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Terça-feira, Outubro 31, 2006
Publicado
3:37 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Infernais Os últimos 15 dias foram infernais.
Noites mal dormidas, dores nas costas e na lombar, dificuldade para
engolir alimentos, pés inchados por desnutrição, nariz invariavelmente
entupido, incapacidade de respirar pelo excesso de líquido na pleura,
ouvidos a meio pau, surdinho, tudo, enfim, para aumentar a tal da
depressão profunda diante do barranco.
Tudo parece estar
desmoronando, melhor os passeios do passado, no Barranco, com motivos mais
torpes, algo como "ah, me dá mais um chope aí então". Mas, nem tudo está
perdido, entre hoje e amanhã - uma cirurgia para drenar dois litros de
líquido e grudar as paredes da pleura podem retirar da lista sinistra
itens fundamentais para o meu bem-estar. Prometo manter os amigos
informados.
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Segunda-feira, Outubro 16, 2006
Publicado
2:46 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Tempo Os dias têm passado lentos, ligeiros,
rápidos, vagarosos.... Tenho tido dores bem ruins durante o incio da noite
até por volta das 24h. Precisei chamar a Unimed SOS algumas vezes para
aplicarem Dolantina. Em geral, funciona.
Mas, no final de semana,
minha querida Polly passou em nossa companhia. Rimos muito, conversamos
bastante, especialmente Tata e ela, que fizeram um revival da adolescência
muito legal de ouvir, imaginem participar. Alto nível.
Depois de
uma deprê violenta - não registrada aqui a meu gosto - resolvi, em
desespero, cumprir a promessa feita para Tata: que iria a uma
psicologa.Senti em determinado momento que não tinha mais condições, não
tinha força - nem física, nem psicológica - para continuar a batalha. Fui
na semana retrasada: nota 03! semana passada: nota 06! .
Em meio
às conversas com Tata sobre a vinda de Polly tive uma luz ontem. O dfícil
está sendo esquecer que a batalha na verdade terminou. O câncer não é mais
um alvo, mas um novo parceiro, a quem devo me irmanar em busca de
qualidade de vida e longevidade. É notável, entretanto, a dificuldade que
tenho para realizar a tarefa depois de três anos de guerra declarada,
pública, sangrenta, um inimigo, enfim, tão traiçoeiro e cruel.. Vamos ver
no que vai dar
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Quarta-feira, Setembro 20, 2006
Publicado
5:44 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
"Visitas" O fato de eu ter criado o blog e deixar
claro que por vezes preciso de silêncio, solidão e nem queira atender o
telefone de vez em quando não significa que os amigos não possam ligar
para falar comigo ou mesmo combinar uma visita aqui em casa. Ou
vice-versa, me convidar para adentrar a residência de vocês. Li nos posts
muitas mensagens do pessoal dizendo que não entram em contato porque não
querem me incomodar e tal... Tá certo, mas nem sempre estou em alfa ou
fazendo meditação sobre a morte. Ainda olho futebol, jogo botão e logo
logo acredito que voltarei com a cerveja ou com o vinho (de uva Isabel, o
único que não arde na minha boca, embora sirva Casillero del Diablo para
as visitas). Certo? Espero contato. Comentários:
Publicado
5:31 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
"Bambas" Não sou muito chegado em carnaval, mas
estou precisando ir numa escola. Seja ela de fisioterapia ou de educação
física. Meu preparo está pra lá de radicalmente fracote. Caminho com as
pernas bambas, se me agacho uuuuh para levantar é algo que exige
concentração e muitas vezes ajuda. No mínimo apoio de um corrimão. Já
tomei alguns tombos por isso. Minhas pernas parecem pesar toneladas.
Somado a isso o fato de q eu estava com as tais plaquetas do meu sangue
piscando um SOS com os dizeres: "cuidado com hemorragias internas",
"cuidado com hemorragias internas", "cuidado com hemorragias internas".
Bem, andei sob cuidados e com muito cuidado essa semana passada. Ontem
tomei uma bolsa com as plaquinhas via portocat e tudo voltou ao normal,
pelo menos minhas assoadas de nariz. Para o desânimo e o cansaço tomei
vitamina B-12, também via portocat (acesso venal fixo que coloquei no meu
peito há mais de um ano para facilitar o ingresso de medicamentos,
especialmente os da quimioterapia).
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Sábado, Agosto 26, 2006
Publicado
1:21 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Sobre o Câncer Ficou decidido que iríamos atacar a
rinofaringe da mesma maneira que a anterior: ou seja, com rádio e químio.
Um cálculo que levou três dias para ser concluído fez Dr. Marquez
encontrar no meu carcinoma um desafio. Acho eu. Ontem entrei na Clínica e
perguntei para a física: quanto é dois mais dois? Ela percebeu alguma
sacanagem por trás e respondeu:seis! Imediatamente perguntei sobre os
cálculos da minha aplicação e ela disse que ficaram sensacionais. Tem que
estar mesmo porque os tecídos moles atacados pelo câncer estão entre os
olhos, no início do nariz. Se der alguma coisa errada, tenho 15% de
chance, enfim, de ficar com problemas visuais, basta a mira não ser
precisa em milímetros.Pelo menos foi o que entendi. Agora me ocorre que
isso independa dos cálculos. O problema talvez esteja na proximidade do
raio.
A ressaca da cisplatinha (a quimio já usada e citada aqui
antes) resultou em uma chamada do SOS ontem a noite. Nada demais!
Dolantina e deu... Até já conhecíamos o técnico.
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Publicado
1:08 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Novidades Tenho que contar apenas o suficiente para
pintar o quadro atual no aspecto mental. As coisas andam rasas. Arrecém
estou lutando aqui dentro da cachola pelo entendimento de que agora o
negócio é trabalhar e curtir a vida, o que no meu caso são coisas
parecidas. Meu físico, entretanto, ainda não está lá essas coisas e por
isso ainda não consegui fazer as coisas andarem. Pedi ao meu principl
executivo que faça um relatório de como está a empresa e em que estágio
estão os projetos que tínhamos elaborado. fou de me trazer segunda.
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Sexta-feira, Agosto 18, 2006
Publicado
6:19 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Rinofaringe: parte II As coisas estão acontecendo
em tal velocidade que quando dou por conta outro mês se foi. As dores
foram vencidas com a redução da medicação e principlamente por causa da
radioterapia. Baixei imediatamente o nível de morfina aplicada, que gerou
algumas dores provocadas pela abstinência, mas nada demais. Ainda tenho
dores nos ombros. Esta parte cumpre o final de uma fase. Agora, lutamos
por causa da volta de um câncer na rinofaringe e outro possível no pulmão.
Os dois tão temíveis quanto perigosos foram encontrados numa ressonância e
numa tomo. O que será de mim? É o que perguntamos Tais e eu olhando para
teto, vez por outra
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Quinta-feira, Julho 27, 2006
Publicado
6:29 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Manifestações Passaram-se dias depois do último
post. E a vida foi se encaixando no quebra-cabeça de acontecimentos.
BeBein tomou conta da casa. Fui entrevistado por Zero Hora sobre o blog,
fiz uma nova sessão de rádio. Todas as peças, enfim, foram se encaixando
pouco a pouco. Não estou lá essas coisas porque algumas delas foram negras
como uma noite de chuvas e trovoadas, delírios e pesadelos, anjos e
demônios.Tive muitas dores por causa do Herpes Zoster, mesmo depois de
aparentemente curado. Dra Mônica diz que é memória da dor. Já pensou?
Nosso corpo é realmente um mistério cheio de surpresas. Fiquei
particularmente emocionado com a manifestação da portuguesa Ana. Afinal é
a primeira vez que uma estrangeira escreve no blog. Fique a vontade, Ana,
se preferir envie mensagem para enrico@mandic.com.br para trocarmos idéias
sobre o tratamento. Hoje fiz minha primeira sessão da quimio. O Taxol não
é exatamente um desconhecido. Arrancou meus cabelos, entre outras coisas.
Agora a dose será menor e tudo indica que nem mesmo enjôos nem náusea
chegarei a sentir. Para encerrar, mato os invejosos com um jantar que
terei em instantes, preparado pelas minhas sobrinhas Lily e
Naninha, filhas de Zele, na foto, em preparação antes do histórico
manjar. Um abraço muito especial para todos os amigos e novos amigos.
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Terça-feira, Julho 18, 2006
Publicado
7:54 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Mil Novidades 1) Fiz a primeira sessão de
rádio no peito (10 emissões). Ainda faltam outras 15 na segunda sessão,
que atingirá a coluna de cima a baixo. O importante é que a dor sumiu.
2) Adotamos uma cadela, BeBein, que revolucionou a casa e
despeja macro quantidades de amor por hora para Tata. Eu que queria um
companheiro para as tardes de trabalho, fiquei hiper satisfeito. É uma
vira-lata toda branca, com uma mancha no olho esquerdo. Olhem abaixo.
3) A possibilidade de uma metástase pulmonar veio a partir de
uma tomo no tórax que dizia que eu tinha um derrame pleural bilateral, o
que poderia ou não ser uma manisfestação de câncer de pulmâo.
4) Nesse meio tempo, apareceu a malfadada Herpes Zoster. Dor,
coceira, pomada e mais pílulas. 5) Os medicamentos estão
desproporcionais à situação atual. Sinto um sono infernal durante todo o
dia. 6) Estou com dificuldades para trabalhar em função disso
tudo. Sinto medo de ser mal interpretado pelas manhãs de sono profundo.
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Segunda-feira, Julho 03, 2006
Publicado
8:28 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
De volta à rádio Quem lê assim pela primeira vez
vai pensar que eu sou radialista. Mas para o bem da verdade confesso: sou
sim, por que? Nunca me ouviu? Bem, a Ritinha já. E uma vez minha voz foi
reconhecida num bar em plena Cidade Baixa, porque eu dei um tchau igual ao
que eu dava na Ipanema FM, num programete de 2min sobre Informática. Isto
sem falar que fiz um curso na Feplan, que me garante por certificação
atuar pelo Brasil inteiro como radialista. Te mete!
Feita a
introdução desnecessária, retomei a radioterapia sem que os dois
institutos tenham sequer trocado um e-mailzito ou quem sabe um telefonema,
nada. Teletipo? Fax? Telegrama? Nada. Cheguei na Clínica onde deixei bons
amigos, a mesma que abandonei só por causa da químio, tendo plena
confiança na rádio, e fui recebido como se tivesse estado lá ontem, tudo
no bom sentido, por favor, sem críticas, além da que já me referi. E que
não é pouca coisa, afinal, cheguei lá com metástase nos arcos costais e na
escápula. Mas depois de uma cintilografia e de uma tomografia ficou claro
para o Dr. Marquez, o radioterapeuta, que o disposto nos locais nâo
poderia provocar a dor referida.
A explicação passaria por
metástase na junção de algumas costelas com a coluna vertebral. E que de
lá irradiaria dor para a região onde eu sinto verdadeiramente a maldita.
Também onde os médicos da outra clínica desconfiavam ser o local a ser
atacado (arcos costais e blablabla, lembram?). Algo assim, não me foi
repassado ou eu não lembro o nome real da região. Mas é lá que há seis
dias recebo uns três minutos de radiação. Marquez acredita que na primeira
semana eu devo perder a dor. Hoje passei o dia trabalhando, esqueci de
alguma doses de morfina, agora estou aqui, abusando, mas pelo menos ainda
nâo senti dor.
Amanhã tenho consulta com Dra. Mônica e também com
Dr. Senna. Será questionado o fato das Clínicas não terem se comunicado e
as conseqüências disso. Também quero saber se não existe outra químio para
substituir o Jenzar, que vinha mantendo as metástases sob guarda, mas o
fato de terem se formado bases inimigas na região, que agora é de combate
radioterápico, outro medicamento será necessário. Ele já foi proposto e
pelo que sabemos perderei cabelo e terei náusea. A náusea eu aguento. Mas
não gostaria de perder o cabelo. Será que entre as dezenas de medicações -
todas capazes apenas de me manter vivo - já que ineficientes para matar o
tal signo do zodiaco - não podem fazer o mesmo sem que eu perca os
cabelos. Pode parecer bobagem, mesmo assim me interessa saber se há outra
alternativa. Prefiro ficar careca quando desejo e não por obrigação.
Para encerrar, comuniquei ao pessoal da clínica de radioterapia o
endereço do blog. Talvez tenha feito merda. Mas agora azar. De qualquer
sorte, como a turma da tarde me recebeu com balões, beijos e torta-fria,
troquei o horário e nem tive como me despedir das meninas da manhã.
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Sexta-feira, Junho 23, 2006
Publicado
6:03 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Notaram? Notaram ou não? Ah... tenho certeza de que
os leitores de coração frágil para romances, ah, esses notaram. Como não
notariam? Não é nada demais, mas é uma demonstração de amor incontestável,
até porque foi feito assim... como dizer... instintivamente! Com base na
realidade, na verdade mais verdadeira, aquela que se dá em momentos
difíceis, aparentemente sem solução. Eu tenho feito com frequência. Mais
ainda recentemente. Quero ver quem acerta, descobre, grifa essa declaração
de amor linda e tão bela, poética...
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Quinta-feira, Junho 22, 2006
Publicado
12:36 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Morfina O que dizer dela. Legal, tira dor. Provoca
problemas colaterais com o tempo. Tem o charme das drogas antigas, de
escritores dentre outras personalidades da história mundial que eram
viciadões. Já eu... comprovei que nem sempre tira a dor, que pra tirar tem
de elevar a niveis perigosos para o coração. E que de charme, gurizada:
NADA! Nem baratinho dá. Enfim, conforme posto no post anterior, procuramos
insistentemente por telefone e pela secretárias o nosso ex-querido médico
da dor. Depois de uma semana sofrendo que nem bicho, adotamos a tática da
sempre presente e disposta dra Mônica.
Chamamos, então, um serviço
chamado home care do meu plano de saúde e foi assim que além de aplicações
subcutâneas também passamos a tomar intravenal de seis em seis horas.
Fomos premiados com dois técnicos muito gentis, gente fina mesmo, que tão
na luta e tal, com os quais conversamos muito às seis da manhã, meio dia,
seis da tarde e meia-noite, aquelas coisas. Não adiantou muito, mas
melhorei um pouco. O problema é que as crises continuavam e a cada crise
estavamos injetando mais morfina sempre com algo de medo, principalmente
por parte de Tata, porque eu... eu queria qualquer coisa, até aspirina!
Acionei, inclusive, minha irmã Zeda, enfermeira, para aplicar intravenosa
antes do home care ser acionado e depois para me fazer companhia nas
tardes que pôde e que eu mais precisei. Show!
Mas a solução para
esse inferno acabou aparecendo mesmo foi quando o eficiente-dr. da Dor
apareceu no visor do celular. Desde então ela parece controlada, com
pequenos ataques, embora tenha aumentado a metadona, o ibuprofeno e estou
tomando duas miligramas (duas ampolas) de morfina a cada duas horas. Agora
mesmo estava com alguma dor e não entendia porque. É que por volta das dez
tomei mijada porque apenas me apliquei e esqueci as mais de seis pilulas
que eu tinha que ter tomado. Agora empurrei elas mais a da meia noite e
ainda toquei ficha em minha dose de morfina.
Espero que noite seja
abençoada. Amanhã tenho que encarar a coluna do jornal e desta vez não
consegui adiantar nada, pois fiz duas tomos e uma cintilografia para, ah,
sim, iniciar uma nova radioterapia nos arcos costais e na escápula, pois o
câncer progrediu, embora tudo seja confirmado mesmo quando as tomos
ficarem prontas. Mamãe... conto com tua ajuda...
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Sexta-feira, Junho 16, 2006
Publicado
6:29 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Boletim de ocorrências Perdõem o silêncio.
Primeiramente foi por dificuldade para escrever qualquer coisa em nível
pessoal. A concentração para tanto estava sendo consumida pelos textos
profissionais. Um tempo depois, foi agregado a tal impedimento o maior de
todos os fatores: dor. Nos arcos costais, principalmente. depois de raios
x, os médicos acreditam que possa ter havido uma progressão. Daí, para
tirar a dor, morfina! Por enquanto, mas o caminho deverá ser rádio, assim
eliminamos a dor ao matar a metástase. Estamos todos péssimos. A impressão
é de que estou sendo comido vivo. Tem um bicho do zodíaco roendo meus
ossos e cartilágens. Um horror.
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Quinta-feira, Junho 01, 2006
Publicado
8:42 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
A culpa foi nossa Não sei mais o que fazer a
respeito. Se chegamos na hora, esperamos em média 45 minutos para sermos
atendidos. Hoje nos atrasamos 5min para a consulta com o fisiatra.
Adivinhe o que fizemos depois de esperar 30min. Pois bem, reclamamos. E
soubemos, então, que por termos nos atrasado seríamos os últimos a serem
atendidos! Bollocks! Quando finalmente encontramos um consultório que
aparentemente preocupa-se em atender no horário, a punição é passar horas
e horas a mais lendo revistas mais atrasadas ainda? Demos uma de loucos e
fomos embora. "Ofereça meu lugar para outro trouxa", ainda gritei. Agora,
fazer o que... Estamos atrás de outro fisiatra. Quanto tempo perdido para
quem valoriza a vida que leva, não?
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Domingo, Maio 28, 2006
Publicado
9:05 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Boletim O que dizer. Estou com uma maldita infecção
pulmonar. Por isso foi feita uma coleta de material no pulmão para que
pudessemos, através de exames dos mais variados, "alguns em cultura",
atacar as bactérias e/ou fungos com o antibiótico certo, específico para
vencer aqueles bichinhos lá. As placas, depois feridas que tive na boca já
sumiram.
Um exame de checagem já foi feito também e a mancha
diminuiu. Por outro lado, eu ainda não estou livre de suadores e febres,
especialmente durante as madrugadas. Ou seja, cá estou eu de novo com uma
batalha menor, mas que me toma tempo, consome oportunidades profissionais
e pessoais. Não é o fim do mundo, mas é um saco. Porque quando levanto a
cabeça já foi um mês, entendem?
Não, né, difícil explicar mesmo. É
que, entre o ânimo e o desâmino, provocado por tudo isso, acabo atrasando
alguns projetos super legais, coisas que tenho que fazer, não adianta; e
deixar para a última hora é suicídio, embora essa coisa de última hora
também não seja exatamente uma novidade para mim, desde os tempos do
primeiro grau. Creio que por isso sempre fui um cara com muitas notas 07
esplhadas pelo boletim.
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Quinta-feira, Maio 18, 2006
Publicado
6:29 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Visitas Estou com um novo ciclo de medicações. A
idéia é substituir a morfina pela metadona. Embora a morfina tivesse lá
seu charme decadente, tava ficando chato se espetar de quatro em quatro
horas. Um novo remédio também entrou na parada (atualizo aqui em breve
para eventuais colegas de tumor). O resultado é que estou sem dor, até
agora não tive nem meia crise sequer, então, creio que a coisa toda
funcionou acima do esperado. Pelo menos acima do que eu e Tata
esperávamos. Algumas coisas estranhas, entretanto, começaram a acontecer.
Passo os dias sozinho aqui no escritório e então o nível de concentração é
elevado. Muitos textos, revisões, etc. Isso tudo associado a uma
sonolência muito leve, mas tão leve que nem bocejo, apenas dou aqueles
pulos assustados na cadeira, conseguem me entender? Você está lá, hiper
concentrado em algo e de repente: a sua cabeça chega a balançar para
frente e você se equilibra em sobressalto! É isso que tem acontecido. Mas
entre os sobressaltos e os textos, por vezes vultos passam atrás de mim.
Não é nada que me faça saltar de medo, aparentemente eu sei que é minha
sonolência no momento em que rola. O mais pirado é que também ouço vozes.
Às vezes identifico claramente como sendo da minha mãe, bem jovem, com a
voz limpa que a levou para cantar num coral de igreja por um período.
Outras vezes são risadas de crianças que correm e somem. Agora mesmo,
estava escrevendo este texto e parei, me concentrei para suportar o
silêncio, mas não ouvi nada nem vi. Não são operados por controle remoto,
certamente, mesmo estando - eventualmente - no MEU cérebro, sem a minha
aparente PERMISSÃO.
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Segunda-feira, Maio 15, 2006
Publicado
11:45 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
As filhas da mãe As Filhas da Mãe deram um show no
domingo em que as estrelas era suas mamães. Que maldade carinhosa,
não? Eu, q nao tinha nada com isso baixei a cabeça. Baixei a cabeça
para me deliciar com aquele showzinho particular que todos nós
curtimos. Baixei também para fechar os olhos, fechar os olhos e sentir
todinhos, todinhos os sabores que ali estavam disponíveis, disponíveis
para os meus sentidos, todos os meus sentidos, minhas glândulas e
deixa pra lá o sei lá mais o que q possa ter sido aquilo tudo. E
também para comer, né. Éééééé, porque eu também comi, né. Afinal
também sou filho da mãe, da vovó, vovó que elas, sim, porque elas, sem
dúvida reverenciaram, é reverenciaram, sim, reverenciaram aquela
magnifica cozinheira, aquela que aprendeu a cozinhar com a cunhada, a
cunhada que lhe segredou os segredos, os segredos que ela aperfeiçoou
tão magnificamente ao longo dos anos. É sim, eu sei que a gente não se
dá conta, mas é a mais pura... a mais pura das puras verdades: o tempo
passa. Só que ele passa, nos leva, mas nos inspira, inspira, inspira
tanto que vira inspiração, o que aquelas duas filhas da mãe tiveram
de sobra. Tanto que não sobrou nada! Nada! Nem as sobremesas, ah,
sim! Sim, porque eram uma, duas, três, três sobremesas. É. Eram três.
Três filhas da mãe, filhas da mãe Zele e filha da mãe zeda. Foi bom
demais, nossa se foi. Foi bom demais lembrar de tudo isso agora aqui
para mim. Ops, para vcs, é, para vcs.
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Sábado, Maio 13, 2006
Publicado
10:20 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Estamos concentrados no meu pulmão. Há uma infecção por
bactérias já comprovada. Ingiro uma boa quantidade de antibióticos desde
então. Meu apetite baixou entre outras conseqüências por cândida na boca,
na garganta. Não tenho tosse. Alguma febre eventual, mas sempre alta,
altíssima. Todos os sintomas remetem para fungos. Mas eles não foram
encontrados numa broncofibroscopia. Por essas e outras talvez seja
necessária uma biopsia. Mais anestesia, o que não deixa de ser uma boa
notícia. Quando penso na morte, penso em algo como a anestesia geral. No
meio de uma conversa e/ou de um olhar
sssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssss ...
...
e você volta seja lá como for... esbudegado ou sonolento... ou o nada.
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Segunda-feira, Abril 24, 2006
Publicado
11:28 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Brinde Vai fazer um mês dia 29. Vai fazer um mês
que não vejo minha mãe. Pérai, não pára de ler. Não é tão simples assim.
Nem tão terrível também. Em todo caso, velhos amigos, tenho de contar.
Afinal de contas, faz um mês. É claro que tudo foi mais fácil do que eu
imaginava. Porque, bem, vou confessar. Ficava um bom tempo até sem ver
Mamma. Usávamos o telefone como recurso mais freqüente. Só que hoje eu
procurava alguém com a letra M... E lá estava o nome mae, escrito assim
sem assento no meu celular. Deu vontade de ligar, uma ação tão sem sentido
quanto mandar um e-mail para Cássia Eller no dia em que ela morreu... Bom,
mas aí, agora de noite, Tata chega com fotos reveladas que haviamos
esquecido na máquina fotográfica por causa da novidade da outra, a
digital. Pois é, então, foi isso. Lá estava ela no seu aniversário, com
todos nós em volta, todo mundo sorrindo, pouco menos de um mês antes da
sua partida. Tem até uma comigo abraçadão e tal. Lembro que ela ainda me
disse: "Nós, os batalhadores...". Foi assim... Foi assim que lamentei e me
dei conta mais uma vez da sua ausência definitiva, definida, deflagrada há
exatamente um mês, quando chegar o dia 29. Daí vai fazer um mês. Sim, um
mês. Que saudade. Brindo desde já com lágrimas.
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Terça-feira, Abril 11, 2006
Publicado
6:28 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Cansaço Eu e Tata estamos cansados. Não existe
outra resposta para explicar as sensações que temos. Eu tô cansado de
estar sempre doente de alguma coisinha, quando não é um coisão mesmo. Os
meus dias se arrastam em meio a compromissos médicos enquanto Tata, além
de me acompanhar, em todos os aspectos possíveis, ainda trabalha num
ambiente pesadíssimo como a Febem. Tenho dó, porque não é do tipo que faz
as coisas pela metade ou com irresponsabilidade. Ela assume, briosa, peito
cheio de ar, todos os compromissos da agenda. O que seria de mim sem ela?
Nada... Hoje fomos consultar uma médida recomendada por Dra. Mônica, uma
pneumologista, para investigar meus pulmões. Restou uma mancha lá, do lado
esquerdo. Não se sabe o que é. Não se sabe o que será. Então, as queridas
decidiram que vão fazer uma bronco-endoscopia ou coisa parecida. Aposto
que Tata sabe o nome.
Para terminar, um queixa. Boa parte do
cansaço de hoje se deve a um fato: os médicos são os únicos seres humanos
que estão "cagando para o cliente" e não vão à falência. Impressionante,
já falei aqui em alguma ocasião. Uma hora de atraso é pouco para eles.
Depois ainda fomos noutra seção do hospital para marcar a tal
broncoseiláoquê. Mais 40 minutos e saímos sem um médico para assinar a
solitação do procedimento ao nosso plano de saúde. Quer dizer, isso vai
demandar mais algumas horas amanhã.
Ah, sim, como esquecer... A
consula e depois a marcação do procedimento foram realizados no mesmo
hospital onde minha Mamma se foi. No próximo feriado toda a família vai
para Sant´Ana do Livramento. Embora não tenha sido planejado, nada como as
raízes para recuperar o ânimo. Certamente será, entrentanto, um reencontro
com nosso passado, com as coisas e manias de Mamma. Sobre isso, por sinal,
um registro. As manas reuniram-se no final de semana passado para separar
as roupas dela. Encontraram pelo armários buchas com cerca de mil e
trezentos reais, que ela escondia para um motivo ou outro, alguns
descritos em bilhetes que fazia para si. Não sabemos se ela tinha noção do
que tinha e de onde estava cada uma. Eu apostaria que sim. :)
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Segunda-feira, Abril 10, 2006
Publicado
12:31 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Cabo Lúcio Os anos passaram e Nely foi imergindo no
cotidiano. Todo dia acompanhava Mãe Velha para lavar roupa no arroio.
Pegava uma roupa pequena e ficava esfregando, imitando. Também a
acompanhava na entrega da roupa já passada em fardos brancos sobre a
cabeça. Uma das casas que freqüentavam era a do ator Paulo José. Nely
brincava com ele, enquanto esperava Mãe Velha, comendo bolo, que de vez em
quando serviam. Mãe Velha não gostava nada disso.
Na época, Mãe
Velha sofreu muito com o negócio da tuberculose, que atacou suas irmãs.
Nely acompanhou tudo muito de perto. Mas não podia olhar os doentes nem
chegar perto. E quando alguém morria, queimavam as roupas e objetos
pessoais em uma fogueira no pátio. Já Maria, enquanto isso, vivia em
função de Nely, pelo menos logo que chegava do trabalho.
Um dia,
no caminho de casa, Maria viu uns dez brigadianos chegarem lentamente,
todos muito empoeirados, com os cavalos extenuados, até a praça. Entre
eles notou aquele cujo cavalo era o mais possante, que não mostrava
cansaço algum, embora carregasse a mesma poeira no uniforme. Moreno, de
bigode fino, empertigado, parecia alto de tão altivo. Mas ao descer do
baio notou que era baixinho, mas cheio de pose. Do jeito que gritava com
os demais devia ser o chefe. Maria ouviu conversas de pequenos grupos ao
seu lado. Aquele era um tal cabo Lúcio.
(Escrito com
colaboração da Zele)
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Terça-feira, Abril 04, 2006
Publicado
4:19 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Medo Nely não lidou nada bem com a novidade. Uma
sensação de solidão apertou o peito. Maria agora seria o que? Tia, Tia
Maria? Madastra? Ela era minha mãe, agora o que será? Tanta dúvida e
tristeza a fez sentir pena de si pela primeira vez. Difícil perceber o bem
que a vida havia lhe reservado depois de uma revelação tão forte. E a mãe
verdadeira, uma prostituta? Não, não... Por que me foi dada a vida se
teria passar por tudo isso? Assim, sofrendo, Nely correu pelos campos,
como se no final do fôlego fosse encontrar algo além do cansaço.
Maria e Mãe Velha perceberam a tristeza de Nely e sofreram em
silêncio. Estava na hora de Nely começar a entender a vida, por mais
complicada que ela parecece ser.
Passam os dias e novos telegrafos
chegam. Maria e Sirlei combinam horário e local para o encontro. Sirlei
pede para ficar a sós com Nely um tempo. Maria teme que Sirlei tente
roubar Nely num momento de distração. Não se sabe a verdade até hoje. A
única certeza que temos é que a foto foi tirada. E lá está mais do que
clara a tensão!
Tudo indica que Sirlei tinha intenções de levar
Nely, mas nada foi feito porque Maria e Mãe Velha não lhe deram nem um
minuto a sós com ela. Enquanto isso, dá para imaginar quanto sofrimento
causou tudo isso para a menina. Tadinha, odiava a mãe por tê-la deixado.
Amava a madastra por tê-la acolhido. Amava a mãe por querê-la de volta.
Odiava a madastra por não ser sua mãe. Passado tudo, a verdade é que para
Nely nunca houve outra mãe desde então que não Maria, aquela que um dia
seria minha única e querida vó.
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Segunda-feira, Abril 03, 2006
Publicado
9:06 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
A foto... Nely cresceu linda e forte como toda
criança daquela época. Corria livre e alegre pelos campos, brincava com
coisas simples, a maoiria feitas a mão pelos tios, pela avó e pela mãe
Maria. Pião, cavalinhos de osso, deitar na grama, respirar fundo e olhar
para o céu, vendo desenhos imaginários nas núvens. Nem mesmo os dias de
chuva eram tristes. Maria dizia que as gotas que caiam nas poças de água
eram bailarinas dançando com suas lindas saias rodadas. Ela fechava os
olhos e imaginava, imaginava...
O tempo passou e o carinho de
todos por Nely cresceu como suas pernas finas e longas. Mãe Velha agora
era só amor. Tirson vivia às brincadeiras com ela. E Maria.... Maria tinha
realizado seu maior sonho. Era mãe! Agora, era preciso dar um pai para
Nely. Sentada na escadinha que dava acesso à casa onde viviam, sonhava com
um homem de verdade, capaz de lhe presentear com mais filhos, filhos
nutridos na sua barriga, frutos de uma paixão de causar rubor enquanto
pensava no assunto.
Um dia chegou uma carta para Tirso. Maria
percebeu que ali tinha um conteúdo para o qual era a maior interessada.
Suportou a curiosidade por todo o dia na sua saleta na sede dos Correios e
Telégrafos. E se ela quisesse Nely de volta? E se ela realmente tivesse
direito?
- Nunca! Ela é minha! Ela é minha Nequinha... Não vou
deixar!
Quando o expediente terminou, Maria correu para casa, onde
encontrou Tirso cevando o mate.
- Chegou estar carta pra ti. -
É da Sirlei.... a la putcha, é da Sirlei! Só falta... - Abre, Tirso!
Abre!
Tirso encostou o mate num canto da escadinha. Logo chegou
Mãe Velha... Os três curvaram-se em direção a carta...
Tirso,
estou passando uns dias em é Alegrete. Pagam melhor, sabe como é.
A vida não está fácil. Eu bem que tentei outras coisas pra fazer. Mas não
compensa. Sinto falta da minha família, da vida de princesa que eu tinha
lá. É uma lástima que eu tenha me perdido por causa de uma falso amor.
Aquele maldito não moveu uma palha... Se tudo tivesse acontecido nos
conformes eu não teria dado meu bebê. Como ela está? Pelos meus cálculos
deve ter uns seis anos. Preciso ver ela. Não te preocupa, sei o que te
prometi e sou mulher de palavra. Te escrevo para que possa tirar uma foto.
Penso em ir até aí em setembro, dia 7, tiro a foto e me vou, não quero
complicar com vocês. Espero que aceite meu pedido.
Com afeto,
Sirlei
Era agosto, ainda corria um vento frio e
seco pelas manhãs. Maria não era mulher de chorar, por isso, pela coragem
que sempre demonstrou, ela disse:
- Responde pra ela Tirso. Deixa
ela tirar a foto. Ela é mãe. Vamos contar tudo pra Nely, tava mais do que
na hora. Ela tem que saber.
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Quarta-feira, Março 29, 2006
Publicado
6:07 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Se fue Mi madre se fue hoy a las 12h55. Cinco
minutos antes del aviso oficial mi hermana Gis la vio en la puerta del
centro de tratamiento intensivo y ella le dice:
- Ahora estoy
bien... No tengo mas dolor.
Estamos todos muy tristes pero bien.
La historia abajo cuento hasta el final quando todo esto se termine.
Gracias a todos.
Enrico
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Terça-feira, Março 28, 2006
Publicado
8:13 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Mamma Foi numa noite quente. Depois de beber quase
um litro de cachaça e suar como um porco nos braços de Sirlei que Tirso
ouviu pela primeira vez o choro do nenê. Perguntou a ela de quem era, mas
teve como resposta aquele tipo de silêncio que só as putas são capazes de
fazer. Não deu bola e resolveu levantar. Vestiu seus trapos gaudérios e
saiu pelas ruas de Cacequi, despertando a ira dos cuscos mais zelosos.
Dois dias depois, entretanto, ao ouvir novamente o choro da criança, não
agüentou:
- Isso aqui não é lugar de criança, Sirlei! Vô reclamá
pra véia Oziris! - Não faz isso, Tirso. Se mais alguém reclamá vô te
que imbora! Tô procurando quem queira cuidar dele... - Êta merda...
que tô pra vê puta que não engravide! - Meu caso é diferente! Virei
puta porque engravidei! E agora sai, sai que já perdi a vontade por hoje!
- Humpf! Essa é a história mais besta que já ovi!
No dia
seguinte, Domingo, lá estavam Tirso, Maria e Mãe Velha. A matriarca lavava
pra fora. Cuidava das roupas de cama e de salão dos fazendeiros mais ricos
de Cacequi. Maria separava os feijões espalhados em cima da mesa no patio,
debaixo de uma parreira. Tirso afiava sua faca predileta numa pedra. E Mãe
Velha olhava pro nada, sentada numa cadeira de balanço... fazendo um
frivoletê. Há tempos queria uma toalhinha pra mesinha de canto da sala.
- Onte eu vi uma coza estranha lá na Oziris. - Já te disse que
não quero que tu prozeie sobre tua porquerada de omi aqui em casa, Tirso!
- Mas Mãe... Tinha um bebê lá! - Pobre criança, pobrezinha... De
quem Tirso? Pobrezinha... - Maria! - Mas Mãe, magina...
coitadinha... - Pozé, mas tava eu lá e ovi esse choro. Aí despôs eu
sôbe. Era duma muié lá. Qué dá... porque o nenê chora e a Oziris perde
cliente. - Eu quero, Tirso. Pó trazê que eu quero! - Maria, mas
Maria... Quéissofia... Tu é menina moça, que vão pensá... Mas de jeito
nenhum! - Pótrazê, Tirso. Pótrazê...
Maria sempre foi uma
mulher gentil, carinhosa. E já tinha seus 18 anos, queria casar e ter
filhos. Acima de tudo ter filhos... Como já trabalhava no serviço de
correio e telégrafo da cidade, ganhava seu dinheirito, o que de certa
forma lhe dava alguma autonomia diante da Mãe. Apesar de delicada como um
vaso de cristal, Maria era flor do campo, tinha idéias próprias sobre o
amor e nem mesmo uma ventania como a Mãe a fazia mudar de idéia depois de
tomada uma decisão.
Até hoje não se sabe se por estar bêbado ou
porque sabia da fortaleza que era Maria, que pedia pela criança todo
dia... O que se sabe é que duas ou três semanas depois, Tirso apareceu de
madrugada com a criança. Ainda cheirando a cachaça, esticou os braços para
que Maria acolhece o bebê... Ela abraçou quase chorando de alegria e
perguntou:
- Ela tem nome? - Tirso sorriu e soletrou,
bêbado... É N-e-l-y... Nely hahahahaha... Nely!
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Domingo, Março 19, 2006
Publicado
5:18 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Gala. Garbo. Galante. Garbosa Que noite! 18h. Tudo
inicia com uma francesa - brut, e canapés agridoces. Ritinha foi a
primeira a chegar, uma elegância só. Mimi e Eva a seguir. Acompanhada por
um anjinho com gosto de chocolate, veio Claude. Minha mana Gis já estava
conosco desde às 16h. Pouco depois chegou a cunhada e nossa querida amiga
Tati, a rainha da bossa nova. Tata era um luxo só.
Quantas
recordações, quanto afeto! Por volta das 22h todos haviam partido. Na
cachola pensamentos positivos, no peito - corpo afora, sensações de amor e
carinho. Existem reencontros que são irresistivelmente verdadeiros. Foi o
caso do ocorrido ontem. Nem as dores que me dilaceraram até a 1h da manhã
(fiz quimio na sexta) foram capazes de destruir tantos sabores. Nem mesmo
agora, quando a maldita retorna acompanhada de febre, não posso negar:
- Como é bom estar vivo!
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Segunda-feira, Março 13, 2006
Publicado
9:36 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Merecimento Sei lá, entende? As coisas estão
ficando complexas. De minha parte, dores, morfina, madrugadas insones. Da
parte da minha Mamma querida, desfibrilador, UTI, perspectivas? Hum... A
verdade é que todas as rotinas são abalrroadas por fatalidades físicas. O
psicológico até que vai bem, mas é claro que é muito difícil mesmo assim.
Vivi, por exemplo, a suspeita de uma tuberculose. A pneumonia venci com
calma e sem efeitos colaterais. Mas vamos ao que interessa. As notícias
boas! Chegou a hora e a vez de finalmente receber aqui Claude, Mimi e
Ritinha. Meu plano prevê um final de tarde regado a espumante, morangos e
canapés no sábado que vem. Elas merecem e eu também.
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Sexta-feira, Fevereiro 24, 2006
Publicado
5:08 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Chegou Tenho uma amiga que comprou um carro hoje.
Ela vem aqui pra gente dar uma volta. Quero ver de perto, estou feliz por
ela. Ela quer me mostrar o carro. Está feliz. Daí vamos rodar, rodar até
uma lojinha no Centro buscar meu óculos que deixei para conserto. Pois é,
quebrei. Enfim, estou enrolando aqui enquanto ela não chega. Será que
estou abusando ao sugerir que o passeio tenha a direção do meu interesse?
Ah, sim, a pneumonia está indo embora. Segundo Tata ela ainda está aí. Por
isso continuo dentro de um ciclo da medicação que deixa meu cocô
floquinho, mas não posso beber. Não pude no show dos Stones. Também não,
naturalmente, no do U2. Grande coisa, você diz. Mas não é bem assim,
quanto mais se tem gente em volta não só bebendo e - um prazer
inexplicável - f u m a n d o ... Bom, daí que não é fácil. Me atraquei na
cerveja sem alcool e descobri - sem sacanagem, claro - que a ressaca é
maior do que quando se bebe com alcool. Foi o meu caso ao menos. Como eu
poderia adivinhar que meu instestino - assim, do nada - iria prender os
gases e provocar imensa dor? Olha, ao menos sobrevivi para contar que hoje
retomei a químio. Supostamente isso é uma coisa boa. E as d
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Quinta-feira, Fevereiro 09, 2006
Publicado
7:28 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Borracharia Bem, nem sempre tudo vai mal. A
Ritinha, minha querida amiga dos tempos selvagens na empresa de
previdencia privada que trabalhei durante oito anos na área de
Comunicação, agora assina coluna no site da minha empresa. Ela está dando
dicas para empresários escreverem melhor, já que na vida digital este
fundamento é fundamental. Ela está super contente com a flor do lácio (*)
que estamos regando. Eu também. Nem mesmo a borracharia onde estou meio
estacionado por causa de uma pneumonia foi capaz de me abater. Quer dizer,
mais ou menos, vá lá.
(*) A expressão "Última flor do Lácio,
inculta e bela" é o primeiro verso de um famoso poema de Olavo Bilac. Esse
verso é usado para designar o nosso idioma: a última flor é a língua
portuguesa, considerada a última das filhas do latim, conforme cantou
Camões antes mesmo de Bilac pelas minhas pesquisas. O termo inculta fica
por conta de todos aqueles que a maltratam (falando e escrevendo errado),
mas que continua a ser bela. Aguardemos os comentários de Ritinha sobre o
assunto.
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Segunda-feira, Janeiro 16, 2006
Publicado
5:10 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Solação Na semana passada, fiz quimioterapia,
conforme o planejado. Quer dizer... Houve um incidente. Na sexta, tomei
duas bolsas de sangue antes para amenizar a anemia. Aí o imprevisto...
Como a primeira bolsa levou mais de duas horas para terminar... a segunda
foi injetada com maior velocidade. Resultado: meus olhos incharam, mas
incharam tanto que mal podia ver. A quimio, então, foi adiada para a
segunda-feira. Na segunda, quase curado, tomei a tal. Na quarta e quinta
tive a preguiceira geral... No sábado recebi a turma do Baguete para o tal
churrasco de fim-de-ano. Não fizemos antes de 31 de dezembro por minha
culpa. Acabou não aparecendo muita gente. Mau sinal. Tenho que cuidar
pessoalmente do assunto. Foi um mau sinal. Se bem que duas faltas
atualmente significa mais do que antes, porque o número de funcionários
diminuiu, como planejei, aliás. No domingo aproveitei o sol e me esbaldei
dentro d'água. A noite trouxe alguma febre para a cama, mas bem pouquinho,
nada demais, não chegou a ser uma insolação, no máximo uma solação,
talvez.
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Terça-feira, Janeiro 03, 2006
Publicado
10:08 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Oci Eu rolava pela cama. Pernas cansadas. Cansaço
de pouco mais de uma quadra. Exercício pesado para quem não desfila sua
elegância decadente há já uns bons dias. Mas eu rolava pela cama. Ouvindo
Patti Smitt em transmissão wireless via Rádio Terra. Minutos atrás ela
havia convidado a platéia do Saturday Night Live para ir ao CBGBs no DVD
em tributo ao programa de TV que o JJ me emprestou no domingo. Para que
alguns entendam melhor, o CBGBs era uma espécie de Ocidente de Nova Iorque
nos anos 70/80, isso se ainda não confundo ainda mais a cabeça de
eventuais preconceitos. Em todo caso eu rolava na cama, esperando a
morfina, ouvindo Patti em transmissão wireless... Virei a bunda pro
lado... hey ho! E... Tata ainda avisou... é um! hehehe... é dois...
hohoho! é três!!!! fffffffffffffffffffffffff....doeu, Mommo? Um sinal de
positivo e era isso. Passado algum tempo eu resolvi contar pra vocês sobre
tudo.
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Segunda-feira, Janeiro 02, 2006
Publicado
7:18 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Rumbo al Sur O que dizer? Eu posso sentar na janela
e olhar a vizinhança avançar para o nada. Hoje Tata falou em no futuro
voltar a morar mais ao Centro. Mulheres... nem terminou de decorar a porra
do duplex... E eu não consigo pensar em nada que preste. Estamos afundados
na mais profunda depressão. E o que é pior: sem a companhia de um bom
uísque e um ou dois maços de Marlboro.
Eu bem que poderia pegar o
carro e deixar os pneus queimarem em direção ao sul, ouvindo um cassete do
velho Tom
Waits. Deixar para trás alguns instantes. Recuar no tempo alguns anos.
Ficar distante de tanta desgraça e deixar o braço formar um triângulo da
janela para fora. O vento comendo contra o sol nos óculos escuros. Por
trás das cochilhas talvez ache algum pote de ouro falso. Em Rivera vendem
de tudo! Quem sabe possa comprar algo por lá?
Olho pela vitrine e
leio CARNICERIA. Y recuerdo de los carniceros hijos de puta q jodieran los
brasos de Mamma! Acabaram as veias da Vieja! Inventaram um cateter que
simplesmente não funcionou. E infectou! Van a matar mi Vieja!!
Eu
passei Natal e Ano Novo enganando a mim e todos os demais sobre a profunda
depressão. Dá vontade de vomitar de tão profunda a depressão. Dá pra ver
daqui de cima do duplex quão profunda ela é. Eu fico olhando da cama a
porta da janela que dá para a sacada... Posso contar imaginariamente
quantos passos preciso dar para voar até o primeiro piso. Quantas vezes já
pensei em voar... É de perder a forme! Não dá vontade de comer. Dá
coceira.
Esqueço dos meus remédios duas vezes por dia, o que leva
Tata a loucura. No rádio me contam que a primeira mulher do Pierce Brosnan
morreu de câncer no ovário. Que legal... Ninguém consegue esquecer do
assunto. Pero que me importa ahora sy estoy en mi auto rumbo al sur...
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Terça-feira, Dezembro 20, 2005
Publicado
3:28 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Fracos e oprimidos Tem horas que a gente se sente
um super-herói quando tem uma doença grave. Quando você tem uma doença
grave e administra um blog, então... puxa, vc se sente um verdadeiro super
homem, defensor dos fracos e oprimidos. Mas a verdade é que não passamos
de simples defensores dos frascos e comprimidos, vigilantes dos horários
agendados para a sua ingestão e, no caso dos frascos, da sua integridade
física. O resto é uma restia de exibicionismo.
No dia que escrevi
aqui que tudo estava bem, estava mesmo. Picanha na chapa servida como no
Garota de Ipanema foi o que servi para o irmão do Riva, que sempre nos
recebe bem no Rio, além de me levar pelo menos uma noite no Garota de
Ipanema para nos encharcarmos de chope e comermos a tal picanha na chapa.
A piscina ali do lado a disposiçã. Mamma passando bem...
Profissionalmente, organizei um seminário com quatro painéis, que se não
foi um sucesso de público em termos quantitativos certamente foi em termos
qualitativos. Tinha só formadores de opinião lá. Isso tudo aconteceu em
uma semana. Cronograma: Na sexta, fiz quimio. No sábado, festejos com o
irmão do Riva. No domingo... febre... eritêmas nodosos no braço (caroços
duros e avermelhados), dor aguda no peito quando respirava fundo! No meio
da gemedeira, ligamos para Dra. Mônica... e eu, já delirante, aceitei, sem
muito custo, o que não quero nunca, uma internação pra matar a saudade.
Enquanto isso, Mamma regride. Precisou fazer hemodiálise, o que
para ela é uma tortura. Como eu, tem veias finas por causa do excesso de
medicação. As fistulas que ela é obrigada a fazer para a hemo passam a ser
sessões de tortura, portanto. Tanto que depois de inúmeras tentativas,
optaram por colocar dois canudos, um em cada veia do pescoço, para iniciar
as várias sessões que ela teve de fazer durante a semana. Chegou a perder
a razão certa noite, a tadinha. Minha irmã Zele chegou a ficar assustada.
Agora, a expectativa: se ela será capaz de se recuperar para passar o
Natal em casa ou não. Eu já estou em casa desde domingo e com o
diagnóstico na mão: líquido na pleura, infecção por bactéria ou fungo,
aguardamos por exames de campo para saber que antibiótico vou usar. Por
enquanto, tô tomando um outro qualquer.
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Sábado, Dezembro 10, 2005
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Sexta-feira, Dezembro 02, 2005
Publicado
8:25 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Nada de novo no front Os longos silêncios do blog
são necessários. Porque eles significam paz. Não há o que contar. Falar de
picadas e roxos nos braços, coxas, barriga e anca por causa da morfina de
quatro em quatro horas não provoca muita emoção. Aliás, se fosse na veia,
ainda teria alguma. Subcutâneas não dão barato. E eu sei, o que vocês
querem é emoção hshshs... Estamos todos concentrados na Mamma, que deu
baixa no hospital porque estava retendo líquido demais. Na minha
imaginação cheguei a temer que do umbigo jorrasse um chafariz. Por sorte,
não precisará de hemodialize permanente. Apenas algumas sessões. Sei
também que terá de implantar um tal de tip, mas não sei ainda nem como se
escreve nem como funciona. Não tenho ido muito no hospítal, apenas
telefono, porque ela está muito triste e o pessoal acha que eu não devo
ser contaminado por isso. Eu também. Embora já esteja mesmo assim. Me
sinto culpado por não ajudar em nada. De resto, eu e tata abrimos a
temporada da piscina. Estamos testando. Em breve alguns poucos poderão
molhar as pernas na piletinha. Em toco caso, é pequena mas é minha!
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Segunda-feira, Novembro 21, 2005
Publicado
10:40 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Junkie Certa manhã liguei para JK ao prantos,
pedindo que viesse em nossa casa para aplicar morfina nas veias, porque
simplesmente não aguentava mais de dor. Ele chegou aqui com Zeda, encontou
uma espécie de Sid & Nancy santanense. Tata descabelada, estressada,
cansada, enraivecida; eu nú, chuveiro ligado, sentado no Wanderley Cardozo
há quanto tempo? Estiquei o braço, apontei o dedo para as veias véias e
supliquei: - Tira a dor, JK, tira a dor... Foi o que ele fez. Tudo passou
quando saí do banho. Encontrei sorrisos no quarto. Dormi. A semana já
tinha sido infernal. Quando acordei, de bom humor, ainda insisti para que
almoçassemos num clube náutico, à beira do rio, a pouca quadras daqui.
Tudo escondido de Dra. Mônica, que queria me internar para exames, estava
tâo preocupada com a febre que eu tinha quanto com as dores. Eu estava
plaquetopênico ainda por cima - e eu lá sabia que plaquetas tinham pênis!
- ou seja, qualquer queda ou sangramento - mesmo involuntário, se interno,
provocaria uma hemorragia complicada de tratar, enfim. Ela já tinha
acertado tudo com Tata quando entrei na jogada e tentei um acordo: se
tivesse os sintomas novamente, faria as malas sem reclamar. Do contrário,
que me deixasse em casa.... Desde então tive algumas dores, mas nada
demais. E as febres tenho conseguido controlar. Um exame para cultura foi
feito e nada foi encontrada. Febre tumoral? A dor foi resolvida com
morfina de quatro em quatro horas. Primeiro Tata aplicava, foi divertido e
tenso muitas vezes. Agora eu mesmo estou me aplicando. Na barriga, pernas,
braços, ainda não fizemos na anca. Fazemos rodízio sob recomendação de
Zeda, pra não judiar da pele como os caras da EccoSalva ou EcoSalva. Ugh!
Por falar neles, não contrate! Fiquei com a impressão de que os médicos
eram enfeirmeiros e os enfeirmeiros eram médicos. Fizeram muitas
barberagens nas minhas veias (isso é um elogio ao enfermeiros e de certa
forma aos bons médicos, se me expressei bem). Afora essa fase de agulhas e
pavor, tudo vai bem... Também tomei algumas bolsas de sangue para ficar
mais forte. E consegui cumprir mais uma etapa da químio. Em breve encaro a
terceira.
Escrevam! Me faz muito bem ler os comentários.
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Sábado, Novembro 05, 2005
Publicado
1:13 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Osso dolorido de roer As últimas semanas foram
complicadas. Minha agenda profissional estava altamente positiva. Eu tinha
uma palestra para fazer. Minha empresa formalizou a entrega de notícias
publicadas digitalmente para um Museu num evento que reuniu praticamente
todas as lideranças empresariais e políticas do segmento em que estamos
inseridos. E ainda reuní num café da manhã os patrocinadores da minha
coluna no jornal (já contei aqui antes) com a direção do impresso. Todos
os eventos eram pela manhã. E em todos os dias eu tive dores lancinantes
nos ossos. Afora os dias em que tive simplesmente dor, sem eventos para
piorar a situação. A salvação passou por morfina. Meia ampola, por vezes
uma inteira. Aplicadas sempre sob tensão por Tata depois de aturar longas
horas de gemidos e até gritos de dor. Dóem, por vezes isoladamente, outras
vezes em conjunto, a caixa torácica, a junção dos ombros, os joelhos, a
virilha, o fêmur. Não consigo me levantar sem gritar de dor, girar o corpo
na cama já é quase impossível. Foi também por esse motivo que resolvemos
contratar uma empresa de serviços ambulatoriais para casos de emergência.
Tata e eu logo vimos que, naquele estado, se eu precisasse ser
transportado para o hospital, ela sozinha não conseguiria me carregar.
Também serviria para aplicações de morfina ou outros medicamentos na veia.
O serviço acabou se mostrando insatisfatório em vários aspectos. Demora no
atendimento e profissionais aparentemente despreparados foram alguns dos
aspectos notados. O incrível de tudo isso, entretanto, é que aplicada a
morfina, as dores somem e passo o dia ou dias sem ter qualquer sintoma.
Caminho, escrevo, dirijo, tudo normal.
Por que eu tenho dores? Não
sei. Eu defendo a tese de que, ao retirar a cortizona e diminuir a
metadona, passamos do limite. A cortizona tudo bem, tinhamos que tirar o
quanto antes porque segundo a médica ela enfraquece ainda mais os ossos,
podendo acelerar as conseqüências do tumor. Já a metadona talvez
devessemos voltar à dose anterior. Mas o mais grave nâo são as dores. O
mais grave é que estou tendo dificuldade para fazer as aplicações de
quimio. Ela foi mais uma vez retardada porque estava com as plaquetas em
nível muito baixo. Também as hemácias, o que me deixou alguns dias
ofegante, qualquer movimento um pouco mais brusco era como se tivesse
corrido dez metros em toda velocidade. Para completar, comecei a ter
frebre de 39, 40 graus pela manhã. Dra. Mônica receitou um antibiótico que
parece não estar fazendo efeito. Na última crise de dor e febre, ela
resolveu me internar, decisão tomada ao telefone com Tata. Eu não queria
de jeito nenhum e negociei para ficar em casa com a condição de que se eu
tivesse febre novamente deveria ir para o hospital sem discussão. Tomei,
no dia seguinte, mais duas bolsas de sangue. E foi feita coleta de sangue
para exames em cultura para identificação do vírus ou bactéria (sei lá)
que provocou essa infecção. Desde então tive febre mais duas vezes, mas
consegui baixar com Tylenol e um bom banho. Esperamos o resultado para
segunda-feira, quando - finalmente - iniciaremos o tratamento com o
antibiótico correto. Comentários:
Publicado
12:57 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Danuza Recebi um e-mail surpreendente. Vou chamar a
moça de Danuza. Fiquei realmente emocionado com seu relato.
Antes de qualquer coisa gostaria de saber como vc está! Vi e li
o seu blog hoje...04/11/05. E, sinceramente, nem eu conseguiria relatar
com tanta precisão tudo o que tenho passado até agora. Deixe-me
apresentar: Sou Danuza, tenho 27 anos, moro em Recife e também sou
portadora de carcinoma de rinofaringe. Quando comecei a ler teu relato
parecia que quem tinha escrito aquilo alí tinha sido eu... senti os mesmos
sintomas que vc, perdi audição do ouvido direito, fui a um otorrino... e
tudo aquilo que vc falou. Tive metástase cervical bilateral, foi quando
foi feita a biópsia e foi diagnósticado... carcinoma. Entrei no mesmo
ciclo de cisplatina associada à radio. Fiz 67 de radio e 3 de quimio.
Passando essa fase fui também para cisplatina associada a fluoracil.
Ficava 4 dias internada e 21 em casa. Teria que fazer 3 sessões desta, mas
tive reação a medicação. Desmaiei por duas vezes, então este tratamento
teve que ser suspenso. Fiz apenas 2 sessões. Foi quando a junta médica
resolveu fazer taxol com carboplatina... fiz 3 sessões desta, e perdi
todos os pêlos do corpo. Terminando esta fase fiz a ressonância e foi dito
a mesma coisa. Achavam que o que tinha não era mais doença e sim fibrose (
cicatriz ). Mas para ter certeza eu teria que ser avaliada. Recebi alta e
feliz da vida voltei a minhas atividades... meu trabalho, minha vida
normal. Um mês depois apareceu um tumor em meu abdomen.não senti dor, não
senti nada... apenas aquela massa crescendo. Entrei em desespero e liguei
para minha médica. Ela me tranquilizou e falou que não era comum um tumor
de rinofaringe ter metástase no abdomen. Mas solicitou uma biópsia. Fiz e
hoje tenho o resultado... metástase de carcinoma de rinofaringe. Entrei em
desespero... achei que o mundo ia se acabar. Mas agora estou confiante e
com muita esperança de que tudo dará certo. Estou esperando recomeçar o
tratamento. Acredito que na próxima semana. Fico por aqui aguardando
notícias suas... espero que estejas bem!
Comentários:
Sábado, Outubro 22, 2005
Publicado
12:43 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Plaquetas que dizem sim Minhas plaquetas devolveram
a mensagem positiva que minha mãe tanto rezou: 74 mil, mais do que os 66
mil da semana passada. Meus médicos queriam dar reinício já ao tratamento
na quarta da semana anterior. Eu que adiei para ganhar mais um tempo e
porque quero cumprir as aplicações apenas nas sextas. Assim posso me
preparar para os efeitos colaterais nos findis, com repouso e muita água
para eliminar os resíduos e tudo o mais. Mônica e Senna estão no Rio,
supostamente em um congresso. As enfermeiras, diante do resultado,
consultaram o médico de plantão e o cara simplesmente disse: melhor
preservar o rapaz. Obviamente aquilo provocaria certa insegurança no
paciente e seus familiares. Não foi bem assim conosco. Estávamos convictos
de que aquilo era mais do que suficiente. Quer dizer... da minha parte já
estava indo embora, mas Tata, inflexível, tomou a frente das negociações e
reafirmou os planos de Senna e Mônica. A enfermagem tenta ligar para
Andrea, mas é claro que no meio de uma palestra ela não atenderia a
clínica, que provavelmente queria o aval para alguma coisa burocrática
qualquer. Agora, se um paciente liga, bem, aquela doutora não é
negligente, isso não é. - Alô (meio sem saco). - Oi, Andrea, é Enrico. O
resultado foi 77 mil, posso fazer? - Claro! - O pessoal aqui da enfermagem
não quer autorizar, podes falar com elas? - Sim, claro. Blablablablala e
lá fui eu pro quatinho tipo hotel de 2a divisão, me sentei, furaram a pele
pra injetar o químico e correu tudo bem. Eu e Tata já estamos deixando
nosso home theather agora e pretendo me dedicar, nas próximas horas, à
leitura, enquanto meu amor tentará resistir ao sono à frente da TV Globo
por cerca de meia hora e capotará, resistente.
De novidade
sessão-horror, tenho coisas para contar, MÁS BÁ SE NÃO! Na quarta assisti
o jogo entre Colorado e Boca Junios, vencido pelo Inter aos 48 minutos,
jogo típico de clássico sul-americano. Sensacional! Não importa o que
aconteça, deixamos os argentinos loucos no final, o goleiro deles, da
seleção deles, ficou tão perturbado que foi expulso depois do jogo já ter
terminado (o que é possível, senhoras!). Enfim, fora de série! Fiz um
churrasquinho salgado pro pai (errei no sal pela segunda vez esse mês,
estou puto!) e fui dormir feliz da vida. Por volta de 3h da manhã uma dor
começou de um jeito atroz. Com toda a força! Meia hora depois todo o
corpo, todo o corpo doía muito! Não era possível mexer o braço, as pernas,
tentar sentar na cama era o suplício do suplício, comecei a gemer, Tata
acordou e foi ficando tão desesperada quanto que eu. Começamos a
administrar os remédios: Tylex, Metadona, mais um Tylex, depois um
Ultraset e mais outras coisas que não lembro, mas nada... as dores
aumentando, os gemidos viraram urros... E é claro que comecei a me
contorcer, porque não existe posição possível quando se está assim. E a
cada movimento, maior a intensidade! Olhei pra Tata e disse a palavra
mágica: Morfina! Ela aplicou na minha barriga (era a primeira vez que
fazia isso na vida). Não adiantou muito. E daí, sabem como é Tata, ela
respeita as regras. A doutora tinha dito, meia ampola e espere duas horas
até a próxima aplicação. Bem, não havia negociação. Daí - com a
continuidade da crise - chamamos a Eco-Salva, serviço de atendimento em
casa, porque Tata queria me levar pro hospital, e eu tive que ser o mais
claro possível: - Eu não vou e não consigo me mexer sem sofrer. Chame os
caras aqui em casa e eles que elimem minha dor sem que a gente entre num
esquema mercenário e burocrático! Eles vieram e quando souberam da morfina
respeitaram as regras também. Injetaram Tramal ou coisa parecida. Dormi
por duas horas, nem vi eles partirem. Acordei com a dor ainda mais forte.
Chamei então JK aos prantos, isso já era algo em torno de 9h da matina. O
cara foi muito gente! Largou tudo que estava fazendo e não sei como
atravessou a cidade em menos de 40 minutos, aplicou uma bela dose de
morfina que cheguei a dormir de língua de fora. Acordei não lembro mais
que horas e estou normalzito nomáz desde então, como se nada tivesse
acontecido. Isso enlouquece qualquer um, sabem? Porque realmente não tenho
qualquer resquício de dor.
Por mérito, criatividade e senso de
oportunidade, hoje tive mais uma realização. Entreguei todas as notícias
que o meu site sobre tecnologia publicou desde a sua fundação para o Museu
Hipólito José da Costa. Agora, a vida profissional de muita gente e a
história das empresas do mercado local estão mais do que preservadas:
poderão ser pesquisadas por quem quiser contar um pouco do que pensavam os
empreendedores da época atual. Foi um lance genial, num evento simples mas
bonito, realizado num almoço onde boa parte das personalidades do segmento
estavam presentes. Profissionalmente, aliás, as coisas vão muito bem
obrigado. Caiam fora urubus, já estão ocupados demais com a minha saúde!
Por favor! Eu mal compareço na minha empresa. Quando consigo fazer algo
tem que ser legal. Então, vão cuidar de suas vidas, secadores!
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Sexta-feira, Outubro 14, 2005
Publicado
12:10 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Queda Livre Na terça consultamos com Dr. Senna.
Depois de muito tempo ele compareceu. Estávamos num impasse. Porque minha
medula arrepiou e mais uma vez não pude fazer a quimioterapia mais leve
disponível porque meu nível de plaquetas está baixo. Dra. Mônica ainda
pensou em tocar ficha e azar! Mas a minha experiência de empresário e ser
humano com dois anos de experiência em câncer na rinofaringe aprendi que o
bom senso tem de acompanhar as decisões. Senna entrou na sala e com toda
segurança defendeu que deviamos arrumar a casa. Dar um tempo no tratamento
para ver se as plaquetas reaparecem por si, porque também não tem outro
jeito também. Elas não vem quando a gente chama. Não existe jeito de
mandar recado. Muito menos de obrigá-las a qualquer coisa. Ou elas vem ou
não vem e pronto. A medula é quem decide. Então, vou esperar pelo menos
duas semanas e nesse meio tempo melhorar a força das pernas e também o
quilate dos ossos através de medicação e banana.
Na mesma
terça-feira caí um tombo de assustar. Duas pessoas me acompanhavam depois
de uma reunião. Atravessávamos a rua. De repente, não mais que de repente,
um carro em alta velocidade. Todos tivemos o instinto de dar uma
corridinha: tsk, tsk... Meus amigos foram em frente, eu apenas pensei em
fazer o mesmo, mas mal tive tempo de dar meio passo com a perna esquerda e
meio passo com a direita e comecei a desabar... simplesmente porque minhas
pernas pesam toneladas em certos movimentos... e fui caindo, caindo, vejo
tudo meio em câmera lenta agora... talvez na hora também... tanto que
pouco antes de cair ainda disse: porra, q merda! e bloffff!!!! Ainda
consegui rolar na expectativa de diminuir o impacto, reação ainda dos
tempos de infância... uma rolada apenas e consegui virar o pescoço para
procurar o carro... que - por prudência do motorista - notou minha queda
bem antes, bem antes... estava longe... Fui levantado, constrangido eu
esboçava um sorriso... Dois dias depois e tem gente que me liga porque
soube da queda... deve ter causado impacto em quem assistiu! Eu tive
apenas um raspão no cotovelo... Mas faz pensar sobre situações possíveis
como: E SE EU TIVESSE FEITO A QUIMIO E TIVESSE IDO NESSA REUNIÃO?
CERTAMENTE ESTARIA COM HEMORRAGIA INTERNA E/OU COM UM BRAÇO QUEBRADO. A
mente não mente. E pensa, como pensa....
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Domingo, Outubro 09, 2005
Publicado
9:58 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Ululante O que não parece estar bem é minha
postura. A transição do herói que luta para vencer o perigoso câncer para
o ser humano que precisa controlar a doença pelo resto da vida ainda não
passa de uma transição e suas consequencias, ou seja, ainda estou no
período frágil em que se investiga afinal de contas como enfrentar isso.
Ulula o óbvio de que a postura deve ser a de viver o dia-a-dia e pronto,
mas não consigo parar de ver imagens terríveis sobre o futuro. Tudo indica
que finalmente eu deveria entregar a tarefa para profissionais. Mas
sinceramente o que me trava - possivelmente além do medo - é ter que
mergulhar em determinados assuntos que só provocariam mais desgaste. Ou
então tomar atitutes conclusivas que na verdade já estão prontas,
esperando apenas a ação, apesar de dolorosas. Não sei o que é, prefiro que
não me digam ou interpretem. Mas pode ser birra, medo, falta de
paciência... Ah, sim. Falta de paciência, total... Ando mal humorado,
negativo, enérgico, chato, intolerante, agressivo, algo grosso,
silencioso. Coisas que normalmente me irritam como garçons sem visão
periférica, incompetências, desatenções mínimas exigidas de um ser humano,
respostas irônicas, tudo isso está multiplicado por dez. Vou aguardar mais
um pouco e pesar sobre o que vou fazer. Tata ironiza com Dra. Mônica sobre
minha resistência a terapia dizendo que eu não tennho inconsciente. Diz
que eu nego! É? Comentários:
Publicado
9:51 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Sangue bom No final das contas resolvemos que não
iriamos mais pra Espanha. O assunto virou, naturalmente, um campo de
stress e, sem traumas, optei por não ir e ainda em tom heróico disse para
a médica que optava pelo tratamento, porque ele teria que ser interrompido
para garantir que eu fizesse a viagem com menos riscos. Isso já tem três
semanas ao menos. Dias atrás, na consulta, optamos por parar o tratamento
de igual sorte, porque não tenho plaquetas suficientes de novo para tomar
a mais fraca - em termos de efeitos colaterais - das medicações que estão
previstas que eu tome para ver se encontro alguma que controle o avanço da
doença. Não significa que por isso eu deveria ter optado por viajar,
porque realmente tomamos a decisão certa na perspectiva da segurança. Mas
é desalentador saber que os quase dois anos de tratamento começam a
mostrar as suas verdadeiras consequencias. Minha medula já está produzindo
tão pouco que meu sangue vale pouco na bolsa. Minhas ações pouco valem no
momento e então é preciso investir em novos mercados como diria o Enrico
colunista de jornal centenário. Na terça, tomo mais uma bolsa de sangue.
De novo, correndo o risco eventual de pegar uma porcaria pelas veias. Pelo
menos é o que eu penso, contrário a tudo que os médicos, enfermeiras e
pessoas próximas dizem sobre a qualidade do sangue que eu recebo. De
qualquer sorte, não dá para negar, abandonei o mundo das imagens e estou
concentrado na leitura desde que passei a vampirar. Leio pelo menos quatro
jornais por dia de cabo a rabo e ainda estou com todos os 10 livros mais
vendidos no Brasil espalhados pela casa: banheiro, quarto, sala,
escritório, enfim. Da ficção ao real, estão todos a mão. Devoro tudo com
prazer.
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Sábado, Outubro 08, 2005
Publicado
8:25 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Judiação Como diz o Millor, quem é vivo sempre
desaparece. Não vou nem me perdoar. Nem me desculpar. O mundo veio acima.
Caí de joelhos. E os ossos, doem! Doem ossos para o Enrico!
Sabem
qual o país que eu mais desejei visitar na vida? Espanha. Pois recebi um
convite para cobrir um evento na Espanha, sou jornalista, caso alguém
tenha preguiça de ler o blog inteiro para entender a frase. E fiquei 24h
em pane, sem falar nem para Tata, porque achei que estava recebendo um
presente dos céus... E que talvez alguém lá em cima, que bobagem,
estivesse me presenteando com tudo que eu queria em vida para terminar de
uma vez com minha existência. Isso porque dias atrás tinha aparecido a
oportunidade de assinar uma coluna semanal de página inteira em um jornal
local de grande circulação, da área de economia, centenário, uma honra,
enfim, que eu topei, obviamente, e que, profissionalmente, significa um
segundo patamar, um novo nível, já que até então eu militava na imprensa
digital, algo ainda um tanto, digamos, alternativo. Então, como estava
dizendo, 24 horas depois, eu tive coragem e contei pra Tata e depois fui
contando pras outras pessoas. Liguei pra agência de viagens responsável,
comecei a correr atrás da papelada. Decidimos que iríamos juntos, depois
passaríamos em Paris, o lugar que tanto minha querida sempre sonhou em me
levar. Ela já esteve lá e acha que eu iria adorar Mont Martre. Iríamos
juntos por isso, mas também porque nem Tata nem eu conseguimos mais nos
imaginar com um oceâno de distância. Não só pelo amor, mas também porque
não saberíamos o que fazer se acontecesse algo comigo de uma hora pra
outra e não tivessemos o apoio mútuo que acostumamos a nos dar. E se eu
fosse hospitalizado por um motivo ou outro? O que faria eu sem Tata? Como
Tata reagiria sabendo disso no Brasil?
Dois ou três dias depois a
gente teve uma pequena idéia do que seria. Interferência divina de novo?
Quatro horas de dor calcinante, ininterrupta, acachapante, supostamente,
na hora, definitiva, como se houvesse algo definitivo na vida. E dê-lhe
medicação disponível, desespero, rolando no chão, gemendo, sem ar, sem
saliva, eventuais gritos, discussões, sussurros de "meu amor", "vou
morrer", "eu que deveria estar sentindo isso", "meu Deeeeus", "que
horroor", "me leva, me leva", "não aguento mais, por favor", "vamos pro
hospital", "Nãoo, Nãooo". Fomos. Lá, na emergência, depois de uma série de
exames, ficou constatado que o ´nível das plaquetas do meu sanguinho era
tão baixo que se eu caísse, tivesse algum pequeno sangramento interno,
isso causaria um dano fatal, porque meu sangue simplesmente não
coagularia, eu teria hemorragia interna e provavelmente morreria. Então,
amigos, foi recomendado que eu deveria ser internado! Sim, internado. Pra
mostrar bem os riscos de uma viagem pra Espanha, não esqueçam...
Trocamos de hospital, porque aquele a gente estava usufruindo
apenas para casos de emergência, afinal é o mais perto de nossa mansão. O
que confiávamos, ficava perto do nosso antigo apêzinho, aquele onde a
nossa vida não tinha qualquer glamour, mas ao menos era eterna. Chegamos
lá e fomos para a emergência, porque não havia quarto disponível, não
havia quarto disponível. , não havia quarto disponível, não havia quarto
disponível, não havia quarto disponível, não havia quarto disponível, não
havia quarto disponível, não havia quarto disponível, não havia quarto
disponível, não havia quarto disponível, não havia quarto disponível, não
havia quarto disponível, não havia quarto disponível, não havia quarto
disponível, não havia quarto disponível, não havia quarto disponível, não
havia quarto disponível, não havia quarto disponível, não havia quarto
disponível, não havia quarto disponível, não havia quarto disponível, não
havia quarto disponível, não havia quarto disponível, não havia quarto
disponível, não havia quarto disponível. E foi mais ou menos esse o número
de vezes que ouvimos de enfermeiras, chefes de enfermagem, médicos,
auxiliares administrativos, sei lá mais quem. O quarto era minúsculo, sem
banheiro, e eu - imunodepressivo - sem poder sair de lá, com dificuldade
para ir aos pés, quiçá para ir a cura, caguei durante dois dias num
troninho parecido com uma cadeira de rodas, porque, sim, porque por dois
dias, argumentaram que não havia quarto disponível. A coisa foi ficando
insuportável, fui perdendo a razão, Tata o controle, eu também, a família
sem saber o que fazer, de repente uma discussão irrompe, interrompe a
civilidade com que haviamos tratato o tratamento que nos davam e daí
comentei com Tata que ela devia fazer plantão na área administrativa para
conseguir um quarto, ela - claro - não aceitou a tese, que considerou como
crítica; "Afinal, estava ali cuidando de mim". Liguei então para Geisel,
botei a boca nele, dizendo que deveria estar lá resolvendo isso, que eu
não suportava mais defecar no próprio quarto, o que diabos ele estava
fazendo em casa se eu estava naquele estado! E mandei tudo à merda também
e comecei a berrar por socorro, que eu exigia um quarto decente, que não
merecia cagar na frente da minha família, que aquilo era uma pocilga, que
eu não era um PACIENTE, que eu era um CLIENTE! Eis que a enfermeira
adentra o quarto, "mas o que houve?" "Houve que eu quero alguém da
administração aqui em 15 minutos ou vou-me embora e se cair aqui dentro
deste dito hospital processo vcs por maus tratos!" "Calma, senhor, já vem
alguém aqui" E eu segui urrando e berrando e de certa forma me dando conta
de que a partir de um determinado ponto eu já estava fazendo teatro,
porque já sentia que a gritaria toda tinha efeito, mas não podia parar
mais afim de que algum efeito positivo tivesse e tudo indicava que ia ter
mesmo, até que alguém realmente veio e em 15 minutos Geisel apareceu,
chegou a sorrir, porque eu já estava numa maca de rodinhas, sendo levado
por cinco enfermeiras para um quarto amplo, com vista para o Rio Guaíba,
banheiro impecável, cama para acompanhante, sala de estar, tv a cabo, um
hotel cinco estrelas, enfim. Mazéin? Fiquei cinco dias por lá e continuei
com dificuldade para defecar e com dores horríveis e com baixas plaquetas,
mas tomando morfina, que não é grande coisa dependendo da enfeirma que a
aplica. Se no final não for dado um jato mais fortinho via ampola ela tem
pouca graça. Por outro lado, se entrar com mais força no final o mundo
fica lindo e maravilhoso por alguns minutos. E se vc dormir logo em
seguida nem se importaria se na verdade fosse a morte.
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Domingo, Setembro 04, 2005
Publicado
11:21 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Urubuzada gracias Obrigado, urubus! O domingo foi
fenomenal. Tom Gil, Lee e SUol, HAL e seu filho HALambics e sua esposa
Virtuosa, Tatibitati, violão, churrasco, vista pro Guaiba, lareira, muito
amor, batispapus. E Tata... e doces... um com bizzz booooom..
Comentários:
Sábado, Setembro 03, 2005
Publicado
11:40 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Saiam de mim Diminuímos a medicação sob orientação.
Esqueci de tomar nos horários alguns dias. Achei que estava são. Agora,
tudo voltou a ser um inferno: dores, discussões, stress. Urubus, vão
curtir a vida noutro ombro e me esqueçam por pelo menos uma semana!
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Quarta-feira, Agosto 31, 2005
Publicado
11:19 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Legaaaaaaaall Não, sério, foi de ficar meio assim
como os desenhos animados da propaganda da escola de inglês! A gente deu
uma fujida lá pra Ana Rech, um bairro de Caxias do Sul, sabe? E num hotel
muito tri desmanchei na tal banheira de hidromassagem, almoçamos na
tradicional Alvorada, fui o mais romântico que consegui na minha
existência e ainda terminamos o fim de semana comemorando o niver da minha
querida sobrinha e novelo de lã Polly na sua mansarda. Mal consegui me
deliciar com as massas espetaculares preparadas pelo orgulhoso papai JJ,
porque no café enlouqueci com os pães maravilhosos da Serra. Porto Alegre
merece uma padaria ao menos com maravilhas como aquelas. Porque se tem, eu
preciso conhecer urgente!
Hoje fiz a primeira quimioterapia na
clínica nova. A Dra. Mônica fez alguns exames, um tanto burocrática e
sonolenta como o dia de hoje (muita chuva e frio: escrevo de frente para a
lareira). Também, como sempre, apareceram novidades. Os efeitos colaterais
que não existiriam se transformaram em cansaço por uns três dias. Tudo
bem. Azar. Mas calculei rápido que se o processo se repete toda semana
passaria quase 50% do tempo abatido de novo. A resposta também foi a que
vocês estáo acostumados a ler por aqui: cada pessoa reage de um jeito
diferente.
De resto, tudo foi muito demorado, aos poucos fui
perdendo o humor. Muitas visitas durante a aplicação, uma nutricionista,
uma psicóloga, Tata me acompanhou, porque o sistema é diferente, lá é
permitido, e fico num quarto individual, tipo hotel, com som, TV,
revistas. Apesar disso, por incrível que pareça, eu estava já estava de
saco cheio, o que levaria uma hora e meia acabou levando mais de quatro
horas. Meu humor foi pro espaço por isso e por voltar ao ambiente de
tratamento, sei lá, ainda náo avaliei direito.
 
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Segunda-feira, Agosto 22, 2005
Publicado
11:24 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Hemácias Deviam ser de atleta as hemácias que
recebi. Minha mãe é transplantada e vive hoje graças a solidariedade de
alguém. Já eu... Bem, estou com um apetite sensacional, disposto, consigo
subir e descer dez degraus de escada sem ficar ofegante, minha voz
estabilizou, meu ouvido melhorou, tenho cor! As pessoas não gostavam de me
falar. Mas eu estava cinza! Essa é - aliás - a descrição de Tata, só agora
confessada.
Na noite de quinta para sexta tive dores terríveis de
madrugada. Ainda ontem comentava com Tata. Por vezes fico incrédulo com o
que estou vivendo, mesmo quase dois anos depois do diagnóstico. Mas isso
pouco importa. O que veio depois foi um domingo fantástico. Acordei
disposto às 7h da manhã, o que é praticamente inacreditável para os
padrões dos tempos recentes. Assei um belo dum churrasco para meus pais e
meus sogros. Depois recebemos uma sequencia de visitas regada a bolinho de
arroz, bolo de fubá, chás, chimarrão, cervejas com e sem alcool, etc. Foi
sensacional receber tantas calorias para o organismo e para a alma.
Para encerrar, quero elogiar a elegância do nosso amigo Dr.
Marquez na minha última sessão de rádio. Comprometeu-se de passar o
relatório das rádios e de tudo que fez para o meu novo médico. E, claro,
me deu um belo aperto de mão. Recebi abraços de todas as gurias da rádio.
E vi de longe minha querida companheira de quimio, Sheila.
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Terça-feira, Agosto 16, 2005
Publicado
11:34 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Nova aerodin?mica A consulta foi exatamente como eu
esperava. Cheguei a ter a sensação de que já tinha vivido aquilo. O lugar
é um tanto labirintico, um prédio estreito e pouco iluminado naturalmente.
Mas a simpatia comum em clínica contra o câncer já foi percebida na
tiazinha que atendeu a mim e Tata na portaria. Tipo... viu um careca
'"óóóóóóó cliente novo!" hahahaha. E acho que foi assim mesmo. Não houve
atrasos, mas nas primeiras consultas é sempre assim, ou não? Tanto faz.
Fato é que fomos atendidos primeiramente pela Dra. Mônica, que anotou todo
o nosso tenebroso histórico. Elogiou nossa organização. Muito simpática e
bonita. Gostamos da postura. Tata comenta que ela foi simples, direta, deu
o tom certo para cada coisa que contávamos. Depois de cerca de 30 minutos
de conversa, ela nos informou que faria uma reunião com Dr. Senna. Vale
lembrar que pesquisamos bastante sobre ele na Internet e, portanto,
tenhamos uma idéia do que iríamos encontrar, inclusive fisicamente. Tudo
se confirmou. O cabelo é realmente aerodinâmico. E a timidez passa longe
do cara, que deve ter a mesma idade de Dr. Marquez, um tímido esforçado.
Esclarecemos a nossa intenção. Queríamos uma segunda opinião, uma
outra proposta de tratamento e um horizonte de medicamentos mais amplo.
Foi exatamente o que nos convenceu a iniciar vida nova. Porque foi
exatamente o que Senna nos propôs. Na quinta-feira já transfundirei. Uma
hora e meia injetando pelo menos duas bolsas de plaquetas. "Tu já tá
batendo biela, daqui há pouco desmaia na rua, não podes ficar nesse
estado, isso prejudica tua saúde, portanto, teu tratamento". A proposito
passa pela mesma base de diagnóstico da outra clínica e seus técnicos: meu
caso? grave, perdemos o controle da doença, no momento ela é mais forte do
que eu, então, temos que continuar lutando, mas sempre pensando em
qualidade de vida. Os químicos propostos por Dr. Rocha foram considerados
agressivos demais pra minha fase atual. "Existem soluções com os mesmos
15% de chance de resultado que por outro lado causam bem menos efeitos
colaterais. O Hirinotecano e o Docetaxel provocam uma diarréia infernal,
além do mais vais continuar anêmico. E essa radioterapia? Por causa de um
nódulo? Eu suspenderia!" Eu e Tata, aliás, temos que decidir quanto a
isso.
O diagnóstico, entretanto, não alterou. Nem eu esperava
tanto... Mas o fato é que agora sou assumidamente o portador de uma doença
crônica. O objetivo do tratamento tenta controlar sua expansão, diminuir
sua ação. Mas só um milagre ou uma medicação nova, o que não deixa de ser
um, pode virar a coisa em direção a uma cura. Temos que buscar agora
prolongamento e melhor qualidade para a vida. E tratar, tratar, mesmo que
com intervalos, seguir tratando, sempre, sempre tratando. Isso significa
cuidar bem da alimentação, do sono e, principalmente, dos ossos. Ainda não
são de vidro, mas poderão ficar. As dores virão, serão fortes, terão de
ser tratatadas com rádio localizada. E depois de matar as células ruins,
concentrar na calcificação via químicos e nutrição.
Foi uma boa
consulta. Estou me sentindo melhor. Vamos ver como será receber sangue
alheio. Nunca fui chegado em vampiragem.
Ah, pra encerrar. Quatro
pessoas confessaram que ficaram com inveja da nossa viagem pra Paris.
Decidimos trocar pra Ana Rech, parem de nos secar!
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Domingo, Agosto 14, 2005
Publicado
2:19 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Amelie Moro num bairro diferente faz alguns meses.
Vai completar, se já não completou, um mês que meu escritório mudou de
endereço. Não tenho problemas alarmantes afora o mesmo enorme e monstruoso
há dois anos. Vejo pouca gente que costumava ver todos os dias, no mínimo
duas vezes por semana. Por um inexplicável problema, essa semana recebi
e-mails de 2003/2004. E, entre 75, um se destaca porque não consigo
identificar a data. Não sei se veio do passado ou do presente. A verdade é
que mal bebo. Fumo como quando guri, com tocos imaginários. Encho e
esvazio o pulmão com ar apenas. Não vou a bares. Continuo adorando
restaurantes. Ouço mais música, ainda em quantidade insuficiente,
infelizmente. Por impulsão, ainda que raramente, adoro mergulhar na
escuridão do cinema e penetrar em vidas alheias, histórias incríveis,
trilhas que me fazem lacrimejar. Em casa vejo e revejo os mesmos sempre.
Agora sonho com um projetor para ter minha escuridão poética também em
casa. Da sacada, olho para o mundo, abro os braços, me abraço enquanto
Tata dorme. Abraço tanta gente. Tudo parece tão distante... Penso,
penso.... Me emociono... Sento. Hoje assistimos Amelie Poulan com a tela
do notebook esparramada na minha barriga. Tata dorme antes do término como
de costume e eu me emociono do início ao fim. Cinema é tão bom em me
mostrar o quanto estou vivo...
Na terça-feira vamos procurar um
médico novo, dono de um clinica com visao diferente da que fomos
assistidos até agora. Parece que o pessoal fez o que pôde lá. Perdemos a
sensação de exclusividade. Os médicos não têm mais aquele brilho nos olhos
que nos fazia esperançar. O quimioterapeuta nos ofereceu testar
medicamentos os quais nem recordava os efeitos. E como insisti muito
confessou que para vencer o que tenho espalhado pelos ossos não conhece
nada capaz. Talvez algo novo... embora diga com todas as letras que não
acredite. Acha que para controlar o crescimento do câncer nos ossos, de
novo por insistência minha, temos 15% de chances. Tata reclama que eu
estou querendo fazer uma contagem regressiva. E o radioterapeuta? Dr.
Marquez resolveu emitir raios sobre um campo no abdome, um linfoepitelioma
que os especialistas em imagem negam o crescimento, mas que ele acredita
ter aumentado menos de 1cm, portanto, quer combater. Fico com a sensação
de que gosta tanto de mim que não quer desistir, embora saiba que não
passa de uma atitude paliativa. Um pensamento notadamente idiota. Uma
amiga também doente, em situação ainda mais grave que a minha, reclama que
meus doutores não estão cuidando de fortalecer meus ossos. É verdade. Ou
estão sem saber o que fazer ou a clínica tem tantos pacientes que perderam
a individualização. Basta observar. Afinal, em dois anos, nunca tinhamos
visto tanta gente em tratamento lá quanto agora. São três andares de
estacionamento no topo de um morro. O que importa é que, do novo médico,
sei que tem cabelo aerodinâmico, que acredita no poder das plantas, que
tem trabalhos publicados e pesquisas em andamento pelo mundo afora. E
mais: acha imperdoável que os pacientes de câncer tenham de sofrer a
humilhação de perder os cabelos com quimioterapicos pouco eficazes. Vou
oferecer como novidade minha beleza sem pelos. Não sei se vou querer
voltar a querer cabelos de novo. Por outro lado, talvez seja melhor não
contrariar quem gosta tanto de cabelos. E valoriza tanto a sua
aerodinâmica. O importante é que até o final de 2006 Tata pretende me
levar a Paris, onde pretendo chorar pela última vez.
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Segunda-feira, Julho 25, 2005
Publicado
8:56 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Quanto tempo? É incrível, importante, emocionante,
sempre positivo, enfim, encontrar comentários de pessoas desconhecidas
aqui. Quanto mais se dizem que de alguma forma cumpro com o objetivo de
ajudar quem vivencia o terror da doença mortal, seja ela qual for. Foi
exatamente por esse tipo de audiência que decidi continuar postando meus
resumos, deixando para segundo plano a idéia de publicar um livro.
Obrigado Cristiane!
Como estão as coisas desde a cintilografia?
Melhor do que se poderia esperar. Curiosamente, minha primeira ação foi a
de tentar descobrir que prazo teria, na expectativa inacreditável de
planejar o estilo de vida final. Se tivesse dois a três anos de vida, por
exemplo, escolheria um entre dois caminhos. Tentar capitalizar um valor
específico para deixar de trabalhar, abandonar as mínimas
responsabilidades, realizar algumas viagens, conhecer lugares sonhados,
viver uma vida simples, que não preciso de muito mais do que já tenho para
ser feliz. Tenho a casa dos sonhos, as delicias que mais gosto na vida
estão ao meu alcance (como o melhor petit gatô feito no RS, que degustei
na casa do Cozinheiro sábado passado, precedido por uma moqueca
indescritível). Falta um telão para ver meus filmes prediletos com Tata do
meu lado, que no final das contas é o que verdadeiramente interessa. E
basta, bastaria Tata. Bastaria!
A outra opção seria trabalhar com
afinco para garantir que minha presença na Terra tivesse significado
reconhecido para um grupo de pessoas, profissionais e empresas envolvidas
na minha trajetória de jornalista. Boa parte desse caminho já tracei, sei
que fui útil para a formação de muita gente que trabalhou comigo. Sei que
consegui abrir espaço político antes inexistente para um grupo de
empresários, dirigentes e profissionais com o portal que desenvolvi para
um segmento específico da economia gaúcha. Sei que fui honesto o
suficiente para ter no currículo um resultado mais do que positivo para os
pequenos deslizes que cometi. Mas se dessem meu nome para um bequinho
qualquer em Porto Alegre morreria feliz. :)
O que interessa mesmo,
entretanto, é que toda a irradiação que Dr. Marques chegou a planejar, o
resultado das tomografias o fez desistir. Não há nada que justifique fazer
radioterapia no momento. Na quarta, teremos uma reunião com ele e o médico
responsável pela químio. Tudo indica que então saberei como serão meus
próximos meses. Certamente, farão uso da quimioterapia para tentar
controlar a rapidez com que o tumor se desloca e deixa suas maledicências.
E, é claro, tomarei conhecimento dos efeitos colaterais, os malditos
efeitos colaterais.
Comentários:
Quinta-feira, Julho 21, 2005
Publicado
1:54 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Aviso aos navegantes Esse blog não é literatura.
Foi criado para dar notícias aos amigos distantes e para evitar que eu
tenha de contar todo dia por telefone o que estou vivendo, o que por vezes
demanda muita energia. Acabou, é verdade, se transformando num jeito de
dividir a experiência que estou vivendo com quem de alguma forma também o
está, seja enquanto paciente, seja enquanto parente.
Por isso, não
dá pra transformar o Trópico de Câncer em Trópico da Vida e por isso não
posso incinerar o que já escrevi, pois é a única maneira das pessoas que
estão distantes poderem saber como eu estou ou como tudo começou, quando
ficam sabendo. Então, não é um blog fácil de ler, nem de escrever, mas é
necessário para que, acima de tudo, eu consiga racionalizar o que está
acontecendo comigo.
Aliás, quem não suporta notícias ruins, por
favor, desligue o computador.
Saiu ontem o resultado de uma
cintilografia para saber como estavam meus ossos depois do tratamento com
radio e quimioterapia (a última sessão foi segunda-feira). Tenho sinais de
tumor no crânio, ombros, braços, quadril, coluna, joelhos e canela. Por
sorte, já temos, entretanto, o resultado da tomografia que fiz ontem. Não
há nada de muito comprometedor nos órgãos. Isso deve alongar bastante
minha expectativa de vida.
Encerro agradecendo quem puder me
acompanhar nessa jornada. Compreendo, no entanto, quem não tiver estômago
para aguentar tanta merda. Enquanto estiver vivo, por outro lado, prometo
manter meus queridos amigos informados sobre minha "saúde".
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Domingo, Julho 03, 2005
Publicado
5:22 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Grito Silenciei. Depois de dez dias rouco,
silenciei. O médico achou melhor. Descrevi na sexta o ocorrido para o dotô
e ele perguntou: ocorre de tu, eventualmente, te afogar. Apontei o dedo
para ele em confirmação. - Sim, toda hora - assoprei.
Fez o exame
com uma mini câmara e decretou: - Não é nada, cheguei a pensar que pudesse
ser alguma coisa mais grave nas cordas vocais. Preciso que tu fiques em
silêncio até domingo pra ver se a tua voz volta. Silenciei.
No
sábado, custei a acordar e a me espreguiçar. Mas desde às 10h assisti ao
Live 8, o maior show simultâneo (Londres, Paris, Roma, Berlim, Moscou,
Joanesburgo, Tóquio, Filadélfia e Toronto) já ocorrido no mundo.
A
MTV Brasil transmitiu 10h de shows de artistas como U2, Madona, Paul
Mcartney, Dido, AudioSlave, Coldplay, Green Day e, entre muitos outros,
Pink Floyd com a formação original, tocando junto depois de mais de uma
década. Demais!
E ainda passou o meu e o nome de Tata nos telões
das cidades onde ocorreram os shows. Assinamos a lista proposta por Bob
Geldof, pedindo a suspenção da dívida externa da África. Foi um grito
possível com a Internet!
Fora os três filmes em seqüência que vi
com Gis. Virei homem de poucas palavras.
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Terça-feira, Junho 14, 2005
Publicado
7:39 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
+ 1 + ? = ? Incrível. Lá se foi mais um ano. Aqui
mesmo no blog registrei meus 38. No ano que vem viro mais uma casa no
contador. Quarenta! Lembro bem que quando pequeno calculava quantos anos
teria em 2000. Isso por volta de 1978, 1979. Recordo que colocava no
ouvido o fone retirado de um telefone, que por um fio se conectava a uma
galena - espécie de rádio rudimentar, feito por um amigo de meu pai de
presente para mim - e ao ouvir as vozes de veludo de uma locutora uruguaia
qualquer, por volta da meia-noite, tentava imaginar como eu seria vinte
anos depois. Fica angustiado por não conseguir me ver, logo eu que tinha
imaginação para me transportar para qualquer lugar ou me transformar em
qualquer coisa.
Na semana passada, bolei uma festinha onde
estariam alguns amigos próximos. Alguns deles cheguei a mandar um convite
ao estilo do que Fiapo bolou no ano passado. O tema do ano foi ENRICO
RELOADED e a cabeça da peça aqui figurava no lugar da cabeça do Keanu
Reeves no cartaz do filme Matrix. Ficou realmente engraçado. Mais embaixo
um mapinha para chegar na casa nova. Passei dois ou três dias selecionando
músicas no computador, uma seqüência "Lounge" para rodar a partir das 17h
e outra "Dance", pro povo pirar sob o ritmo de imagens pulsantes emitadas
por um telão na parede do pé direito mais alto da cobertura. Tudo seria
regado a chope de primeira qualidade, mini-hamburguers e mini-chachorros
quentes (pros nego não se embebedarem rápido demais).
Mas... deu
xabu de novo nos meus intestinos dois dias antes... Daí veio uma
instabilidade emocional acima da média. Mil crises, teatro solo, shows do
Nirvana em fim de carreira, enfim. Desmarquei tudo, avisei quem eu já
tinha convidado com mil desculpas e desisti inconsolável. Foi até bom no
final das contas, porque São Pedro não ajudou muito quando sábado chegou.
Foi um dia nublado e a grande atração da festa - o Pôr do Sol no Guaíba
visto daqui - acabaria não tendo grande valor. Mais tarde ainda fui
alertado por Zelda que no ano passado minha festa foi em julho, quase um
mês depois do 08 de junho, então, poxa, que assim seja, consideremos tudo
como um simples adiamento. Aguardem notícias.
Permaneceu, no
entanto, a idéia de receber parte da família para traçar um cordeiro de
Rivera no dia seguinte. Minhas irmãs descreveram tudo muito bem nos
comentários do Post anterior. Podem conferir para entender tudo, inclusive
que foi ótimo e que eu me esforcei ao máximo para suportar fisicamente
tanta alegria.
Para encerrar, agradecimentos especiais a Geisel,
que fez milagre e conseguiu peparar carnes variadas para tanta gente na
minha churrasqueirinha, originalmente feita assar não mais do que 5Kg de
carne. Claro que também para minha amada Tata. Afinal, com minhas pernas
bambas, pude ajudar muito pouco para colocar tudo em pé, antes, e abaixo,
depois, se é que me entendem.
Comentários:
Domingo, Maio 29, 2005
Publicado
2:48 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Resumito, salamito O mês está terminando, tanta
coisa aconteceu e eu nada de informar os amigos. Acho que fiquei esperando
por inspiração, o que é uma bobagem, já que o objetivo do espaço sempre
foi o de informar. Tata retirou um nódulo do seio. Quase enlouqueci no dia
da cirurgia, fiquei hiper nervoso, me perdi dela no hospital, me
comuniquei mal com a sogra e sogro, enfim, fui um fiasco no quesito
acompanhante. Talvez por saber o que é uma biopsia positiv |