esse motivo que resolvemos contratar uma empresa de serviços ambulatoriais para casos de emergência. Tata e eu logo vimos que, naquele estado, se eu precisasse ser transportado para o hospital, ela sozinha não conseguiria me carregar. Também serviria para aplicações de morfina ou outros medicamentos na veia. O serviço acabou se mostrando insatisfatório em vários aspectos. Demora no atendimento e profissionais aparentemente despreparados foram alguns dos aspectos notados. O incrível de tudo isso, entretanto, é que aplicada a morfina, as dores somem e passo o dia ou dias sem ter qualquer sintoma. Caminho, escrevo, dirijo, tudo normal.

Por que eu tenho dores? Não sei. Eu defendo a tese de que, ao retirar a cortizona e diminuir a metadona, passamos do limite. A cortizona tudo bem, tinhamos que tirar o quanto antes porque segundo a médica ela enfraquece ainda mais os ossos, podendo acelerar as conseqüências do tumor. Já a metadona talvez devessemos voltar à dose anterior. Mas o mais grave nâo são as dores. O mais grave é que estou tendo dificuldade para fazer as aplicações de quimio. Ela foi mais uma vez retardada porque estava com as plaquetas em nível muito baixo. Também as hemácias, o que me deixou alguns dias ofegante, qualquer movimento um pouco mais brusco era como se tivesse corrido dez metros em toda velocidade. Para completar, comecei a ter frebre de 39, 40 graus pela manhã. Dra. Mônica receitou um antibiótico que parece não estar fazendo efeito. Na última crise de dor e febre, ela resolveu me internar, decisão tomada ao telefone com Tata. Eu não queria de jeito nenhum e negociei para ficar em casa com a condição de que se eu tivesse febre novamente deveria ir para o hospital sem discussão. Tomei, no dia seguinte, mais duas bolsas de sangue. E foi feita coleta de sangue para exames em cultura para identificação do vírus ou bactéria (sei lá) que provocou essa infecção. Desde então tive febre mais duas vezes, mas consegui baixar com Tylenol e um bom banho. Esperamos o resultado para segunda-feira, quando - finalmente - iniciaremos o tratamento com o antibiótico correto.

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Danuza
Recebi um e-mail surpreendente. Vou chamar a moça de Danuza. Fiquei realmente emocionado com seu relato.

Antes de qualquer coisa gostaria de saber como vc está! Vi e li o seu blog hoje...04/11/05. E, sinceramente, nem eu conseguiria relatar com tanta precisão tudo o que tenho passado até agora. Deixe-me apresentar: Sou Danuza, tenho 27 anos, moro em Recife e também sou portadora de carcinoma de rinofaringe. Quando comecei a ler teu relato parecia que quem tinha escrito aquilo alí tinha sido eu... senti os mesmos sintomas que vc, perdi audição do ouvido direito, fui a um otorrino... e tudo aquilo que vc falou. Tive metástase cervical bilateral, foi quando foi feita a biópsia e foi diagnósticado... carcinoma. Entrei no mesmo ciclo de cisplatina associada à radio. Fiz 67 de radio e 3 de quimio. Passando essa fase fui também para cisplatina associada a fluoracil. Ficava 4 dias internada e 21 em casa. Teria que fazer 3 sessões desta, mas tive reação a medicação. Desmaiei por duas vezes, então este tratamento teve que ser suspenso. Fiz apenas 2 sessões. Foi quando a junta médica resolveu fazer taxol com carboplatina... fiz 3 sessões desta, e perdi todos os pêlos do corpo. Terminando esta fase fiz a ressonância e foi dito a mesma coisa. Achavam que o que tinha não era mais doença e sim fibrose ( cicatriz ). Mas para ter certeza eu teria que ser avaliada. Recebi alta e feliz da vida voltei a minhas atividades... meu trabalho, minha vida normal. Um mês depois apareceu um tumor em meu abdomen.não senti dor, não senti nada... apenas aquela massa crescendo. Entrei em desespero e liguei para minha médica. Ela me tranquilizou e falou que não era comum um tumor de rinofaringe ter metástase no abdomen. Mas solicitou uma biópsia. Fiz e hoje tenho o resultado... metástase de carcinoma de rinofaringe. Entrei em desespero... achei que o mundo ia se acabar. Mas agora estou confiante e com muita esperança de que tudo dará certo. Estou esperando recomeçar o tratamento. Acredito que na próxima semana. Fico por aqui aguardando notícias suas... espero que estejas bem!


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Sábado, Outubro 22, 2005


Plaquetas que dizem sim
Minhas plaquetas devolveram a mensagem positiva que minha mãe tanto rezou: 74 mil, mais do que os 66 mil da semana passada. Meus médicos queriam dar reinício já ao tratamento na quarta da semana anterior. Eu que adiei para ganhar mais um tempo e porque quero cumprir as aplicações apenas nas sextas. Assim posso me preparar para os efeitos colaterais nos findis, com repouso e muita água para eliminar os resíduos e tudo o mais. Mônica e Senna estão no Rio, supostamente em um congresso. As enfermeiras, diante do resultado, consultaram o médico de plantão e o cara simplesmente disse: melhor preservar o rapaz. Obviamente aquilo provocaria certa insegurança no paciente e seus familiares. Não foi bem assim conosco. Estávamos convictos de que aquilo era mais do que suficiente. Quer dizer... da minha parte já estava indo embora, mas Tata, inflexível, tomou a frente das negociações e reafirmou os planos de Senna e Mônica. A enfermagem tenta ligar para Andrea, mas é claro que no meio de uma palestra ela não atenderia a clínica, que provavelmente queria o aval para alguma coisa burocrática qualquer. Agora, se um paciente liga, bem, aquela doutora não é negligente, isso não é. - Alô (meio sem saco). - Oi, Andrea, é Enrico. O resultado foi 77 mil, posso fazer? - Claro! - O pessoal aqui da enfermagem não quer autorizar, podes falar com elas? - Sim, claro. Blablablablala e lá fui eu pro quatinho tipo hotel de 2a divisão, me sentei, furaram a pele pra injetar o químico e correu tudo bem. Eu e Tata já estamos deixando nosso home theather agora e pretendo me dedicar, nas próximas horas, à leitura, enquanto meu amor tentará resistir ao sono à frente da TV Globo por cerca de meia hora e capotará, resistente.

De novidade sessão-horror, tenho coisas para contar, MÁS BÁ SE NÃO! Na quarta assisti o jogo entre Colorado e Boca Junios, vencido pelo Inter aos 48 minutos, jogo típico de clássico sul-americano. Sensacional! Não importa o que aconteça, deixamos os argentinos loucos no final, o goleiro deles, da seleção deles, ficou tão perturbado que foi expulso depois do jogo já ter terminado (o que é possível, senhoras!). Enfim, fora de série! Fiz um churrasquinho salgado pro pai (errei no sal pela segunda vez esse mês, estou puto!) e fui dormir feliz da vida. Por volta de 3h da manhã uma dor começou de um jeito atroz. Com toda a força! Meia hora depois todo o corpo, todo o corpo doía muito! Não era possível mexer o braço, as pernas, tentar sentar na cama era o suplício do suplício, comecei a gemer, Tata acordou e foi ficando tão desesperada quanto que eu. Começamos a administrar os remédios: Tylex, Metadona, mais um Tylex, depois um Ultraset e mais outras coisas que não lembro, mas nada... as dores aumentando, os gemidos viraram urros... E é claro que comecei a me contorcer, porque não existe posição possível quando se está assim. E a cada movimento, maior a intensidade! Olhei pra Tata e disse a palavra mágica: Morfina! Ela aplicou na minha barriga (era a primeira vez que fazia isso na vida). Não adiantou muito. E daí, sabem como é Tata, ela respeita as regras. A doutora tinha dito, meia ampola e espere duas horas até a próxima aplicação. Bem, não havia negociação. Daí - com a continuidade da crise - chamamos a Eco-Salva, serviço de atendimento em casa, porque Tata queria me levar pro hospital, e eu tive que ser o mais claro possível: - Eu não vou e não consigo me mexer sem sofrer. Chame os caras aqui em casa e eles que elimem minha dor sem que a gente entre num esquema mercenário e burocrático! Eles vieram e quando souberam da morfina respeitaram as regras também. Injetaram Tramal ou coisa parecida. Dormi por duas horas, nem vi eles partirem. Acordei com a dor ainda mais forte. Chamei então JK aos prantos, isso já era algo em torno de 9h da matina. O cara foi muito gente! Largou tudo que estava fazendo e não sei como atravessou a cidade em menos de 40 minutos, aplicou uma bela dose de morfina que cheguei a dormir de língua de fora. Acordei não lembro mais que horas e estou normalzito nomáz desde então, como se nada tivesse acontecido. Isso enlouquece qualquer um, sabem? Porque realmente não tenho qualquer resquício de dor.

Por mérito, criatividade e senso de oportunidade, hoje tive mais uma realização. Entreguei todas as notícias que o meu site sobre tecnologia publicou desde a sua fundação para o Museu Hipólito José da Costa. Agora, a vida profissional de muita gente e a história das empresas do mercado local estão mais do que preservadas: poderão ser pesquisadas por quem quiser contar um pouco do que pensavam os empreendedores da época atual. Foi um lance genial, num evento simples mas bonito, realizado num almoço onde boa parte das personalidades do segmento estavam presentes. Profissionalmente, aliás, as coisas vão muito bem obrigado. Caiam fora urubus, já estão ocupados demais com a minha saúde! Por favor! Eu mal compareço na minha empresa. Quando consigo fazer algo tem que ser legal. Então, vão cuidar de suas vidas, secadores!


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Sexta-feira, Outubro 14, 2005


Queda Livre
Na terça consultamos com Dr. Senna. Depois de muito tempo ele compareceu. Estávamos num impasse. Porque minha medula arrepiou e mais uma vez não pude fazer a quimioterapia mais leve disponível porque meu nível de plaquetas está baixo. Dra. Mônica ainda pensou em tocar ficha e azar! Mas a minha experiência de empresário e ser humano com dois anos de experiência em câncer na rinofaringe aprendi que o bom senso tem de acompanhar as decisões. Senna entrou na sala e com toda segurança defendeu que deviamos arrumar a casa. Dar um tempo no tratamento para ver se as plaquetas reaparecem por si, porque também não tem outro jeito também. Elas não vem quando a gente chama. Não existe jeito de mandar recado. Muito menos de obrigá-las a qualquer coisa. Ou elas vem ou não vem e pronto. A medula é quem decide. Então, vou esperar pelo menos duas semanas e nesse meio tempo melhorar a força das pernas e também o quilate dos ossos através de medicação e banana.

Na mesma terça-feira caí um tombo de assustar. Duas pessoas me acompanhavam depois de uma reunião. Atravessávamos a rua. De repente, não mais que de repente, um carro em alta velocidade. Todos tivemos o instinto de dar uma corridinha: tsk, tsk... Meus amigos foram em frente, eu apenas pensei em fazer o mesmo, mas mal tive tempo de dar meio passo com a perna esquerda e meio passo com a direita e comecei a desabar... simplesmente porque minhas pernas pesam toneladas em certos movimentos... e fui caindo, caindo, vejo tudo meio em câmera lenta agora... talvez na hora também... tanto que pouco antes de cair ainda disse: porra, q merda! e bloffff!!!! Ainda consegui rolar na expectativa de diminuir o impacto, reação ainda dos tempos de infância... uma rolada apenas e consegui virar o pescoço para procurar o carro... que - por prudência do motorista - notou minha queda bem antes, bem antes... estava longe... Fui levantado, constrangido eu esboçava um sorriso... Dois dias depois e tem gente que me liga porque soube da queda... deve ter causado impacto em quem assistiu! Eu tive apenas um raspão no cotovelo... Mas faz pensar sobre situações possíveis como: E SE EU TIVESSE FEITO A QUIMIO E TIVESSE IDO NESSA REUNIÃO? CERTAMENTE ESTARIA COM HEMORRAGIA INTERNA E/OU COM UM BRAÇO QUEBRADO. A mente não mente. E pensa, como pensa....


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Domingo, Outubro 09, 2005


Ululante
O que não parece estar bem é minha postura. A transição do herói que luta para vencer o perigoso câncer para o ser humano que precisa controlar a doença pelo resto da vida ainda não passa de uma transição e suas consequencias, ou seja, ainda estou no período frágil em que se investiga afinal de contas como enfrentar isso. Ulula o óbvio de que a postura deve ser a de viver o dia-a-dia e pronto, mas não consigo parar de ver imagens terríveis sobre o futuro. Tudo indica que finalmente eu deveria entregar a tarefa para profissionais. Mas sinceramente o que me trava - possivelmente além do medo - é ter que mergulhar em determinados assuntos que só provocariam mais desgaste. Ou então tomar atitutes conclusivas que na verdade já estão prontas, esperando apenas a ação, apesar de dolorosas. Não sei o que é, prefiro que não me digam ou interpretem. Mas pode ser birra, medo, falta de paciência... Ah, sim. Falta de paciência, total... Ando mal humorado, negativo, enérgico, chato, intolerante, agressivo, algo grosso, silencioso. Coisas que normalmente me irritam como garçons sem visão periférica, incompetências, desatenções mínimas exigidas de um ser humano, respostas irônicas, tudo isso está multiplicado por dez. Vou aguardar mais um pouco e pesar sobre o que vou fazer. Tata ironiza com Dra. Mônica sobre minha resistência a terapia dizendo que eu não tennho inconsciente. Diz que eu nego! É?

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Sangue bom
No final das contas resolvemos que não iriamos mais pra Espanha. O assunto virou, naturalmente, um campo de stress e, sem traumas, optei por não ir e ainda em tom heróico disse para a médica que optava pelo tratamento, porque ele teria que ser interrompido para garantir que eu fizesse a viagem com menos riscos. Isso já tem três semanas ao menos. Dias atrás, na consulta, optamos por parar o tratamento de igual sorte, porque não tenho plaquetas suficientes de novo para tomar a mais fraca - em termos de efeitos colaterais - das medicações que estão previstas que eu tome para ver se encontro alguma que controle o avanço da doença. Não significa que por isso eu deveria ter optado por viajar, porque realmente tomamos a decisão certa na perspectiva da segurança. Mas é desalentador saber que os quase dois anos de tratamento começam a mostrar as suas verdadeiras consequencias. Minha medula já está produzindo tão pouco que meu sangue vale pouco na bolsa. Minhas ações pouco valem no momento e então é preciso investir em novos mercados como diria o Enrico colunista de jornal centenário. Na terça, tomo mais uma bolsa de sangue. De novo, correndo o risco eventual de pegar uma porcaria pelas veias. Pelo menos é o que eu penso, contrário a tudo que os médicos, enfermeiras e pessoas próximas dizem sobre a qualidade do sangue que eu recebo. De qualquer sorte, não dá para negar, abandonei o mundo das imagens e estou concentrado na leitura desde que passei a vampirar. Leio pelo menos quatro jornais por dia de cabo a rabo e ainda estou com todos os 10 livros mais vendidos no Brasil espalhados pela casa: banheiro, quarto, sala, escritório, enfim. Da ficção ao real, estão todos a mão. Devoro tudo com prazer.


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Sábado, Outubro 08, 2005


Judiação
Como diz o Millor, quem é vivo sempre desaparece. Não vou nem me perdoar. Nem me desculpar. O mundo veio acima. Caí de joelhos. E os ossos, doem! Doem ossos para o Enrico!

Sabem qual o país que eu mais desejei visitar na vida? Espanha. Pois recebi um convite para cobrir um evento na Espanha, sou jornalista, caso alguém tenha preguiça de ler o blog inteiro para entender a frase. E fiquei 24h em pane, sem falar nem para Tata, porque achei que estava recebendo um presente dos céus... E que talvez alguém lá em cima, que bobagem, estivesse me presenteando com tudo que eu queria em vida para terminar de uma vez com minha existência. Isso porque dias atrás tinha aparecido a oportunidade de assinar uma coluna semanal de página inteira em um jornal local de grande circulação, da área de economia, centenário, uma honra, enfim, que eu topei, obviamente, e que, profissionalmente, significa um segundo patamar, um novo nível, já que até então eu militava na imprensa digital, algo ainda um tanto, digamos, alternativo. Então, como estava dizendo, 24 horas depois, eu tive coragem e contei pra Tata e depois fui contando pras outras pessoas. Liguei pra agência de viagens responsável, comecei a correr atrás da papelada. Decidimos que iríamos juntos, depois passaríamos em Paris, o lugar que tanto minha querida sempre sonhou em me levar. Ela já esteve lá e acha que eu iria adorar Mont Martre. Iríamos juntos por isso, mas também porque nem Tata nem eu conseguimos mais nos imaginar com um oceâno de distância. Não só pelo amor, mas também porque não saberíamos o que fazer se acontecesse algo comigo de uma hora pra outra e não tivessemos o apoio mútuo que acostumamos a nos dar. E se eu fosse hospitalizado por um motivo ou outro? O que faria eu sem Tata? Como Tata reagiria sabendo disso no Brasil?

Dois ou três dias depois a gente teve uma pequena idéia do que seria. Interferência divina de novo? Quatro horas de dor calcinante, ininterrupta, acachapante, supostamente, na hora, definitiva, como se houvesse algo definitivo na vida. E dê-lhe medicação disponível, desespero, rolando no chão, gemendo, sem ar, sem saliva, eventuais gritos, discussões, sussurros de "meu amor", "vou morrer", "eu que deveria estar sentindo isso", "meu Deeeeus", "que horroor", "me leva, me leva", "não aguento mais, por favor", "vamos pro hospital", "Nãoo, Nãooo". Fomos. Lá, na emergência, depois de uma série de exames, ficou constatado que o ´nível das plaquetas do meu sanguinho era tão baixo que se eu caísse, tivesse algum pequeno sangramento interno, isso causaria um dano fatal, porque meu sangue simplesmente não coagularia, eu teria hemorragia interna e provavelmente morreria. Então, amigos, foi recomendado que eu deveria ser internado! Sim, internado. Pra mostrar bem os riscos de uma viagem pra Espanha, não esqueçam...

Trocamos de hospital, porque aquele a gente estava usufruindo apenas para casos de emergência, afinal é o mais perto de nossa mansão. O que confiávamos, ficava perto do nosso antigo apêzinho, aquele onde a nossa vida não tinha qualquer glamour, mas ao menos era eterna. Chegamos lá e fomos para a emergência, porque não havia quarto disponível, não havia quarto disponível. , não havia quarto disponível, não havia quarto disponível, não havia quarto disponível, não havia quarto disponível, não havia quarto disponível, não havia quarto disponível, não havia quarto disponível, não havia quarto disponível, não havia quarto disponível, não havia quarto disponível, não havia quarto disponível, não havia quarto disponível, não havia quarto disponível, não havia quarto disponível, não havia quarto disponível, não havia quarto disponível, não havia quarto disponível, não havia quarto disponível, não havia quarto disponível, não havia quarto disponível, não havia quarto disponível, não havia quarto disponível, não havia quarto disponível. E foi mais ou menos esse o número de vezes que ouvimos de enfermeiras, chefes de enfermagem, médicos, auxiliares administrativos, sei lá mais quem. O quarto era minúsculo, sem banheiro, e eu - imunodepressivo - sem poder sair de lá, com dificuldade para ir aos pés, quiçá para ir a cura, caguei durante dois dias num troninho parecido com uma cadeira de rodas, porque, sim, porque por dois dias, argumentaram que não havia quarto disponível. A coisa foi ficando insuportável, fui perdendo a razão, Tata o controle, eu também, a família sem saber o que fazer, de repente uma discussão irrompe, interrompe a civilidade com que haviamos tratato o tratamento que nos davam e daí comentei com Tata que ela devia fazer plantão na área administrativa para conseguir um quarto, ela - claro - não aceitou a tese, que considerou como crítica; "Afinal, estava ali cuidando de mim". Liguei então para Geisel, botei a boca nele, dizendo que deveria estar lá resolvendo isso, que eu não suportava mais defecar no próprio quarto, o que diabos ele estava fazendo em casa se eu estava naquele estado! E mandei tudo à merda também e comecei a berrar por socorro, que eu exigia um quarto decente, que não merecia cagar na frente da minha família, que aquilo era uma pocilga, que eu não era um PACIENTE, que eu era um CLIENTE! Eis que a enfermeira adentra o quarto, "mas o que houve?" "Houve que eu quero alguém da administração aqui em 15 minutos ou vou-me embora e se cair aqui dentro deste dito hospital processo vcs por maus tratos!" "Calma, senhor, já vem alguém aqui" E eu segui urrando e berrando e de certa forma me dando conta de que a partir de um determinado ponto eu já estava fazendo teatro, porque já sentia que a gritaria toda tinha efeito, mas não podia parar mais afim de que algum efeito positivo tivesse e tudo indicava que ia ter mesmo, até que alguém realmente veio e em 15 minutos Geisel apareceu, chegou a sorrir, porque eu já estava numa maca de rodinhas, sendo levado por cinco enfermeiras para um quarto amplo, com vista para o Rio Guaíba, banheiro impecável, cama para acompanhante, sala de estar, tv a cabo, um hotel cinco estrelas, enfim. Mazéin? Fiquei cinco dias por lá e continuei com dificuldade para defecar e com dores horríveis e com baixas plaquetas, mas tomando morfina, que não é grande coisa dependendo da enfeirma que a aplica. Se no final não for dado um jato mais fortinho via ampola ela tem pouca graça. Por outro lado, se entrar com mais força no final o mundo fica lindo e maravilhoso por alguns minutos. E se vc dormir logo em seguida nem se importaria se na verdade fosse a morte.


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Domingo, Setembro 04, 2005


Urubuzada gracias
Obrigado, urubus! O domingo foi fenomenal. Tom Gil, Lee e SUol, HAL e seu filho HALambics e sua esposa Virtuosa, Tatibitati, violão, churrasco, vista pro Guaiba, lareira, muito amor, batispapus. E Tata... e doces... um com bizzz booooom..


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Sábado, Setembro 03, 2005


Saiam de mim
Diminuímos a medicação sob orientação. Esqueci de tomar nos horários alguns dias. Achei que estava são. Agora, tudo voltou a ser um inferno: dores, discussões, stress. Urubus, vão curtir a vida noutro ombro e me esqueçam por pelo menos uma semana!


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Quarta-feira, Agosto 31, 2005


Legaaaaaaaall
Não, sério, foi de ficar meio assim como os desenhos animados da propaganda da escola de inglês! A gente deu uma fujida lá pra Ana Rech, um bairro de Caxias do Sul, sabe? E num hotel muito tri desmanchei na tal banheira de hidromassagem, almoçamos na tradicional Alvorada, fui o mais romântico que consegui na minha existência e ainda terminamos o fim de semana comemorando o niver da minha querida sobrinha e novelo de lã Polly na sua mansarda. Mal consegui me deliciar com as massas espetaculares preparadas pelo orgulhoso papai JJ, porque no café enlouqueci com os pães maravilhosos da Serra. Porto Alegre merece uma padaria ao menos com maravilhas como aquelas. Porque se tem, eu preciso conhecer urgente!

Hoje fiz a primeira quimioterapia na clínica nova. A Dra. Mônica fez alguns exames, um tanto burocrática e sonolenta como o dia de hoje (muita chuva e frio: escrevo de frente para a lareira). Também, como sempre, apareceram novidades. Os efeitos colaterais que não existiriam se transformaram em cansaço por uns três dias. Tudo bem. Azar. Mas calculei rápido que se o processo se repete toda semana passaria quase 50% do tempo abatido de novo. A resposta também foi a que vocês estáo acostumados a ler por aqui: cada pessoa reage de um jeito diferente.

De resto, tudo foi muito demorado, aos poucos fui perdendo o humor. Muitas visitas durante a aplicação, uma nutricionista, uma psicóloga, Tata me acompanhou, porque o sistema é diferente, lá é permitido, e fico num quarto individual, tipo hotel, com som, TV, revistas. Apesar disso, por incrível que pareça, eu estava já estava de saco cheio, o que levaria uma hora e meia acabou levando mais de quatro horas. Meu humor foi pro espaço por isso e por voltar ao ambiente de tratamento, sei lá, ainda náo avaliei direito.


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Segunda-feira, Agosto 22, 2005


Hemácias
Deviam ser de atleta as hemácias que recebi. Minha mãe é transplantada e vive hoje graças a solidariedade de alguém. Já eu... Bem, estou com um apetite sensacional, disposto, consigo subir e descer dez degraus de escada sem ficar ofegante, minha voz estabilizou, meu ouvido melhorou, tenho cor! As pessoas não gostavam de me falar. Mas eu estava cinza! Essa é - aliás - a descrição de Tata, só agora confessada.

Na noite de quinta para sexta tive dores terríveis de madrugada. Ainda ontem comentava com Tata. Por vezes fico incrédulo com o que estou vivendo, mesmo quase dois anos depois do diagnóstico. Mas isso pouco importa. O que veio depois foi um domingo fantástico. Acordei disposto às 7h da manhã, o que é praticamente inacreditável para os padrões dos tempos recentes. Assei um belo dum churrasco para meus pais e meus sogros. Depois recebemos uma sequencia de visitas regada a bolinho de arroz, bolo de fubá, chás, chimarrão, cervejas com e sem alcool, etc. Foi sensacional receber tantas calorias para o organismo e para a alma.

Para encerrar, quero elogiar a elegância do nosso amigo Dr. Marquez na minha última sessão de rádio. Comprometeu-se de passar o relatório das rádios e de tudo que fez para o meu novo médico. E, claro, me deu um belo aperto de mão. Recebi abraços de todas as gurias da rádio. E vi de longe minha querida companheira de quimio, Sheila.



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Terça-feira, Agosto 16, 2005


Nova aerodin?mica
A consulta foi exatamente como eu esperava. Cheguei a ter a sensação de que já tinha vivido aquilo. O lugar é um tanto labirintico, um prédio estreito e pouco iluminado naturalmente. Mas a simpatia comum em clínica contra o câncer já foi percebida na tiazinha que atendeu a mim e Tata na portaria. Tipo... viu um careca '"óóóóóóó cliente novo!" hahahaha. E acho que foi assim mesmo. Não houve atrasos, mas nas primeiras consultas é sempre assim, ou não? Tanto faz. Fato é que fomos atendidos primeiramente pela Dra. Mônica, que anotou todo o nosso tenebroso histórico. Elogiou nossa organização. Muito simpática e bonita. Gostamos da postura. Tata comenta que ela foi simples, direta, deu o tom certo para cada coisa que contávamos. Depois de cerca de 30 minutos de conversa, ela nos informou que faria uma reunião com Dr. Senna. Vale lembrar que pesquisamos bastante sobre ele na Internet e, portanto, tenhamos uma idéia do que iríamos encontrar, inclusive fisicamente. Tudo se confirmou. O cabelo é realmente aerodinâmico. E a timidez passa longe do cara, que deve ter a mesma idade de Dr. Marquez, um tímido esforçado.

Esclarecemos a nossa intenção. Queríamos uma segunda opinião, uma outra proposta de tratamento e um horizonte de medicamentos mais amplo. Foi exatamente o que nos convenceu a iniciar vida nova. Porque foi exatamente o que Senna nos propôs. Na quinta-feira já transfundirei. Uma hora e meia injetando pelo menos duas bolsas de plaquetas. "Tu já tá batendo biela, daqui há pouco desmaia na rua, não podes ficar nesse estado, isso prejudica tua saúde, portanto, teu tratamento". A proposito passa pela mesma base de diagnóstico da outra clínica e seus técnicos: meu caso? grave, perdemos o controle da doença, no momento ela é mais forte do que eu, então, temos que continuar lutando, mas sempre pensando em qualidade de vida. Os químicos propostos por Dr. Rocha foram considerados agressivos demais pra minha fase atual. "Existem soluções com os mesmos 15% de chance de resultado que por outro lado causam bem menos efeitos colaterais. O Hirinotecano e o Docetaxel provocam uma diarréia infernal, além do mais vais continuar anêmico. E essa radioterapia? Por causa de um nódulo? Eu suspenderia!" Eu e Tata, aliás, temos que decidir quanto a isso.

O diagnóstico, entretanto, não alterou. Nem eu esperava tanto... Mas o fato é que agora sou assumidamente o portador de uma doença crônica. O objetivo do tratamento tenta controlar sua expansão, diminuir sua ação. Mas só um milagre ou uma medicação nova, o que não deixa de ser um, pode virar a coisa em direção a uma cura. Temos que buscar agora prolongamento e melhor qualidade para a vida. E tratar, tratar, mesmo que com intervalos, seguir tratando, sempre, sempre tratando. Isso significa cuidar bem da alimentação, do sono e, principalmente, dos ossos. Ainda não são de vidro, mas poderão ficar. As dores virão, serão fortes, terão de ser tratatadas com rádio localizada. E depois de matar as células ruins, concentrar na calcificação via químicos e nutrição.

Foi uma boa consulta. Estou me sentindo melhor. Vamos ver como será receber sangue alheio. Nunca fui chegado em vampiragem.

Ah, pra encerrar. Quatro pessoas confessaram que ficaram com inveja da nossa viagem pra Paris. Decidimos trocar pra Ana Rech, parem de nos secar!


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Domingo, Agosto 14, 2005


Amelie
Moro num bairro diferente faz alguns meses. Vai completar, se já não completou, um mês que meu escritório mudou de endereço. Não tenho problemas alarmantes afora o mesmo enorme e monstruoso há dois anos. Vejo pouca gente que costumava ver todos os dias, no mínimo duas vezes por semana. Por um inexplicável problema, essa semana recebi e-mails de 2003/2004. E, entre 75, um se destaca porque não consigo identificar a data. Não sei se veio do passado ou do presente. A verdade é que mal bebo. Fumo como quando guri, com tocos imaginários. Encho e esvazio o pulmão com ar apenas. Não vou a bares. Continuo adorando restaurantes. Ouço mais música, ainda em quantidade insuficiente, infelizmente. Por impulsão, ainda que raramente, adoro mergulhar na escuridão do cinema e penetrar em vidas alheias, histórias incríveis, trilhas que me fazem lacrimejar. Em casa vejo e revejo os mesmos sempre. Agora sonho com um projetor para ter minha escuridão poética também em casa. Da sacada, olho para o mundo, abro os braços, me abraço enquanto Tata dorme. Abraço tanta gente. Tudo parece tão distante... Penso, penso.... Me emociono... Sento. Hoje assistimos Amelie Poulan com a tela do notebook esparramada na minha barriga. Tata dorme antes do término como de costume e eu me emociono do início ao fim. Cinema é tão bom em me mostrar o quanto estou vivo...

Na terça-feira vamos procurar um médico novo, dono de um clinica com visao diferente da que fomos assistidos até agora. Parece que o pessoal fez o que pôde lá. Perdemos a sensação de exclusividade. Os médicos não têm mais aquele brilho nos olhos que nos fazia esperançar. O quimioterapeuta nos ofereceu testar medicamentos os quais nem recordava os efeitos. E como insisti muito confessou que para vencer o que tenho espalhado pelos ossos não conhece nada capaz. Talvez algo novo... embora diga com todas as letras que não acredite. Acha que para controlar o crescimento do câncer nos ossos, de novo por insistência minha, temos 15% de chances. Tata reclama que eu estou querendo fazer uma contagem regressiva. E o radioterapeuta? Dr. Marquez resolveu emitir raios sobre um campo no abdome, um linfoepitelioma que os especialistas em imagem negam o crescimento, mas que ele acredita ter aumentado menos de 1cm, portanto, quer combater. Fico com a sensação de que gosta tanto de mim que não quer desistir, embora saiba que não passa de uma atitude paliativa. Um pensamento notadamente idiota. Uma amiga também doente, em situação ainda mais grave que a minha, reclama que meus doutores não estão cuidando de fortalecer meus ossos. É verdade. Ou estão sem saber o que fazer ou a clínica tem tantos pacientes que perderam a individualização. Basta observar. Afinal, em dois anos, nunca tinhamos visto tanta gente em tratamento lá quanto agora. São três andares de estacionamento no topo de um morro. O que importa é que, do novo médico, sei que tem cabelo aerodinâmico, que acredita no poder das plantas, que tem trabalhos publicados e pesquisas em andamento pelo mundo afora. E mais: acha imperdoável que os pacientes de câncer tenham de sofrer a humilhação de perder os cabelos com quimioterapicos pouco eficazes. Vou oferecer como novidade minha beleza sem pelos. Não sei se vou querer voltar a querer cabelos de novo. Por outro lado, talvez seja melhor não contrariar quem gosta tanto de cabelos. E valoriza tanto a sua aerodinâmica. O importante é que até o final de 2006 Tata pretende me levar a Paris, onde pretendo chorar pela última vez.


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Segunda-feira, Julho 25, 2005


Quanto tempo?
É incrível, importante, emocionante, sempre positivo, enfim, encontrar comentários de pessoas desconhecidas aqui. Quanto mais se dizem que de alguma forma cumpro com o objetivo de ajudar quem vivencia o terror da doença mortal, seja ela qual for. Foi exatamente por esse tipo de audiência que decidi continuar postando meus resumos, deixando para segundo plano a idéia de publicar um livro. Obrigado Cristiane!

Como estão as coisas desde a cintilografia? Melhor do que se poderia esperar. Curiosamente, minha primeira ação foi a de tentar descobrir que prazo teria, na expectativa inacreditável de planejar o estilo de vida final. Se tivesse dois a três anos de vida, por exemplo, escolheria um entre dois caminhos. Tentar capitalizar um valor específico para deixar de trabalhar, abandonar as mínimas responsabilidades, realizar algumas viagens, conhecer lugares sonhados, viver uma vida simples, que não preciso de muito mais do que já tenho para ser feliz. Tenho a casa dos sonhos, as delicias que mais gosto na vida estão ao meu alcance (como o melhor petit gatô feito no RS, que degustei na casa do Cozinheiro sábado passado, precedido por uma moqueca indescritível). Falta um telão para ver meus filmes prediletos com Tata do meu lado, que no final das contas é o que verdadeiramente interessa. E basta, bastaria Tata. Bastaria!

A outra opção seria trabalhar com afinco para garantir que minha presença na Terra tivesse significado reconhecido para um grupo de pessoas, profissionais e empresas envolvidas na minha trajetória de jornalista. Boa parte desse caminho já tracei, sei que fui útil para a formação de muita gente que trabalhou comigo. Sei que consegui abrir espaço político antes inexistente para um grupo de empresários, dirigentes e profissionais com o portal que desenvolvi para um segmento específico da economia gaúcha. Sei que fui honesto o suficiente para ter no currículo um resultado mais do que positivo para os pequenos deslizes que cometi. Mas se dessem meu nome para um bequinho qualquer em Porto Alegre morreria feliz. :)

O que interessa mesmo, entretanto, é que toda a irradiação que Dr. Marques chegou a planejar, o resultado das tomografias o fez desistir. Não há nada que justifique fazer radioterapia no momento. Na quarta, teremos uma reunião com ele e o médico responsável pela químio. Tudo indica que então saberei como serão meus próximos meses. Certamente, farão uso da quimioterapia para tentar controlar a rapidez com que o tumor se desloca e deixa suas maledicências. E, é claro, tomarei conhecimento dos efeitos colaterais, os malditos efeitos colaterais.


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Quinta-feira, Julho 21, 2005


Aviso aos navegantes
Esse blog não é literatura. Foi criado para dar notícias aos amigos distantes e para evitar que eu tenha de contar todo dia por telefone o que estou vivendo, o que por vezes demanda muita energia. Acabou, é verdade, se transformando num jeito de dividir a experiência que estou vivendo com quem de alguma forma também o está, seja enquanto paciente, seja enquanto parente.

Por isso, não dá pra transformar o Trópico de Câncer em Trópico da Vida e por isso não posso incinerar o que já escrevi, pois é a única maneira das pessoas que estão distantes poderem saber como eu estou ou como tudo começou, quando ficam sabendo. Então, não é um blog fácil de ler, nem de escrever, mas é necessário para que, acima de tudo, eu consiga racionalizar o que está acontecendo comigo.

Aliás, quem não suporta notícias ruins, por favor, desligue o computador.

Saiu ontem o resultado de uma cintilografia para saber como estavam meus ossos depois do tratamento com radio e quimioterapia (a última sessão foi segunda-feira). Tenho sinais de tumor no crânio, ombros, braços, quadril, coluna, joelhos e canela. Por sorte, já temos, entretanto, o resultado da tomografia que fiz ontem. Não há nada de muito comprometedor nos órgãos. Isso deve alongar bastante minha expectativa de vida.

Encerro agradecendo quem puder me acompanhar nessa jornada. Compreendo, no entanto, quem não tiver estômago para aguentar tanta merda. Enquanto estiver vivo, por outro lado, prometo manter meus queridos amigos informados sobre minha "saúde".


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Domingo, Julho 03, 2005


Grito
Silenciei. Depois de dez dias rouco, silenciei. O médico achou melhor. Descrevi na sexta o ocorrido para o dotô e ele perguntou: ocorre de tu, eventualmente, te afogar. Apontei o dedo para ele em confirmação. - Sim, toda hora - assoprei.

Fez o exame com uma mini câmara e decretou: - Não é nada, cheguei a pensar que pudesse ser alguma coisa mais grave nas cordas vocais. Preciso que tu fiques em silêncio até domingo pra ver se a tua voz volta. Silenciei.

No sábado, custei a acordar e a me espreguiçar. Mas desde às 10h assisti ao Live 8, o maior show simultâneo (Londres, Paris, Roma, Berlim, Moscou, Joanesburgo, Tóquio, Filadélfia e Toronto) já ocorrido no mundo.

A MTV Brasil transmitiu 10h de shows de artistas como U2, Madona, Paul Mcartney, Dido, AudioSlave, Coldplay, Green Day e, entre muitos outros, Pink Floyd com a formação original, tocando junto depois de mais de uma década. Demais!

E ainda passou o meu e o nome de Tata nos telões das cidades onde ocorreram os shows. Assinamos a lista proposta por Bob Geldof, pedindo a suspenção da dívida externa da África. Foi um grito possível com a Internet!

Fora os três filmes em seqüência que vi com Gis. Virei homem de poucas palavras.


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Terça-feira, Junho 14, 2005


+ 1 + ? = ?
Incrível. Lá se foi mais um ano. Aqui mesmo no blog registrei meus 38. No ano que vem viro mais uma casa no contador. Quarenta! Lembro bem que quando pequeno calculava quantos anos teria em 2000. Isso por volta de 1978, 1979. Recordo que colocava no ouvido o fone retirado de um telefone, que por um fio se conectava a uma galena - espécie de rádio rudimentar, feito por um amigo de meu pai de presente para mim - e ao ouvir as vozes de veludo de uma locutora uruguaia qualquer, por volta da meia-noite, tentava imaginar como eu seria vinte anos depois. Fica angustiado por não conseguir me ver, logo eu que tinha imaginação para me transportar para qualquer lugar ou me transformar em qualquer coisa.

Na semana passada, bolei uma festinha onde estariam alguns amigos próximos. Alguns deles cheguei a mandar um convite ao estilo do que Fiapo bolou no ano passado. O tema do ano foi ENRICO RELOADED e a cabeça da peça aqui figurava no lugar da cabeça do Keanu Reeves no cartaz do filme Matrix. Ficou realmente engraçado. Mais embaixo um mapinha para chegar na casa nova. Passei dois ou três dias selecionando músicas no computador, uma seqüência "Lounge" para rodar a partir das 17h e outra "Dance", pro povo pirar sob o ritmo de imagens pulsantes emitadas por um telão na parede do pé direito mais alto da cobertura. Tudo seria regado a chope de primeira qualidade, mini-hamburguers e mini-chachorros quentes (pros nego não se embebedarem rápido demais).

Mas... deu xabu de novo nos meus intestinos dois dias antes... Daí veio uma instabilidade emocional acima da média. Mil crises, teatro solo, shows do Nirvana em fim de carreira, enfim. Desmarquei tudo, avisei quem eu já tinha convidado com mil desculpas e desisti inconsolável. Foi até bom no final das contas, porque São Pedro não ajudou muito quando sábado chegou. Foi um dia nublado e a grande atração da festa - o Pôr do Sol no Guaíba visto daqui - acabaria não tendo grande valor. Mais tarde ainda fui alertado por Zelda que no ano passado minha festa foi em julho, quase um mês depois do 08 de junho, então, poxa, que assim seja, consideremos tudo como um simples adiamento. Aguardem notícias.

Permaneceu, no entanto, a idéia de receber parte da família para traçar um cordeiro de Rivera no dia seguinte. Minhas irmãs descreveram tudo muito bem nos comentários do Post anterior. Podem conferir para entender tudo, inclusive que foi ótimo e que eu me esforcei ao máximo para suportar fisicamente tanta alegria.

Para encerrar, agradecimentos especiais a Geisel, que fez milagre e conseguiu peparar carnes variadas para tanta gente na minha churrasqueirinha, originalmente feita assar não mais do que 5Kg de carne. Claro que também para minha amada Tata. Afinal, com minhas pernas bambas, pude ajudar muito pouco para colocar tudo em pé, antes, e abaixo, depois, se é que me entendem.


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Domingo, Maio 29, 2005


Resumito, salamito
O mês está terminando, tanta coisa aconteceu e eu nada de informar os amigos. Acho que fiquei esperando por inspiração, o que é uma bobagem, já que o objetivo do espaço sempre foi o de informar. Tata retirou um nódulo do seio. Quase enlouqueci no dia da cirurgia, fiquei hiper nervoso, me perdi dela no hospital, me comuniquei mal com a sogra e sogro, enfim, fui um fiasco no quesito acompanhante. Talvez por saber o que é uma biopsia positiv