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Terça-feira, Outubro 31, 2006
Publicado
3:37 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Infernais Os últimos 15 dias foram infernais.
Noites mal dormidas, dores nas costas e na lombar, dificuldade para
engolir alimentos, pés inchados por desnutrição, nariz invariavelmente
entupido, incapacidade de respirar pelo excesso de líquido na pleura,
ouvidos a meio pau, surdinho, tudo, enfim, para aumentar a tal da
depressão profunda diante do barranco.
Tudo parece estar
desmoronando, melhor os passeios do passado, no Barranco, com motivos mais
torpes, algo como "ah, me dá mais um chope aí então". Mas, nem tudo está
perdido, entre hoje e amanhã - uma cirurgia para drenar dois litros de
líquido e grudar as paredes da pleura podem retirar da lista sinistra
itens fundamentais para o meu bem-estar. Prometo manter os amigos
informados.
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Segunda-feira, Outubro 16, 2006
Publicado
2:46 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Tempo Os dias têm passado lentos, ligeiros,
rápidos, vagarosos.... Tenho tido dores bem ruins durante o incio da noite
até por volta das 24h. Precisei chamar a Unimed SOS algumas vezes para
aplicarem Dolantina. Em geral, funciona.
Mas, no final de semana,
minha querida Polly passou em nossa companhia. Rimos muito, conversamos
bastante, especialmente Tata e ela, que fizeram um revival da adolescência
muito legal de ouvir, imaginem participar. Alto nível.
Depois de
uma deprê violenta - não registrada aqui a meu gosto - resolvi, em
desespero, cumprir a promessa feita para Tata: que iria a uma
psicologa.Senti em determinado momento que não tinha mais condições, não
tinha força - nem física, nem psicológica - para continuar a batalha. Fui
na semana retrasada: nota 03! semana passada: nota 06! .
Em meio
às conversas com Tata sobre a vinda de Polly tive uma luz ontem. O dfícil
está sendo esquecer que a batalha na verdade terminou. O câncer não é mais
um alvo, mas um novo parceiro, a quem devo me irmanar em busca de
qualidade de vida e longevidade. É notável, entretanto, a dificuldade que
tenho para realizar a tarefa depois de três anos de guerra declarada,
pública, sangrenta, um inimigo, enfim, tão traiçoeiro e cruel.. Vamos ver
no que vai dar
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Quarta-feira, Setembro 20, 2006
Publicado
5:44 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
"Visitas" O fato de eu ter criado o blog e deixar
claro que por vezes preciso de silêncio, solidão e nem queira atender o
telefone de vez em quando não significa que os amigos não possam ligar
para falar comigo ou mesmo combinar uma visita aqui em casa. Ou
vice-versa, me convidar para adentrar a residência de vocês. Li nos posts
muitas mensagens do pessoal dizendo que não entram em contato porque não
querem me incomodar e tal... Tá certo, mas nem sempre estou em alfa ou
fazendo meditação sobre a morte. Ainda olho futebol, jogo botão e logo
logo acredito que voltarei com a cerveja ou com o vinho (de uva Isabel, o
único que não arde na minha boca, embora sirva Casillero del Diablo para
as visitas). Certo? Espero contato. Comentários:
Publicado
5:31 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
"Bambas" Não sou muito chegado em carnaval, mas
estou precisando ir numa escola. Seja ela de fisioterapia ou de educação
física. Meu preparo está pra lá de radicalmente fracote. Caminho com as
pernas bambas, se me agacho uuuuh para levantar é algo que exige
concentração e muitas vezes ajuda. No mínimo apoio de um corrimão. Já
tomei alguns tombos por isso. Minhas pernas parecem pesar toneladas.
Somado a isso o fato de q eu estava com as tais plaquetas do meu sangue
piscando um SOS com os dizeres: "cuidado com hemorragias internas",
"cuidado com hemorragias internas", "cuidado com hemorragias internas".
Bem, andei sob cuidados e com muito cuidado essa semana passada. Ontem
tomei uma bolsa com as plaquinhas via portocat e tudo voltou ao normal,
pelo menos minhas assoadas de nariz. Para o desânimo e o cansaço tomei
vitamina B-12, também via portocat (acesso venal fixo que coloquei no meu
peito há mais de um ano para facilitar o ingresso de medicamentos,
especialmente os da quimioterapia).
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Sábado, Agosto 26, 2006
Publicado
1:21 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Sobre o Câncer Ficou decidido que iríamos atacar a
rinofaringe da mesma maneira que a anterior: ou seja, com rádio e químio.
Um cálculo que levou três dias para ser concluído fez Dr. Marquez
encontrar no meu carcinoma um desafio. Acho eu. Ontem entrei na Clínica e
perguntei para a física: quanto é dois mais dois? Ela percebeu alguma
sacanagem por trás e respondeu:seis! Imediatamente perguntei sobre os
cálculos da minha aplicação e ela disse que ficaram sensacionais. Tem que
estar mesmo porque os tecídos moles atacados pelo câncer estão entre os
olhos, no início do nariz. Se der alguma coisa errada, tenho 15% de
chance, enfim, de ficar com problemas visuais, basta a mira não ser
precisa em milímetros.Pelo menos foi o que entendi. Agora me ocorre que
isso independa dos cálculos. O problema talvez esteja na proximidade do
raio.
A ressaca da cisplatinha (a quimio já usada e citada aqui
antes) resultou em uma chamada do SOS ontem a noite. Nada demais!
Dolantina e deu... Até já conhecíamos o técnico.
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Publicado
1:08 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Novidades Tenho que contar apenas o suficiente para
pintar o quadro atual no aspecto mental. As coisas andam rasas. Arrecém
estou lutando aqui dentro da cachola pelo entendimento de que agora o
negócio é trabalhar e curtir a vida, o que no meu caso são coisas
parecidas. Meu físico, entretanto, ainda não está lá essas coisas e por
isso ainda não consegui fazer as coisas andarem. Pedi ao meu principl
executivo que faça um relatório de como está a empresa e em que estágio
estão os projetos que tínhamos elaborado. fou de me trazer segunda.
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Sexta-feira, Agosto 18, 2006
Publicado
6:19 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Rinofaringe: parte II As coisas estão acontecendo
em tal velocidade que quando dou por conta outro mês se foi. As dores
foram vencidas com a redução da medicação e principlamente por causa da
radioterapia. Baixei imediatamente o nível de morfina aplicada, que gerou
algumas dores provocadas pela abstinência, mas nada demais. Ainda tenho
dores nos ombros. Esta parte cumpre o final de uma fase. Agora, lutamos
por causa da volta de um câncer na rinofaringe e outro possível no pulmão.
Os dois tão temíveis quanto perigosos foram encontrados numa ressonância e
numa tomo. O que será de mim? É o que perguntamos Tais e eu olhando para
teto, vez por outra
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Quinta-feira, Julho 27, 2006
Publicado
6:29 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Manifestações Passaram-se dias depois do último
post. E a vida foi se encaixando no quebra-cabeça de acontecimentos.
BeBein tomou conta da casa. Fui entrevistado por Zero Hora sobre o blog,
fiz uma nova sessão de rádio. Todas as peças, enfim, foram se encaixando
pouco a pouco. Não estou lá essas coisas porque algumas delas foram negras
como uma noite de chuvas e trovoadas, delírios e pesadelos, anjos e
demônios.Tive muitas dores por causa do Herpes Zoster, mesmo depois de
aparentemente curado. Dra Mônica diz que é memória da dor. Já pensou?
Nosso corpo é realmente um mistério cheio de surpresas. Fiquei
particularmente emocionado com a manifestação da portuguesa Ana. Afinal é
a primeira vez que uma estrangeira escreve no blog. Fique a vontade, Ana,
se preferir envie mensagem para enrico@mandic.com.br para trocarmos idéias
sobre o tratamento. Hoje fiz minha primeira sessão da quimio. O Taxol não
é exatamente um desconhecido. Arrancou meus cabelos, entre outras coisas.
Agora a dose será menor e tudo indica que nem mesmo enjôos nem náusea
chegarei a sentir. Para encerrar, mato os invejosos com um jantar que
terei em instantes, preparado pelas minhas sobrinhas Lily e
Naninha, filhas de Zele, na foto, em preparação antes do histórico
manjar. Um abraço muito especial para todos os amigos e novos amigos.
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Terça-feira, Julho 18, 2006
Publicado
7:54 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Mil Novidades 1) Fiz a primeira sessão de
rádio no peito (10 emissões). Ainda faltam outras 15 na segunda sessão,
que atingirá a coluna de cima a baixo. O importante é que a dor sumiu.
2) Adotamos uma cadela, BeBein, que revolucionou a casa e
despeja macro quantidades de amor por hora para Tata. Eu que queria um
companheiro para as tardes de trabalho, fiquei hiper satisfeito. É uma
vira-lata toda branca, com uma mancha no olho esquerdo. Olhem abaixo.
3) A possibilidade de uma metástase pulmonar veio a partir de
uma tomo no tórax que dizia que eu tinha um derrame pleural bilateral, o
que poderia ou não ser uma manisfestação de câncer de pulmâo.
4) Nesse meio tempo, apareceu a malfadada Herpes Zoster. Dor,
coceira, pomada e mais pílulas. 5) Os medicamentos estão
desproporcionais à situação atual. Sinto um sono infernal durante todo o
dia. 6) Estou com dificuldades para trabalhar em função disso
tudo. Sinto medo de ser mal interpretado pelas manhãs de sono profundo.
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Segunda-feira, Julho 03, 2006
Publicado
8:28 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
De volta à rádio Quem lê assim pela primeira vez
vai pensar que eu sou radialista. Mas para o bem da verdade confesso: sou
sim, por que? Nunca me ouviu? Bem, a Ritinha já. E uma vez minha voz foi
reconhecida num bar em plena Cidade Baixa, porque eu dei um tchau igual ao
que eu dava na Ipanema FM, num programete de 2min sobre Informática. Isto
sem falar que fiz um curso na Feplan, que me garante por certificação
atuar pelo Brasil inteiro como radialista. Te mete!
Feita a
introdução desnecessária, retomei a radioterapia sem que os dois
institutos tenham sequer trocado um e-mailzito ou quem sabe um telefonema,
nada. Teletipo? Fax? Telegrama? Nada. Cheguei na Clínica onde deixei bons
amigos, a mesma que abandonei só por causa da químio, tendo plena
confiança na rádio, e fui recebido como se tivesse estado lá ontem, tudo
no bom sentido, por favor, sem críticas, além da que já me referi. E que
não é pouca coisa, afinal, cheguei lá com metástase nos arcos costais e na
escápula. Mas depois de uma cintilografia e de uma tomografia ficou claro
para o Dr. Marquez, o radioterapeuta, que o disposto nos locais nâo
poderia provocar a dor referida.
A explicação passaria por
metástase na junção de algumas costelas com a coluna vertebral. E que de
lá irradiaria dor para a região onde eu sinto verdadeiramente a maldita.
Também onde os médicos da outra clínica desconfiavam ser o local a ser
atacado (arcos costais e blablabla, lembram?). Algo assim, não me foi
repassado ou eu não lembro o nome real da região. Mas é lá que há seis
dias recebo uns três minutos de radiação. Marquez acredita que na primeira
semana eu devo perder a dor. Hoje passei o dia trabalhando, esqueci de
alguma doses de morfina, agora estou aqui, abusando, mas pelo menos ainda
nâo senti dor.
Amanhã tenho consulta com Dra. Mônica e também com
Dr. Senna. Será questionado o fato das Clínicas não terem se comunicado e
as conseqüências disso. Também quero saber se não existe outra químio para
substituir o Jenzar, que vinha mantendo as metástases sob guarda, mas o
fato de terem se formado bases inimigas na região, que agora é de combate
radioterápico, outro medicamento será necessário. Ele já foi proposto e
pelo que sabemos perderei cabelo e terei náusea. A náusea eu aguento. Mas
não gostaria de perder o cabelo. Será que entre as dezenas de medicações -
todas capazes apenas de me manter vivo - já que ineficientes para matar o
tal signo do zodiaco - não podem fazer o mesmo sem que eu perca os
cabelos. Pode parecer bobagem, mesmo assim me interessa saber se há outra
alternativa. Prefiro ficar careca quando desejo e não por obrigação.
Para encerrar, comuniquei ao pessoal da clínica de radioterapia o
endereço do blog. Talvez tenha feito merda. Mas agora azar. De qualquer
sorte, como a turma da tarde me recebeu com balões, beijos e torta-fria,
troquei o horário e nem tive como me despedir das meninas da manhã.
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Sexta-feira, Junho 23, 2006
Publicado
6:03 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Notaram? Notaram ou não? Ah... tenho certeza de que
os leitores de coração frágil para romances, ah, esses notaram. Como não
notariam? Não é nada demais, mas é uma demonstração de amor incontestável,
até porque foi feito assim... como dizer... instintivamente! Com base na
realidade, na verdade mais verdadeira, aquela que se dá em momentos
difíceis, aparentemente sem solução. Eu tenho feito com frequência. Mais
ainda recentemente. Quero ver quem acerta, descobre, grifa essa declaração
de amor linda e tão bela, poética...
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Quinta-feira, Junho 22, 2006
Publicado
12:36 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Morfina O que dizer dela. Legal, tira dor. Provoca
problemas colaterais com o tempo. Tem o charme das drogas antigas, de
escritores dentre outras personalidades da história mundial que eram
viciadões. Já eu... comprovei que nem sempre tira a dor, que pra tirar tem
de elevar a niveis perigosos para o coração. E que de charme, gurizada:
NADA! Nem baratinho dá. Enfim, conforme posto no post anterior, procuramos
insistentemente por telefone e pela secretárias o nosso ex-querido médico
da dor. Depois de uma semana sofrendo que nem bicho, adotamos a tática da
sempre presente e disposta dra Mônica.
Chamamos, então, um serviço
chamado home care do meu plano de saúde e foi assim que além de aplicações
subcutâneas também passamos a tomar intravenal de seis em seis horas.
Fomos premiados com dois técnicos muito gentis, gente fina mesmo, que tão
na luta e tal, com os quais conversamos muito às seis da manhã, meio dia,
seis da tarde e meia-noite, aquelas coisas. Não adiantou muito, mas
melhorei um pouco. O problema é que as crises continuavam e a cada crise
estavamos injetando mais morfina sempre com algo de medo, principalmente
por parte de Tata, porque eu... eu queria qualquer coisa, até aspirina!
Acionei, inclusive, minha irmã Zeda, enfermeira, para aplicar intravenosa
antes do home care ser acionado e depois para me fazer companhia nas
tardes que pôde e que eu mais precisei. Show!
Mas a solução para
esse inferno acabou aparecendo mesmo foi quando o eficiente-dr. da Dor
apareceu no visor do celular. Desde então ela parece controlada, com
pequenos ataques, embora tenha aumentado a metadona, o ibuprofeno e estou
tomando duas miligramas (duas ampolas) de morfina a cada duas horas. Agora
mesmo estava com alguma dor e não entendia porque. É que por volta das dez
tomei mijada porque apenas me apliquei e esqueci as mais de seis pilulas
que eu tinha que ter tomado. Agora empurrei elas mais a da meia noite e
ainda toquei ficha em minha dose de morfina.
Espero que noite seja
abençoada. Amanhã tenho que encarar a coluna do jornal e desta vez não
consegui adiantar nada, pois fiz duas tomos e uma cintilografia para, ah,
sim, iniciar uma nova radioterapia nos arcos costais e na escápula, pois o
câncer progrediu, embora tudo seja confirmado mesmo quando as tomos
ficarem prontas. Mamãe... conto com tua ajuda...
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Sexta-feira, Junho 16, 2006
Publicado
6:29 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Boletim de ocorrências Perdõem o silêncio.
Primeiramente foi por dificuldade para escrever qualquer coisa em nível
pessoal. A concentração para tanto estava sendo consumida pelos textos
profissionais. Um tempo depois, foi agregado a tal impedimento o maior de
todos os fatores: dor. Nos arcos costais, principalmente. depois de raios
x, os médicos acreditam que possa ter havido uma progressão. Daí, para
tirar a dor, morfina! Por enquanto, mas o caminho deverá ser rádio, assim
eliminamos a dor ao matar a metástase. Estamos todos péssimos. A impressão
é de que estou sendo comido vivo. Tem um bicho do zodíaco roendo meus
ossos e cartilágens. Um horror.
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Quinta-feira, Junho 01, 2006
Publicado
8:42 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
A culpa foi nossa Não sei mais o que fazer a
respeito. Se chegamos na hora, esperamos em média 45 minutos para sermos
atendidos. Hoje nos atrasamos 5min para a consulta com o fisiatra.
Adivinhe o que fizemos depois de esperar 30min. Pois bem, reclamamos. E
soubemos, então, que por termos nos atrasado seríamos os últimos a serem
atendidos! Bollocks! Quando finalmente encontramos um consultório que
aparentemente preocupa-se em atender no horário, a punição é passar horas
e horas a mais lendo revistas mais atrasadas ainda? Demos uma de loucos e
fomos embora. "Ofereça meu lugar para outro trouxa", ainda gritei. Agora,
fazer o que... Estamos atrás de outro fisiatra. Quanto tempo perdido para
quem valoriza a vida que leva, não?
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Domingo, Maio 28, 2006
Publicado
9:05 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Boletim O que dizer. Estou com uma maldita infecção
pulmonar. Por isso foi feita uma coleta de material no pulmão para que
pudessemos, através de exames dos mais variados, "alguns em cultura",
atacar as bactérias e/ou fungos com o antibiótico certo, específico para
vencer aqueles bichinhos lá. As placas, depois feridas que tive na boca já
sumiram.
Um exame de checagem já foi feito também e a mancha
diminuiu. Por outro lado, eu ainda não estou livre de suadores e febres,
especialmente durante as madrugadas. Ou seja, cá estou eu de novo com uma
batalha menor, mas que me toma tempo, consome oportunidades profissionais
e pessoais. Não é o fim do mundo, mas é um saco. Porque quando levanto a
cabeça já foi um mês, entendem?
Não, né, difícil explicar mesmo. É
que, entre o ânimo e o desâmino, provocado por tudo isso, acabo atrasando
alguns projetos super legais, coisas que tenho que fazer, não adianta; e
deixar para a última hora é suicídio, embora essa coisa de última hora
também não seja exatamente uma novidade para mim, desde os tempos do
primeiro grau. Creio que por isso sempre fui um cara com muitas notas 07
esplhadas pelo boletim.
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Quinta-feira, Maio 18, 2006
Publicado
6:29 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Visitas Estou com um novo ciclo de medicações. A
idéia é substituir a morfina pela metadona. Embora a morfina tivesse lá
seu charme decadente, tava ficando chato se espetar de quatro em quatro
horas. Um novo remédio também entrou na parada (atualizo aqui em breve
para eventuais colegas de tumor). O resultado é que estou sem dor, até
agora não tive nem meia crise sequer, então, creio que a coisa toda
funcionou acima do esperado. Pelo menos acima do que eu e Tata
esperávamos. Algumas coisas estranhas, entretanto, começaram a acontecer.
Passo os dias sozinho aqui no escritório e então o nível de concentração é
elevado. Muitos textos, revisões, etc. Isso tudo associado a uma
sonolência muito leve, mas tão leve que nem bocejo, apenas dou aqueles
pulos assustados na cadeira, conseguem me entender? Você está lá, hiper
concentrado em algo e de repente: a sua cabeça chega a balançar para
frente e você se equilibra em sobressalto! É isso que tem acontecido. Mas
entre os sobressaltos e os textos, por vezes vultos passam atrás de mim.
Não é nada que me faça saltar de medo, aparentemente eu sei que é minha
sonolência no momento em que rola. O mais pirado é que também ouço vozes.
Às vezes identifico claramente como sendo da minha mãe, bem jovem, com a
voz limpa que a levou para cantar num coral de igreja por um período.
Outras vezes são risadas de crianças que correm e somem. Agora mesmo,
estava escrevendo este texto e parei, me concentrei para suportar o
silêncio, mas não ouvi nada nem vi. Não são operados por controle remoto,
certamente, mesmo estando - eventualmente - no MEU cérebro, sem a minha
aparente PERMISSÃO.
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Segunda-feira, Maio 15, 2006
Publicado
11:45 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
As filhas da mãe As Filhas da Mãe deram um show no
domingo em que as estrelas era suas mamães. Que maldade carinhosa,
não? Eu, q nao tinha nada com isso baixei a cabeça. Baixei a cabeça
para me deliciar com aquele showzinho particular que todos nós
curtimos. Baixei também para fechar os olhos, fechar os olhos e sentir
todinhos, todinhos os sabores que ali estavam disponíveis, disponíveis
para os meus sentidos, todos os meus sentidos, minhas glândulas e
deixa pra lá o sei lá mais o que q possa ter sido aquilo tudo. E
também para comer, né. Éééééé, porque eu também comi, né. Afinal
também sou filho da mãe, da vovó, vovó que elas, sim, porque elas, sem
dúvida reverenciaram, é reverenciaram, sim, reverenciaram aquela
magnifica cozinheira, aquela que aprendeu a cozinhar com a cunhada, a
cunhada que lhe segredou os segredos, os segredos que ela aperfeiçoou
tão magnificamente ao longo dos anos. É sim, eu sei que a gente não se
dá conta, mas é a mais pura... a mais pura das puras verdades: o tempo
passa. Só que ele passa, nos leva, mas nos inspira, inspira, inspira
tanto que vira inspiração, o que aquelas duas filhas da mãe tiveram
de sobra. Tanto que não sobrou nada! Nada! Nem as sobremesas, ah,
sim! Sim, porque eram uma, duas, três, três sobremesas. É. Eram três.
Três filhas da mãe, filhas da mãe Zele e filha da mãe zeda. Foi bom
demais, nossa se foi. Foi bom demais lembrar de tudo isso agora aqui
para mim. Ops, para vcs, é, para vcs.
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Sábado, Maio 13, 2006
Publicado
10:20 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Estamos concentrados no meu pulmão. Há uma infecção por
bactérias já comprovada. Ingiro uma boa quantidade de antibióticos desde
então. Meu apetite baixou entre outras conseqüências por cândida na boca,
na garganta. Não tenho tosse. Alguma febre eventual, mas sempre alta,
altíssima. Todos os sintomas remetem para fungos. Mas eles não foram
encontrados numa broncofibroscopia. Por essas e outras talvez seja
necessária uma biopsia. Mais anestesia, o que não deixa de ser uma boa
notícia. Quando penso na morte, penso em algo como a anestesia geral. No
meio de uma conversa e/ou de um olhar
sssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssss ...
...
e você volta seja lá como for... esbudegado ou sonolento... ou o nada.
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Segunda-feira, Abril 24, 2006
Publicado
11:28 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Brinde Vai fazer um mês dia 29. Vai fazer um mês
que não vejo minha mãe. Pérai, não pára de ler. Não é tão simples assim.
Nem tão terrível também. Em todo caso, velhos amigos, tenho de contar.
Afinal de contas, faz um mês. É claro que tudo foi mais fácil do que eu
imaginava. Porque, bem, vou confessar. Ficava um bom tempo até sem ver
Mamma. Usávamos o telefone como recurso mais freqüente. Só que hoje eu
procurava alguém com a letra M... E lá estava o nome mae, escrito assim
sem assento no meu celular. Deu vontade de ligar, uma ação tão sem sentido
quanto mandar um e-mail para Cássia Eller no dia em que ela morreu... Bom,
mas aí, agora de noite, Tata chega com fotos reveladas que haviamos
esquecido na máquina fotográfica por causa da novidade da outra, a
digital. Pois é, então, foi isso. Lá estava ela no seu aniversário, com
todos nós em volta, todo mundo sorrindo, pouco menos de um mês antes da
sua partida. Tem até uma comigo abraçadão e tal. Lembro que ela ainda me
disse: "Nós, os batalhadores...". Foi assim... Foi assim que lamentei e me
dei conta mais uma vez da sua ausência definitiva, definida, deflagrada há
exatamente um mês, quando chegar o dia 29. Daí vai fazer um mês. Sim, um
mês. Que saudade. Brindo desde já com lágrimas.
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Terça-feira, Abril 11, 2006
Publicado
6:28 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Cansaço Eu e Tata estamos cansados. Não existe
outra resposta para explicar as sensações que temos. Eu tô cansado de
estar sempre doente de alguma coisinha, quando não é um coisão mesmo. Os
meus dias se arrastam em meio a compromissos médicos enquanto Tata, além
de me acompanhar, em todos os aspectos possíveis, ainda trabalha num
ambiente pesadíssimo como a Febem. Tenho dó, porque não é do tipo que faz
as coisas pela metade ou com irresponsabilidade. Ela assume, briosa, peito
cheio de ar, todos os compromissos da agenda. O que seria de mim sem ela?
Nada... Hoje fomos consultar uma médida recomendada por Dra. Mônica, uma
pneumologista, para investigar meus pulmões. Restou uma mancha lá, do lado
esquerdo. Não se sabe o que é. Não se sabe o que será. Então, as queridas
decidiram que vão fazer uma bronco-endoscopia ou coisa parecida. Aposto
que Tata sabe o nome.
Para terminar, um queixa. Boa parte do
cansaço de hoje se deve a um fato: os médicos são os únicos seres humanos
que estão "cagando para o cliente" e não vão à falência. Impressionante,
já falei aqui em alguma ocasião. Uma hora de atraso é pouco para eles.
Depois ainda fomos noutra seção do hospital para marcar a tal
broncoseiláoquê. Mais 40 minutos e saímos sem um médico para assinar a
solitação do procedimento ao nosso plano de saúde. Quer dizer, isso vai
demandar mais algumas horas amanhã.
Ah, sim, como esquecer... A
consula e depois a marcação do procedimento foram realizados no mesmo
hospital onde minha Mamma se foi. No próximo feriado toda a família vai
para Sant´Ana do Livramento. Embora não tenha sido planejado, nada como as
raízes para recuperar o ânimo. Certamente será, entrentanto, um reencontro
com nosso passado, com as coisas e manias de Mamma. Sobre isso, por sinal,
um registro. As manas reuniram-se no final de semana passado para separar
as roupas dela. Encontraram pelo armários buchas com cerca de mil e
trezentos reais, que ela escondia para um motivo ou outro, alguns
descritos em bilhetes que fazia para si. Não sabemos se ela tinha noção do
que tinha e de onde estava cada uma. Eu apostaria que sim. :)
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Segunda-feira, Abril 10, 2006
Publicado
12:31 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Cabo Lúcio Os anos passaram e Nely foi imergindo no
cotidiano. Todo dia acompanhava Mãe Velha para lavar roupa no arroio.
Pegava uma roupa pequena e ficava esfregando, imitando. Também a
acompanhava na entrega da roupa já passada em fardos brancos sobre a
cabeça. Uma das casas que freqüentavam era a do ator Paulo José. Nely
brincava com ele, enquanto esperava Mãe Velha, comendo bolo, que de vez em
quando serviam. Mãe Velha não gostava nada disso.
Na época, Mãe
Velha sofreu muito com o negócio da tuberculose, que atacou suas irmãs.
Nely acompanhou tudo muito de perto. Mas não podia olhar os doentes nem
chegar perto. E quando alguém morria, queimavam as roupas e objetos
pessoais em uma fogueira no pátio. Já Maria, enquanto isso, vivia em
função de Nely, pelo menos logo que chegava do trabalho.
Um dia,
no caminho de casa, Maria viu uns dez brigadianos chegarem lentamente,
todos muito empoeirados, com os cavalos extenuados, até a praça. Entre
eles notou aquele cujo cavalo era o mais possante, que não mostrava
cansaço algum, embora carregasse a mesma poeira no uniforme. Moreno, de
bigode fino, empertigado, parecia alto de tão altivo. Mas ao descer do
baio notou que era baixinho, mas cheio de pose. Do jeito que gritava com
os demais devia ser o chefe. Maria ouviu conversas de pequenos grupos ao
seu lado. Aquele era um tal cabo Lúcio.
(Escrito com
colaboração da Zele)
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Terça-feira, Abril 04, 2006
Publicado
4:19 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Medo Nely não lidou nada bem com a novidade. Uma
sensação de solidão apertou o peito. Maria agora seria o que? Tia, Tia
Maria? Madastra? Ela era minha mãe, agora o que será? Tanta dúvida e
tristeza a fez sentir pena de si pela primeira vez. Difícil perceber o bem
que a vida havia lhe reservado depois de uma revelação tão forte. E a mãe
verdadeira, uma prostituta? Não, não... Por que me foi dada a vida se
teria passar por tudo isso? Assim, sofrendo, Nely correu pelos campos,
como se no final do fôlego fosse encontrar algo além do cansaço.
Maria e Mãe Velha perceberam a tristeza de Nely e sofreram em
silêncio. Estava na hora de Nely começar a entender a vida, por mais
complicada que ela parecece ser.
Passam os dias e novos telegrafos
chegam. Maria e Sirlei combinam horário e local para o encontro. Sirlei
pede para ficar a sós com Nely um tempo. Maria teme que Sirlei tente
roubar Nely num momento de distração. Não se sabe a verdade até hoje. A
única certeza que temos é que a foto foi tirada. E lá está mais do que
clara a tensão!
Tudo indica que Sirlei tinha intenções de levar
Nely, mas nada foi feito porque Maria e Mãe Velha não lhe deram nem um
minuto a sós com ela. Enquanto isso, dá para imaginar quanto sofrimento
causou tudo isso para a menina. Tadinha, odiava a mãe por tê-la deixado.
Amava a madastra por tê-la acolhido. Amava a mãe por querê-la de volta.
Odiava a madastra por não ser sua mãe. Passado tudo, a verdade é que para
Nely nunca houve outra mãe desde então que não Maria, aquela que um dia
seria minha única e querida vó.
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Segunda-feira, Abril 03, 2006
Publicado
9:06 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
A foto... Nely cresceu linda e forte como toda
criança daquela época. Corria livre e alegre pelos campos, brincava com
coisas simples, a maoiria feitas a mão pelos tios, pela avó e pela mãe
Maria. Pião, cavalinhos de osso, deitar na grama, respirar fundo e olhar
para o céu, vendo desenhos imaginários nas núvens. Nem mesmo os dias de
chuva eram tristes. Maria dizia que as gotas que caiam nas poças de água
eram bailarinas dançando com suas lindas saias rodadas. Ela fechava os
olhos e imaginava, imaginava...
O tempo passou e o carinho de
todos por Nely cresceu como suas pernas finas e longas. Mãe Velha agora
era só amor. Tirson vivia às brincadeiras com ela. E Maria.... Maria tinha
realizado seu maior sonho. Era mãe! Agora, era preciso dar um pai para
Nely. Sentada na escadinha que dava acesso à casa onde viviam, sonhava com
um homem de verdade, capaz de lhe presentear com mais filhos, filhos
nutridos na sua barriga, frutos de uma paixão de causar rubor enquanto
pensava no assunto.
Um dia chegou uma carta para Tirso. Maria
percebeu que ali tinha um conteúdo para o qual era a maior interessada.
Suportou a curiosidade por todo o dia na sua saleta na sede dos Correios e
Telégrafos. E se ela quisesse Nely de volta? E se ela realmente tivesse
direito?
- Nunca! Ela é minha! Ela é minha Nequinha... Não vou
deixar!
Quando o expediente terminou, Maria correu para casa, onde
encontrou Tirso cevando o mate.
- Chegou estar carta pra ti. -
É da Sirlei.... a la putcha, é da Sirlei! Só falta... - Abre, Tirso!
Abre!
Tirso encostou o mate num canto da escadinha. Logo chegou
Mãe Velha... Os três curvaram-se em direção a carta...
Tirso,
estou passando uns dias em é Alegrete. Pagam melhor, sabe como é.
A vida não está fácil. Eu bem que tentei outras coisas pra fazer. Mas não
compensa. Sinto falta da minha família, da vida de princesa que eu tinha
lá. É uma lástima que eu tenha me perdido por causa de uma falso amor.
Aquele maldito não moveu uma palha... Se tudo tivesse acontecido nos
conformes eu não teria dado meu bebê. Como ela está? Pelos meus cálculos
deve ter uns seis anos. Preciso ver ela. Não te preocupa, sei o que te
prometi e sou mulher de palavra. Te escrevo para que possa tirar uma foto.
Penso em ir até aí em setembro, dia 7, tiro a foto e me vou, não quero
complicar com vocês. Espero que aceite meu pedido.
Com afeto,
Sirlei
Era agosto, ainda corria um vento frio e
seco pelas manhãs. Maria não era mulher de chorar, por isso, pela coragem
que sempre demonstrou, ela disse:
- Responde pra ela Tirso. Deixa
ela tirar a foto. Ela é mãe. Vamos contar tudo pra Nely, tava mais do que
na hora. Ela tem que saber.
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Quarta-feira, Março 29, 2006
Publicado
6:07 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Se fue Mi madre se fue hoy a las 12h55. Cinco
minutos antes del aviso oficial mi hermana Gis la vio en la puerta del
centro de tratamiento intensivo y ella le dice:
- Ahora estoy
bien... No tengo mas dolor.
Estamos todos muy tristes pero bien.
La historia abajo cuento hasta el final quando todo esto se termine.
Gracias a todos.
Enrico
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Terça-feira, Março 28, 2006
Publicado
8:13 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Mamma Foi numa noite quente. Depois de beber quase
um litro de cachaça e suar como um porco nos braços de Sirlei que Tirso
ouviu pela primeira vez o choro do nenê. Perguntou a ela de quem era, mas
teve como resposta aquele tipo de silêncio que só as putas são capazes de
fazer. Não deu bola e resolveu levantar. Vestiu seus trapos gaudérios e
saiu pelas ruas de Cacequi, despertando a ira dos cuscos mais zelosos.
Dois dias depois, entretanto, ao ouvir novamente o choro da criança, não
agüentou:
- Isso aqui não é lugar de criança, Sirlei! Vô reclamá
pra véia Oziris! - Não faz isso, Tirso. Se mais alguém reclamá vô te
que imbora! Tô procurando quem queira cuidar dele... - Êta merda...
que tô pra vê puta que não engravide! - Meu caso é diferente! Virei
puta porque engravidei! E agora sai, sai que já perdi a vontade por hoje!
- Humpf! Essa é a história mais besta que já ovi!
No dia
seguinte, Domingo, lá estavam Tirso, Maria e Mãe Velha. A matriarca lavava
pra fora. Cuidava das roupas de cama e de salão dos fazendeiros mais ricos
de Cacequi. Maria separava os feijões espalhados em cima da mesa no patio,
debaixo de uma parreira. Tirso afiava sua faca predileta numa pedra. E Mãe
Velha olhava pro nada, sentada numa cadeira de balanço... fazendo um
frivoletê. Há tempos queria uma toalhinha pra mesinha de canto da sala.
- Onte eu vi uma coza estranha lá na Oziris. - Já te disse que
não quero que tu prozeie sobre tua porquerada de omi aqui em casa, Tirso!
- Mas Mãe... Tinha um bebê lá! - Pobre criança, pobrezinha... De
quem Tirso? Pobrezinha... - Maria! - Mas Mãe, magina...
coitadinha... - Pozé, mas tava eu lá e ovi esse choro. Aí despôs eu
sôbe. Era duma muié lá. Qué dá... porque o nenê chora e a Oziris perde
cliente. - Eu quero, Tirso. Pó trazê que eu quero! - Maria, mas
Maria... Quéissofia... Tu é menina moça, que vão pensá... Mas de jeito
nenhum! - Pótrazê, Tirso. Pótrazê...
Maria sempre foi uma
mulher gentil, carinhosa. E já tinha seus 18 anos, queria casar e ter
filhos. Acima de tudo ter filhos... Como já trabalhava no serviço de
correio e telégrafo da cidade, ganhava seu dinheirito, o que de certa
forma lhe dava alguma autonomia diante da Mãe. Apesar de delicada como um
vaso de cristal, Maria era flor do campo, tinha idéias próprias sobre o
amor e nem mesmo uma ventania como a Mãe a fazia mudar de idéia depois de
tomada uma decisão.
Até hoje não se sabe se por estar bêbado ou
porque sabia da fortaleza que era Maria, que pedia pela criança todo
dia... O que se sabe é que duas ou três semanas depois, Tirso apareceu de
madrugada com a criança. Ainda cheirando a cachaça, esticou os braços para
que Maria acolhece o bebê... Ela abraçou quase chorando de alegria e
perguntou:
- Ela tem nome? - Tirso sorriu e soletrou,
bêbado... É N-e-l-y... Nely hahahahaha... Nely!
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Domingo, Março 19, 2006
Publicado
5:18 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Gala. Garbo. Galante. Garbosa Que noite! 18h. Tudo
inicia com uma francesa - brut, e canapés agridoces. Ritinha foi a
primeira a chegar, uma elegância só. Mimi e Eva a seguir. Acompanhada por
um anjinho com gosto de chocolate, veio Claude. Minha mana Gis já estava
conosco desde às 16h. Pouco depois chegou a cunhada e nossa querida amiga
Tati, a rainha da bossa nova. Tata era um luxo só.
Quantas
recordações, quanto afeto! Por volta das 22h todos haviam partido. Na
cachola pensamentos positivos, no peito - corpo afora, sensações de amor e
carinho. Existem reencontros que são irresistivelmente verdadeiros. Foi o
caso do ocorrido ontem. Nem as dores que me dilaceraram até a 1h da manhã
(fiz quimio na sexta) foram capazes de destruir tantos sabores. Nem mesmo
agora, quando a maldita retorna acompanhada de febre, não posso negar:
- Como é bom estar vivo!
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Segunda-feira, Março 13, 2006
Publicado
9:36 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Merecimento Sei lá, entende? As coisas estão
ficando complexas. De minha parte, dores, morfina, madrugadas insones. Da
parte da minha Mamma querida, desfibrilador, UTI, perspectivas? Hum... A
verdade é que todas as rotinas são abalrroadas por fatalidades físicas. O
psicológico até que vai bem, mas é claro que é muito difícil mesmo assim.
Vivi, por exemplo, a suspeita de uma tuberculose. A pneumonia venci com
calma e sem efeitos colaterais. Mas vamos ao que interessa. As notícias
boas! Chegou a hora e a vez de finalmente receber aqui Claude, Mimi e
Ritinha. Meu plano prevê um final de tarde regado a espumante, morangos e
canapés no sábado que vem. Elas merecem e eu também.
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Sexta-feira, Fevereiro 24, 2006
Publicado
5:08 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Chegou Tenho uma amiga que comprou um carro hoje.
Ela vem aqui pra gente dar uma volta. Quero ver de perto, estou feliz por
ela. Ela quer me mostrar o carro. Está feliz. Daí vamos rodar, rodar até
uma lojinha no Centro buscar meu óculos que deixei para conserto. Pois é,
quebrei. Enfim, estou enrolando aqui enquanto ela não chega. Será que
estou abusando ao sugerir que o passeio tenha a direção do meu interesse?
Ah, sim, a pneumonia está indo embora. Segundo Tata ela ainda está aí. Por
isso continuo dentro de um ciclo da medicação que deixa meu cocô
floquinho, mas não posso beber. Não pude no show dos Stones. Também não,
naturalmente, no do U2. Grande coisa, você diz. Mas não é bem assim,
quanto mais se tem gente em volta não só bebendo e - um prazer
inexplicável - f u m a n d o ... Bom, daí que não é fácil. Me atraquei na
cerveja sem alcool e descobri - sem sacanagem, claro - que a ressaca é
maior do que quando se bebe com alcool. Foi o meu caso ao menos. Como eu
poderia adivinhar que meu instestino - assim, do nada - iria prender os
gases e provocar imensa dor? Olha, ao menos sobrevivi para contar que hoje
retomei a químio. Supostamente isso é uma coisa boa. E as d
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Quinta-feira, Fevereiro 09, 2006
Publicado
7:28 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Borracharia Bem, nem sempre tudo vai mal. A
Ritinha, minha querida amiga dos tempos selvagens na empresa de
previdencia privada que trabalhei durante oito anos na área de
Comunicação, agora assina coluna no site da minha empresa. Ela está dando
dicas para empresários escreverem melhor, já que na vida digital este
fundamento é fundamental. Ela está super contente com a flor do lácio (*)
que estamos regando. Eu também. Nem mesmo a borracharia onde estou meio
estacionado por causa de uma pneumonia foi capaz de me abater. Quer dizer,
mais ou menos, vá lá.
(*) A expressão "Última flor do Lácio,
inculta e bela" é o primeiro verso de um famoso poema de Olavo Bilac. Esse
verso é usado para designar o nosso idioma: a última flor é a língua
portuguesa, considerada a última das filhas do latim, conforme cantou
Camões antes mesmo de Bilac pelas minhas pesquisas. O termo inculta fica
por conta de todos aqueles que a maltratam (falando e escrevendo errado),
mas que continua a ser bela. Aguardemos os comentários de Ritinha sobre o
assunto.
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Segunda-feira, Janeiro 16, 2006
Publicado
5:10 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Solação Na semana passada, fiz quimioterapia,
conforme o planejado. Quer dizer... Houve um incidente. Na sexta, tomei
duas bolsas de sangue antes para amenizar a anemia. Aí o imprevisto...
Como a primeira bolsa levou mais de duas horas para terminar... a segunda
foi injetada com maior velocidade. Resultado: meus olhos incharam, mas
incharam tanto que mal podia ver. A quimio, então, foi adiada para a
segunda-feira. Na segunda, quase curado, tomei a tal. Na quarta e quinta
tive a preguiceira geral... No sábado recebi a turma do Baguete para o tal
churrasco de fim-de-ano. Não fizemos antes de 31 de dezembro por minha
culpa. Acabou não aparecendo muita gente. Mau sinal. Tenho que cuidar
pessoalmente do assunto. Foi um mau sinal. Se bem que duas faltas
atualmente significa mais do que antes, porque o número de funcionários
diminuiu, como planejei, aliás. No domingo aproveitei o sol e me esbaldei
dentro d'água. A noite trouxe alguma febre para a cama, mas bem pouquinho,
nada demais, não chegou a ser uma insolação, no máximo uma solação,
talvez.
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Terça-feira, Janeiro 03, 2006
Publicado
10:08 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Oci Eu rolava pela cama. Pernas cansadas. Cansaço
de pouco mais de uma quadra. Exercício pesado para quem não desfila sua
elegância decadente há já uns bons dias. Mas eu rolava pela cama. Ouvindo
Patti Smitt em transmissão wireless via Rádio Terra. Minutos atrás ela
havia convidado a platéia do Saturday Night Live para ir ao CBGBs no DVD
em tributo ao programa de TV que o JJ me emprestou no domingo. Para que
alguns entendam melhor, o CBGBs era uma espécie de Ocidente de Nova Iorque
nos anos 70/80, isso se ainda não confundo ainda mais a cabeça de
eventuais preconceitos. Em todo caso eu rolava na cama, esperando a
morfina, ouvindo Patti em transmissão wireless... Virei a bunda pro
lado... hey ho! E... Tata ainda avisou... é um! hehehe... é dois...
hohoho! é três!!!! fffffffffffffffffffffffff....doeu, Mommo? Um sinal de
positivo e era isso. Passado algum tempo eu resolvi contar pra vocês sobre
tudo.
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Segunda-feira, Janeiro 02, 2006
Publicado
7:18 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Rumbo al Sur O que dizer? Eu posso sentar na janela
e olhar a vizinhança avançar para o nada. Hoje Tata falou em no futuro
voltar a morar mais ao Centro. Mulheres... nem terminou de decorar a porra
do duplex... E eu não consigo pensar em nada que preste. Estamos afundados
na mais profunda depressão. E o que é pior: sem a companhia de um bom
uísque e um ou dois maços de Marlboro.
Eu bem que poderia pegar o
carro e deixar os pneus queimarem em direção ao sul, ouvindo um cassete do
velho Tom
Waits. Deixar para trás alguns instantes. Recuar no tempo alguns anos.
Ficar distante de tanta desgraça e deixar o braço formar um triângulo da
janela para fora. O vento comendo contra o sol nos óculos escuros. Por
trás das cochilhas talvez ache algum pote de ouro falso. Em Rivera vendem
de tudo! Quem sabe possa comprar algo por lá?
Olho pela vitrine e
leio CARNICERIA. Y recuerdo de los carniceros hijos de puta q jodieran los
brasos de Mamma! Acabaram as veias da Vieja! Inventaram um cateter que
simplesmente não funcionou. E infectou! Van a matar mi Vieja!!
Eu
passei Natal e Ano Novo enganando a mim e todos os demais sobre a profunda
depressão. Dá vontade de vomitar de tão profunda a depressão. Dá pra ver
daqui de cima do duplex quão profunda ela é. Eu fico olhando da cama a
porta da janela que dá para a sacada... Posso contar imaginariamente
quantos passos preciso dar para voar até o primeiro piso. Quantas vezes já
pensei em voar... É de perder a forme! Não dá vontade de comer. Dá
coceira.
Esqueço dos meus remédios duas vezes por dia, o que leva
Tata a loucura. No rádio me contam que a primeira mulher do Pierce Brosnan
morreu de câncer no ovário. Que legal... Ninguém consegue esquecer do
assunto. Pero que me importa ahora sy estoy en mi auto rumbo al sur...
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Terça-feira, Dezembro 20, 2005
Publicado
3:28 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Fracos e oprimidos Tem horas que a gente se sente
um super-herói quando tem uma doença grave. Quando você tem uma doença
grave e administra um blog, então... puxa, vc se sente um verdadeiro super
homem, defensor dos fracos e oprimidos. Mas a verdade é que não passamos
de simples defensores dos frascos e comprimidos, vigilantes dos horários
agendados para a sua ingestão e, no caso dos frascos, da sua integridade
física. O resto é uma restia de exibicionismo.
No dia que escrevi
aqui que tudo estava bem, estava mesmo. Picanha na chapa servida como no
Garota de Ipanema foi o que servi para o irmão do Riva, que sempre nos
recebe bem no Rio, além de me levar pelo menos uma noite no Garota de
Ipanema para nos encharcarmos de chope e comermos a tal picanha na chapa.
A piscina ali do lado a disposiçã. Mamma passando bem...
Profissionalmente, organizei um seminário com quatro painéis, que se não
foi um sucesso de público em termos quantitativos certamente foi em termos
qualitativos. Tinha só formadores de opinião lá. Isso tudo aconteceu em
uma semana. Cronograma: Na sexta, fiz quimio. No sábado, festejos com o
irmão do Riva. No domingo... febre... eritêmas nodosos no braço (caroços
duros e avermelhados), dor aguda no peito quando respirava fundo! No meio
da gemedeira, ligamos para Dra. Mônica... e eu, já delirante, aceitei, sem
muito custo, o que não quero nunca, uma internação pra matar a saudade.
Enquanto isso, Mamma regride. Precisou fazer hemodiálise, o que
para ela é uma tortura. Como eu, tem veias finas por causa do excesso de
medicação. As fistulas que ela é obrigada a fazer para a hemo passam a ser
sessões de tortura, portanto. Tanto que depois de inúmeras tentativas,
optaram por colocar dois canudos, um em cada veia do pescoço, para iniciar
as várias sessões que ela teve de fazer durante a semana. Chegou a perder
a razão certa noite, a tadinha. Minha irmã Zele chegou a ficar assustada.
Agora, a expectativa: se ela será capaz de se recuperar para passar o
Natal em casa ou não. Eu já estou em casa desde domingo e com o
diagnóstico na mão: líquido na pleura, infecção por bactéria ou fungo,
aguardamos por exames de campo para saber que antibiótico vou usar. Por
enquanto, tô tomando um outro qualquer.
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Sábado, Dezembro 10, 2005
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Sexta-feira, Dezembro 02, 2005
Publicado
8:25 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Nada de novo no front Os longos silêncios do blog
são necessários. Porque eles significam paz. Não há o que contar. Falar de
picadas e roxos nos braços, coxas, barriga e anca por causa da morfina de
quatro em quatro horas não provoca muita emoção. Aliás, se fosse na veia,
ainda teria alguma. Subcutâneas não dão barato. E eu sei, o que vocês
querem é emoção hshshs... Estamos todos concentrados na Mamma, que deu
baixa no hospital porque estava retendo líquido demais. Na minha
imaginação cheguei a temer que do umbigo jorrasse um chafariz. Por sorte,
não precisará de hemodialize permanente. Apenas algumas sessões. Sei
também que terá de implantar um tal de tip, mas não sei ainda nem como se
escreve nem como funciona. Não tenho ido muito no hospítal, apenas
telefono, porque ela está muito triste e o pessoal acha que eu não devo
ser contaminado por isso. Eu também. Embora já esteja mesmo assim. Me
sinto culpado por não ajudar em nada. De resto, eu e tata abrimos a
temporada da piscina. Estamos testando. Em breve alguns poucos poderão
molhar as pernas na piletinha. Em toco caso, é pequena mas é minha!
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Segunda-feira, Novembro 21, 2005
Publicado
10:40 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Junkie Certa manhã liguei para JK ao prantos,
pedindo que viesse em nossa casa para aplicar morfina nas veias, porque
simplesmente não aguentava mais de dor. Ele chegou aqui com Zeda, encontou
uma espécie de Sid & Nancy santanense. Tata descabelada, estressada,
cansada, enraivecida; eu nú, chuveiro ligado, sentado no Wanderley Cardozo
há quanto tempo? Estiquei o braço, apontei o dedo para as veias véias e
supliquei: - Tira a dor, JK, tira a dor... Foi o que ele fez. Tudo passou
quando saí do banho. Encontrei sorrisos no quarto. Dormi. A semana já
tinha sido infernal. Quando acordei, de bom humor, ainda insisti para que
almoçassemos num clube náutico, à beira do rio, a pouca quadras daqui.
Tudo escondido de Dra. Mônica, que queria me internar para exames, estava
tâo preocupada com a febre que eu tinha quanto com as dores. Eu estava
plaquetopênico ainda por cima - e eu lá sabia que plaquetas tinham pênis!
- ou seja, qualquer queda ou sangramento - mesmo involuntário, se interno,
provocaria uma hemorragia complicada de tratar, enfim. Ela já tinha
acertado tudo com Tata quando entrei na jogada e tentei um acordo: se
tivesse os sintomas novamente, faria as malas sem reclamar. Do contrário,
que me deixasse em casa.... Desde então tive algumas dores, mas nada
demais. E as febres tenho conseguido controlar. Um exame para cultura foi
feito e nada foi encontrada. Febre tumoral? A dor foi resolvida com
morfina de quatro em quatro horas. Primeiro Tata aplicava, foi divertido e
tenso muitas vezes. Agora eu mesmo estou me aplicando. Na barriga, pernas,
braços, ainda não fizemos na anca. Fazemos rodízio sob recomendação de
Zeda, pra não judiar da pele como os caras da EccoSalva ou EcoSalva. Ugh!
Por falar neles, não contrate! Fiquei com a impressão de que os médicos
eram enfeirmeiros e os enfeirmeiros eram médicos. Fizeram muitas
barberagens nas minhas veias (isso é um elogio ao enfermeiros e de certa
forma aos bons médicos, se me expressei bem). Afora essa fase de agulhas e
pavor, tudo vai bem... Também tomei algumas bolsas de sangue para ficar
mais forte. E consegui cumprir mais uma etapa da químio. Em breve encaro a
terceira.
Escrevam! Me faz muito bem ler os comentários.
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Sábado, Novembro 05, 2005
Publicado
1:13 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Osso dolorido de roer As últimas semanas foram
complicadas. Minha agenda profissional estava altamente positiva. Eu tinha
uma palestra para fazer. Minha empresa formalizou a entrega de notícias
publicadas digitalmente para um Museu num evento que reuniu praticamente
todas as lideranças empresariais e políticas do segmento em que estamos
inseridos. E ainda reuní num café da manhã os patrocinadores da minha
coluna no jornal (já contei aqui antes) com a direção do impresso. Todos
os eventos eram pela manhã. E em todos os dias eu tive dores lancinantes
nos ossos. Afora os dias em que tive simplesmente dor, sem eventos para
piorar a situação. A salvação passou por morfina. Meia ampola, por vezes
uma inteira. Aplicadas sempre sob tensão por Tata depois de aturar longas
horas de gemidos e até gritos de dor. Dóem, por vezes isoladamente, outras
vezes em conjunto, a caixa torácica, a junção dos ombros, os joelhos, a
virilha, o fêmur. Não consigo me levantar sem gritar de dor, girar o corpo
na cama já é quase impossível. Foi também por esse motivo que resolvemos
contratar uma empresa de serviços ambulatoriais para casos de emergência.
Tata e eu logo vimos que, naquele estado, se eu precisasse ser
transportado para o hospital, ela sozinha não conseguiria me carregar.
Também serviria para aplicações de morfina ou outros medicamentos na veia.
O serviço acabou se mostrando insatisfatório em vários aspectos. Demora no
atendimento e profissionais aparentemente despreparados foram alguns dos
aspectos notados. O incrível de tudo isso, entretanto, é que aplicada a
morfina, as dores somem e passo o dia ou dias sem ter qualquer sintoma.
Caminho, escrevo, dirijo, tudo normal.
Por que eu tenho dores? Não
sei. Eu defendo a tese de que, ao retirar a cortizona e diminuir a
metadona, passamos do limite. A cortizona tudo bem, tinhamos que tirar o
quanto antes porque segundo a médica ela enfraquece ainda mais os ossos,
podendo acelerar as conseqüências do tumor. Já a metadona talvez
devessemos voltar à dose anterior. Mas o mais grave nâo são as dores. O
mais grave é que estou tendo dificuldade para fazer as aplicações de
quimio. Ela foi mais uma vez retardada porque estava com as plaquetas em
nível muito baixo. Também as hemácias, o que me deixou alguns dias
ofegante, qualquer movimento um pouco mais brusco era como se tivesse
corrido dez metros em toda velocidade. Para completar, comecei a ter
frebre de 39, 40 graus pela manhã. Dra. Mônica receitou um antibiótico que
parece não estar fazendo efeito. Na última crise de dor e febre, ela
resolveu me internar, decisão tomada ao telefone com Tata. Eu não queria
de jeito nenhum e negociei para ficar em casa com a condição de que se eu
tivesse febre novamente deveria ir para o hospital sem discussão. Tomei,
no dia seguinte, mais duas bolsas de sangue. E foi feita coleta de sangue
para exames em cultura para identificação do vírus ou bactéria (sei lá)
que provocou essa infecção. Desde então tive febre mais duas vezes, mas
consegui baixar com Tylenol e um bom banho. Esperamos o resultado para
segunda-feira, quando - finalmente - iniciaremos o tratamento com o
antibiótico correto. Comentários:
Publicado
12:57 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Danuza Recebi um e-mail surpreendente. Vou chamar a
moça de Danuza. Fiquei realmente emocionado com seu relato.
Antes de qualquer coisa gostaria de saber como vc está! Vi e li
o seu blog hoje...04/11/05. E, sinceramente, nem eu conseguiria relatar
com tanta precisão tudo o que tenho passado até agora. Deixe-me
apresentar: Sou Danuza, tenho 27 anos, moro em Recife e também sou
portadora de carcinoma de rinofaringe. Quando comecei a ler teu relato
parecia que quem tinha escrito aquilo alí tinha sido eu... senti os mesmos
sintomas que vc, perdi audição do ouvido direito, fui a um otorrino... e
tudo aquilo que vc falou. Tive metástase cervical bilateral, foi quando
foi feita a biópsia e foi diagnósticado... carcinoma. Entrei no mesmo
ciclo de cisplatina associada à radio. Fiz 67 de radio e 3 de quimio.
Passando essa fase fui também para cisplatina associada a fluoracil.
Ficava 4 dias internada e 21 em casa. Teria que fazer 3 sessões desta, mas
tive reação a medicação. Desmaiei por duas vezes, então este tratamento
teve que ser suspenso. Fiz apenas 2 sessões. Foi quando a junta médica
resolveu fazer taxol com carboplatina... fiz 3 sessões desta, e perdi
todos os pêlos do corpo. Terminando esta fase fiz a ressonância e foi dito
a mesma coisa. Achavam que o que tinha não era mais doença e sim fibrose (
cicatriz ). Mas para ter certeza eu teria que ser avaliada. Recebi alta e
feliz da vida voltei a minhas atividades... meu trabalho, minha vida
normal. Um mês depois apareceu um tumor em meu abdomen.não senti dor, não
senti nada... apenas aquela massa crescendo. Entrei em desespero e liguei
para minha médica. Ela me tranquilizou e falou que não era comum um tumor
de rinofaringe ter metástase no abdomen. Mas solicitou uma biópsia. Fiz e
hoje tenho o resultado... metástase de carcinoma de rinofaringe. Entrei em
desespero... achei que o mundo ia se acabar. Mas agora estou confiante e
com muita esperança de que tudo dará certo. Estou esperando recomeçar o
tratamento. Acredito que na próxima semana. Fico por aqui aguardando
notícias suas... espero que estejas bem!
Comentários:
Sábado, Outubro 22, 2005
Publicado
12:43 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Plaquetas que dizem sim Minhas plaquetas devolveram
a mensagem positiva que minha mãe tanto rezou: 74 mil, mais do que os 66
mil da semana passada. Meus médicos queriam dar reinício já ao tratamento
na quarta da semana anterior. Eu que adiei para ganhar mais um tempo e
porque quero cumprir as aplicações apenas nas sextas. Assim posso me
preparar para os efeitos colaterais nos findis, com repouso e muita água
para eliminar os resíduos e tudo o mais. Mônica e Senna estão no Rio,
supostamente em um congresso. As enfermeiras, diante do resultado,
consultaram o médico de plantão e o cara simplesmente disse: melhor
preservar o rapaz. Obviamente aquilo provocaria certa insegurança no
paciente e seus familiares. Não foi bem assim conosco. Estávamos convictos
de que aquilo era mais do que suficiente. Quer dizer... da minha parte já
estava indo embora, mas Tata, inflexível, tomou a frente das negociações e
reafirmou os planos de Senna e Mônica. A enfermagem tenta ligar para
Andrea, mas é claro que no meio de uma palestra ela não atenderia a
clínica, que provavelmente queria o aval para alguma coisa burocrática
qualquer. Agora, se um paciente liga, bem, aquela doutora não é
negligente, isso não é. - Alô (meio sem saco). - Oi, Andrea, é Enrico. O
resultado foi 77 mil, posso fazer? - Claro! - O pessoal aqui da enfermagem
não quer autorizar, podes falar com elas? - Sim, claro. Blablablablala e
lá fui eu pro quatinho tipo hotel de 2a divisão, me sentei, furaram a pele
pra injetar o químico e correu tudo bem. Eu e Tata já estamos deixando
nosso home theather agora e pretendo me dedicar, nas próximas horas, à
leitura, enquanto meu amor tentará resistir ao sono à frente da TV Globo
por cerca de meia hora e capotará, resistente.
De novidade
sessão-horror, tenho coisas para contar, MÁS BÁ SE NÃO! Na quarta assisti
o jogo entre Colorado e Boca Junios, vencido pelo Inter aos 48 minutos,
jogo típico de clássico sul-americano. Sensacional! Não importa o que
aconteça, deixamos os argentinos loucos no final, o goleiro deles, da
seleção deles, ficou tão perturbado que foi expulso depois do jogo já ter
terminado (o que é possível, senhoras!). Enfim, fora de série! Fiz um
churrasquinho salgado pro pai (errei no sal pela segunda vez esse mês,
estou puto!) e fui dormir feliz da vida. Por volta de 3h da manhã uma dor
começou de um jeito atroz. Com toda a força! Meia hora depois todo o
corpo, todo o corpo doía muito! Não era possível mexer o braço, as pernas,
tentar sentar na cama era o suplício do suplício, comecei a gemer, Tata
acordou e foi ficando tão desesperada quanto que eu. Começamos a
administrar os remédios: Tylex, Metadona, mais um Tylex, depois um
Ultraset e mais outras coisas que não lembro, mas nada... as dores
aumentando, os gemidos viraram urros... E é claro que comecei a me
contorcer, porque não existe posição possível quando se está assim. E a
cada movimento, maior a intensidade! Olhei pra Tata e disse a palavra
mágica: Morfina! Ela aplicou na minha barriga (era a primeira vez que
fazia isso na vida). Não adiantou muito. E daí, sabem como é Tata, ela
respeita as regras. A doutora tinha dito, meia ampola e espere duas horas
até a próxima aplicação. Bem, não havia negociação. Daí - com a
continuidade da crise - chamamos a Eco-Salva, serviço de atendimento em
casa, porque Tata queria me levar pro hospital, e eu tive que ser o mais
claro possível: - Eu não vou e não consigo me mexer sem sofrer. Chame os
caras aqui em casa e eles que elimem minha dor sem que a gente entre num
esquema mercenário e burocrático! Eles vieram e quando souberam da morfina
respeitaram as regras também. Injetaram Tramal ou coisa parecida. Dormi
por duas horas, nem vi eles partirem. Acordei com a dor ainda mais forte.
Chamei então JK aos prantos, isso já era algo em torno de 9h da matina. O
cara foi muito gente! Largou tudo que estava fazendo e não sei como
atravessou a cidade em menos de 40 minutos, aplicou uma bela dose de
morfina que cheguei a dormir de língua de fora. Acordei não lembro mais
que horas e estou normalzito nomáz desde então, como se nada tivesse
acontecido. Isso enlouquece qualquer um, sabem? Porque realmente não tenho
qualquer resquício de dor.
Por mérito, criatividade e senso de
oportunidade, hoje tive mais uma realização. Entreguei todas as notícias
que o meu site sobre tecnologia publicou desde a sua fundação para o Museu
Hipólito José da Costa. Agora, a vida profissional de muita gente e a
história das empresas do mercado local estão mais do que preservadas:
poderão ser pesquisadas por quem quiser contar um pouco do que pensavam os
empreendedores da época atual. Foi um lance genial, num evento simples mas
bonito, realizado num almoço onde boa parte das personalidades do segmento
estavam presentes. Profissionalmente, aliás, as coisas vão muito bem
obrigado. Caiam fora urubus, já estão ocupados demais com a minha saúde!
Por favor! Eu mal compareço na minha empresa. Quando consigo fazer algo
tem que ser legal. Então, vão cuidar de suas vidas, secadores!
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Sexta-feira, Outubro 14, 2005
Publicado
12:10 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Queda Livre Na terça consultamos com Dr. Senna.
Depois de muito tempo ele compareceu. Estávamos num impasse. Porque minha
medula arrepiou e mais uma vez não pude fazer a quimioterapia mais leve
disponível porque meu nível de plaquetas está baixo. Dra. Mônica ainda
pensou em tocar ficha e azar! Mas a minha experiência de empresário e ser
humano com dois anos de experiência em câncer na rinofaringe aprendi que o
bom senso tem de acompanhar as decisões. Senna entrou na sala e com toda
segurança defendeu que deviamos arrumar a casa. Dar um tempo no tratamento
para ver se as plaquetas reaparecem por si, porque também não tem outro
jeito também. Elas não vem quando a gente chama. Não existe jeito de
mandar recado. Muito menos de obrigá-las a qualquer coisa. Ou elas vem ou
não vem e pronto. A medula é quem decide. Então, vou esperar pelo menos
duas semanas e nesse meio tempo melhorar a força das pernas e também o
quilate dos ossos através de medicação e banana.
Na mesma
terça-feira caí um tombo de assustar. Duas pessoas me acompanhavam depois
de uma reunião. Atravessávamos a rua. De repente, não mais que de repente,
um carro em alta velocidade. Todos tivemos o instinto de dar uma
corridinha: tsk, tsk... Meus amigos foram em frente, eu apenas pensei em
fazer o mesmo, mas mal tive tempo de dar meio passo com a perna esquerda e
meio passo com a direita e comecei a desabar... simplesmente porque minhas
pernas pesam toneladas em certos movimentos... e fui caindo, caindo, vejo
tudo meio em câmera lenta agora... talvez na hora também... tanto que
pouco antes de cair ainda disse: porra, q merda! e bloffff!!!! Ainda
consegui rolar na expectativa de diminuir o impacto, reação ainda dos
tempos de infância... uma rolada apenas e consegui virar o pescoço para
procurar o carro... que - por prudência do motorista - notou minha queda
bem antes, bem antes... estava longe... Fui levantado, constrangido eu
esboçava um sorriso... Dois dias depois e tem gente que me liga porque
soube da queda... deve ter causado impacto em quem assistiu! Eu tive
apenas um raspão no cotovelo... Mas faz pensar sobre situações possíveis
como: E SE EU TIVESSE FEITO A QUIMIO E TIVESSE IDO NESSA REUNIÃO?
CERTAMENTE ESTARIA COM HEMORRAGIA INTERNA E/OU COM UM BRAÇO QUEBRADO. A
mente não mente. E pensa, como pensa....
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Domingo, Outubro 09, 2005
Publicado
9:58 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Ululante O que não parece estar bem é minha
postura. A transição do herói que luta para vencer o perigoso câncer para
o ser humano que precisa controlar a doença pelo resto da vida ainda não
passa de uma transição e suas consequencias, ou seja, ainda estou no
período frágil em que se investiga afinal de contas como enfrentar isso.
Ulula o óbvio de que a postura deve ser a de viver o dia-a-dia e pronto,
mas não consigo parar de ver imagens terríveis sobre o futuro. Tudo indica
que finalmente eu deveria entregar a tarefa para profissionais. Mas
sinceramente o que me trava - possivelmente além do medo - é ter que
mergulhar em determinados assuntos que só provocariam mais desgaste. Ou
então tomar atitutes conclusivas que na verdade já estão prontas,
esperando apenas a ação, apesar de dolorosas. Não sei o que é, prefiro que
não me digam ou interpretem. Mas pode ser birra, medo, falta de
paciência... Ah, sim. Falta de paciência, total... Ando mal humorado,
negativo, enérgico, chato, intolerante, agressivo, algo grosso,
silencioso. Coisas que normalmente me irritam como garçons sem visão
periférica, incompetências, desatenções mínimas exigidas de um ser humano,
respostas irônicas, tudo isso está multiplicado por dez. Vou aguardar mais
um pouco e pesar sobre o que vou fazer. Tata ironiza com Dra. Mônica sobre
minha resistência a terapia dizendo que eu não tennho inconsciente. Diz
que eu nego! É? Comentários:
Publicado
9:51 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Sangue bom No final das contas resolvemos que não
iriamos mais pra Espanha. O assunto virou, naturalmente, um campo de
stress e, sem traumas, optei por não ir e ainda em tom heróico disse para
a médica que optava pelo tratamento, porque ele teria que ser interrompido
para garantir que eu fizesse a viagem com menos riscos. Isso já tem três
semanas ao menos. Dias atrás, na consulta, optamos por parar o tratamento
de igual sorte, porque não tenho plaquetas suficientes de novo para tomar
a mais fraca - em termos de efeitos colaterais - das medicações que estão
previstas que eu tome para ver se encontro alguma que controle o avanço da
doença. Não significa que por isso eu deveria ter optado por viajar,
porque realmente tomamos a decisão certa na perspectiva da segurança. Mas
é desalentador saber que os quase dois anos de tratamento começam a
mostrar as suas verdadeiras consequencias. Minha medula já está produzindo
tão pouco que meu sangue vale pouco na bolsa. Minhas ações pouco valem no
momento e então é preciso investir em novos mercados como diria o Enrico
colunista de jornal centenário. Na terça, tomo mais uma bolsa de sangue.
De novo, correndo o risco eventual de pegar uma porcaria pelas veias. Pelo
menos é o que eu penso, contrário a tudo que os médicos, enfermeiras e
pessoas próximas dizem sobre a qualidade do sangue que eu recebo. De
qualquer sorte, não dá para negar, abandonei o mundo das imagens e estou
concentrado na leitura desde que passei a vampirar. Leio pelo menos quatro
jornais por dia de cabo a rabo e ainda estou com todos os 10 livros mais
vendidos no Brasil espalhados pela casa: banheiro, quarto, sala,
escritório, enfim. Da ficção ao real, estão todos a mão. Devoro tudo com
prazer.
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Sábado, Outubro 08, 2005
Publicado
8:25 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Judiação Como diz o Millor, quem é vivo sempre
desaparece. Não vou nem me perdoar. Nem me desculpar. O mundo veio acima.
Caí de joelhos. E os ossos, doem! Doem ossos para o Enrico!
Sabem
qual o país que eu mais desejei visitar na vida? Espanha. Pois recebi um
convite para cobrir um evento na Espanha, sou jornalista, caso alguém
tenha preguiça de ler o blog inteiro para entender a frase. E fiquei 24h
em pane, sem falar nem para Tata, porque achei que estava recebendo um
presente dos céus... E que talvez alguém lá em cima, que bobagem,
estivesse me presenteando com tudo que eu queria em vida para terminar de
uma vez com minha existência. Isso porque dias atrás tinha aparecido a
oportunidade de assinar uma coluna semanal de página inteira em um jornal
local de grande circulação, da área de economia, centenário, uma honra,
enfim, que eu topei, obviamente, e que, profissionalmente, significa um
segundo patamar, um novo nível, já que até então eu militava na imprensa
digital, algo ainda um tanto, digamos, alternativo. Então, como estava
dizendo, 24 horas depois, eu tive coragem e contei pra Tata e depois fui
contando pras outras pessoas. Liguei pra agência de viagens responsável,
comecei a correr atrás da papelada. Decidimos que iríamos juntos, depois
passaríamos em Paris, o lugar que tanto minha querida sempre sonhou em me
levar. Ela já esteve lá e acha que eu iria adorar Mont Martre. Iríamos
juntos por isso, mas também porque nem Tata nem eu conseguimos mais nos
imaginar com um oceâno de distância. Não só pelo amor, mas também porque
não saberíamos o que fazer se acontecesse algo comigo de uma hora pra
outra e não tivessemos o apoio mútuo que acostumamos a nos dar. E se eu
fosse hospitalizado por um motivo ou outro? O que faria eu sem Tata? Como
Tata reagiria sabendo disso no Brasil?
Dois ou três dias depois a
gente teve uma pequena idéia do que seria. Interferência divina de novo?
Quatro horas de dor calcinante, ininterrupta, acachapante, supostamente,
na hora, definitiva, como se houvesse algo definitivo na vida. E dê-lhe
medicação disponível, desespero, rolando no chão, gemendo, sem ar, sem
saliva, eventuais gritos, discussões, sussurros de "meu amor", "vou
morrer", "eu que deveria estar sentindo isso", "meu Deeeeus", "que
horroor", "me leva, me leva", "não aguento mais, por favor", "vamos pro
hospital", "Nãoo, Nãooo". Fomos. Lá, na emergência, depois de uma série de
exames, ficou constatado que o ´nível das plaquetas do meu sanguinho era
tão baixo que se eu caísse, tivesse algum pequeno sangramento interno,
isso causaria um dano fatal, porque meu sangue simplesmente não
coagularia, eu teria hemorragia interna e provavelmente morreria. Então,
amigos, foi recomendado que eu deveria ser internado! Sim, internado. Pra
mostrar bem os riscos de uma viagem pra Espanha, não esqueçam...
Trocamos de hospital, porque aquele a gente estava usufruindo
apenas para casos de emergência, afinal é o mais perto de nossa mansão. O
que confiávamos, ficava perto do nosso antigo apêzinho, aquele onde a
nossa vida não tinha qualquer glamour, mas ao menos era eterna. Chegamos
lá e fomos para a emergência, porque não havia quarto disponível, não
havia quarto disponível. , não havia quarto disponível, não havia quarto
disponível, não havia quarto disponível, não havia quarto disponível, não
havia quarto disponível, não havia quarto disponível, não havia quarto
disponível, não havia quarto disponível, não havia quarto disponível, não
havia quarto disponível, não havia quarto disponível, não havia quarto
disponível, não havia quarto disponível, não havia quarto disponível, não
havia quarto disponível, não havia quarto disponível, não havia quarto
disponível, não havia quarto disponível, não havia quarto disponível, não
havia quarto disponível, não havia quarto disponível, não havia quarto
disponível, não havia quarto disponível. E foi mais ou menos esse o número
de vezes que ouvimos de enfermeiras, chefes de enfermagem, médicos,
auxiliares administrativos, sei lá mais quem. O quarto era minúsculo, sem
banheiro, e eu - imunodepressivo - sem poder sair de lá, com dificuldade
para ir aos pés, quiçá para ir a cura, caguei durante dois dias num
troninho parecido com uma cadeira de rodas, porque, sim, porque por dois
dias, argumentaram que não havia quarto disponível. A coisa foi ficando
insuportável, fui perdendo a razão, Tata o controle, eu também, a família
sem saber o que fazer, de repente uma discussão irrompe, interrompe a
civilidade com que haviamos tratato o tratamento que nos davam e daí
comentei com Tata que ela devia fazer plantão na área administrativa para
conseguir um quarto, ela - claro - não aceitou a tese, que considerou como
crítica; "Afinal, estava ali cuidando de mim". Liguei então para Geisel,
botei a boca nele, dizendo que deveria estar lá resolvendo isso, que eu
não suportava mais defecar no próprio quarto, o que diabos ele estava
fazendo em casa se eu estava naquele estado! E mandei tudo à merda também
e comecei a berrar por socorro, que eu exigia um quarto decente, que não
merecia cagar na frente da minha família, que aquilo era uma pocilga, que
eu não era um PACIENTE, que eu era um CLIENTE! Eis que a enfermeira
adentra o quarto, "mas o que houve?" "Houve que eu quero alguém da
administração aqui em 15 minutos ou vou-me embora e se cair aqui dentro
deste dito hospital processo vcs por maus tratos!" "Calma, senhor, já vem
alguém aqui" E eu segui urrando e berrando e de certa forma me dando conta
de que a partir de um determinado ponto eu já estava fazendo teatro,
porque já sentia que a gritaria toda tinha efeito, mas não podia parar
mais afim de que algum efeito positivo tivesse e tudo indicava que ia ter
mesmo, até que alguém realmente veio e em 15 minutos Geisel apareceu,
chegou a sorrir, porque eu já estava numa maca de rodinhas, sendo levado
por cinco enfermeiras para um quarto amplo, com vista para o Rio Guaíba,
banheiro impecável, cama para acompanhante, sala de estar, tv a cabo, um
hotel cinco estrelas, enfim. Mazéin? Fiquei cinco dias por lá e continuei
com dificuldade para defecar e com dores horríveis e com baixas plaquetas,
mas tomando morfina, que não é grande coisa dependendo da enfeirma que a
aplica. Se no final não for dado um jato mais fortinho via ampola ela tem
pouca graça. Por outro lado, se entrar com mais força no final o mundo
fica lindo e maravilhoso por alguns minutos. E se vc dormir logo em
seguida nem se importaria se na verdade fosse a morte.
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Domingo, Setembro 04, 2005
Publicado
11:21 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Urubuzada gracias Obrigado, urubus! O domingo foi
fenomenal. Tom Gil, Lee e SUol, HAL e seu filho HALambics e sua esposa
Virtuosa, Tatibitati, violão, churrasco, vista pro Guaiba, lareira, muito
amor, batispapus. E Tata... e doces... um com bizzz booooom..
Comentários:
Sábado, Setembro 03, 2005
Publicado
11:40 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Saiam de mim Diminuímos a medicação sob orientação.
Esqueci de tomar nos horários alguns dias. Achei que estava são. Agora,
tudo voltou a ser um inferno: dores, discussões, stress. Urubus, vão
curtir a vida noutro ombro e me esqueçam por pelo menos uma semana!
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Quarta-feira, Agosto 31, 2005
Publicado
11:19 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Legaaaaaaaall Não, sério, foi de ficar meio assim
como os desenhos animados da propaganda da escola de inglês! A gente deu
uma fujida lá pra Ana Rech, um bairro de Caxias do Sul, sabe? E num hotel
muito tri desmanchei na tal banheira de hidromassagem, almoçamos na
tradicional Alvorada, fui o mais romântico que consegui na minha
existência e ainda terminamos o fim de semana comemorando o niver da minha
querida sobrinha e novelo de lã Polly na sua mansarda. Mal consegui me
deliciar com as massas espetaculares preparadas pelo orgulhoso papai JJ,
porque no café enlouqueci com os pães maravilhosos da Serra. Porto Alegre
merece uma padaria ao menos com maravilhas como aquelas. Porque se tem, eu
preciso conhecer urgente!
Hoje fiz a primeira quimioterapia na
clínica nova. A Dra. Mônica fez alguns exames, um tanto burocrática e
sonolenta como o dia de hoje (muita chuva e frio: escrevo de frente para a
lareira). Também, como sempre, apareceram novidades. Os efeitos colaterais
que não existiriam se transformaram em cansaço por uns três dias. Tudo
bem. Azar. Mas calculei rápido que se o processo se repete toda semana
passaria quase 50% do tempo abatido de novo. A resposta também foi a que
vocês estáo acostumados a ler por aqui: cada pessoa reage de um jeito
diferente.
De resto, tudo foi muito demorado, aos poucos fui
perdendo o humor. Muitas visitas durante a aplicação, uma nutricionista,
uma psicóloga, Tata me acompanhou, porque o sistema é diferente, lá é
permitido, e fico num quarto individual, tipo hotel, com som, TV,
revistas. Apesar disso, por incrível que pareça, eu estava já estava de
saco cheio, o que levaria uma hora e meia acabou levando mais de quatro
horas. Meu humor foi pro espaço por isso e por voltar ao ambiente de
tratamento, sei lá, ainda náo avaliei direito.
 
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Segunda-feira, Agosto 22, 2005
Publicado
11:24 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Hemácias Deviam ser de atleta as hemácias que
recebi. Minha mãe é transplantada e vive hoje graças a solidariedade de
alguém. Já eu... Bem, estou com um apetite sensacional, disposto, consigo
subir e descer dez degraus de escada sem ficar ofegante, minha voz
estabilizou, meu ouvido melhorou, tenho cor! As pessoas não gostavam de me
falar. Mas eu estava cinza! Essa é - aliás - a descrição de Tata, só agora
confessada.
Na noite de quinta para sexta tive dores terríveis de
madrugada. Ainda ontem comentava com Tata. Por vezes fico incrédulo com o
que estou vivendo, mesmo quase dois anos depois do diagnóstico. Mas isso
pouco importa. O que veio depois foi um domingo fantástico. Acordei
disposto às 7h da manhã, o que é praticamente inacreditável para os
padrões dos tempos recentes. Assei um belo dum churrasco para meus pais e
meus sogros. Depois recebemos uma sequencia de visitas regada a bolinho de
arroz, bolo de fubá, chás, chimarrão, cervejas com e sem alcool, etc. Foi
sensacional receber tantas calorias para o organismo e para a alma.
Para encerrar, quero elogiar a elegância do nosso amigo Dr.
Marquez na minha última sessão de rádio. Comprometeu-se de passar o
relatório das rádios e de tudo que fez para o meu novo médico. E, claro,
me deu um belo aperto de mão. Recebi abraços de todas as gurias da rádio.
E vi de longe minha querida companheira de quimio, Sheila.
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Terça-feira, Agosto 16, 2005
Publicado
11:34 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Nova aerodin?mica A consulta foi exatamente como eu
esperava. Cheguei a ter a sensação de que já tinha vivido aquilo. O lugar
é um tanto labirintico, um prédio estreito e pouco iluminado naturalmente.
Mas a simpatia comum em clínica contra o câncer já foi percebida na
tiazinha que atendeu a mim e Tata na portaria. Tipo... viu um careca
'"óóóóóóó cliente novo!" hahahaha. E acho que foi assim mesmo. Não houve
atrasos, mas nas primeiras consultas é sempre assim, ou não? Tanto faz.
Fato é que fomos atendidos primeiramente pela Dra. Mônica, que anotou todo
o nosso tenebroso histórico. Elogiou nossa organização. Muito simpática e
bonita. Gostamos da postura. Tata comenta que ela foi simples, direta, deu
o tom certo para cada coisa que contávamos. Depois de cerca de 30 minutos
de conversa, ela nos informou que faria uma reunião com Dr. Senna. Vale
lembrar que pesquisamos bastante sobre ele na Internet e, portanto,
tenhamos uma idéia do que iríamos encontrar, inclusive fisicamente. Tudo
se confirmou. O cabelo é realmente aerodinâmico. E a timidez passa longe
do cara, que deve ter a mesma idade de Dr. Marquez, um tímido esforçado.
Esclarecemos a nossa intenção. Queríamos uma segunda opinião, uma
outra proposta de tratamento e um horizonte de medicamentos mais amplo.
Foi exatamente o que nos convenceu a iniciar vida nova. Porque foi
exatamente o que Senna nos propôs. Na quinta-feira já transfundirei. Uma
hora e meia injetando pelo menos duas bolsas de plaquetas. "Tu já tá
batendo biela, daqui há pouco desmaia na rua, não podes ficar nesse
estado, isso prejudica tua saúde, portanto, teu tratamento". A proposito
passa pela mesma base de diagnóstico da outra clínica e seus técnicos: meu
caso? grave, perdemos o controle da doença, no momento ela é mais forte do
que eu, então, temos que continuar lutando, mas sempre pensando em
qualidade de vida. Os químicos propostos por Dr. Rocha foram considerados
agressivos demais pra minha fase atual. "Existem soluções com os mesmos
15% de chance de resultado que por outro lado causam bem menos efeitos
colaterais. O Hirinotecano e o Docetaxel provocam uma diarréia infernal,
além do mais vais continuar anêmico. E essa radioterapia? Por causa de um
nódulo? Eu suspenderia!" Eu e Tata, aliás, temos que decidir quanto a
isso.
O diagnóstico, entretanto, não alterou. Nem eu esperava
tanto... Mas o fato é que agora sou assumidamente o portador de uma doença
crônica. O objetivo do tratamento tenta controlar sua expansão, diminuir
sua ação. Mas só um milagre ou uma medicação nova, o que não deixa de ser
um, pode virar a coisa em direção a uma cura. Temos que buscar agora
prolongamento e melhor qualidade para a vida. E tratar, tratar, mesmo que
com intervalos, seguir tratando, sempre, sempre tratando. Isso significa
cuidar bem da alimentação, do sono e, principalmente, dos ossos. Ainda não
são de vidro, mas poderão ficar. As dores virão, serão fortes, terão de
ser tratatadas com rádio localizada. E depois de matar as células ruins,
concentrar na calcificação via químicos e nutrição.
Foi uma boa
consulta. Estou me sentindo melhor. Vamos ver como será receber sangue
alheio. Nunca fui chegado em vampiragem.
Ah, pra encerrar. Quatro
pessoas confessaram que ficaram com inveja da nossa viagem pra Paris.
Decidimos trocar pra Ana Rech, parem de nos secar!
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Domingo, Agosto 14, 2005
Publicado
2:19 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Amelie Moro num bairro diferente faz alguns meses.
Vai completar, se já não completou, um mês que meu escritório mudou de
endereço. Não tenho problemas alarmantes afora o mesmo enorme e monstruoso
há dois anos. Vejo pouca gente que costumava ver todos os dias, no mínimo
duas vezes por semana. Por um inexplicável problema, essa semana recebi
e-mails de 2003/2004. E, entre 75, um se destaca porque não consigo
identificar a data. Não sei se veio do passado ou do presente. A verdade é
que mal bebo. Fumo como quando guri, com tocos imaginários. Encho e
esvazio o pulmão com ar apenas. Não vou a bares. Continuo adorando
restaurantes. Ouço mais música, ainda em quantidade insuficiente,
infelizmente. Por impulsão, ainda que raramente, adoro mergulhar na
escuridão do cinema e penetrar em vidas alheias, histórias incríveis,
trilhas que me fazem lacrimejar. Em casa vejo e revejo os mesmos sempre.
Agora sonho com um projetor para ter minha escuridão poética também em
casa. Da sacada, olho para o mundo, abro os braços, me abraço enquanto
Tata dorme. Abraço tanta gente. Tudo parece tão distante... Penso,
penso.... Me emociono... Sento. Hoje assistimos Amelie Poulan com a tela
do notebook esparramada na minha barriga. Tata dorme antes do término como
de costume e eu me emociono do início ao fim. Cinema é tão bom em me
mostrar o quanto estou vivo...
Na terça-feira vamos procurar um
médico novo, dono de um clinica com visao diferente da que fomos
assistidos até agora. Parece que o pessoal fez o que pôde lá. Perdemos a
sensação de exclusividade. Os médicos não têm mais aquele brilho nos olhos
que nos fazia esperançar. O quimioterapeuta nos ofereceu testar
medicamentos os quais nem recordava os efeitos. E como insisti muito
confessou que para vencer o que tenho espalhado pelos ossos não conhece
nada capaz. Talvez algo novo... embora diga com todas as letras que não
acredite. Acha que para controlar o crescimento do câncer nos ossos, de
novo por insistência minha, temos 15% de chances. Tata reclama que eu
estou querendo fazer uma contagem regressiva. E o radioterapeuta? Dr.
Marquez resolveu emitir raios sobre um campo no abdome, um linfoepitelioma
que os especialistas em imagem negam o crescimento, mas que ele acredita
ter aumentado menos de 1cm, portanto, quer combater. Fico com a sensação
de que gosta tanto de mim que não quer desistir, embora saiba que não
passa de uma atitude paliativa. Um pensamento notadamente idiota. Uma
amiga também doente, em situação ainda mais grave que a minha, reclama que
meus doutores não estão cuidando de fortalecer meus ossos. É verdade. Ou
estão sem saber o que fazer ou a clínica tem tantos pacientes que perderam
a individualização. Basta observar. Afinal, em dois anos, nunca tinhamos
visto tanta gente em tratamento lá quanto agora. São três andares de
estacionamento no topo de um morro. O que importa é que, do novo médico,
sei que tem cabelo aerodinâmico, que acredita no poder das plantas, que
tem trabalhos publicados e pesquisas em andamento pelo mundo afora. E
mais: acha imperdoável que os pacientes de câncer tenham de sofrer a
humilhação de perder os cabelos com quimioterapicos pouco eficazes. Vou
oferecer como novidade minha beleza sem pelos. Não sei se vou querer
voltar a querer cabelos de novo. Por outro lado, talvez seja melhor não
contrariar quem gosta tanto de cabelos. E valoriza tanto a sua
aerodinâmica. O importante é que até o final de 2006 Tata pretende me
levar a Paris, onde pretendo chorar pela última vez.
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Segunda-feira, Julho 25, 2005
Publicado
8:56 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Quanto tempo? É incrível, importante, emocionante,
sempre positivo, enfim, encontrar comentários de pessoas desconhecidas
aqui. Quanto mais se dizem que de alguma forma cumpro com o objetivo de
ajudar quem vivencia o terror da doença mortal, seja ela qual for. Foi
exatamente por esse tipo de audiência que decidi continuar postando meus
resumos, deixando para segundo plano a idéia de publicar um livro.
Obrigado Cristiane!
Como estão as coisas desde a cintilografia?
Melhor do que se poderia esperar. Curiosamente, minha primeira ação foi a
de tentar descobrir que prazo teria, na expectativa inacreditável de
planejar o estilo de vida final. Se tivesse dois a três anos de vida, por
exemplo, escolheria um entre dois caminhos. Tentar capitalizar um valor
específico para deixar de trabalhar, abandonar as mínimas
responsabilidades, realizar algumas viagens, conhecer lugares sonhados,
viver uma vida simples, que não preciso de muito mais do que já tenho para
ser feliz. Tenho a casa dos sonhos, as delicias que mais gosto na vida
estão ao meu alcance (como o melhor petit gatô feito no RS, que degustei
na casa do Cozinheiro sábado passado, precedido por uma moqueca
indescritível). Falta um telão para ver meus filmes prediletos com Tata do
meu lado, que no final das contas é o que verdadeiramente interessa. E
basta, bastaria Tata. Bastaria!
A outra opção seria trabalhar com
afinco para garantir que minha presença na Terra tivesse significado
reconhecido para um grupo de pessoas, profissionais e empresas envolvidas
na minha trajetória de jornalista. Boa parte desse caminho já tracei, sei
que fui útil para a formação de muita gente que trabalhou comigo. Sei que
consegui abrir espaço político antes inexistente para um grupo de
empresários, dirigentes e profissionais com o portal que desenvolvi para
um segmento específico da economia gaúcha. Sei que fui honesto o
suficiente para ter no currículo um resultado mais do que positivo para os
pequenos deslizes que cometi. Mas se dessem meu nome para um bequinho
qualquer em Porto Alegre morreria feliz. :)
O que interessa mesmo,
entretanto, é que toda a irradiação que Dr. Marques chegou a planejar, o
resultado das tomografias o fez desistir. Não há nada que justifique fazer
radioterapia no momento. Na quarta, teremos uma reunião com ele e o médico
responsável pela químio. Tudo indica que então saberei como serão meus
próximos meses. Certamente, farão uso da quimioterapia para tentar
controlar a rapidez com que o tumor se desloca e deixa suas maledicências.
E, é claro, tomarei conhecimento dos efeitos colaterais, os malditos
efeitos colaterais.
Comentários:
Quinta-feira, Julho 21, 2005
Publicado
1:54 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Aviso aos navegantes Esse blog não é literatura.
Foi criado para dar notícias aos amigos distantes e para evitar que eu
tenha de contar todo dia por telefone o que estou vivendo, o que por vezes
demanda muita energia. Acabou, é verdade, se transformando num jeito de
dividir a experiência que estou vivendo com quem de alguma forma também o
está, seja enquanto paciente, seja enquanto parente.
Por isso, não
dá pra transformar o Trópico de Câncer em Trópico da Vida e por isso não
posso incinerar o que já escrevi, pois é a única maneira das pessoas que
estão distantes poderem saber como eu estou ou como tudo começou, quando
ficam sabendo. Então, não é um blog fácil de ler, nem de escrever, mas é
necessário para que, acima de tudo, eu consiga racionalizar o que está
acontecendo comigo.
Aliás, quem não suporta notícias ruins, por
favor, desligue o computador.
Saiu ontem o resultado de uma
cintilografia para saber como estavam meus ossos depois do tratamento com
radio e quimioterapia (a última sessão foi segunda-feira). Tenho sinais de
tumor no crânio, ombros, braços, quadril, coluna, joelhos e canela. Por
sorte, já temos, entretanto, o resultado da tomografia que fiz ontem. Não
há nada de muito comprometedor nos órgãos. Isso deve alongar bastante
minha expectativa de vida.
Encerro agradecendo quem puder me
acompanhar nessa jornada. Compreendo, no entanto, quem não tiver estômago
para aguentar tanta merda. Enquanto estiver vivo, por outro lado, prometo
manter meus queridos amigos informados sobre minha "saúde".
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Domingo, Julho 03, 2005
Publicado
5:22 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Grito Silenciei. Depois de dez dias rouco,
silenciei. O médico achou melhor. Descrevi na sexta o ocorrido para o dotô
e ele perguntou: ocorre de tu, eventualmente, te afogar. Apontei o dedo
para ele em confirmação. - Sim, toda hora - assoprei.
Fez o exame
com uma mini câmara e decretou: - Não é nada, cheguei a pensar que pudesse
ser alguma coisa mais grave nas cordas vocais. Preciso que tu fiques em
silêncio até domingo pra ver se a tua voz volta. Silenciei.
No
sábado, custei a acordar e a me espreguiçar. Mas desde às 10h assisti ao
Live 8, o maior show simultâneo (Londres, Paris, Roma, Berlim, Moscou,
Joanesburgo, Tóquio, Filadélfia e Toronto) já ocorrido no mundo.
A
MTV Brasil transmitiu 10h de shows de artistas como U2, Madona, Paul
Mcartney, Dido, AudioSlave, Coldplay, Green Day e, entre muitos outros,
Pink Floyd com a formação original, tocando junto depois de mais de uma
década. Demais!
E ainda passou o meu e o nome de Tata nos telões
das cidades onde ocorreram os shows. Assinamos a lista proposta por Bob
Geldof, pedindo a suspenção da dívida externa da África. Foi um grito
possível com a Internet!
Fora os três filmes em seqüência que vi
com Gis. Virei homem de poucas palavras.
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Terça-feira, Junho 14, 2005
Publicado
7:39 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
+ 1 + ? = ? Incrível. Lá se foi mais um ano. Aqui
mesmo no blog registrei meus 38. No ano que vem viro mais uma casa no
contador. Quarenta! Lembro bem que quando pequeno calculava quantos anos
teria em 2000. Isso por volta de 1978, 1979. Recordo que colocava no
ouvido o fone retirado de um telefone, que por um fio se conectava a uma
galena - espécie de rádio rudimentar, feito por um amigo de meu pai de
presente para mim - e ao ouvir as vozes de veludo de uma locutora uruguaia
qualquer, por volta da meia-noite, tentava imaginar como eu seria vinte
anos depois. Fica angustiado por não conseguir me ver, logo eu que tinha
imaginação para me transportar para qualquer lugar ou me transformar em
qualquer coisa.
Na semana passada, bolei uma festinha onde
estariam alguns amigos próximos. Alguns deles cheguei a mandar um convite
ao estilo do que Fiapo bolou no ano passado. O tema do ano foi ENRICO
RELOADED e a cabeça da peça aqui figurava no lugar da cabeça do Keanu
Reeves no cartaz do filme Matrix. Ficou realmente engraçado. Mais embaixo
um mapinha para chegar na casa nova. Passei dois ou três dias selecionando
músicas no computador, uma seqüência "Lounge" para rodar a partir das 17h
e outra "Dance", pro povo pirar sob o ritmo de imagens pulsantes emitadas
por um telão na parede do pé direito mais alto da cobertura. Tudo seria
regado a chope de primeira qualidade, mini-hamburguers e mini-chachorros
quentes (pros nego não se embebedarem rápido demais).
Mas... deu
xabu de novo nos meus intestinos dois dias antes... Daí veio uma
instabilidade emocional acima da média. Mil crises, teatro solo, shows do
Nirvana em fim de carreira, enfim. Desmarquei tudo, avisei quem eu já
tinha convidado com mil desculpas e desisti inconsolável. Foi até bom no
final das contas, porque São Pedro não ajudou muito quando sábado chegou.
Foi um dia nublado e a grande atração da festa - o Pôr do Sol no Guaíba
visto daqui - acabaria não tendo grande valor. Mais tarde ainda fui
alertado por Zelda que no ano passado minha festa foi em julho, quase um
mês depois do 08 de junho, então, poxa, que assim seja, consideremos tudo
como um simples adiamento. Aguardem notícias.
Permaneceu, no
entanto, a idéia de receber parte da família para traçar um cordeiro de
Rivera no dia seguinte. Minhas irmãs descreveram tudo muito bem nos
comentários do Post anterior. Podem conferir para entender tudo, inclusive
que foi ótimo e que eu me esforcei ao máximo para suportar fisicamente
tanta alegria.
Para encerrar, agradecimentos especiais a Geisel,
que fez milagre e conseguiu peparar carnes variadas para tanta gente na
minha churrasqueirinha, originalmente feita assar não mais do que 5Kg de
carne. Claro que também para minha amada Tata. Afinal, com minhas pernas
bambas, pude ajudar muito pouco para colocar tudo em pé, antes, e abaixo,
depois, se é que me entendem.
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Domingo, Maio 29, 2005
Publicado
2:48 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Resumito, salamito O mês está terminando, tanta
coisa aconteceu e eu nada de informar os amigos. Acho que fiquei esperando
por inspiração, o que é uma bobagem, já que o objetivo do espaço sempre
foi o de informar. Tata retirou um nódulo do seio. Quase enlouqueci no dia
da cirurgia, fiquei hiper nervoso, me perdi dela no hospital, me
comuniquei mal com a sogra e sogro, enfim, fui um fiasco no quesito
acompanhante. Talvez por saber o que é uma biopsia positiva. Por saber
que, eventualmente, nos meus piores momentos, ela já tivesse pedido para
ficar no meu lugar... Tanta coisa passa na cabeça da gente... O resultado
saiu na semana passada. Tudo ok, era benigno, "costuma ter ressidiva e aí
pode ou não vir a ser maligno", foi o que o médico disse.
Depois
disso tudo ainda tive duas internações por dores nos intestinos. Estavam
inchados, é provável, por causa da radioatividade emitida na região, o que
impedia parcialmente a passagem de gases e fezes... doía. Chegava a noite
e, no intervalo de três dias, a porqueira começava. Espasmos terríveis.
Ruídos assustadores. Cheguei na emergência do Hospital Mãe de Deus aos
gemidos. Na primeira vez, injetaram Buscopan direto na veia. Como não
adiantou muito, recorreram a um tal de Tramal. Passou, mas recomendaram
que eu ficasse em observação. Enquanto eu dormia, confortavelmente, Tata
optou por passar a noite em vigília, acomodada num banco e distraída por
um tricô (vício recente).
Na verdade, até então não se sabia o que
poderia estar provocando aquilo tudo. Uma radiografia e uma ecografia
mostraram que eu tinha líquido livre no estômago. Um cirurgião foi chamado
de última hora. Como dois dias antes eu tinha feito uma tomo de abdome
total, o do facão segurou o ímpeto de fazer uma laparoscopia de urgência.
"Amanhã, quando ficar pronta a tua tomo, veremos se tu já tinha esse
líquido, como decorrência do teu tratamento, ou se isso apareceu de dois
dias pra cá. Se acumulaste ele em tão pouco tempo temos que abrir pra ver
o que causou isso. Podes ter uma perfuração, algum órgão pode estar
vazando líquido...". Dormi.
Na segunda ocorrência, a dor era tal,
que depois do Buscopan e do Tramal, finalmente, depois de anos, provei a
Morfina. Pausa rápida para comentário. Nada do que eu esperava. Passou a
dor, por alguns minutos tive uma sensação de conforto. Mas foi só. Acho
que foi uma subdose :). O Tramal, dessa vez, me fez vomitar bastante. O
drama, entretanto, foi menor porque estavámos orientados. Os médicos da
clínica onde faço o tratamento já estavam informados.
A orientação
para o plantonista foi de que eu fosse medicado contra a dor e dormisse
mais uma vez na ala de observação. No dia seguinte, recebi alta do mesmo
doutor que sempre me presenteou com Propofol nas colocações e recolocações
do portocat. Tata dormiu em casa, voltou apenas no dia seguinte. Ela,
Zelda e Geisel esperavam o médico voltar com a confirmação da minha alta,
quando resolveram abrir a porta da ala e deram de cara com o cara beijando
a enfermeira na boca. As expressões de algum espanto provocaram a resposta
do galã: "Salve, pessoal, essa é minha esposa.."
Desde então não
tive mais dores. Talvez o inchaço tenha passado. Talvez fosse apenas uma
dobra infeliz da tripa, talvez fosse um rebote do Ducolax que eu estava
tomando diariamente para evitar desastres na hora de defecar... O certo é
que não comi mais fibras, porque - por incrível que pareça - elas podiam
estavam trancando na parte com problema. Para evitar constipação e
eventuais mísseis, não estou desavisado. Um verdadeiro arsenal está
montado na cozinha. Óleo mineral, suco e chá de ameixa! No banheiro, ou
paiol, tenho Dersani, Quadriderm e a imprescindíverl Xilocaína!
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Quarta-feira, Maio 11, 2005
Publicado
9:34 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Califa Enrico Quinze dias depois, o que dizer. A
quimioterapia seguiu seu curso. Dessa vez a sessão de cinema no meu
notebook foi de "Blade Runner, Caçador de Andróides". Alguma chapação como
sempre legalzinha na hora, mas o preço veio três dias depois. Foi na
quinta, né, então, no sábado passei malíssimo, dores pelo corpo inteiro,
nas articulações, músculos, no estômago. Defecar foi doloridíssimo como
sempre, mas logo apliquei pomadas recomendadas e já está bem menos
dramática a operação.
No Domingo tive uma folga, passei bem, mas
estive um tanto arredio e silencioso, atrapalhado pelos ouvidos, que
expeliram durante todo dia muita cera e secreção. Passamos o dia na casa
do JJ e Zelda, um recanto magnífico para encontro das famílias. Por lá
apareceram também o Primo, sua gentilíssima esposa, irmã, pais, que
residem em Santa Catarina, e minha querida tia Adel. Foi um bom dia. Com
destaque para as SENSACIONAIS massas e molhos preparados por JJ e
Clovinho.
Nosso apê já está ganhando cara. Consegui botar os
livros na estante e ao mesmo tempo, de última hora, organizar uma
exposição de aparelhos ligados à minha história com a Comunicação.
Primeiro uma Olivetti que tanto Marlon quanto Claude usaram nas minhas
residências dos tempos selvagens. Azulzinha, com design algo "muderno".
Até hoje detono as teclas dos micros porque eu não digito: - Eu
datilografo!, o que exige mais porrada do que pressão na hora de escrever.
Também encontrei um despertador com duas sinetas e um badalo,
daqueles de dar corda e tirar a gente da cama no atropelo. Um gravador
Sânio daqueles retangulares, onde gravava a narração das finais de meus
campeonatos de botão. Eu contra eu mesmo. Dava tudo para achar uma fita
perdida com uma gravação daquelas.... Tinha até o som da torcida, gerado
por uma televisão P&B que eu deixava ao lado do campo, sem sinal, pra
dar aquele chiado, na época muito parecido com o dos estádios cheios...
especialmente se fosse girado corretamente o volume, ahhhh... era possível
até reproduzir alguns dos coros das torcidas.
Também coube na
estante o primeiro notebook que eu tive, um Compaq begezinho que não
consegue rodar nenhum programa de hoje em dia. Ele acessa a internet e
tudo, mas a tela 640 x 420 exige um exercício e tanto para visualizar
alguma coisa. Em meio há alguns livros, também estão dois rádios, um
RCA/Victor dado com carinho a mim pelo falecido Vô Lúcio e um Semp (ainda
sem o Toshiba do lado) de quatro bandas.
Não consegui ver tudo que
tem nas fitas K7, porque ainda não consegui desencaixotá-las. Na sexta,
entretanto, o marceneiro termina a última obra. Daí vou brincar de
ouví-las. E ainda faltam colocar os suportes das luzes, os ventiladores de
teto, os quadros na parede... ufa... Tata chegou a pedir licença do
trabalho. Vai ficar um tempo fora para cuidar da casa e do Califa
Enrico...
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Sábado, Abril 23, 2005
Publicado
12:07 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Ação! Marloca pede por ação. Teve muita por aqui,
sem dúvida, com o negócio da mudança. É incrível como em quatro horas você
desmancha uma casa que levou sete anos para construir e em, não mais do
que outras quatro uma nova vida começa. No empacotamento muitas
recordações vem e vão. Fotos, cartas, trabalhos da faculdade, desenhos,
notas fiscais de supermercado de um distante novembro de 1988, livros
esquecidos, fitas K7 inacreditáveis, contos do fiel amigo Jair Domingos
dos Santos, já falecido, fotos dos anos selvagens em preto e braco,
embaixo de viadutos, cabelos espetados, muito alcool e cigarro...
Mas ação mesmo teve a Zeda e o JJ. Minha querida irmã confirmou a
tese de que a família está sendo atacada por forças negativas de outra
dimensão. Brincadeiras a parte, ela teve uma infecção nas trompas logo
após ganhar juízo por ter extraído o Ciso. Passou seis dias no hospital,
foi vítima de uma cirurgia feita às pressas, o que deixou a família em
sobressalto novamente.
Agora já passa bem. Mamma desloca-se todo
dia para sua casa e acende as seis bocas do fogão para cozinhar
especiarias que a façam recuperar as forças e o peso perdidos.
Sensacional! Um por todos e todos por um! Aqui é assim.
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Publicado
11:09 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Novos ares Depois da primeira noite e um passeio,
dois dias depois, em busca de um restaurante para almoçar, Tata comenta:
"Parece que estamos viajando..." Pois foi a síntese mais perfeita da
última semana vivida intensamente pela dupla aqui. Sim, amigos e amigas,
deixamos o Bom Fim, que - por mais legal que fosse - não era um bom nome
de bairro para quem tem uma doença como a minha, correto?
Não
entendeu?
Ora, estou comunicando que desde o dia 18 abril somos os
mais novos habitantes do delicado, simpático e transparente Cristal. Que
vista! Posso ver o Guaíba, o morro Santa Teresa, o morro da Pamecord,
muito verde e céu azul. Um lugar abençoado, sem dúvida. Vá lá que ainda
estejamos um tanto acampados, que os quadros continuem encostados num
canto mas, gente... finalmente.... tenho minha churrasqueira! Não sou mais
um santanense desterrado! hshshshshs
Já estreamos com um
churrasquinho para o cariucho Horacius e nosso amigo montevideano Pedro
Matchuca. O primeiro de passagem, pois ainda teria 400 Km pela frente para
abraçar o pai em Rosário. Os dois, muito carinhosos, aprovaram a carne e o
vinho. Tomei uma taça, com muito prazer. Aguarde por um convite. Todo
final de semana convidaremos amigos para vir aqui e curtir o espaço
conosco. Queríamos um lugar assim exatamente para isso: conviver com os
amigos!
Ah, a segunda quimio passou sem grandes alardes. Algumas
dores pelo corpo, feridinhas nos lábios, duas noites mal dormidas e só. A
radioterapia avança firmemente. O ciclo coxa-femural termina na semana que
vem. O da lombar ainda concentra cura por pelo menos duas semanas, é
certo. O sofrimento está na constipação, o estado deplorável do ânus e a
queimação da virilha, que exigiu uma paralisação da seqüência Coxa-Femural
por quatro dias. A pele caiu, ficou em carne-viva, como se diz
popularmente, embora já esteja em franca recuperação.
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Quinta-feira, Abril 07, 2005
Publicado
3:51 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Ditos populares Diz a marchinha, que acabou virando
ditato, que "é dos carecas que elas gostam mais". Tanto peguei no pé do
Riva e do JJ que agora vou ser obrigado a confirmar uma frase da minha
querida e doce vovózinha: "A boca fala, o cú paga!" Pois é, meu amigos.
Alô detratores e inimigos... O tio aqui tá ficando careca.
Ontem
notei alguns fios por sobre a mesa e resolvi checar como tava a coisa por
sobre o cérebro. Puxei um tufo de fios e... bem, eles desplugaram
facilmente do couro e vieram parar na minha mão. E desde então tem sido
assim. Testo e lá vêm eles para a minha mão. Acho que se lavar os cabelos
hoje vai tudo pro ralo. Basta coçar a cabeça para restar com fios na mão.
Eu sei, isso é preço baixo se for para trocar pela vida. Mas já me
foi tirado o cigarro, o alcool, entre outras coisas... Agora se vai a
vaidade... O q restar será humano? Eu sei que sim, mas tô chateado de
igual forma. Ontem, numa reunião de negócios, perdi a esportiva. Não
suporto mais falta de comprometimento e erros básicos. Errar é humano,
sim, mas acumular erros é preguiça, se não é incompetência, o que não sei
se não é pior. E o que isso tudo tem a ver com a queda dos cabelos? Não
sei, tô aceitando interpretaços... Só não vale me mandar procurar resposta
nos profissionais! Assim fica muito fácil de cair fora do proposto!
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Sábado, Abril 02, 2005
Publicado
12:53 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Passou a ressaca Perdõem o silêncio. Foi uma semana
difícil, mas passou. No sábado passado fui com Figo até o Museu do
Automóvel da Ulbra. Caminhei bastante, me diverti, fiquei impressionado
com a coleção, mas talvez o ar -condicionado tenha sido fatal. O fato é
que cheguei em casa, lá estavam Tata, a Delegada Bibian e o inacreditável
Bambam, filho dela com 11 meses: um taurino inquieto, sorridente,
simpático e ágil que dominou a casa. Pedi licença para deitar e descansar
um pouco cinco minutos depois. E desde então tive febre de 39 graus
praticamente todos os dias até quinta-feira passada, sempre no final da
tarde. Os médicos acham que pode ter sido uma gripe. Para não ter dúvida,
no sábado mesmo, recomendaram dipirona para baixar a febre na hora e um
atibiótioco que tomei até ontem. Desde quarta, entretanto, me senti muito
bem disposto. E olhem só: desde segunda mesmo já não senti mais dores ao
fazer a radioterapia. Mais: desde terça não senti mais qualquer dor na
região da lombar. Parece que o procedimento está cumprindo o seu papel.
Tenho dormido muito bem, na maioria das noites. De quarta até sexta,
apenas a noite, é que senti dores fortes nas costas, na altura das
costelas, e alguma dificuldade para encher o pulmão. Mas até isso passou.
Agradeço os contatos de Bia, James e tantos outros que não recordo
aqui e me perdõem mais uma vez pelo silêncio. Carinho nunca é demais numa
hora dessas.
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Quinta-feira, Março 24, 2005
Publicado
10:59 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Perdão & Pedrão Em primeiro lugar, perdão. Mas
é que é pra Pedrão enfrentar tudo isso e ainda ter que racionalizar aqui.
Se por um lado alivia, por outro exige bastante conseguir traduzir os
fatos num texto no mínimo decente. Tenho recebido tantos telefonemas,
e-mails, mensagens, estive tão concentrado em mim mesmo e em mim mesmo tão
concentrado que acabei sendo desleixado com a novelinha digital. Deixei de
relatar cenas fortes, mas prometo me empenhar e apresentar um flashback de
alto nível.
Já estou na quinta sessão de rádio. As primeiras
quatro foram dolorosas, mais ainda as primeiras três. São dois ciclos, um
para o pernil e outro pra a região da lombar. Para marcar locais precisos
a serem irradiados fui tatuado com tinta e agulha em três pontos paralelos
na virilha do lado direito. Mais tatus foram feitas em formato de cruz
tridimensional. Uma no umbigo, outras na cintura do lado direito e
esquerdo e uma última na espinha, quinta vértebra da lombar. Nunca viajei
nessa de fazer tatuagem. Não costumo, aliás, adornar meu corpo com
acessórios. Quem diria... Agora faço parte de uma nova tribo.
A
colocação do portocat foi bem divertida até. O médico, como da outra vez,
foi muito atencioso. E o anestesista mandou ver no Propofol, que costuma
aplicar antes da porrada mesmo, que é o que nos apaga. Acordei um tanto
emocionado, afinal estava mais uma vez com o meu coração de lata, porque
só assim para enfrentar as malditas quimios. Logo Tata e Geisel adentraram
a sala de espera. Tudo ficou bem. Rumamos para casa em busca de uma
comidinha gostosa. Estava há mais de oito horas sem comer nadinha.
Hoje fiz a primeira sessão de quimio com Taxol e Carboplatina.
Antes, porém, tomei uns remedinhos via portocat, muito legais. Uma mistura
de decadron e outros que não recordo. Os efeitos de um deles, Cimetadina,
ou coisa parecida, me fizeram viajar gostoso... Alguma tonturinha,
calorões, enfim. Viajei na maionese e gostei. Também porque levei meu
notebook, trabalhei um pouco e vi até um filmezinho. Vamos ver as
conseqüências a partir de agora...
Fica cada vez mais claro que o
diagnóstico me fez muito bem. A dúvida estava me torturando. Agora, sei
qual o meu papel. Obrigado a todos pelo apoio que estão me dando. É
fundamental para a minha redenção.
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Quarta-feira, Março 16, 2005
Publicado
10:09 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Médico da Dor A clínica do Dr. Marquez nos
proporcionou ontem um encontro com um médico especializado em dor. A
proposta de Jean V. é oferecer uma vida mais confortável para o amigo de
vossas senhorias aqui. A receita do sucesso passa por doses diárias de
Metadon, Voltaren e Anitriptilina. Tata questionou o primeiro da lista por
ser altamente viciante. Com toda razão, afinal o troço costuma aliviar
pacientes em abstenção de heroína. "Procure me ajudar a não criar
fantasias" foi a resposta do doutor. Na hora achei que ele estava certo.
Uma das preocupações de Jean, entretanto, era com as sessões de
radio, porque tenho muita dificuldade para permanecer deitado em
superfície dura por mais do que cinco minutos com a barriga pra cima e as
pernas esticadas. Dói muito desde a biopsia infernal no Hospital Moinhos
de Vento. Para suportar a primeira radioterapia, realizada depois da
consulta, entretanto, o cara me deu só o que tinha na clínica: Tylex! Não
foi suficiente, é claro, e doeu muito ficar deitado na maca por dez
minutos sem poder me mexer.
Resultado: quando a noite chegou, tive
dores lancinantes na perna. Pode ter sido por isso ou porque nas primeiras
sessões a área irradiada poderia inchar, provocando dor. Tata queria me
levar para a emergência da Santa Casa, mas resolvi ligar para Jean. O V.
estava no show do Lenny Krawitz, só deu para ouvir ele gritar que eu
deveria tomar Metadon e UItracet. A ligação caiu. Meia hora depois fez
efeito a medicação. Dormi de cansado e rouco.
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Sexta-feira, Março 11, 2005
Publicado
5:47 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Onipresença digital Quanto mais o esfincter aperta,
maior a proporção da merda que se acumula na mente de quem está na
travessia da corda bamba. Caio em prantos quando a pergunta básica bate na
minha porta. Talvez por isso, como bom terráqueo, ande com idéias de
auto-conservação. Pensei que podia virar uma figura virtual, por exemplo.
Uma coisa que permaneça e vença o tempo, a vida, a presença física, a
realidade. A loucura é tal que talvez me transforme num logo, num mangá,
numa figura onipresente, enfim, que estaria em vários lugares, conversando
com várias pessoas em diversas partes do mundo, tudo ao mesmo tempo. Você
visita o site e lá vai poder perguntar qualquer coisa para o velho amigo
Enrico. E ele vai responder de tal forma que o companheiro não terá
qualquer dúvida sobre quem escreveu aquelas respostas, embora elas tenham
sido pré-programadas. Um apanhado da minha personalidade garantiria um
diálogo tão convincente quanto o proposto pelo horóscopo nosso de cada
dia. Afinal, se meu esperma podem ser congelado a partir de domingo, por
que não minha mente, minhas idéias, minha personalidade?
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Quarta-feira, Março 09, 2005
Publicado
11:33 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Inverno portoalegrense O inverno de Porto Alegre
pode ser assim: frio pela manhã, calor de 30 graus ao meio-dia, tarde de
vento cortante, noite gélida. Meu dia foi mais ou menos assim. Pela manhã,
sono e choramingos. Terapia holística ao meio dia. Almoço delicioso com
Mama, Geisel, Zelda e Polly. Aí me concentrei e fui para a empresa. Minha
intenção era mostrar serenidade e esclarecer a equipe sobre a doença e o
tratamento, planos A e B. Tô lá em cima, na minha sala, com o peito cheio
de ar, pronto pra discursar, de repente é transferida uma ligação: era o
pai de uma funcionária sensacional, que está de partida para estudar fora
do país. O senhor, a quem conheço pessoalmente, agradece pelo apoio à
filha, pelas palavras que proferi certa vez sobre a personalidade,
sensibilidade e honestidade da garota. Realmente, certa vez cheguei a
comentar: "Teu pai deve ser uma pessoa feliz pela filha que criou!" Ele
confirma a tese, diz que não sabe como vai ser ficar longe dela por tanto
tempo. Concordamos que é parte da sua evolução.
É claro que
encerrada a ligação todo o preparo para falar com a equipe firmemente foi
por água abaixo. Tremi o queixinho... Riva pergunta o que houve, mas peço
um tempinho para me recompor. Estava difícil de falar. Talvez por isso
mesmo a reunião com a equipe foi ótima. Temos mil planos. Provoquei a
turma para que libertem as amarras da criatividade. Vamos começar a
inventar mais, o que deve tornar o trabalho mais interessante. Também
relatei meu plano B, caso as coisas fiquem meio bizarras para o meu lado.
Vou encher o escritório de câmeras e vamos nos comunicar digitalmente se
for o caso. Vai ser uma experiência legal, mesmo que não funcione a
contento no início. O plano B inclui uma máquina reservada para que uma
vez por semana um deles venha trabalhar comigo.
Por volta das 17h,
Geisel veio me buscar e fomos para a consulta com Marquez. Como era
esperado, novidades. A receita do sucesso passa por 25 sessões de rádio,
com doses diárias mais baixas de radiação, mas com um total final maior do
que a dose prevista pelas 10 sugeridas por Canhedo. Amanhã já passo o dia
fazendo exames. Tomo do tórax e abdome total! A idéia do cara é começar a
rádio na próxima terça-feira. Em breve faremos uma consulta com Dr. Rocha,
que foi quem coordenou a quimio anterior. Vamos ver que medicação ele
recomendará, quantas doses e quais os efeitos colaterais e seqüelas. Só
então teremos a difícil missão de optar por ele ou Canhedo. A verdade é
que temo pelo funcionamento de um tratamento que inclua duas clínicas
diferentes. A equipe de Canhedo trabalha com o time do Moinhos de Vento.
Não gostei da comunicação entre o hospital e o médico na biopsia.
Portanto, rádio é certo que faremos com Marquez. Por outro lado, Canhedo
parece bastante competente no que se refere à quimio. Vaidosos do jeito
que são, entretanto, conversariam regularmente para discutir o tratamento?
Duvido um tanto.
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Terça-feira, Março 08, 2005
Publicado
7:01 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Sangue ruim Deleitem-se os que não entenderam até
hoje que sou sangue bom. Meu sangue está ruim. É fio condutor do meu risco
de vida elevado. Canhedo acelerou o pessoal do laboratório, ansioso por
nos dizer que sou seu potencial cliente. Valentin compensou toda a dor e
horror: saiu fumaça branca das chaminés do vaticano! "Metástase de
carcinoma indiferenciado (linfoepitelioma) com intensa reação
desmoplásica". Eis a frase que marca meu destino, sorte ou azar.
Recomenda-se calma, seis aplicações com intervalo de 21 dias de Taxol
combinado com Carboplatina e dez sessões de radioterapia com foco na L5 e
quadril. Efeitos colaterais possíveis: perda total de todos os pelos do
corpo, reações alérgicas controláveis com Decadron, dores nas articulações
(durante três dias após cada aplicação), ardência ao urinar e,
eventualmente, diárreia (os dois últimos provocados pela radioterapia).
O sentimento até agora é de alívio, afinal, ao menos sabemos o que
combater. Alguma raiva me dá por ter descoberto certas alegrias talvez
tarde demais. Nada mais temo. De novo, meu papel é resistir. Vamos
procurar Dr. Marquez para marcar consulta e relatar as novidades. É certo
que rádio faremos lá. Vamos ver o que ele nos fala sobre o tratamento, não
tenho dúvida de que surgirão novidades. Possivelmente, haverá discordância
em relação aos medicamentos a serem utilizados na quimio. Pelo que nos
disse Canhedo, a variedade é grande. Tanto que os preferidos dele podem
ser trocados se até a terceira aplicação não ocorrer redução do tumor.
Lá fora alguns pássaros latem como cachorros em volta do meu
prédio. Por longo tempo pensei que fossem realmente latidos roucos. Hoje
desconfio que sejam os corvos de Poe.
1 Numa meia-noite
agreste, quando eu lia, lento e triste, Vagos, curiosos tomos de
ciências ancestrais, E já quase adormecia, ouvi o que parecia O
som de algúem que batia levemente a meus umbrais. "Uma visita", eu me
disse, "está batendo a meus umbrais. É só isto, e nada mais."
2 Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro, E o
fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais. Como eu qu'ria a
madrugada, toda a noite aos livros dada P'ra esquecer (em vão!) a
amada, hoje entre hostes celestiais - Essa cujo nome sabem as hostes
celestiais, Mas sem nome aqui jamais!
3 Como, a tremer
frio e frouxo, cada reposteiro roxo Me incutia, urdia estranhos
terrores nunca antes tais! Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia
repetindo, "É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais; Uma
visita tardia pede entrada em meus umbrais. É só isto, e nada mais".
4 E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais; Mas eu ia
adormecendo, quando viestes batendo, Tão levemente batendo, batendo
por meus umbrais, Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus
umbrais. Noite, noite e nada mais.
5 A treva enorme
fitando, fiquei perdido receando, Dúbio e tais sonhos sonhando que os
ninguém sonhou iguais. Mas a noite era infinita, a paz profunda e
maldita, E a única palavra dita foi um nome cheio de ais - Eu o
disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais. Isso só e nada mais.
6 Para dentro estão volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais. "Por certo",
disse eu, "aquela bulha é na minha janela. Vamos ver o que está nela,
e o que são estes sinais." Meu coração se distraía pesquisando estes
sinais. "É o vento, e nada mais."
7 Abri então a vidraça,
e eis que, com muita negaça, Entrou grave e nobre um corvo dos bons
tempos ancestrais. Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um
momento, Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais, Foi,
pousou, e nada mais.
8 E esta ave estranha e escura fez sorrir
minha amargura Com o solene decoro de seus ares rituais. "Tens o
aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado, Ó velho corvo
emigrado lá das trevas infernais! Dize-me qual o teu nome lá nas
trevas infernais." Disse o corvo, "Nunca mais".
9 Pasmei
de ouvir este raro pássaro falar tão claro, Inda que pouco sentido
tivessem palavras tais. Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais, Ave ou bicho
sobre o busto que há por sobre seus umbrais, Com o nome "Nunca mais".
10 Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais. Nem mais
voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento Perdido, murmurei
lento, "Amigo, sonhos - mortais Todos - todos já se foram. Amanhão
também te vais". Disse o corvo, "Nunca mais".
11 A alma
súbito movida por frase tão bem cabida, "Por certo", disse eu, "são
estas vozes usuais, Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o
abandono Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais, E o
bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais Era este "Nunca
mais".
12 Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha
amargura, Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira Que qu'ria esta
ave agoureia dos maus tempos ancestrais, Esta ave negra e agoureira
dos maus tempos ancestrais, Com aquele "Nunca mais".
13
Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo À ave que na minha
alma cravava os olhos fatais, Isto e mais ia cismando, a cabeça
reclinando No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais, Reclinar-se-á
nunca mais!
14 Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum
incenso Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te O
esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais, O nome da que
não esqueces, e que faz esses teus ais!" Disse o corvo, "Nunca mais".
15 "Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais, A este
luto e este degredo, a esta noite e este segredo, A esta casa de ância
e medo, dize a esta alma a quem atrais Se há um bálsamo longínquo para
esta alma a quem atrais! Disse o corvo, "Nunca mais".
16
"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta! Pelo Deus
ante quem ambos somos fracos e mortais. Dize a esta alma entristecida
se no Édem de outra vida Verá essa hoje perdida entre hostes
celestiais, Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!" Disse o
corvo, "Nunca mais".
17 "Que esse grito nos aparte, ave ou
diabo!", eu disse. "Parte! Torna á noite e à tempestade! Torna às
trevas infernais! Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais! Tira o vulto de
meu peito e a sombra de meus umbrais!" Disse o corvo, "Nunca mais".
18 E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda No
alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais. Seu olhar tem a
medonha cor de um demônio que sonha, E a luz lança-lhe a tristonha
sombra no chão há mais e mais, Libertar-se-á... nunca mais!
(O Corvo de Edgar Allan Poe)
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Sábado, Março 05, 2005
Publicado
4:52 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Frigorífico Horas depois de eu ter escrito o texto
abaixo dirigí-me para o local da biopsia. Geisel passou aqui em casa e
fomos os três para o local, não mais do que três quadras aqui de casa.
Depois da burocracia obrigatória, fomos conduzidos por um longo corredor
branco até uma ante-sala de espera. Muito rapidamente fui convidado a
entrar no vestiário, tirar a roupa, colocar um avental daqueles em que a
bunda fica de fora e permanecer com meus sapatos. Depois pediram que eu
sentasse numa confortável poltrona para a instalação de uma borboleta numa
das veias da mão direita. O frio artificial e o corredor que tinha
atravessado e que agora podia ver à frente me fez lembrar de um
frigorífico. Adivinhem quem era a carne fresca?
Enquanto era
picado pela enfermeira perguntei o que iria tomar. Ela respondeu que era
um analgésico. Surpreso, respondi que preferia fazer o exame sedado. Ela
riu e mandou eu ficar calmo. Tata ainda apareceu duas vezes para me abanar
e mandar beijos. Um tanto constrangido, pedi para que saísse do meu campo
de visão. Nessas horas prefiro estar só com meu medo. Em seguida, fui
conduzido para o açougue. A sala onde já tinha feito uma tomografia
semanas antes estava vazia. A enfermeira mandou eu deitar de barriga para
baixo e bunda à mostra. Recomendou que eu escolhesse a melhor posição,
pois não poderia me mexer mais até o final do exame. Alertei mais uma vez
para as dores que teria se permanecesse imóvel daquele jeito. Um tapinha
nas costas bastou como resposta. Saiu de cena e foram feitas algumas
imagens. Em seguida entrou triunfante o médico, Dr. Victor Valetin. Não
fez qualquer pergunta, pediu uma caneta para marcar os locais, riscou com
rigor alguns pontos nas minhas costas. Falei asperamente: "Tá tudo errado,
eu não deveria estar fazendo esse exame sem anestesia!". "Nãããã... Tá tudo
certo", foi a resposta. E logo injetaram pela borboleta 2 ou 3 mililitros
de dolantina.
O que aconteceu a seguir, amigos, foram cenas para
maiores de 18 anos. No intervalo da captura das imagens, tive minha
espinha martelada dezenas de vezes. Quanto maior a intensidade e a
profundidade, maior o volume dos berros e urros que dei por cerca de
ininterruptos e eternos 40 minutos. Não sentia dores no local, que ali
tinha sido injetada anestesia. Mas minha perna esquerda sofria com choques
a cada perfuração e manipulação da agulha enterrada no osso. E a resposta
eram gritos aterrorisantes, seguidos de urros e soluços e gemidos e
choramingos. Implorei por mais dolantina diversas vezes, exigi a presença
de um anestesista. Concentrado, Valentin pedia que eu aguentasse mais um
pouco. Ordenava réguas e outros instrumentos, agulhas mais finas, dava
mais anestesia, perguntava se eu estava tonto, eu respondia que não. "Mais
dois mls de dolantina", ordenou, sem resultado.
Em determinado
momento, o doutor comunicou que tinha terminado a coleta das partes moles,
que faltava apenas o osso. "Me dá mais dolantina, filho da puta!" "Vais me
dar a honra de ver a tua cara depois de tudo terminado, hein seu merda?" E
a tortura continuou, comigo aos berros por mais uns dez minutos. Uma das
enfermeiras não aguentou tanto sofrimento e me deu a mão. Aceitei o
carinho e quase estraçalhei os dedinhos da moça a cada martelada. Ela
ainda pediu que eu gritasse menos porque Tata poderia ouvir da sala de
espera e ficar nervosa. Eu lá, pelado de bunda pra cima, tomando no cu,
pensei que se ela estivesse ouvindo ou estava em prantos ou tentando
invadir a sala. A coisa ficou tão feia que Valentin decidiu. "Nós vamos
parar. Estamos sofrendo junto contigo. Não dá para continuar assim. Volta
outro dia e faremos o procedimento com anestesia geral". Retruquei que
depois de ter sofrido tudo aquilo exigia o procedimento até o fim.
"Preciso saber o resultado o quanto antes. Não pára porra nenhuma". Ele
continuou, e eu continuei berrando de dor. Não lembro de ter sentido nada
pior em toda minha vida. Cheguei a lembrar do filme do Mel Gibson, "A
Paixão de Cristo", algumas vezes, o que talvez explique minha decisão de
continuar por um estúpido raciocínio cristão de que tanto sofrimento
resultaria na redenção quando nos fosse entregue o resultado do exame.
Já na sala de recuperação, Valentin veio fazer a entrevista que
deveria ter feito antes do procedimento. Relatei todos fatos e ele
confessou que se tivesse conhecimento não teria feito com anestesia local.
Não foi alertado por Canhedo e não quis me ouvir, por isso foi o carrasco
do dia. Tenho certeza que toda a equipe discorda da sua postura naquela
tarde. E que ele foi assunto daquele bloco até o final de semana chegar.
Filho da mãe arrongante! Como que na expectativa de me tranquilizar, com
efeito, Victor garantiu que o material coletado foi excelente, em
quantidade suficiente para um diagnóstico efetivo. Os momentos bizarros
estavam longe de chegar ao fim, entretanto. Logo ficamos sabendo que
Canhedo não tinha feito solicitação para exame. Falamos, então, para
Valentin do anatomopatológico e de outros exames feitos em cultura da
outra vez. Mas ele respondeu que já tinha posto os pedaços do meu osso em
formol, e que exames em cultura não seriam mais possíveis. Fez mais.
Deixou a coleta em potes de plástico transparentes nas mãos de Tata e se
retirou, dizendo que ela teria que transportar meus restos até o
laboratório, alguns andares acima. Antes, porém, é claro, ela ainda teve
que correr até a clínica, porque Canhedo não fez a solicitação de exames
necessária para que a coleta fosse entregue no laboratório. Isso não se
faz! Na sexta, por telefone, relatei os acontecimentos para Canhedo, que
prometeu repassar as queixas para a equipe do exame. Não assumiu,
entretanto, sua parte na coisa toda.
Hoje, dois dias depois, ainda
tenho a perna esquerda dormente. E alguma dificuldade para levantar e
mover o pé para cima. Não pensamos mais no acontecido. Só no resultado.
Sinceramente, apesar de todos pensarem o contrário, ainda desejo, peço aos
céus e tenho fé que não tenho câncer. O próximo post dirá o que de mim
será feito. Oremos.
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Quinta-feira, Março 03, 2005
Publicado
5:11 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Tudo de novo? A dor permance, a tortura da dúvida
também. Passou-se quase um mês sem que eu escrevesse, mas as novidades não
cessaram. Resolvemos procurar uma nova opinião. Um oncologista para quem
prestei serviços jornalísticos. Dr. Canhedo olhou todos os exames e
considerou que não podíamos esperar nada crescer. Entao, fiz novamente
cintilografia e tomografia. Tinha requisição de um ressonância, porém, não
consegui suportar as dores e, segundo os médicos, estava me mexendo, o que
fez com q as imagens ficassem borradas. Só sedado. Canhedo achou melhor
adiar. Para ele, os resultados dos dois primeiros eram suficientes.
Existem mais duas manchas, além da que já tinham identificado na 5a
vértebra da lombar. Um pontinho na costela, outro no quadril (que já
estavam no exame anterior, mas ninguém valorizou, aparentemente). O
radiologista considerou que as características são de depósito secundário
(metástase), mas não consegue afirmar. Chega a perguntar em determinado
ponto: neoplasia? Há sinais de erosão do osso, obliteração de nervos e
vasos. Isso explicaria minhas dores, talvez o frio que sinto nas pernas
mesmo em dias quentes (parece que tenho outra temperatura da cintura para
baixo).
Em função disso, hoje faço novamente a biopsia com agulha.
Sinceramente, achei que Canhedo fosse pedir a aberta. Não conheço nem
ninguém das nossas relações ouviu falar do profissional que fará o
procedimento. JL não vai poder comparecer. E eu sinceramente já acho que
poderíamos ter falado com Dr. Marquez antes mesmo da biopsia (eu e Tata
combinamos que só procuraríamos ele depois do resultado). A verdade? Estou
aterrorizado com o açoite que pode ser um novo tratamento. Canhedo fala em
seis meses de quimio, perda de cabelo, deixa claro que a gravidade de um
câncer ósseo é superior a de um de rinofaringe. "Não posso garantir cura,
talvez um controle da doença". É um homem vaidoso, percebe-se pela
decoração da clínica que dirige. Será que a ponto de deliciar-se com o
pavor alheio? Eu e Tata estamos aos frangalhos, esgotados
psicológicamente. As pessoas nos dizem para ficarmos positivos, porque o
diagnóstico ainda não foi feito. Estão certas... Por outro lado, como
vencer o medo? Dois anos de batalha enfraquecem até um guerreiro
espartano.
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Quinta-feira, Fevereiro 10, 2005
Publicado
2:11 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Invisível Tenho dois inimigos. A dor e a dúvida.
Quando combati a certeza do diagnóstico fui um huno. Um adversário
invisível exige bem mais do que força e determinação. Talvez eu precise de
ajuda profissional realmente. Já o descaso dos médicos com a dor me deixa
exposto, fragilizado, mais fraco.
A boa nova é que descobri um
novo anti-inflamatório, com mais efetividade e mais barato do que o
Bextra. Chama-se Ponstam. Embora exija injerir mais vezes do que o
primeiro, quatro unidades por dia, não tenho necessitado do apoio do
Tylex. Comentários:
Publicado
2:11 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
B.O. Marquez seguiu a dica de Manilla e os dois
optaram por não realizar a biopsia com cirurgia, considerado um
procedimento de médio para grande porte. Agradeci. Nesse meio tempo
visitei mais dois médicos. O ortopedista, Dr. Regazzoni, defende que
minhas dores são provocadas pela musculatura, avaliada como tensa e pouco
alongada. Faz sentido. Por recomendação dele há seis meses atrás, quando a
dor começou, retomei a musculação e alongamento. Parabenizou os resultados
da musculação. Estou com o corpo mais desenhado mesmo. Mas mandou alongar
mais, bem mais! Quanto a tal mancha, recomendou uma consulta com um
especialista em tumores ósseos. Dr. Jesus olhou a densitometria, a
cintilografia, a tomografia e a ressonância e concluiu que não passa de
uma artrose. Ainda pediu um raio X. Levei, seguiu com a mesma tese. Na
consulta com Dr. Marquez, ouço que nada é certo, que "nós oncologistas
temos que ser mais desconfiados"; enfim. Comentários:
Publicado
1:43 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Lais Ela é um dos motivos que me levaram a desistir
do livro e investir na web. A idéia de trocar mensagens e ultrapassar a
limitação do número de exemplares impressos. Lais, fico feliz por sua mãe.
Eu e Tata agradecemos pelo retorno.
Comentários:
Sexta-feira, Janeiro 28, 2005
Comentários:
Quarta-feira, Janeiro 26, 2005
Publicado
10:32 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Nervo No dia 18 de janeiro, tive uma crise de
ciático que me levou a literalmente rolar no chão. Tata teve de me
carregar por duas vezes até a emergência da Santa Casa. Só então o médico
valorizou o tamanho da minha dor e aplicou, finalmente, Dolantina. Aí o
mundo ficou azul, depois azul marinho, o céu ficou estrelado e adormeci
como um anjo, feliz. Acordei ainda dopado e feliz no dia seguinte. Eu
apostaria que o efeito se prolongou até a noite. Por dois dias a
recomendação foi Tylex de 4x4 horas. Dá sono e bobeira pra quem não sabe.
Dose cavalar. Comentários:
Publicado
10:07 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Aushwitz No dia 13 de janeiro eu fui internado no
São José, hospital do Complexo Santa Casa. Antes, porém, fomos mais uma
vez surpreendidos pelos médicos. Tinhamos sido informados por Marquez que
Manilla faria a biopsia. Mas no dia em que a punção foi definida, soubemos
que outro médico seria o responsável: Otávio Sappo. Cara de boliviano, ele
esclareceu na consulta, dias antes, que nada do que Manilla tinha dito
estava nos planos. A coleta do material não seria em caráter ambulatorial.
Ou seja, depois do procedimento, eu não voltaria para casa. Teria de ficar
lá por 24h.
No dia 14, pela manhã, fui levado para o bloco
cirúrgico de avental-bunda-de-fora, era listradinho tipo Aushwitz. A noite
anterior tinha sido regada a beijos da Tata e um Lorax para dormir em paz.
Chegando lá, mandaram eu deitar de lado. Passaram alcool nas costas,
geladíssimo. Um senhor muito alto e de cavanhaque se postou do meu lado
logo em seguida. E disse: vai te dar um calor agora, tá? Em seguida veio o
calorão e a sensação maravilhosa do Propofol, que eu já tinha tomado
quando botei o Protocat no peito. Ahhhhh....... JL compareceu ao local
para me tranquilizar como prometera. O Cavanhas disse, então: "Agora vais
dormir". PUF.
Acordei horas depois. Tudo ok. Dores ao me
movimentar. Tais e Zele me esperavam no quarto. Passei a tarde dormindo. O
curativo era quase vergonhoso. Apenas um Band Aid. Comentários:
Publicado
10:05 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Bruxaria Depois de analisar a tomografia do tórax e
abdome, Dr. Marquez informa que está tudo normal. Pelo que entendemos,
seria muito estranho uma metástase na região lombar. Um tumor noutro
órgão, como fígado, rim, estômago, até na próstata, sei lá, poderia ser
mais "lógico". Restou a dúvida, então, do que eu tenho afinal. Marquez
resolve nos indicar um traumato e já avisa que muito provavelmente eu
teria de fazer uma biopsia. Confirmamos com JL que Dr. Manilla era
profissional de primeira linha. Meu cunhado conta que já fora inclusive
operado por ele.
Márquez alertou, ainda, que existem duas maneiras
de fazer biopsia da lombar. A mais fácil é uma punção. Enfia-se uma agulha
guiado por imagem de tomografia lá no osso, colhe-se o material e ele vai
pra análise. O dotô avisa que essa só tem 60% de chance de conseguir
oferecer material de qualidade para análise. A mais precisa é colher o
material com cirurgia. Uma senhora cirurgia pelo que sacamos.
Enfim, fomos recebidos por Dr. Manilla no dia 28 de dezembro. O
que chamou a nossa atenção de cara foi o cabelo. Lembrava o de Castro
Alves, só que mais armado, entendem? Difícil explicar. A conversa foi
prática. Muitas perguntas, poucas respostas, todas muito pragmáticas e
objetivas. Mandou logo fazer uma tomografia da região lombar e lá fui eu
de novo atravessar aquele arco diabólico e tomar aquela porcaria daquele
contraste.
O resultado mostrou uma mancha, uma possível
inflamação, talvez uma degeneração, "doença de velho". Mas pode ser um
tumor também. "O que tu tens parece bruxaria", chegou a brincar com Tata o
Dr. Manilla. Resultado? biopsia nimim!
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Quinta-feira, Dezembro 09, 2004
Publicado
6:59 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Aqui se faz, aqui se paga Não há dúvida de que já
falei muita besteira na vida. Tenho certeza de que já cometi pecados
verbais mais graves do que físicos ou morais. A punição, entretanto, chega
a ser irônica. Desde sábado tenho dor de garganta. Na segunda almocei com
Mamma e queimei a língua. Boto ela pra fora e está vermelha da cor do
diabo. Preocupado, visitei Gumercindo Saraiva. Recomendou Tylenol e
gargarejo com chá de camomila. Já estamos na quinta-feira e ainda dói. Que
vida triste a de um cristão.
Hoje fazemos a tomo. Seis horas de
jejum para tomar contraste na veia. Eram 5h quando perdi o sono com alguma
dor na lombar. Bolsa de água quente e jornal. Foi-se o sono. Tata
resmungou preocupada, quando levantei. Respondi que já voltava e agora
estou aqui contando as novidades pra vocês. Olhar o teto escuro atormenta
minha mente. Preferi fugir. Ontem presenteei o grande amor da minha vida
com um show de Caetano Velloso. Não sei o que fazer para tentar
recompensar sua dedicação e paciência. Por vezes, penso que me afastar
seria o melhor a fazer. Mas como sobreviver sem sua proteção?
Vai
2004.... Me deixa em paz...
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Domingo, Dezembro 05, 2004
Publicado
8:24 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Cabeção Não dá para negar que o cabeção funcionou
durante todo o final de semana. E eu Tata ficamos instáveis, nos abraçamos
e choramos muito. Tem tudo para ser uma coincidência, um problema extra,
nada a ver com câncer, encontrado porque afinal estamos procurando. O que
nos carrega o pensamento é que toda vez que relaxamos no passado nos demos
mal.
A ressonância, segundo o médico nos diz na sexta, não apontou
nada conclusivo. Já se sabe que não é hérnia de disco. Tem uma inflamação
lá. Resta saber provocada pelo que? Na quinta-feira, 09, farei tomografia
do tórax e do abdome. Dou novidades por aqui.
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Quinta-feira, Dezembro 02, 2004
Publicado
7:12 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Deu merda O resultado da cintilografia nos fez
corcovear. Tem algo lá, não é possível saber o que, mas com meu passado, o
recomendado foi investigar. Tata ligou direto para o oncologista e
negociou horário. Conseguimos. E eram 15h30 quando lá estavamos nós... de
novo... fazendo aquele maldito trajeto...
Logo na chegada encontro
Marley. Foi nossa vizinha durante boa parte da infância em Livramento.
Estava na clínica para acompanhar a cunhada, Felicitas, que faz
quimioterapia. Várias lembranças. Conta que tem fotos as quais gostaria
realmente de ver. Mostra poses dos filhos, todos muito diferentes, é
claro.
Fomos atendidos por volta das 18h. Dr Marquez diz que será
preciso uma ressonância da região lombar. Só que viaja na segunda! Volta
em 15 dias. Percebeu nossa preocupação, entretanto. Chamou para um
hospital e pediu vaga para eu fazer o exame ainda hoje. Assim terá o
resultado amanhã mesmo, antes de partir.
Com muita pressão, o
médico conseguiu para às 23h! Mas pode ser mais tarde... Aceitamos e agora
estamos na expectativa.
Marquez diz para nos tranqüilizarmos. Que
não é uma região padrão para metástase ou para reaparecer a doença... "No
máximo, uma hérnia de disco!". Hein? Coza Pôca? Amanhã dou notícias...
Comentários:
Quarta-feira, Dezembro 01, 2004
Publicado
1:08 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Seqüelado Vamos às novidades. Providenciei várias
mudanças na empresa. Isso provocou e provoca muito stress e novamente
mágoas. Ainda me emociono além do normal com algumas coisas. Há quatro
meses, assisti a um show de Nei Lisboa e chorei do início ao fim. Uma
coisa ridícula, sem dúvida. Em várias situações mergulhei em depressão.
Sinto falta das ingenuidades e ignorâncias de antes da doença. Desejo o
cigarro toda vez que me encontro com o alcool. Pela formação cristã,
emergem sentimentos de culpa. Uma viadagem só.
Aliás, mágoa e
culpa são certamente os sentimentos mais pobres em termos de classificação
e os mais ricos em quantidade. As pessoas não são mais as mesmas. Me
tornei um desconfiado infeliz. Se durante o tratamento relutei quanto a
terapia, agora começo a pensar que alguma ajuda seja necessária. De certo
mesmo só o óbvio: os efeitos psicológicos de tudo o que passei ainda não
estão totalmente claros. É preciso mais tempo para saber no que me
transformei: se na mesma coisa ou numa coisa nova.
Sobre os
efeitos físicos, por sinal, vale um registro. Continua a falta de saliva.
Mas já consigo sair na rua sem precisar levar a minha garrafinha, o que já
facilita muito a vida. Do ouvido ainda vaza alguma secreção fétida e, por
isso, ainda tenho que tomar vários cuidados para o banho: algodão no
ouvido, vaselina sólida em volta. Alguém sabe de uma solução melhor e
menos chatinha de limpar?
A novidade é uma dor na região lombar.
Já tem três ou quatro meses que tomo anti-inflamatórios. Procurei um
traumatologista super recomendado. Fiz raio X e densitometria óssea. Nada!
Por sugestão, adotei palmilhas especiais e sob medida. Há três semanas
faço reforço muscular e alongamento. Ontem, fiz uma cintilografia óssea. O
resultado fica pronto amanhã. Perdi 18 kg no tratamento, o sedentarismo
foi clássico. Muito tempo deitado e sentado. Tem lógica, não? Comentários:
Publicado
1:04 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
De volta para o futuro Depois de tanto tempo, volto
a dar notícias. Imagino que os amigos reais nem visitem mais o blogg.
Alguns navegadores do esmo ciberespacial têm me encontrado e enviado
correspondências. Os relatórios do site mostram uma movimentação razoável.
Em função disso, resolvi republicar tudo e, quem sabe, ajudar quem esteja
passando pela mesma situação. Por enquanto, a idéia do livro se foi.
Possivelmente, o conteúdo tenha mais valor aqui na web do que atirado num
canto, limitado a um número de exemplares. A Internet garante mais
audiência e ajuda, se é que meu depoimento alcança tal benefício.
Comentários:
Quinta-feira, Outubro 07, 2004
Comentários:
Publicado
11:46 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Aviso Se eu tenho mesmo um anjo da guarda, ele
apareceu de madrugada e queimou bem o lugar onde eu andei botando uns
cigarrinhos gostosos. Quando acordei pra coisa, pensei ouvir:
-
Oooolha...
Parei.
Comentários:
Quarta-feira, Agosto 25, 2004
Publicado
10:04 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Boas novas Depois da ressonância, restou a situação
do curado/não curado. Gumercindo Saraiva propôs, então, uma biopsia. "Uma
exame conclusivo, ao contrário das imagens, que são sugestivas". Na
sexta-feira passada foi colhido um filete de carne do local onde estava o
câncer. Hoje saiu o resultado do citológico. Nada da doença. Tata está em
festa, minha família aliviada - afinal, Mamma está internada, com alguns
problemas no fígado transplantado. Já eu pareço uma ginasta romena. Não
caiu a ficha ainda. Fico com pé atrás porque a coza é muito traiçoeira.
Também tô com dor na garganta e no ouvido, talvez porque falta um filete
de carne lá, né? Que bobagem, não? Deveria estar em festa! O que não me
sai da cabeça, pra dizer a verdade, é o Galvão Bueno - logo depois do
Baggio bater o pênalti, em 1994, gritando "acabÔÔÔÔÔ", "acabÔÔÔÔÔ",
"acabÔÔÔÔÔ", "acabÔÔÔÔÔ".
:)
Comentários:
Sábado, Agosto 07, 2004
Publicado
10:43 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Queimando ao vento Ele diz que nunca quis me causar
problemas, o Coldplay. Mas toda vez que ouço faz frio. E eu choro, choro.
Aí vem meu botão e diz. Abre a camisa, deixa entrar o ar e o frio! Fecho
os olhos pra queimar ao vento como cigarros e mais cigarros. A fumaça
entra e o que sai é outra coisa. Dá pra sorrir na dor, doença, cinza,
vermelho seringa. Eu posso ser tudo, mas minhas lágrimas dizem mais.
Eu tenho uma tampa de refri no peito. Só quem tem sabe o que é!
Depois que abre (CHLOPPSSSS!!!!), direito não fecha mais! Podem até me
processar, sou justo, muito justo, não tô nem aí pra Justiça. Eu tô vivo!
Pior morto é o que dorme na vida. Eu tenho coração. E ele é grande!
Tão alto, o Coldplay. Chega a ter picos nevados...
Comentários:
Terça-feira, Julho 13, 2004
Publicado
7:00 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Expresso da vida continua Com prognóstico na mão e,
adiada qualquer certeza absoluta, volto os olhos para a minha vida pessoal
e profissional. A primeira tem vários desafios, resultado de um amor
reavivado e fortalecido. A segunda, então, nem se fala. Em meio a tantas
pressões, botei muita gente contra a parede. No final das contas, o saldo
de perdas vai ganhar em breve mais um importante personagem: Deco, meu
sócio, resolveu abandonar o trem. As pendências, competências e,
especialmente, o relacionamento, se perdeu no seu profundo silêncio e
ausência. É como se eu deixasse o Pólo Norte com um abraço forte no velho
companheiro. E o trem seguisse seu trilho, enquanto olho pela janela ele
me abanar. Fiquei triste por vários dias por ele ter optado pela
separação. Até me sentir, mais uma vez, satisfeito com o que tenho. Um
novo prédio precisa ser construído com base nas fundações de uma
construção anterior, um tanto amadora, mas fruto de uma fase romântica,
bonita. O que vem pela frente exige profissionalismo, planejamento,
entrega. Quem lidera o projeto somos eu, Riva e Dedé, todos os três
querendo fazer história e dinheiro. Todos os três com metas pessoais e
profissionais bem definidas. Todos os três com urgências e limites
razoavelmente bem mapeados
Como podem perceber, uma nova fase se
inicia. Relatar aqui o que vem pela frente não faz mais sentido. Nem
estratégico é mais, a concorrência poderia me ler. Portanto, o que dizer
além de "a vida continua?" Ainda bem, não?
Resta agradecer.
Trópico de Câncer não foi nada além de um longo agradecimento. Nunca
recebi tanta solidariedade e apoio. Mas também nunca havia precisado
tanto, certo?
Criado para que eu não passasse os dias e noites
falando da doença pelo telefone, acabou sendo - para mim e para tantos
outros - uma forma de desabafo. Aqui encontrei também outros colegas de
doença. E também alguns amigos novos, como o cozinheiro baiano que tanta
força me deu por simples admiração. Ou a menina que um dia agradeceu por
sua mãe ter parado de fumar graças aos meus textos. Nunca vou esquecer dos
comentários aqui postados. Nem dos e-mails que recebi. Dos reencontros
proporcionados. Das conclusões aqui concluídas.
"Conversa
Definitiva", que é como vai se chamar um livro com tudo o que foi
publicado no blog, será um registro desses momentos que vivemos juntos.
Mas será, também, uma forma de contar algumas coisas que não contei aqui
por uma série de motivos. Lá vou falar do dia em que fui na Umbanda e
discuti com um preto velho. E sobre a nova raça de seres humanos que
passei a ver nas ruas, na tv, no cinema, enquanto fiz radioterapia.
Cheguei a fazer uma coleção de fotos de alguns deles só para provar minha
tese aos íntimos desconfiados a quem revelei o segredo, com medo de que me
internassem, é claro. Mas, principalmente, será uma forma de termos na
estante um pouco da história das nossas vidas, de momentos incríveis e
emocionantes que passamos juntos.
Trópico de Câncer vai continuar.
Mas com outro propósito. Vou publicar aqui alguns contos, o que me der na
telha, enfim. Não estou bem certo. Os tempos da doença aqui registrados,
vão ser apagados conforme a nova fase for se firmando. Só os últimos dez
escritos vão aparecer para o público. O resto vai virar passado. Um
passado que poderá ser revisitado no livro como lição, como alerta e,
espero, como ajuda para pessoas que vivam momento difíceis como os que eu
e minha família vivemos. Obrigado, pessoal! Comentários:
Publicado
6:26 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Nova fase O resultado ficou pronto no dia
combinado. Eu e Tata também tínhamos um acordo. Cada um pegaria um exame e
não abriria antes do outro chegar. Confiante, furei! Li na vinda pra casa
o que dizia no do pulmão. Como relatei ao Geisel e ao Riva por telefone,
só faltou estar escrito lá: PODE VOLTAR A FUMAR!
Tata chegou com a
ressonância no início da noite. De pé mesmo, lemos os dois aquela
quantidade enorme de informações, todas muito técnicas e nada inteligíveis
para leigos. O que chamou atenção de imediato foi o texto "diminuição
significativa do carcinoma na rinofaringe". Para quem tinha dito que nada
havia na região, a doutora talvez realmente trabalhasse numa vinícola! Eu
fiquei decepcionado, dormimos mal aquela noite.
No dia seguinte,
ocorreu a consulta com Marquez. Ele olhou detalhadamente os exames antes
de nos receber, pois logo que chegamos eles foram entregues na Recepção.
- E então? Quais as novidades?
Eu, Tata e Geisel
respondemos em uníssono:
- O senhor é que tem as novidades!
Marquez explicou, então, que estavámos entrando numa nova fase. O
exame indicou, na sua interpretação, que o que está lá pode ser o tumor,
bastante reduzido, mas também pode ser uma cicatriz. Todos os demais
pontos onde havia sinais de metástase estavam limpos (carótida, ossos do
crânio, glandulas do pescoço). O pulmão também não apresentou qualquer
problema.
A nova fase exige calma e paciência mais uma vez. Em
três meses, será feita nova ressonância. Se o que tem lá permanecer do
mesmo tamanho tudo indica que é realmente apenas uma cicatriz. Mesmo
assim, ficaremos monitorando aquele troço regularmente. Um tanto
decepcionante, porque eu queria redenção, emoção, cura! Todos viram de
maneira diferente, entretanto. No fim, errada ou não, a doutora Vinícola
garantiu a explosão, pensei. Adotei, então, o raciocínio da maioria e
estou feliz com o que tenho agora.
Comentários:
Publicado
6:15 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Notícia maravilhosa Na semana passada vivemos
grande expectativa. Fiz uma ressonância da cabeça e pescoço no dia 29 de
junho. E um raio X do pulmão no dia 01 de julho. No dia 07 pegamos os
resultados e a consulta com Marquez ocorreu no dia seguinte.
Eu
temia muito a ressonância por causa da saliva. Na horizontal, ela acumula
- ainda espessa, na traquéia. Dá medo de se afogar, quanto mais quando se
está preso e o único sinal de salvamento é levantar o pé e torcer que a
técnica esteja olhando. Demorou quase uma hora dentro do tubo. Mas nada
aconteceu fora alguma angústia. No final, as técnicas disseram que tudo
tinha saído bem. Com o exame, perguntei? As imagens ficaram boas, uma
delas me respondeu. Para saber do resultado teria de falar com a médica.
Foi o que fiz.
Estava terminando de me vestir quando chegou a
doutora com sobrenome de vinícola de Garibaldi. Perguntei o que ela tinha
visto na minha cabeça. Ela respondeu bem assim:
- Seria muita
irresponsabilidade eu te dizer alguma coisa, porque eu ainda tenho que
fazer uma análise criteriosa e detalhada de muita coisa. Mas aquele tumor
que vi nos teus exames anteriores, não está lá!
- han!
Foi
essa mistura de sorriso, alívio, suspiro, tosse, enfim, que consegui
balbuciar. A doutora ainda disse: "Que notícia maravilhosa, hein"?
- Bah!
Caminhei em direção à saída. Tata me esperava
ansiosa todo aquele tempo. Entramos no carro e antes que ela virasse a
ignição eu contei o que a médica havia dito. Choramos muito alto e nos
abraçamos imediatamente ali, estacionados. Foi demais! Quanta emoção!
Combinamos, mesmo assim, de não contar para ninguém, além de
familiares, o que havia ocorrido. Tantas vezes nos distraímos com a
doença... Se houvesse outra comemoração como aquela, só com o aval de
Marquez.
Antes de chegar em casa ainda passaríamos na Mamma. Ela
abriu a porta e Tata, aos prantos, já comunicou, "temos boas notícias".
Imediatamente, um abraço a três, Geisel não estava em casa... Foi outro
êxtase, demais!
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Domingo, Julho 11, 2004
Publicado
6:58 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
O dia mais louco - 4a parte
Antes do
discurso: Na primeira vez em que pensei na festa, pensei que faria um
discurso. Daquele dia em diante tive em mente mil roteiros, cada um mais
bonito e emocionante do que o outro. Até quando pensei em desistir da
festa o que mais lamentei foi não fazer o discurso. Depois de enviado o
convite, Tata, Geisel e todos os demais envolvidos na estruturação estavam
preocupados com espaços, quantidades, qualidades, transportes, sangue e
areia, guerra e paz. Eu só fazia pensar no discurso. Cheguei a listar
várias vezes o que diria. Depois fiz bilhetes que manteria nos bolsos para
não esquecer de nada e de ninguém.
No dia da festa, eu esqueci do
discurso. Durante o deslocamento, eu não pensei em nada além do
deslocamento. Na chegada das pessoas, eu não pensei em nada além do quanto
representava aquele momento. Comi pouco e bebi o que senti vontade.
Abracei muito e ainda assim acho que foi pouco. Conversei muito e ainda
assim acho que foi pouco. A superficialidade dos encontros foi tão
profunda quanto poderia ser. Os encontros produziram explosões fugazes,
mas lindas, coloridas! Não derramamos lágrimas, não falamos das coisas
complexas, lembramos muito do convívio que tivemos uns com os outros,
outros comigo, comigo e com todos. Teve quem recordasse da minha maneira
de dançar nos anos 80, que naturalmente era diferente da minha maneira de
dançar nos anos 90. Também quem contasse aventuras pelo asfalto,
contrabando de sapatos, "Deixa comigo, com Federais não se brinca!".
- E o Enrico puxando assunto com os policiais... HAHAHAHAHAH, q
figura!
Durante o Discurso: Por volta das 16h chegou um
rapaz. Era o responsável pela instalação do som. Indiquei o local,
respondi perguntas básicas, iniciei um processo de concentração. Pensei em
não falar nada. Mas eu adoro palco, não devo ser tão bom quanto imagino,
mas, apesar do temor que ele me dá, é o tipo de desafio que gosto de
enfrentar com grande prazer, especialmente no Durante. O Final é só
alívio. O Antes em geral é só tensão. Ficou tudo pronto e uma hora depois
os músicos começaram a chegar, dois deles ex-colegas de futebol. Eu não
recordo como foi. Ninguém gritou para que eu lá subisse. Foi tudo muito
rápido, só sei que quando percebi estava lá, curtindo muito dar um "Boa
tardeeee" típico de apresentador de programa de auditório. E, sem bilhete,
sem decoreba, sem letra, sem acorde, fiz o que passei a vida fazendo com
inteligência, algum despeito, muita escatologia e, quase sempre, com algum
sucesso: elogiei vários dos presentes na forma do deboche.
- Salva
de palmas para os ilustres "perus" da festa!
Alguns amigos que não
via há muitos anos compareceram na companhia de convidados.
- O
verdadeiro assador dos assadores vive na sombra da estrela de meu pai.
Quem é ele? Quem? O senhor Dode! Palmas para ele, senhoras e senhores!
Dizem que ele chorou bastante nessa hora.
- Quem poderia
deixar a mãe doente na companhia do irmão e não dos seus zelosos cuidados
só para acompanhar um amigo carente até as corridas de Stock Car? Vocês
devem lembrar do blog, senhoras e senhores! Sim, ele mesmo, aquele que
teve seu nome confundido algumas vezes: o Pluto! Palmas para ele, palmas,
mais palmas!
Os amigos da infância também foram lembrados. Contei
algumas façanhas vergonhosas de um ou outro. Os cafés levados por tias e
mães na sala de aula. As lambidas nos sanduíches para que ninguém pedisse
pedaço. Os apelidos ...
- Obrigado, Divino, Galocha, Marloca,
Marceleza, Bolinha!
O pai do Clovinho também teve seu momento.
O Clovinho também. O Giga. O JJ. Mas logo a lista foi ficando pequena. E
eu que espertamente adotei o humor para fugir do que temia, logo me
deparei com a família. Não descrevi nada ao chamar Geisel e Mamma.
Agradeci e pedi apenas aplausos. Receberam muitos. Logo destaquei as
irmãs, com valorização especial para Zele, porque ela realmente tem se
revelado a mais bonita e pura de todos nós, ultimamente. O holofote virou
para ela de forma natural em 2004. Foi bem emocionante ver o
reconhecimento que todas tiveram, igualmente, mesmo assim. A voz mal
embargou. Mas quando gritei que terminaria meu discurso com um obrigado
mais do que especial. Que terminaria com o agradecimento mais importante.
Que estava chegando a hora de homenagear a pessoa mais forte, solidária,
amiga, parceira, companheira, aquela que foi a mais presente, que foi o
meu maior presente no câncer... Quando eu disse algo parecido com isso...
já estava às lágrimas... E a ladeira veio abaixo com um belo dum beijo na
boca. E depois um abraço longo e verdadeiro! Tata... e aplausos... Tantos!
Depois vieram abraços e mais abraços, todos os convidados vieram me
congratular! Cantamos o parabéns em meio a tudo isso! E quando chegava o
limite do choro descontrolado, preferi urrar e gargalhar, o que me pareceu
mais adequado na hora. Logo a banda começou a tocar, todo mundo começou a
dançar. Ainda subi no palco para chamar os mais tímidos. Meu coração
parecia que ia explodir, então, saí do salão por uns 20 minutos, na
companhia de James e Costello.
Depois do Discurso: Sentamos num
barranco de onde podíamos ver o sol se por sobre o Rio Guaíba. Tentamos
desvendar aquele momento mágico, mas o mais importante nem eram as
palavras. O Costello ficava me olhando como se quisesse decifrar afinal de
contas o que eu estava sentindo. E eu, apesar de sempre pronto para
especulações - tenho a impressão - não consegui chegar nem perto da
descrição do que realmente estava bombando dentro do meu peito e se
espalhando para o resto do meu corpo inteiro. Deu tempo de dizer não mais
do que uma frase. A frase que melhor poderia descrever aquilo tudo e, ao
mesmo tempo, não significava nada.
- Foi o dia mais louco da minha
vida!
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Sexta-feira, Julho 09, 2004
Publicado
10:03 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
O dia mais louco - 3a parte
Os presentes e
os presentes: Não demorou muito e eles começaram a chegar. Primeiro
foi Claude e o marido, que já passou por tudo isso e talvez mais. Depois
veio Giga e a maravilhosa Eve, simpáticos, bem-humorados sempre, com
informações do trânsito. O Primo e a querida Roxane. Frida e a filha que
já aproveita para me convidar para seu aniversário de 15 anos. Claro que
logo chegaram outros como Caco, a esposa Angel e Sebastian, guri bom de
Dama (o jogo, por enquanto) uma barbaridade! As tias - irmãs de Geisel -
também compareceram, uma delas, Adel, fazia aniversário no mesmo dia.
Junto a prima Karen e Edson. Aí apareceu o Costello, a tia de Livramento
que veio especialmente para a festa com quilos e mais quilos de lingüiça
local para incrementar o buffet! As irmãs, as sobrinhas, os cunhados,
maravilhosos, que belos amigos, sem falar na galera da infância que veio
de longe, inclusive de Florianópolis, só pra curtir comigo. Minha
afilhada, a sua filha - facho de luz e beleza! Não vou listar todos,
óbvio, destaquei alguns a esmo, a emoção era bonita, um reencontro de paz,
amor, cerveja, salada, carne e forró!
Antes do já descrito almoço,
muitos aperitivaram com refri, cerveja, lingüiça, coraçãozinho, enfim,
além da fantástica caipirinha feita pela Zele. Eu mesmo fui ludibriado
pelo açúcar e pelo sabor espetacular. Voltei para a cerveja logo que a
primeira tonturinha veio. Afinal tinha toda a tarde pela frente.
Preocupada com a qualidade, a mana provou todas antes de servir. E logo
seria uma das estrelas da festa. Mais alegria que ela ninguém tinha,
comprovando que - no fundo no fundo - é a pessoa mais bonita da nossa
família!
Vale destacar alguns dos presentes que recebi, porque
realmente foram fantásticos e inusitados. Um kit churrasco disposto numa
maleta com faca, garfão, tábua, tempero e avental, por exemplo, dado por
quem leu o blog e lembrou do sufoquinho que eu, Geisel, Clovinho e Pluto
passamos em Tarumã. Um disco sensacional e raro do Joaquim Sabina,
empacotado numa enorme caixa parecida com aquelas que se guardavam
cartolas. Mas ali dentro não tinha apenas o CD. O cidadão Marlon Asseff
trouxe também dois exemplares da última pesca de tainha da maior ilha
catarinense! Pode? Zeda e Polly me emocionaram com uma caixa, primeira das
obras de marchetaria confeccionada pelo JJ. Eu sei o tamanho do carinho
que ele dedicou àquela peça. Tata e eu ficamos encantados também com a
cesta com cachaça, amendoim, bala de leite, cuia, bomba e erva, tudo
suportado, o que descobrimos só no dia seguinte, por uma chapa de rapadura
m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-a e enorme. Ainda tem aqui em casa para quem quiser
provar. Mas tem que vir logo! Enfim, presentes tão malucos quanto a festa
e o seu anfitrião.
 
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Segunda-feira, Junho 28, 2004
Publicado
11:48 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
O dia mais louco - 2a parte
Janelas para o
paraíso: Eram não mais que 11h quando estacionei o carro e começamos a
desembarcar as coisas. Em volta da churrasqueira, desde às 9h, estava
Geisel, tenso, mas com um sorriso de menino no rosto logo que me viu. Já
estavam no fogo as três janelas de costela de gado. Quem não tem
entendimento do assunto, pode exercitar a imaginação com meu auxílio.
Acompanhe com atenção e construa na mente algo em torno de oito
ossos com 60cm de comprimento e 5cm de largura, levemente envergados,
dispostos paralelamente, e enterrados na base de uma manta de carne e
gordura de aproximadamente 12 cm de altura, com largura pouco menor do que
a compleição dos oito ossos lado a lado. Se cada osso tiver 3cm na
separação entre um e outro, teremos uma janela com 67 cm de comprimento e
60cm de largura. Cada um dos três costelões pesava cerca de 12Kg. E o
total de tempo no fogo não pode ser inferior a 5h. O resultado é uma carne
macia, cozida na gordura, que se desmancha ao deslizar da faca menos
afiada.
Controlar tudo isso exige atenção, paciência e muita
força. Isto sem falar nos quilos e mais quilos de outras carnes. Havia
o atrasado do porco, a sensação do vazio, os corações despedaçados, a
lingüiça insinuante do Uruguai (trazida de ônibus por uma tia santanense
direto da fronteira), enfim, uma orgia medieval e insana, que faria a
festa de pelo menos 43 vikings, fora os comportados e as damas, nem todas
preocupadas com a ditadura do corpo protagonizada no século XXI.
Por isso, Geisel tinha razão em estar tenso. Nem com mais dois
companheiros de brasa, Dode e Cláudio, a coisa foi fácil. A cena dos três
virando os costelões com expressão de dor no limite da força é um exemplo
da dedicação, cuidado e esmero com que pagaram tributo à arte de preparar
um churrasco. E, assim, durante horas e mais horas, das 9h da manhã até
pelo menos às 15h, eles atenderam, brava e delicadamente, cada um dos
convidados que passavam pelo bufffet de saladas e pelas várias tábuas com
carnes, onde cortavam - ao gosto dos fregueses - os pedaços mais nobres e
saborosos. Jaz aqui meu primeiro obrigado! Pois foram como heróis, cada um
com seu avental, um preto, outro azul, outro vermelho, indumentária do
nosso prazer.
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Quinta-feira, Junho 24, 2004
Publicado
11:43 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
O dia mais louco
O Plano: Comemorar meu
aniversário de 38 anos. Agradecer e confraternizar com as pessoas que me
deram apoio durante o tratamento. Reunir, num lugar bonito e com espaço
suficiente, 60 convidados para um grande churrasco. Contratar uma banda,
formada por alguns amigos, para dançar por pelo menos 3h. Beber a vontade.
A execução: Vale dizer que, depois de pensar sobre o
assunto durante meses, quando passou a data verdadeira, dia 08, eu achei
que não deveria executar O Plano. Ia dar muito trabalho, eu simplesmente
não conseguia diminuir a lista de convidados, que era enorme, exigindo
cada vez mais planejamento e recursos. Aí falei com a irmã Zeda e ela me
mostrou que eu acabaria me arrependendo.
Em pouco mais de uma
semana, a festa estava montada: convite feito profissionalmente e
distribuído pela internet, salão alugado, estrutura para atendimento,
assadores avisados, dois auxiliares contratados, tarefas acertadas entre
amigos e parentes, banda, casal para show de dança de salão, bolo
encomendado.
A Lista de Shindler: Definir quem seriam os
convidados foi um caso a parte na execução do plano. Foi difícil escolher
o local. E quando ele foi escolhido estávamos em cima da data. Só que
apesar de adequado, o espaço fora todo preparado para receber 60 pessoas.
Estavam disponíveis 60 talheres, 60 pratos, 60 copos, 15 mesas com espaço
para quatro cadeiras, o que resultaria, obviamente, em 60 lugares sentados
para o almoço. E eu tinha mais de 100 na minha lista. Fiz um corte radical
e reduzi para 63 quando faltavam 15 dias para a festa, marcada para o dia
19, um sábado. Mas dois dias depois ela já estava em 88. Alguém me alertou
que o percentual de faltas é acima de 10% nas festas. Mandei o convite
para 79. Ainda tive cabeça para montar uma lista de espera.
Na
quarta-feira, 16, minutos antes da meia-noite, Carol e Princesa Lea foram
as últimas a confirmar pouco antes do prazo do RSVP encerrar. Urra!
Começamos a pensar em alternativas. Pratos e copos de plástico, mil
cálculos para salada, carne era assunto do Geisel. E só dele. Ninguém
podia tocar no assunto. O homem estava empertigado, tenso como um general
antes da batalha! E o que fazer com a lista de espera? E é claro que
surgiram outras e mais outras pessoas. Eu sabia que quem estivesse de fora
perderia algo muito importante. Nem eu era capaz de saber o que seria. Nem
eu poderia sequer imaginar o que estaria por vir.
A revolta dos
que não foram: A coisa toda da lista eram os que estavam fora dela,
motivo de alguma tristeza todo o tempo. Os que estavam na de espera,
aqueles que eu acabaria não convidando. Deborah e Elisah, Micha, Ana B.,
Iracy, Carmem Vera (mãe do Deco), Marcos, Luis e, meu Deus, tantos outros.
O Professor, amigo recente, por exemplo. O Dr. Gumercindo Saraiva, logo
descartado por Tata, que me alertou sobre preservar a relação
médico/paciente. Maria Rita muito em especial, ainda mais depois de tudo
passamos juntos há alguns anos atrás. Durou dias pensar que ela tinha que
estar lá, porque me acompanhou tanto quanto Bia. E a Bia, então, por
favor, ela deveria ser convidada de honra, como pude deixá-la de fora
penso agora. Concluí o tempo inteiro uma grande bobagem, que ela não se
agradaria daquele Andaraí todo. Teve também a Isabel, mas essa está em
Londres ao menos. E teve o Figo e a Castelhana, único amigo perdido em
todo o tratamento. Tivemos várias brigas antes, questão de temperamento,
sabem como é. Só que eu não consigo ficar brigado com alguém por mais do
que alguns dias. Logo dou um jeito de me desculpar ou de relevar os fatos.
A única vez que não fiz isso perdi um cara importante. Antes de tudo
acontecer ele fora importante. Mesmo agora ele continua importante: mas...
alguém tinha que me deixar na mão na pior hora, né! Eu não sou tão
gostosão assim! O mundo não é perfeito! Era uma questão estatística!
Como podem ver, foi mesmo "A Revolta Dos Que Não Foram" dentro da
minha cabeça!
A Caminho: O dia amanheceu lindo. Temer a chuva
teria sido honesto nos dias que antecederam o encontro. A gente sabia, a
previsão do tempo também, mais aquela gente sábia que conhece o tempo
porque os ossos rangem, as cicatrizes ardem. Creio que todos sabíamos que
o dia nasceria lindo. Tivemos tempo do banho, das roupas já escolhidas
caírem pelos nossos corpos, perfume, uma ajeitada no cabelo, conferência
da lista de coisas a serem carregadas para o carro e pronto: lá estávamos
eu e Tata, deslizando pelo aslfato. A cunhada saltou da calçada para
dentro do carro em segundos no lugar programado e dali em diante
estaríamos a poucas quadras da confeitaria e do açougue, onde
resgataríamos o bolo e a costela de porco, a última das carnes a chegar na
festa. Antes de aterrissar lá ainda resgatamos o sogro, a sogra, as tias e
o tio da Tata para que nos seguissem nos seus respectivos automóveis. O
local era meio chato de ser encontrado. A caravana teve seus momentos de
tensão com o sogro ficando para trás. Mas nos achamos logo depois e tudo
deu certo.
Aguarde pelo próximo capítulo em breve....
Comentários:
Domingo, Junho 20, 2004
Publicado
4:24 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Obrigado! Amigos, eu vivi... Ainda não estou em
condições de descrever tudo. Mas domingo foi, sem dúvida, o dia mais louco
da minha vida.
Comentários:
Quarta-feira, Junho 16, 2004
Publicado
10:34 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Acho que cuspi o bixo morto!
Enrico (10:16
AM) : acho q cuspi meu cancer fora essa noite. acordei com nariz
entubido Fio Fino (10:19 AM) : Caralho! Que é isso? Enrico
(10:16 AM) : aí fiz uma lavagem.... Enrico (10:17 AM) : e
comecei a tentar assoar o nariz Enrico (10:17 AM) : meu...
Enrico (10:17 AM) : saiu uma coza lá de dentro, de repente....
Enrico (10:17 AM) : caiu na pia... Enrico (10:17 AM) :
PLAFT Enrico (10:17 AM) : assim mesmo... PLAFT! Enrico
(10:17 AM) : Enorme! Enrico (10:17 AM) : meio seca meio
mole... meio gosmenta... com um rabo em formato de tridente... Enrico
(10:18 AM) : eu fiquei parado...
Enrico (10:18 AM) :
estático!
Enrico (10:18 AM) : olhando aquilo... Enrico
(10:18 AM) : tirei foto pra nao achar que era sonho! Enrico (10:19
AM) : depois fiquei admirado, manipulando aquele troço com palitos...
louco de medo que estivesse vivo! Fio Fino (10:19 AM) : Caralho!
Devia mostrar pro médico imediatamente Enrico (10:21 AM) : muito
estranho! Enrico (10:23 AM) : quer ver ou tá com medo? Fio
Fino (10:23 AM) : As pessoas são abduzidas a todo momento e não
percebem.. Enrico (10:23 AM) : é a segunda vez que sai um troço
desses.
Fio Fino (10:24 AM) : Eu não quero ver. Enrico
(10:24 AM) : hahahaha
Comentários:
Segunda-feira, Junho 07, 2004
Publicado
2:51 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Meu amô Eu sei o tamanho das palavras que teria de
usar para dizer o quanto eu a amo. Mas elas não caberiam aqui. Foi
preciso tudo para que a vida me esfregasse nos olhos as lágrimas do
arrependimento, do medo, da dor, do amor. Foi preciso tudo para me dar
conta da sorte. Ninguém no perímetro teve e tem tanta sintonia com os
acontecimentos, com meus sentimentos, me devolveu tanto sem nada pedir, me
deu, simplesmente deu, sem nem pensar, tanto amor. Houve quem chegasse
perto, quem se afastasse, quem fosse afastado. Há quem me ame, me diverta,
me cuide. Mas nada comparado, nada comparado. Nada. Nem eu temo tanto
minha morte quanto Tata. E eu posso mesmo até partir. Daqui. Ou da vida
dela. Mas nunca ninguém terá tanto do meu respeito. Tanto da minha
admiração. Tanto de um eterno amor, mesmo que em outro formato, emissão,
ruído ou código. Obrigado, obrigado, muito obrigado, Meu Amô!
(Trilha sonora: Clocks da banda Coldplay)
Comentários:
Sábado, Junho 05, 2004
Publicado
10:31 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Estranhas Confissões Pela manhã mediei um debate na
universidade sobre Software Livre. Pensei em passar o dia no mega evento,
mas Tata me liga e insiste para que eu volte para casa e almoce com ela.
Tinha desistido de encontrar os pais dela. Volto ouvindo Charly. Duas
horas depois, resolvo trocar de roupa para ficar mais confortável. Cobri o
corpo com aqueles trapos que a gente só usa em casa. Mas quando terminei o
serviço já estava determinado a ir até a locadora de DVDs. Botei um tênis
e um casaco por cima e fui. No caminho, ainda comi uma bergamota abençoada
pelo céu azul e o sol ameno. Que dia lindo!
Nem três minutos lá
dentro e Thomas passa ao meu lado. Confesso que numa fração de segundo
hesitei, mas acabei tocando em seu ombro. Ele me reconhece imediatamente.
Um abraço longo. Fomos colegas de faculdade de jornalismo. Como estás?
Bem, bem, agora tudo bem. E contigo? Aaahh... uma loucuraaa.. E tu? Uff...
nem te conto... há pouco mais de seis meses fui diagnosticado com câncer!
O queeeeeeeeeeeeee???? (nem eu acredito que falei) Pois é... Foram seis
meses de loucura... rádio, quimio, tanta gente ligando, querendo falar da
doença... aí criei um blog! Mas e tu? (ele sem ar!!!!!!) Ah, Enricooo
minha vidaa... Eu fiz várias viagens, experimentei de tudo nessa vida,
drogas, alcool, noites pesadas... Muito sexo... Morei dois anos em
Londres, a maior parte do tempo só curti, bebi, tomei todos os Ecstasys
que apareceram na minha frente... Mas trabalhei também... numa sauna,
imaginaaa!!!!! HAHAHAHAHAH Mas então a hora extra rolava direto! Ah, sim,
claro! (nem ele nem os demais presentes no corredor da locadora deviam
estar acreditando no nosso diálogo) Enrico, Enrico... eu tô perdido... eu
certamente vou pegar alguma coisa também, não pode ser... HAHAHA! Pára, tu
tá vacinado! E assim foi o diálogo, como se fosse alucinação! Aí de
repente paramos de falar. Ele me deu tchau e se mandou da locadora. Eu
voltei pra casa correndo logo depois. Que coisa louca e intensa foi
aquela?
Comentários:
Quinta-feira, Junho 03, 2004
Publicado
10:58 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
CHARLY GARCÍA - Influencia
Clique no Charly. Recomendo que ouça, veja e leia
tudo ao mesmo tempo.
Ele teve grande influência por longo tempo.
Aí vieram os rumos e nos perdemos um do outro. Não houve briga nem nada.
Passam-se quase 18 anos e um reencontro acontece. Foi uma beleza, porque a
conversa simplesmente retomou. Estou revendo minha gangue da adolescência
y juventud. Charly em noites longas, por vezes alegres, por vezes tristes,
mas sempre longas. Depois vem Dean Moriarty, meu benchmark. Eu deveria
dirigir como ele. E viajar como ele. Mas já me acusaram de ser um Jean
Alesi! Pura inveja, a maldita que come o mundo e a gente a nacos largos!
Puedo ver y decir, puedo ver y decir y sentir: algo ha
cambiado Para mí no es extraño. Yo no voy a correr, yo no voy
a correr ni a escapar de mi destino, yo no pienso en peligro.
Si fue hecho para mí lo tengo que saber. Pero es muy
difícil ver si algo controla mi ser.
En el fondo de mí, en
el fondo de mí veo temor y veo sospechas con mi fascinación nueva.
Yo no sé bien qué es Yo no sé bien que es, vos dirás: son
intuiciones, verdaderas alertas.
Debo confiar en mí, lo
tengo que saber. Pero es muy difícil ver si algo controla mi ser.
Puedo ver, y decir y sentir mi mente dormir bajo tu
influencia.
Una parte de mí, una parte de mí dice:- stop!
fuiste muy lejos. No puedo contenerlo. Trato de resistir,
trato de resistir, y al final no es un problema. Qué placer
esta pena!.
Si yo fuera otro ser no lo podría entender
pero es tan difícil ver si algo controla tu ser. Puedo ver, y
sentir, y decir mi vida dormir, será por tu influencia. Esta
extraña influencia!
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Segunda-feira, Maio 31, 2004
Publicado
4:17 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Noches de Boda Acompanho o fotolog da Família
Asseff. E lá encontro foto da cantora Chavela. Encontro também a letra
abaixo, da música "Noches de Boda", de autoria de Joaquim Sabina. Quem
tiver Kazaa ou Shareaza recomendo uma busca. Vão encontrar, como eu, o mp3
e se emocionar com a interpretação.
Que el maquillaje no apague
tu risa, que el equipaje no lastre tus alas, que el calendario no
venga con prisas, que el diccionario detenga las balas.
Que
las persianas corrijan la aurora, que gane el quiero la guerra del
puedo, que los que esperan no cuenten las horas, que los que matan
se mueran de miedo.
Que el fin del mundo te pille bailando,
que el escenario me tiña las canas, que nunca sepas ni cómo, ni
cuándo, ni ciento volando, ni ayer ni mañana.
Que el corazón
no se pase de moda, que los otoños te doren la piel, que cada
noche sea noche de bodas, que no se ponga la luna de miel. Que
todas las noches sean noches de boda, que todas las lunas sean lunas
de miel.
Que las verdades no tengan complejos, que las
mentiras parezcan mentira, que no te den la razón los espejos, que
te aproveche mirar lo que miras.
Que no se ocupe de ti el
desamparo, que cada cena sea tu última cena, que ser valiente no
salga tan caro, que ser cobarde no valga la pena.
Que no te
compren por menos de nada, que no te vendan amor sin espinas, que
no te duerman con cuentos de hadas, que no te cierren el bar de la
esquina.
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Domingo, Maio 23, 2004
Comentários:
Publicado
4:11 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Conversa Definitiva Muito antes de tudo e bem antes
de tudo mesmo eu tive a idéia ou ouvi falar de alguém que tivesse pensado
algo sobre a Conversa Definitiva. Sinceramente, tenho a impressão de que
realmente fui eu que inventei. De qualquer sorte, o que interessa é que
botei em execução. Ela consiste em sentar frente a frente com seus pais e
soltar o verbo, dizer tudo o que você pensa, fazer um balanço da sua vida
com base no que te deram, ensinaram, serviram de exemplo. Afinal, é
preciso dizer tudo antes que eles se vão. Sim, porque eles se vão. Hoje
fiquei sabendo que a mãe de um grande amigo se foi. E ele se lamenta agora
por não ter dito tudo o que sentia, pensava, devia. Ele não acordou para a
Conversa Definitiva.
Minha conversa com Geisel aconteceu em 2002
durante um jantar no Copacabana, suportado por uma vitela e alguns goles
de vinho. Expliquei o funcionamento da coisa e agradeci por ter criado os
quatro filhos com vergonha na cara. Por sermos todos honestos e de bom
coração. Por não sermos, enfim, um bando sacanas ou picaretas. Por termos
uma base moral que nos conduziu para o lado branco da força. E também por
ter garantido nossos estudos. Por ter nos dado uma chance de vencer na
vida de maneira honesta. Limpa. Por dividir o conhecimento adquirido nos
livros. E na vida. Por ser tão carinhoso. Por ser exemplar na
solidariedade e na capacidade de perdoar. Por ser persistente. Por ser tão
civilizado. Foi uma noite de olhos salgados e úmidos. Mas nada escorreu
pelas faces que não sorrisos depois de tudo dito. Um abraço apertado na
despedida e estava consumado.
Com Mama a coisa aconteceu mais
recentemente, embora ela sempre corresse mais risco de saúde e de morte
que Geisel. Seja pelo transplante, seja pelas outras doenças que a
acometeram nas últimas décadas. Embora eu tivesse conhecimento da Conversa
Definitiva há uns bons anos, mesmo assim, é de chamar a atenção, que
tivesse me concentrado em falar primeiro com Geisel. Mama recebe meu
carinho explícito e declarações de amor infindáveis já tem uns dez anos,
eu acho. As brigas horrorosas da adolescência e da juventude foram
arquivadas bem no fundo das gavetas do almoxarifado. Mesmo assim, não
tinha cumprido meus agradecimentos pelos carinhos, cantigas, puxões de
orelha, cafés, sucos, beijos, cachecóis. Meu entendimento de amor
demonstrado vem de pequeno. De dias frios, nariz e bochechas vermelhas. Do
primeiro dia de aula. Do medo de perdê-la de vista. Das fugas da aula para
olhar pelas frestas a garantia de sua presença enquanto professora na
turma ao lado. Do sopro anestesiante depois de passar merthiolate ou
mercúrio no joelho sem tampa, no dedão lascado, no queixo arranhado. Por
ser mãe tão concentrada em ser mãe. E foi disso e tanto mais que falei na
Conversa Definitiva que tive com ela depois de tomar um passe espírita e
dar milhares de voltas na quadra antes de chegarmos no destino apenas para
terminar de lhe agradecer.
O diabo, amigos, é que você pode ter a
Conversa Definitiva com seus pais, pensando que eles correm o risco de
desaparecer sem que se diga o quanto foram e são importantes. Hoje pensei,
entretanto, que existe uma situação em que podemos ficar mais desasados do
que o amigo a quem fiz referência no início deste post. O que na maioria
das vezes não dá para perceber - antes das rugas e das dores no corpo, dos
cabelos brancos e da sua eventual ausência, da perda de força, da
rouquidão que o tempo traz - é a rara, dura, porém, possível, realidade. A
de que sendo você tão jovem, saudável, cheio de vida e força ainda assim
não é imortal. E que tantas palavras definitivas talvez tenham outra
missão. Um propósito diferente do imaginado inicialmente. Como saber quem
está na mira? Por sorte, nem sempre o quebra-cabeça da vida tem pressa em
se encaixar.
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Quarta-feira, Maio 19, 2004
Publicado
12:34 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
De volta para o futuro do presente Na sexta resolvi
surpreender Tata, eu mesmo e a quem mais pudesse. Fiz reservars num hotel
super romântico em Garibaldi e nos tocamos para a serra num dos finais de
semana mais frios deste ano. Foi sensacional, porque passeamos bastante,
visitamos lugares por instinto, como Monte Belo do Sul, por exemplo, onde
eu já tinha ido quando pequeno com Geisel e Mama. Lindas paisagens,
igrejas belíssimas, casas, jardins, cercas, tudo em ordem, um capricho
impressionante da população local encontrado até nas favelas. Lembramos
várias vezes do Cozinheiro e da sua simpática esposa. Foi com eles,
afinal, que redescobrimos a região há alguns bons anos atrás.
Almoçamos no restaurante mais famoso da redondeza. Comi tortéis de
olhos fechados, lambuzei o queixo traçando radiccis com vinagre e bacon,
não rezei nem pai nosso por engolir galetinhos tão tenros, minúsculos,
quase infantis. Depois veio a noite e aproveitamos a calefação para manter
a temperatura alta. E, essencialmente, durante todo o domingo, também
trocamos carícias verbais, orais e tudo o mais. Foi um belo presente para
os dois guerreiros. Mais um belo aprendizado, enfim. Porque nem sempre a
gente se dá conta dos presentes que somos capazes de nos dar. Inclusive
alguns bem mais simples do que o que bolei. Só que um mínimo de
sofisticação faz bem para o amor. Pelo menos eu penso assim.
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Quarta-feira, Maio 12, 2004
Publicado
5:27 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
London, London Isabel me passa texto de Carlos
Nejar direto de Londres, onde tenta a vida de rainha que deixou aqui.
"esquecer é melhor do que ir lembrando. há menos sandices nas idéias,
menos traições, menos infortúnios. vai-se lembrando só o bom, o frutuoso.
e o malévolo some pelo ralo. e a memória há de ter gelosias para olhar a
matéria que vier, as reixas do acaso, depois que pela alavanca for
filtrando. esquecer é depurar. e não lembramos rostos, mas sorrisos. ao
anuviarmos o tempo ele nos anuvia. `todo mal que se esquece, bem adiante
floresce!` é um ditado que se não existe, inventado vai. e o que não se
inventa, se descobre". Êta textinho "adiquado" ao meu momento e ao
dela...
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Segunda-feira, Maio 10, 2004
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Quinta-feira, Maio 06, 2004
Publicado
6:47 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Gosto duvidoso Para quem gosta desse tipo de
notícia, aqui vai. Minha saliva continua ruim, estou comendo mal, embora
me esforce para melhorar, o esforço é insuficiente. Por vezes tenho
fraqueza nas pernas, por vezes tenho fraqueza de espírito. Meu ouvido
ainda vaza água. E perto do cérebro existe uma fábrica de secreção verde.
Esses dias puxei uma delas do fundo da alma, dentro de um cinema,
ruidosamente, como se fazia na infância para se exibir para os colegas.
Três pessoas viraram para trás e eu morri de vergonha quando as luzes se
acenderam. Ah, e por falar em escuro, durmo com meia luz febril, em geral
deito às 24h e acordo às 4h, se deito às 2h acordo às 5h, se deito às 22h,
acordo às 3h30. Tudo calculadinho em três meses de sonolência. Vale o
registro: depois da euforia dos primeiros dias sem tratamento, veio o
cansaço. Chega o final da tarde e estou exausto. Posso dormir dirigindo,
talvez. Mas não vale o risco. O psiquiatra diria que está tudo dentro do
script. Só que ele não diz porque eu não pago. Minha loucura é meu
salário. Meu emprego é a superação. MaZÁ!
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Segunda-feira, Maio 03, 2004
Publicado
11:54 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Trio gente fina O Clovinho, meu cunhado, tem uma
velocidade muito diferente da minha. Mas isso não significa que eu não
respeite isso, porque o cara é um poço de civilidade e gentileza. Talvez,
para ser tão atento e simpático às causas alheias, ele precise imprimir o
seu ritmo.Então, ele é o cara que se colocarem dentro de um Stock Car V8,
podem ter certeza de que fará a corrida dele, na buena, possivelmente
lembrando os demais que determinadas ultrapassagens são perigosas. Na
saída de Tarumã, por exemplo, em determinado momento, apoiei-me no seu
ombro para conseguir subir uma lomba, nem tão íngreme, mas coooomprida que
só vendo. Nada demais para um ser humano em condições físicas normais. Mas
pra mim foi meio puxadito. Devo estar com a musculatura atrofiada depois
de seis meses de sofá, pensando na vida. Obrigado, Clóvis. Que bela pessoa
tu és, todo mundo sabe, né. Mas não custa fazer um elogio público.
Quem também me fez companhia foi o Pluto. Eu escrevi aqui que ele
estava com a vida encrencada. Mas mesmo assim ouviu o apelo meio carentão
que eu fiz aqui e me ligou para que fôssemos assistir as corridas. Eu já
estava até desistindo. Em meio a tanta confusão ele pensou em mim. E, por
isso mesmo, creio eu, o maior beneficiado do passeio de domingo foi ele
mesmo. Porque, apesar de ficar pensando em outra pessoa e em outro lugar a
maior parte do tempo, ele conseguiu se desligar por pelo menos duas horas.
Foi quando acabou a bateria de um dos celulares que ele levou. E o outro
simplesmente não pegava em Viamão. Sim, ele levou dois celulares para lá.
Não foi pela conta que eu ia pagar que em determinado momento eu disse: o
meu celular tu não usa mais por pelo menos uma hora! Relaxa! Acho que
funcionou. Espero ter dado a ele o presente que ele queria dar para mim. E
deu mesmo!
Agora, a estrela da tarde, senhoras e senhores, tenho
de confessar. Foi o Geisel. Ou como diz a minha mãe, o Geizzzzzllll. Que
disposição! E a improvisação? Para terem uma idéia, deixamos o carro num
condomínio fechado, cheio de árvores e churrasqueiras, bem em frente ao
circuito. Clovinho tem um terreno lá. É um lugar realmente aprazível.
Cansados, soleados, como diria de novo a Mama, tudo o que poderíamos
sonhar era com a sombra daqueles eucaliptos. E um churrasquinho não era má
idéia. Afinal, o trânsito estaria infernal por pelo menos uma hora. Isso
sem falar no bando de "pilotos" que aparecem depois desse tipo de evento.
Pois foi nessa hora que o Geisel disse que tinha carne na bolsa térmica
que carregamos todo o tempo para ajudá-lo. Una costelita. O resto vocês
podem imaginar.
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Sábado, Maio 01, 2004
Publicado
6:47 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Esporte é saúde Sexta com Tata, filmezinho pra
namorar. Dormimos cedo e acordamos tarde. Sono sem interrupções, o que tem
sido uma raridade. Foi importante porque estávamos os dois cansados. Com o
friozinho que está fazendo foi uma ótima opção para casais como o nosso,
que vive um excelente momento. Deixamos de ir num casamentão, é verdade.
Mas no final das contas penso que fizemos a opção certa. Amanha uma alma
gentil, cheia de encrencas pra resolver, chegou a insitir comigo para
irmos assistir a Stock Car em Tarumã. Resultado de um dos meus posts.
Amanhã cedo estaremos lá. Vamos inclusive visitar os boxes. É mole? Ainda
assisti no Beira-Rio a vitória do Inter... Vamos ver com será o níver do
mais carinhoso anjinho de todos os que conheço: a Lini.
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Sexta-feira, Abril 30, 2004
Publicado
5:39 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Kill Gil A felicidade provoca uma certa empáfia,
especialmente se você vive a euforia de achar que venceu uma grande
guerra. As duas últimas semanas foram intensas na medida esperada. Eu não
estou totalmente equilibrado. Muito menos tenho absoluto controle do que
sinto. Apenas deixo sair o que vem a mente e ao coração. As coisas tem seu
fluxo e saem do meu corpo ou da minha cabeça como luz. Não há
agressividade, nem maldade, apenas uma energia positiva que flui aos
gritos. Só que o maior erro para quem tem a doença é dar as costas para
ela. Já repeti isso aqui várias vezes. Você pode dormir, mas deve ficar
com um olho aberto. Você pode distrair a atenção para os prazeres, mas não
pode perder o foco. Se na primeira fase a guerra era contra inimigos
visíveis, os efeitos colaterais dos medicamentos, agora a guarda deve ser
redobrada, porque a inveja ou a maldade está à espreita, é invisível, e
pode emboscar até os entes mais queridos.
Na semana passada, tomei
o primeiro baque. Um amigo. Ontem, o segundo. De onde menos podia esperar.
As precauções que eu tinha tomado não foram suficientes. O primeiro passo
foi me manter perto de quem me ama. O segundo foi evitar contatos longos
com quem está fora do espectro sentimental e profissional traçado. Assim,
sob a proteção de quem sabe o que estou vivendo, posso - imaginei eu -
soltar a franga, me congratular com o fato de ter recorrido apenas às
minhas convicções para sobreviver ao tratamento, de conseguir suportar com
racionalidade extrema as explosões de adrenalina e festa de cunho até
talvez egocêntrico. Estou eloqüente, eficiente, envolvente, engraçado,
faço pirraça de mim mesmo, mas - o que é mais importante, estou me amando.
E acho absolutamente natural que aconteça.
Mas isso tudo é apenas
um plano. Uma visão da coisa. Tudo pode ruir se alguém quiser provar para
você o óbvio: que você não está na perfeita saúde mental, física e
psicológica. Porque, por incrível que possa parecer, há quem torça por
você, mas não suporta a sua felicidade, mesmo que tenha ajudado para
construí-la. Quem já sentiu sabe. A dor que dói mais é a da traição.
Exemplo. Você pode convidar alguém para ver Kill Bill. Pode
convidar para, depois do filme, jantar o prato que a vítima mais gosta, no
meu caso, churrasco. E pode, por seus fracassos sentimentais e
profissionais, não suportar tantos relatos de sucesso no amor e na
profissão. O filme trata sobre vingança. Este texto também.
Aí
você pode mudar o restaurante combinado para um bem mais caro. E pode
simplesmente não agüentar a energia irradiada por mim. Eu lá viajando,
criativo, inventando histórias loucas, feliz com a minha capacidade de
fazer um parêntese longo e voltar ao ponto onde estava anteriormente. Aí
conto que minha mente está um dínamo de alta voltagem, na intenção de ser
descritivo, mas você pode pensar que estou só me auto-elogiando. E talvez
tenha razão.
- Não está gostando das minhas histórias? -
perguntei.
Notei que algo não ia bem, né. Mas você responde com ar
irônico que não, que está tudo ok, que está apenas me ouvindo, como quem
não quer julgar valor. Mas é só o começo de uma estratégia de
desestabilização da sua vítima. Não dei bola para o sinal. Segui em
frente, agora conto sobre minhas palestras, revelo que tenho uma para dar
no dia seguinte e dou umas pinceladas do que costumo fazer no início
delas, na expectativa até de treinar um pouco, já que não havia me
preparado muito bem para ela. Aí de repente eu perco o fio da meada.
- Ué, tu não és um dínamo?
Hum, pensei. Hum... Tem alguma
coisa errada. Mas eu estava distraído comigo mesmo. E na presença de
alguém de alta confiança. Supostamente alguém que sabe muito bem usar o
fato de você estar usando preto. Alguém supostamente evoluído
energeticamente. Alguém que te ama, mas que pode ser traído por algo mais
profundo. Minha estratégia foi mudar de assunto. Apontei para as questões
dela. Parei de falar de mim. O que poderia ser um acerto, provoca alta
tensão. Os relatos não são de um grande momento profissional e afetivo.
Portanto, cometi o erro estratégico de continuar ingênuo para os
acontecimentos. Uma bomba ia explodir na minha frente e eu ficaria só em
instantes.
- Eu acho que tu não estás bem. Acho que como tu mesmo
reconheceu no blog tu estás descontrolado. - Eu acho que estou bem
porque eu sei que estou sob descontrole eventual, mas estou consciente.
Não estou sendo dominado por nada. - Eu acho que tu não estás bem. Que
tu devias procurar um psiquiatra. Procurar ajuda. Vai tornar mais fáceis
as coisas. - Eu não quero ajuda. Quero vencer isso sozinho. Estou
aproveitando para conhecer meus limites. Eu tinha convicções antes da
doença. E agora é a hora de usá-las. Não quero ajuda de Deus. E se ele
existe ou não está ciente ou não do meu respeito por ele ou não. De cima
ou de baixo ou do meu lado ele parece respeitar minha decisão de lutar com
meus recursos. E o psicólogo ou psiquiatra pode me ajudar, sim. Mas eu
quero saber até onde vou. Quem não sabe quem é ou não tem convicções sobre
as coisas é que recorre ao desconhecido. Ou pede ajuda profissional. Eu
estou cada vez mais ciente de quem sou. Estou aproveitando tudo o que está
acontecendo para evoluir. Como te disse, quero conhecer meus limites.
- Por que tu estás te irritando, estou querendo apenas te ajudar....
Como você deve saber, a primeira coisa que se faz para deixar
alguém irritado é dizer que você está irritado quando você ainda não está
totalmente irritado.
- Eu não estou irritado. Só não concordo com
o que defendes. É nojento o que estás tentando fazer. - Como não estás
irritado? Tá na cara que tu não estás lidando bem com a tua dor e não
aceitas isso! Agora mesmo eu fiz um teste contigo e tu caíste como um
pato! - Tu és muito filha da puta em fazer testes comigo no meu
estado. Eu aqui de coração limpo e tu fazendo testes? - Eu acho que tu
vais é ficar sozinho e pagar esta conta. Tchau
Pois acreditem ou
não, amigos, paguei o mico de ser abandonado na frente do garçom e de
todos os demais presentes no restaurante. Fiquei com aquela cara de tacho
de quem parece ter feito algo muito grave com a moça que me fazia
companhia. O garçom passa e peço a saideira e a conta. Passo as mãos nos
cabelos... Olho fixo para a frente... Tento entender o que se passou. Aí
levanto, digo para a moça do caixa que está demorando para que me diga
quanto devo. Ela responde que são R$68,00. Pago e faço um apelo.
-
Sei que é uma pergunta inusitada. Mas alguém da sua equipe fuma? Eu não
fumo mais. Mas o momento exige uma compensação.
Ela fica meio
constrangida. Me dá o troco. E para minha surpresa quem me oferece uma
carteira de Carlton, com a tampa aberta e um cigarro com meio corpo para
fora é o garçom que viu tudo acontecer. Logo que ponho o maldito na boca,
ele - eficiente - risca a pedra do isqueiro e puffffff, incendeia o fumo!
- Não te preocupes! Isso tudo vai passar!
Eu escuto e olho
surpreso. Que frase perfeita para tudo o que estou vivendo agora! Dou uma
tragada, afino as sobrancelhas e acuro a visão: "Ele é da raça, Deco" -
pensei. "E é do bem".
- Não sabes o bem que tua frase me fez.
Aquele garçom, só em filme.
(Por favor, peço que não
publiquem comentários neste post, especificamente. Se for imprescindível
dizer algo sobre ele, por favor o façam por e-mail.)
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Quarta-feira, Abril 28, 2004
Publicado
9:35 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Bullit O Marloca lembra que no filme estrelado por
Steve McQueen tem uma cena que se passa num bar chamado Enrico's. Que
ironia lembrar disso esta semana, justamente a que antecede a vinda da
Stock Car a Porto Alegre (Viamão). O filme, como bem lembra meu amigo de
tempos selvagens, tem a cena de perseguição mais famosa do cinema. Tenho
que descobrir afinal quem me fará companhia, porque quem me passou o filme
e entende do assunto tem compromisso. Se o JJ não fosse tão preguiçoso
seria excelente. O Pluto tá com a vida toda encrencada. O Deco, meu sócio,
vai dizer "Legal, né, mas...." e como sempre não vai se engajar. No
automobilismo não dá para inovar nas relações como no futebol. É a mesma
coisa com o câncer. Embora alguém possa pensar que somos da mesma espécie,
o momento é de transformação e instabilidade. Quem tem câncer é de outra
raça, outra mentalidade, outra emoção, outro (des)controle. Ontem, por
exemplo, depois de duas semanas de excitação absoluta - virei um Midas no
campo profissional, tudo que toco vira ouro, tiros certeiros, sucesso
absoluto! - ruí a ponto de cair de joelhos no chuveiro, um choro
destravado, urrado, que apesar do rádio a todo volume, separado por duas
portas, TV ligada lá no quarto, ainda assim despertou os instintos de
Tata. Ela invadiu o banheiro e chorou junto, caiu ajoelhada do outro lado
do box de vidro, eu de costas, meu aquário momentâneo. A saliva ruim, o
ouvido surdo, as secreções pelo nariz e garganta, a vida, a morte, o
sentido das coisas e algumas dores cobraram seu preço. Isso sem falar num
artigo publicado hoje no site da minha empresa, onde um amigo faz um
elogio gentil e emocionado. Diz que sou solidário. E eu que pensei que os
mineiros só eram solidários no câncer! Quantos ensinamentos...
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Segunda-feira, Abril 26, 2004
Publicado
9:49 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Domingo Legal Tenho até medo dos invejosos de
plantão. Mas domingo foi legal também. Aniversário da minha querida
cunhada, a quem respeito muito, tenho admiração pelo vasto conhecimento, e
um carinho delicado por mim que sempre que pode demonstra de maneira
tímida, é verdade, mas sempre verdadeira. Depois parei para pensar em quem
iria convidar para ir ao Beira-Rio comigo, curtir um sol, um friozinho e
uma vitória do Inter. Os acontecimentos recentes me fizeram pensar em
variedade. E, então, me presenteei com a companhia do divertido Giga, um
amigo de mercado cuja admiração mútua é sincera, uma daquelas amizades
limitada por um convite como o que fiz. E lá fomos nós, e rimos, e nos
divertimos, e nos comprometemos a torcer pelo time sempre do mesmo lugar
no estádio. Fantástico! Por que querer mais?
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Domingo, Abril 25, 2004
Publicado
2:29 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Wow! Que dia! Hoje acordei às 6h30 e corri atrasado
para participar de um programa de rádio. O fiz por três horas com
desenvoltura, embora sempre role depois coisas do tipo, será? Os poucos
que ouviram e tomei conhecimento dizem que foi ok. Uma cochilada até às
13h e almoço delicioso com Tata. Consegui comer muito bem. Adivinhem o
cardápio? Mais uma pequena pausa e aí a emoção, a alegria e a pureza de
Riva e sua esposa contagiou amigos, amigas, famílias e nós, companheiros
mais recentes, na festa de 1 ano do filho Thiago. Ninguém resistiu a tanta
felicidade e deixou ela entrar. Isso sem falar nos docinhos, tortas,
cachorros quentes e a infindável quantidade de cervejas. Eu e Tata saímos
tocados por tanta simpatia, simplicidade, humildade, orgulho. Mas não
estava terminada a orgia de prazeres. Ainda fui assistir ao vivo a uma das
bandas que tive o prazer de começar a curtir na década de 90: Living
Colour! Sucessos, novos hits e, para arrematar, covers de Clash, White
Stripes, Jimmi Hendrix e, já na abertura, uma bombástica versão de Back in
Black do AC/DC. Os ingressos foram uma cortesia de Laninha. Presenteei
Elefantinho, que praticamente me apresentou a banda, com o outro ticket.
Foi demais. Que dia! Que noite!
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Sexta-feira, Abril 23, 2004
Publicado
5:12 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Tocha humana No final da tarde de ontem,
reencontrei Cozinheiro e Elefantinho. Eu estava brilhante! Tanto que em
determinado momento virei uma tocha humana. Tenho até a impressão de que
iluminei o caminho do Cozinheiro. Ou queimei a cabeça de um fósforo da
cozinha dele. O certo que é produzimos luz, ah produzimos! O almoço também
foi genial. Esteve reunida pela primeira vez a Confraria do Egon, quatro
eminentes figuras do mercado onde minha empresa está inserida. Criamos
inclusive as regras. A primeira é de que podem participar convidados,
desde que tenham ego maior ou igual ao dos fundadores. Muita besteira,
assuntos relevantes, algumas informações de cocheira. Tudo foi tão intenso
que agora há pouco Tata pergunta o que eu tenho, por que meu sono está tão
agitado? Respondo que tenho dificuldade para respirar. Por duas vezes,
levantei e fiz a limpeza com a solução de água, sal e bicarbonato. Acabei
vindo para o micro. A verdade é que meu cérebro está a mil!
Ah,
sim. Para registro: impressionante a quantidade de cabelos caindo esta
semana! Chegamos a procurar por buracos na nuca, laterais... Por enquanto,
nada. Ufa...
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Quarta-feira, Abril 21, 2004
Publicado
4:09 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Mestre Ioda avisado tinha Relaxar com esta doença
não deve. De surgirem efeitos colaterais possibilidade existe. Saliva
sumir vai. Céu da boca ralado ficar pode. Nariz congestionado noite de
sono tira. Tarde dormir vou. Comer esta semana difícil foi. Ao menos
trabalhar divertido acabou sendo. E hoje muito bem estou. Comentários:
Publicado
4:05 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Faltou contar Na sexta-feira passada, fui na
Clínica apenas para tirar a bomba de Flouracyl. Abracei Sheila e depois
Carla. E aí a emoção veio. Saí chorando pelos corredores. Deixei o prédio
assim. Dirigi na companhia de Tata até em casa aos prantos. Acabou,
pensei. De lá para cá tive dias de instabilidade emocional. O peito está
cheio. Não é ar, não é líquido, não é sólido. É angústia, ansiedade.
Gritar, chorar, expirar parecem ser a única solução. Adotei as duas
últimas e algumas pílulas. A noite é sempre limítrofe. Fantasmas,
lembranças... Mas cada dia fica melhor. Por sorte, ou merecimento, tenho
Tata. Incansável. Do lado. Firme.
Comentários:
Quinta-feira, Abril 15, 2004
Publicado
8:50 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Último dia Não chegou a ser de grandes emoções o
último dia de quimioterapia previsto dentro da Clínica. A despedida da
radioterapia foi mais festiva. Meu abraço em Sheila teve foi gosto de fim
de festa mesmo. Pelo menos o desejo era este. Espero não precisar passar
outra tarde lá nunca mais na minha vida.
Os três dias foram de
espera, espera... Ontem, durante a sessão, nem dormir consegui de tanta
ansiedade. Queria sumir de lá.
No final, dei para Sheila o livro
Perdas & Ganhos de Lya Luft, providenciado pela Tata, com a
seguinte dedicatória:
Sheila, Obrigado pelo carinho e apoio
nos meus momentos de perda. Desejo todos os ganhos do mundo para ti e
tua família. Enrico
Esqueci de botar a data no final. Mas
na sexta vou lá de novo, desta vez para tirar a bomba de injeção de
Flouracyl e colocar Eparina no cateter. Aliás, eu e Tata estamos em dúvida
sobre permanecer com o cateter ou não. Tudo poderia depender dos exames.
Mas em caso de ter de continuar com um tratamento, conforme já expliquei
antes, só em seis meses ele seria útil. Certo é que não é possível prever
se o aparelho será usado ou não nesta situação hipotética. Depende da
medicação e da dose prescrita, o que é impossível de prognosticar agora.
Talvez o melhor seja tirar de uma vez esse troço do peito e retomar minha
musculação! Quero vida normal...
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Terça-feira, Abril 13, 2004
Publicado
6:27 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Tempo Rei Final de semana de tempo bom, algumas
nuvens e leves pancadas de chuva em Enrico Miller. No almoço de sexta com
a família alguma irritação, nada desceu muito bem. A saliva ainda
atrapalha. A psiquê também. Tanta gente ali reunida, mal ou bem sou como
uma atração. Sabe como é gaúcho, dá volta, dá volta... até que chega na
estrela e pede autógrafo para a sobrinha. Foi assim com o pai do JJ,
quando escapei dos olhares para a sala de TV. Puxa um assunto aqui, outro
ali, logo vem a doença e eu, no limite da boa educação. Clovinho, pelo
amor de Deus, pessoa santa, boa demais, coração limpo, comenta - lado a
lado - pratos cheios: "Vai num pãozinho?"E eu mal comia o arroz com
bacalhau! Soltei um "cuida do teu, que eu cuido do meu". Domingo, pedi
desculpa por tanta insensibilidade. Ele diz que nem levou em conta.
"Capaz!" Mas lembrava, né. Lembrava. Entendeu na hora sobre o que eu
estava falando. Peguei Tata por volta de 15h (chegamos para almoçar com
todos às 13h) e fomos na direção de um soninho reparador. Pergunto em
frente ao sinal se posso seguir reto, se topa darmos um passeio. Rodo por
uma hora, cidade linda, queria ter fotografado o que vimos. À noite ainda
fomos ver uma comédia francesa na companhia de duas amigas, mais Lana e o
simpático Michele, acompanhado de seu namorado, amigos de Lana.
O
domingo foi de espírto mais tranqüilo, na casa de Clovinho e Zele. Waldik
e sua esposa estavam lá, pais de Clovinho, pessoas maravilhosas,
abençoadas com um humor todo especial, sabor Santana do Livramento. Estava
lá também um guerreiro, com dificuldade para respirar, o Claudinho, filho
da irmã de Clovinho e um colega de infância, o Dotadão. Deu tempo ainda de
tomar uma cerveja com Figo e Tchuco, mais tarde, em um trailer da capital.
Conversa de nível. Só quando chegou a noite é que fui pensar na quimio.
Hoje é terça, já tomei 33% do programado para a Cisplatina, ontem. No
final da tarde de segunda fui plugado à bomba de pressão, que retomou a
injeção de 2mg hora de Flouracyl. Antes, almoço com Mama e Geisel, lá
esperamos também J & N, que vinham de Livramento em direção à
Garopaba, mas fizeram questão de um pit stop para me ver. Feijoada e
panquecas. Juju, filha deles e irmã do Primo, que sempre escreve aqui,
liga de São Paulo, fala com todos, um a um, carinhosa, sucesso na Terra da
Garoa, lindaaaaa! Um prato se foi, quanto carinho(!), ainda tinha
sobremesa típica, conhecida por nós da fronteira como Arroz com Pesco,
assim mesmo, com a grafia errada. Devoro a Veja na companhia de Sheila e
uma outra paciente. Encontro uma edição especial de Tex Willer nas bancas,
uma história completa. Largo a Veja quase no final da tarde para relembrar
a infância com as aventuras do cowboy e seus amigos Kit Carson e Jack
Tigre.
A janta com Tata foi simples e calórica. Provolones
semi-derretidos com cerveja sem álcool. Aproveitamos para comentar a
consulta com Marquez. Tata ficou satisfeita. Eu achei decepcionante,
porque não teve novidade. Marquez explicou que daqui para a frente,
adivinhem o quê? Paciência. Nos deu a opção de fazer a ressonância a
partir do final de maio. Falei do aniversário, ele acha melhor fazer
depois. Mas nos deu liberdade. Já compreendi que daqui para a frente a
dúvida fará parte dos encontros. O normal vai ser eles encontrarem algo
sempre, daí faremos endoscopia, observaremos por mais três meses, daí
ressonância de novo. O quadro não avança, eventualmente diminui. Daí
fazemos uma biopsia, que provavelmente não dará em nada... Então, mais
três meses depois, nova ressonância e assim por diante. Quer dizer,
tratamento, de novo, se houver, só em, no mínimo, seis meses. Até lá,
muitos exames e a vida tocada o mais normalmente possível. É Tempo Rei,
Tempo Rei, Tempo Rei.
Não me iludo Tudo permanecerá do
jeito que tem sido Transcorrendo Transformando Tempo e espaço
navegando todos os sentidos Pães de Açúcar Corcovados
Fustigados pela chuva e pelo eterno vento Água mole Pedra dura
Tanto bate que não restará nem pensamento
Tempo rei, ó, tempo
rei, ó, tempo rei Transformai as velhas formas do viver
Ensinai-me, ó, pai, o que eu ainda não sei Mãe Senhora do
Perpétuo, socorrei
Pensamento Mesmo o fundamento singular do
ser humano De um momento Para o outro Poderá não mais fundar
nem gregos nem baianos Mães zelosas Pais corujas Vejam como as
águas de repente ficam sujas Não se iludam Não me iludo Tudo
agora mesmo pode estar por um segundo
Tempo rei, ó, tempo rei, ó,
tempo rei Transformai as velhas formas do viver Ensinai-me, ó,
pai, o que eu ainda não sei Mãe Senhora do Perpétuo, socorrei
TEMPO REI - Gilberto Gil (1984)
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Sexta-feira, Abril 09, 2004
Publicado
11:05 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Chute no saco Recebo e-mail de uma colega de
câncer, residente no Paraná, que diz, em resumo, estar de saco cheio do
trinômio "tenha fé, tudo vai dar certo, agradeça a Deus por estar bem
agora". "Eu tenho fé, acredito que vai dar certo e ando muito bem na minha
relação com Deus, mas queria que me dessem o direito de ficar puta da vida
de vez em quando." É um ponto de vista que tenho desde o início. Acho que
já contei um diálogo que tive com Geisel com o mesmo enfoque. Ele
compreendeu e riu da minha situação. É pelo mesmo motivo que recebi
e-mails não recomendando assistir ao tal filme do Mel Gibson. Pois vi. É o
tipo de coisa que parece transgressão para alguns, mas na verdade é
redenção para mim. Primeiro porque, embora terrível, vi alguem se ferrando
mais do que eu. Em segundo lugar, porque não gosto de filme mela cueca.
Tem que me emocionar de algum jeito. Aquele açoite todo me fez apertar a
mão de Tata umas 15 vezes. E encher os ólhos de lágrimas umas outras
várias. Jesus era louco por acreditar que era filho de deus. Mas se não
acreditasse, certamente não teria suportado toda aquela violência. Eu, que
não duvido de nada, mas também não dedico tempo para entender o
incompreensível, o que está acima de mim, acho que não suporto tratamento
mais longo. A expectativa pelo resultado tem os seus motivos, portanto. E
é por isso que foi tão bom ver "A Paixão de Cristo".
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Quinta-feira, Abril 08, 2004
Publicado
6:52 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Jesus Cristo Super Xtressss Pois é. Me voltei
totalmente para o trabalho nos últimos dias. Estava com saudade. Mas
acabei me estressando pacas também. Fique um tanto chateado quando me dei
conta que uma das coisas que tive que exercitar exaustivamente durante o
tratamento, a PACIÊNCIA, foi para o espaço na primeira semana de convívio
direto com certas incompetências e, tanto pior, certos desleixos. Achei
que tinha superado esta faceta da minha personalidade. De qualquer sorte,
não me sinto normal ainda. E tudo aconteceu depois de eu ficar 48h sem
dormir por causa da dificuldade para respirar quando na horizontal. Acabei
eletrificado por uma adrenalina diferente. Já decidi tirar o pé hoje. Se
der, me enfio num cinema. Afinal, tem quimioterapia de novo, a última, na
semana que vem. Talvez vá assistir de camarote o calvário de cristo na
visão de Mel Gibson. Coza light....
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Segunda-feira, Abril 05, 2004
Publicado
11:03 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Silêncio feliz Vamos combinar! Se eu esquecer de
atualizar este blog por mais de uma semana é porque estou bem, tão bem que
consigo me esquecer da doença e tudo o mais. Se passar de um mês é porque
morri ou estou curado. Agora, falando sério: a semana passada foi ótima.
Trabalhei, namorei e levei Tata para jantar fora. Teve também o
aniversário do Geisel e ainda por cima o casamento de Isabel (já falei
dela aqui). Dou mais detalhes no próximo post. Agora, com licença, que vou
curtir um pouco a vida :))) Mais informações por telefone ou e-mail
(respondo em no máximo 24h). Fui.
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Terça-feira, Março 30, 2004
Publicado
6:44 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Sala VIP Gumercindo nos deu atendimento VIP hoje.
Fez drenagem do ouvido e a tão esperada endoscopia. Conforme o esperado,
nada de anormal. Os edemas são provavelmente resultado da rádio e o
negócio é não se assustar antes do tempo. O ouvido já está quase bom, na
sua avaliação. Sexta-feira faço uma audiometria para ver se existe mais
algum problema. Inicialmente, não há mais secreção na região que
justifique a audição parcial. Eu e Tata voltamos bem de lá. Comentários:
Publicado
12:28 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Show de horrores Ontem despertei bem disposto,
apesar de ter acordado várias vezes a noite pelos motivos de sempre. Só a
saliva estava muito ruim, o que dificultou a alimentação durante o dia. O
almoço foi o pior exemplo. Depois de ter repetido o arroz com carne
preparado por Tata, que estava realmente gostoso, numa distração, na hora
de engolir, acabei vomitando tudo no prato. Chorei desconsoladamente por
alguns minutos pelo desperdício e pela cena deprimente, nojenta, que Tata
presenciou. Penso que foi de nervosismo, porque passei o dia sem sentir
nenhum enjôo. Parece que não sentirei os efeitos da Cisplatina e do
Flouracil.
No meio da tarde, Tata pega o resultado da Tomo. Lê na
análise que ainda tenho uma lesão expansiva de densidade de (ou "nas")
partes moles da rinofaringe. Ao invés de vir para casa, resolve ir sozinha
até Rocha para saber mais detalhes, porque Márquez está viajando. Ele
recomenda uma endoscopia para informações mais concretas, mas tenta
acalmá-la, dizendo que só em quatro meses saberemos ao certo. Tata volta
para casa (Imaginem o que não foi o trajeto para ela!) e me conta. Entrei
meio que em pânico com as informações, mas nos acalmamos aos poucos.
Telefonei, então, para Gumercindo, que pediu que eu levasse os exames até
o consultório. Me ligaria até o início da noite para dizer alguma coisa.
Para quem não lembra, foi ele quem fez a cirurgia de esvaziamento
ganglionar no meu pescoço. Por volta das 20h, Gumercindo explicou por
telefone que o mais provável é que o edema identificado pela tomo seja
conseqüência da radioterapia. Amanhã vai fazer uma endoscopia às 15h30.
Diz para eu ficar tranqüilo, mas durma-se com um barulho desses.
Comentários:
Publicado
12:27 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Angústia A bomba com flouracil terminou no domingo
a noite conforme o planejado. Fomos até a clínica às 20h para que Carla,
em regime de plantão, retirasse a agulha do meu peito e me livrasse da
bomba e do cabo. Vi pela primeira vez a cicatriz do portocat (nada demais,
nem pontos tem). Antes de partirmos, ela injetou - ainda - uma medicação
contra náusea e mais a Eparina, que serve para conservar o cateter em
condições de uso.
O que aconteceu a seguir foi a pior crise de
angústia que já tive na vida. Logo que chegamos em casa, sem motivo
aparente, comecei a chorar sem parar. Depois veio a falta de ar, o calor,
o medo, a pressão no peito, tudo junto, separado e ao mesmo tempo, sei
lá... difícil descrever.
Tomei Lorax e parecia que não ia adiantar
depois de mais de uma hora de loucura. Aí Tata deitou ao meu lado e
começou a me acariciar, os dedos suaves deslizando pelas costas num vai e
vem delicioso, na tentativa de me acalmar, embora de certa forma em vão,
porque não lembro de sentir nada tão terrível assim. Foi então que lembrei
das garrafinhas que Lana havia me trazido certa vez de um centro espírita.
A primeira vez era para tomar inteira e, quando o fiz, naquela ocasião,
tive uma noite ótima. Pois, acreditem ou não, o niilista aqui virou o
líquido misterioso garganta abaixo e, minutos depois, adormeceu
calmamente. Comentários:
Publicado
12:27 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Irmão Sol, irmão Lua As noites, já tem algum tempo,
são de interrupções. Urina, sede e dificuldade para respirar são os
motivos mais comuns. Levanto, faço o que tenho que fazer, deito, durmo,
acordo e assim vai. Meu corpo exala e expele química. Até anteontem,
domingo, eu ainda tinha a bomba, o cabo e a agulha cravada no peito
(portocat) para complicar.
Mas não posso reclamar de tudo. O final
de semana também teve almoço em família tanto no sábado quanto no domingo.
Apesar de ter acordado prostrado e sem vontade de fazer nada, no sábado
Tata foi fundamental para que eu cedesse e acabasse almoçando com Mama,
Geisel, Polly, JJ e Zelda. O mesmo papel fez Jaguara, que ligou da casa de
JJ no domingo para insistir que eu me deslocasse até lá para mais um
fabuloso churrasco do pai. Comentários:
Publicado
12:27 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Sem alívio Os três dias (quarta, quinta e
sexta-feira) de quimioterapia na clínica foram suportáveis. Cada etapa foi
cumprida na companhia de pacientes diferentes. No primeiro dia, um senhor
muito alto assistiu a toda a confusão com a clínica e não disse nada.
Conversamos alguma coisa sobre a vida de cada um. Mas o que valeu foi a
firmeza quase teatral com que ele afirmou, ao se despedir, que venceria a
doença. No segundo dia, cometo uma gafe e deixo um senhor de Palmeira das
Missões assustado. Do alto de seus 60 anos, ele tremeu quando soube que,
na minha segunda bateria de químio, a mesma que ele estava fazendo, fiquei
três dias sem comer, com muita náusea e vômito. Mas como eu ia saber que
ele estava naquela etapa? A terceira tarde foi a mais rápida, porque dormi
todo o tempo, o que ajudou acelerar tudo. No final, nenhuma sensação de
alívio. Talvez porque tenha partido com a bomba injetando flouracil e com
a cabeça nos eventuais efeitos da cisplatina. De diferente e um tanto
"heróico" só a disposição para comer. Foram quatro sanduíches por dia logo
que chegava em casa.
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Quinta-feira, Março 25, 2004
Publicado
12:23 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Agora com mais calma O que faltou da parte de dois
funcionários da clinica, Rocha e Adriana, foi o entendimento de que
tínhamos todos os motivos para estarmos abalados e transtornados. Só isso.
O fato de eles terem ficado preocupados mais com a sua situação e não com
a do paciente e dos familiares distoa com a política da clínica, da qual
não tenho queixas em nenhum aspecto. Acho que a função de quem não está
envolvido com as emoções da doença é acalmar quem foi tomado por ela, seja
por qual razão for. Passou. Agora quero paz para suportar o que vem por aí
e terminar com esse suplício de uma vez.
Ah, algumas pessoas
pediram notícias da Mama. No final das contas o problema era com a
superposição de medicações. A causa do acúmulo de líquido não era por
causa do figado, do rim ou do coração. Ela não precisará fazer hemodiálise
e nem mesmo um novo transplante. As condições dos rins não são excelentes,
mas ainda tem muito serviço a prestar pela frente. O fígado está muito bem
e não provocaria acit nas condições atuais. Nem mesmo o coração, que por
alguma eventual disfunção chegou a entrar no rol de suspeitos. Hoje, pelo
telefone, ela me deu todos os detalhes do ocorrido e lamentou que nunca
mais poderá comer sal na vida. Eu disse que entendia a situação dela e que
não ficaria dizendo o mesmo que me dizem, que devo esquecer o fato, porque
outros vivem coisas piores. Mas também não concordo que devamos ficar
falando desses assuntos a maior parte do tempo. Mudamos de assunto e tudo
ficou melhor, embora - no fundo - acho que ela gostaria de continuar na
sessão "Muro de Lamentações". Fala a verdade, Mama (heheheh).
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Quarta-feira, Março 24, 2004
Publicado
9:10 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Pastor no espeto Vamos aos fatos. Ninguém gosta de
admitir erros. Mas quando você é dono de um negócio precisa aprender o mais
antigo dos jargões. "O cliente sempre tem razão!" Se conseguir transmitir
isso aos seus funcionários tanto melhor. A medicina é um negócio? É claro
que é! Alguns médicos, entretanto, parecem tratar a relação com os
pacientes com princípios da teologia. Só que ovelha pra mim é prato típico
santanense!
Hoje cheguei na clínica certo de que plugaria a
"bomba" e logo voltaria para casa. Nem almocei pelo mesmo motivo. Eu e
Tata aguardamos na recepção até eu ser chamado. Caminhei pelos corredores
até a área de quimioterapia, onde fui muito bem recebido por Sheila. Ela
me convidou a sentar na poltrona, atendeu um ou dois telefonemas e quando
ia iniciar o procedimento, Tata entra na sala e dispara a novidade:
- Tu sabias que vais passar a tarde aqui? - Como assim?
- Eu perguntei na recepção se ias demorar e me disseram que tu vais
passar toda a tarde aqui, hoje, quinta e sexta-feira.
Sheila
nos olha espantada e esclarece que, sim, o tratamento prescrito pelo Dr.
Rocha previa tomar Cisplatina por toda a tarde e no final plugar a "bomba"
e seguir tomando Flouracil em casa.
- Não, não, peraí, tem
coisa errada, ele nos disse que a parte final do tratamento seria pelo
cateter. - Quem sabe eu ligo para ele... - Por favor!
A enfermeira tenta uma, duas, três vezes e cai na caixa postal.
Ela percebeu que ficamos abalados, com toda a razão! Resolve, então, ligar
para Carla, que aparentemente chefia a enfermagem da área de
Quimioterapia. Explicou a situação, mas Carla insistiu para falar comigo
pelo aparelho.
- Enrico, toma a primeira bolsa, que é de soro,
enquanto Dr. Rocha não chega. Tens que falar com ele, ele é quem decide
isso. Não deves falar com ninguém a não ser com o médico a respeito. -
Carla, quem vai decidir o que vou fazer sou eu e minha esposa, ninguém
mais. - Mas tu tens que colocar o soro, porque senão a tua punção vai
perder a função, tem que passar alguma coisa ali pelo cateter ainda hoje!
Do contrário, terás de fazer a punção de novo. - Como te disse, quem
vai decidir isso seremos minha esposa e eu. Não pretendo seguir discutindo
o assunto contigo por telefone, obrigado.
Peço licença e
converso com Tata. Ela me pergunta:
- E agora, amor? - Quem
sabe a gente faz na semana que vem. - Se ele prescreveu para fazer
hoje, faz hoje! - É, agora o jeito é fazer, eu acho.
Antes
de voltar para a sala de químio, peço para a assistente administrativa,
Solange, que reserve um horário ainda hoje com o dono da clínica, Dr.
Marquez. Ela informa que ele está viajando e diz que a pessoa
imediatamente abaixo é Ieda, a gerente.
- Ok, pode ser com ela,
então.
Tata sai na missão de comprar um sanduíche e um
refrigerante, meu almoço. Eu sou acoplado à bolsa de soro e resignado,
espero por Solange. Por volta das 15h, Tata não tinha voltado e peço para
Sheila me ajudar a ir no toalete. Carla já estava na ante-sala, em seu
computador, sem ter me dirigido uma palavra sequer. No caminho, avisto
Solange e pergunto se havia esquecido do meu pedido. Ela diz que avisou
Ieda na mesma hora e que achou que eu já havia sido atendido. Nisso
aparece Tata com meu lanche. Discutimos se devemos ou não falar com Ieda
naquela hora, enquanto tomava quimioterapia. Atrás dela aparece minha
sogra, do nada, de olhos arregalados. Pergunta se estou bem. Respondo
rápido que sim no meio da conversa com Tata. Acabamos decidindo falar com
Ieda no final da tarde. Devoro um sanduíche com guaraná. Durmo o resto da
tarde com três intervalos, dois para urinar. O terceiro é para travar uma
discussão com Rocha. Ele chega e diz...
- E aí, rapaz, o que
houve? - Eu é que pergunto, Dr.! O senhor explica que o tratamento é
em duas etapas. A primeira aqui na clínica. A segunda com cateter fora da
clínica. O que estou fazendo aqui? - Tu não sabias que ias fazer
tratamento com Cisplatina? - Sabia. - E como foi o teu tratamento
anterior com Cisplatina? - O senhor não está supondo que eu tenha
conhecimento suficiente para saber que a infusão de Cisplatina só pode ser
feita numa clínica, está? O que eu sei é o que o senhor disse: o
tratamento será feito em duas etapas. A primeira com sessões dentro da
clínica. A segunda com um cateter que me garantiria mobilidade. - Por
que tu não me esperou para decidir o que fazer? Não devias ter falado com
ninguém antes de falar comigo. - Olha, doutor, o que senhor não está
entendendo é que não questiono o tratamento. O problema não está aí. O
problema é que me preparei para um tratamento diferente e não estou nada
satisfeito por ter sido informado apenas agora. Eu não almocei e tinha uma
série de planos para esta tarde. - Nada deveria ser mais importante do
que o teu tratamento... - Doutor, eu não estava preparado nem
psicologicamente para passar a tarde aqui mais uma vez e nem para tomar
esta quantidade de Cisplatina. E eu sei o que ela é capaz de fazer. -
Devias ter me esperado então... - Eu nem tenho mais o que falar com o
senhor. O senhor não admite e eu discordo da sua postura. Quando as coisas
chegam nesse ponto a gente resolve é com o dono da empresa. É o que vou
fazer.
O assunto não avançou muito depois disso, naturalmente.
Dormi o resto da tarde. Quando terminou o saco plástico com Cisplatina,
Sheila, que todo o tempo ficou preocupada apenas com a minha condição de
paciente, pluga a bomba com Flouracil no cateter e explica os cuidados que
devo tomar ao dormir e ao tomar banho. Me despeço de Carla e ela não
responde!
Parto pelos corredores e de longe percebo que Tata está
discutindo em tom elevado com Rocha lá na outra ponta. Chego
contemporizando para ir embora logo, porque estava sonolento e cansado de
tanto rolo.Tata estava muito brava pelo jeito. Decidimos que a conversa
com Ieda ficaria para amanhã. O mais engraçado é que quando estávamos na
sala de espera, antes disso tudo acontecer, no início da tarde, uma das
técnicas da radioterapia voltava do almoço e quando me viu perguntou:
- E aí, seu Enrico? Quando é que fica pronto o livro? Estamos
todas loucas para ler o que o senhor escreveu sobre a clínica....
Trilha sonora do dia: Fight the power - Public
Enemy.
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Terça-feira, Março 23, 2004
Publicado
6:53 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Estamos todos bem Eu, meu ombro e o companheiro
Portocat já estão bem instalados. Correu tudo bem e na maior
tranquilidade. Nesta quarta-feira, pela manhã, a bomba para infusão da
químio será instalada. Agora vou descansar que o ombro está começando a
ficar dolorido. Dou mais notícias amanhã.
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Sábado, Março 20, 2004
Publicado
6:06 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Lavagem das escadarias No intervalo de duas
consultas médicas importantes na sexta-feira, uma indecisão sobre a
empresa. Reunião durante a hora do almoço, algumas propostas na mesa, mas
nada definido. Minha cabeça arde até agora no final de semana e ainda não
sei o que fazer. Fiquei de encontrar o sócio, mas acabei torcendo pelo
Inter de olho da tv e ouvido no rádio. A verdade é que eu não estava com
saco de sair de casa, só que continuar sem definir este tópico é
torturante. Falemos das consultas.
Pela manhã fui até Gumercindo
mais uma vez. Ele percebe que quero uma solução radical, mas de novo a
resposta é paciência. As secreções talvez tenham relação com a recuperação
da rádio. Ele faz uma endoscopia e reafirma que tudo está bem. A sugestão
agora é lavar tudo lá dentro com uma mistura de água fervida, bicarbonato
de sódio e sal. Para tanto, injeto o líquido escadaria abaixo com uma
seringa de 20 mls com a ponta introduzida no nariz. A solução passa pelas
narinas, avança até a garganta e segue em frente. A respiração ainda não
está perfeita para dormir, mas melhorou um pouco.
Já tem mais de
uma semana que não vejo Geisel. Aliás, da família vi apenas Lana, que veio
assistir a um DVD aqui. Os demais apenas por telefone. Com a Mama falo
todos os dias, porque estamos apreensivos com a sua situação. Ainda não
sabemos ao certo os riscos envolvidos, embora pareçam grandes. Na semana
que vem ela fará uma biopsia pelo que entendi. As conversas pelo telefone
mostram que está bem nervosa. Tememos que ela precise de hemodiálise. Ligo
sempre à noite, porque ela tem ficado só, enquanto Geisel estuda para
tornar-se corretor de imóveis às vésperas de completar 70 anos, "orgulho
da naçã". Aliás, imagino como ele deve estar preocupado, já que eu inicio
a químio na terça ou quarta. Pelo que soube ele pode vir a adiar a festa
do seu aniversário, programada para o dia 28. De dar dó.
Conto,
para encerrar, como foi a consulta com o cirurgião que fará a colocação do
Portocat. O cidadão é bastante engraçado, mas alertou para alguns
problemas que podem ocorrer, mesmo que as chances sejam de apenas 1%.
Posso perder algum movimento no ombro, temporariamente, e tal. Nem quero
pensar na hipótese, senão piro. Afinal, pelo que entendi, a colocação será
no ombro esquerdo. E o direito nunca mais foi o mesmo depois da cirurgia
de esvaziamento ganglionar... De qualquer sorte, o mais importante é que
foi marcada a cirurgia para terça-feira às 15h. A anestesia será local,
embora já tenha me prevenido que tomarei um sedativo para não sentir, ver
nem ouvir nada. Jejum seis horas antes e comparecer ao hospital (o mesmo
onde fiz o esvaziamento) uma hora antes foram as recomendações finais. De
lá, provavelmente, parto para a clínica para instalar a bomba com a
químio.
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Quarta-feira, Março 17, 2004
Publicado
9:40 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
De volta para o futuro Enganar a si mesmo é muito
fácil e perigoso. Os dois últimos dias foram para enfrentar a realidade.
Primeiro a tomografia, depois a consulta com Rocha. A tomo foi feita num
hospital, o que muda muito em termos de ambiente. Esperamos por uma hora,
eu e Tata, e ficamos observando as pessoas. É inevitável, porque o clima é
pesado, ninguém está ali por prazer. Os profissionais tensos, os pacientes
prostrados, os acompanhantes correndo de um lado para o outro para vencer
a burocracia. Passa uma numa cadeira de rodas, outro de boca aberta, um de
olhos esbugalhados (hipertireóide, segundo a Tata), muitos de cabeça
baixa, inclusive eu.
Ontem já acordei meio irritado, porque o
antibiótico do Gumercindo parece que não será suficiente. Continua
escorrendo líquido do meu ouvido e o que é pior: diariamente, sou acordado
pelas minhas narinas entupidas, com a boca tão seca que não há o que
engolir. Acabo fazendo um barulho infernal para poder respirar, a ponto de
acordar meu amor. Hoje deixei o quarto para deixá-la dormir, porque sei
que tem um dia cheio pela frente no trabalho. Mas o que me deixou
enlouquecido pra valer foi a enfermeira que errou duas vezes as minhas
veias, nos dois braços, para colocar a borboleta que seria usada mais
tarde. Aí, já na maca da tomo, injetaram o contraste e achei que ia
explodir. Todos as sensações foram multiplicadas. O calorão foi anormal, a
respiração tornou-se ofegante, o gelo na veia foi congelante! Pelo
microfone, o técnico pediu para eu não engolir, mas foi impossível.
Tivemos de repetir a aplicação do contraste, que vazou pelo meu braço por
erro da enfermeira. Quando levantei e saí da sala conversando com ela,
cocei as costas. Ela pediu para olhar o que eu tinha coçado. Tinha uma
bola lá e outra na minha cintura. Um médico foi chamado. Ele solicitou que
eu tomasse uma pílula de Allegra e esperasse por meia hora. Passou.
Hoje fomos na consulta com Rocha. Ele achou que está tudo bem e
que os problemas no ouvido não devem ter relação com o câncer. Quer
começar a quimio logo, urgente. Não entendi exatamente toda a pressa, mas
nem o aniversário de Geisel foi motivo para adiarmos a sessão. Devo
instalar o Portocat na terça ou quarta-feira da semana que vem. Uma
conversa com o médico indicado por Rocha está marcada para sexta para
definir o dia exato. No mesmo dia devo fazer a punção da agulha da bomba
que vai injetar, presa no meu cinto, continuamente, a medicação, uma
mistura de Cisplatina com 5.Flouracil. Os efeitos colaterais devem começar três a
quatro dias depois. Pode rolar um mix de náusea, diarréia e algumas
feridas na garganta. Ugh!
Comentários:
Terça-feira, Março 16, 2004
Publicado
12:13 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Tomo + quimio Hoje, terça-feira, às 11h20, faço
tomografia para investigar qual o estado das coisas na região da
rinofaringe depois da radioterapia e da quimioterapia. O resultado deve
ficar pronto até sexta e depois será encaminhado para a Clínica. Lá, na
semana que vem, saberemos o prognóstico do Dr. Marquez, embora saibamos
desde já que o resultado definitivo só será revelado depois de uma
ressonância magnética prevista para junho. Pode ser o meu presente de
aniversário.
Na quarta-feira, às 16h30, tenho consulta com Dr.
Rocha para definirmos a programação da quimioterapia. O primeiro passo é
escolher médico e local para a cirurgia de colocação do cateter
(Portocat). Como se sabe, são duas sessões de cinco dias separadas por 30
dias. Imagino que poderia fazer a primeira aplicação já na segunda-feira
que vem, talvez não. Mas vou negociar com Tata para decidir se aguardo
mais uma semana, assim poderia participar plenamente da festa de 70 anos
do Geisel, que será no dia 28. Vamos ver o que ela e o médico dizem.
Amanhã eu conto aqui.
Fiquei sabendo ontem que Mama - viva graças
a um transplante de fígado realizado há três anos - pode enfrentar alguns
problemas de saúde em breve. A gravidade ainda não está caracterizada, mas
ficamos todos apreensivos. Tanto que por volta das 21h lá estávamos eu,
Lana e Zelda ao lado dela. Ainda brinquei que agora ninguém mais prestaria
atenção em mim. Mas nem precisei ser palhaço por muitas vezes porque ela
estava de ótimo humor. Tomamos um café muito gostoso os quatro, logo na
companhia de Geisel, que chegou da aula de corretagem na UFRGS. Enquanto
isso, Zele deixava recado na minha secretária eletrônica para saber
notícias. Já era tarde quando cheguei, por isso pretendo retornar hoje.
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Quinta-feira, Março 11, 2004
Publicado
4:05 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Ombros S/A Relaxe depois de meses de tensão e verá.
Os ombros ficam dormentes, os dedos formigam lá do outro lado. Você não
carrega mais planeta algum; mas tudo dói de um jeito que só a química. É
um dos fardos de quem acompanha o câncer. Os ombros doem pra cacete na
primeira calmaria. Tata merecia mais atenção ontem a noite.
Ao
invés disso faço serão para atacar o sócio dez horas antes de sua palestra
mais importante. Enquanto Tata está aos cuidados de Ombros S/A, o outro
toma um gancho no baço, talvez um golpe baixo na nuca. Deve ter doído em
mais lugares. Cada sentimento tem sua porção garantida nos mais incríveis
recantos e órgãos do corpo humano.
Minha área mais forte sempre
foi o estômago. É para onde vão todas minhas culpas. Elas batem contra ele
e eu mal preciso contrair. Não sinto nada. Passadas algumas horas, lá está
a dorzinha incômoda, parecida, mas diferente do famoso frio na barriga. Em
geral dura tempo suficiente para que eu busque a redenção. Tentarei o mais
rápido possível, logo que acordar. No quarto, Tata adormece. São 4h e
nunca estive tão só.
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Terça-feira, Março 09, 2004
Publicado
1:45 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Memória tombada Tava sentado, silencioso e
observador desde sábado. Não fiz absolutamente nada até às 17h de ontem,
quando resolvi tomar uma atitude. Fui pro único bairro da cidade onde as
praças invadem as casas, árvores vivem no meio das ruas e cadeiras de
praia ainda descansam corpos nas varandas. O turismo foi
responsabilidade do Figo, porque quando era bem pequeno passou aquela vida
ali. Hoje vive outra distante dois ou três quilômetros do IAPI. E eu não tinha uma máquina para fotografar tantas
imagens. De um beco a outro, assisti ele indo para o colégio, depois para
a casa da namorada, em seguida para o parque Alim Pedro. Aí encontramos o
seu José, que já foi a cara do Chico Buarque, sentadinho na cadeira de
praia, de costas para a porta da sua casa, olhando para o nada e para rua.
Comprei dele meu primeiro carro, um Passar 75 logo apelidado de Azulejo,
alguns de vocês conheceram bem. Pois o vizinho do Figo ainda lembrava de
mim e deu a ele notícias sobre todos os amigos da infância. A memória da
gente deveria ser tombada como patrimônio histórico. Minha mãe, por
exemplo, entre outras coisas, transplantou um sopro de vida do fígado de
um doador desconhecido. O que se passou com a mãe verdadeira dela eu
queria muito saber. Minha vó adotiva chora quando percebe que quem está na
frente dela somos nós. Meu vô adotivo se foi como um santo depois de
purgar pecados mortais. Não há registro dessas memórias, infelizmente.
Espero estar tombando a minha aqui no blog, pensei, enquanto o carro
descia pelo barranco de pedra que divisa o bairro com o resto da cidade.
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Domingo, Março 07, 2004
Publicado
4:51 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Tiros em Columbine Isabel teve um final de ano mais
infernal que o meu. Agora está indo para Londres. O que isso tinha a ver
com a minha morte? Fui a Gumercindo em busca de radicalização. Na sala de
espera, leio artigo de Diogo Mainardi na Veja de novembro, meu cabelo está
ficando parecido com o dele. (Vou telefonar para Isabel e nos livrar dos
ressentimentos, viajantes merecem redenção!) Enrico? Reconheço a voz de
longe. Hoje ela não veio comigo porque voltou a trabalhar. Te amo tanto,
Tata...
Salve, Dr.! Oi, Enrico, como estás? (O que era mesmo que
ela pedira para eu perguntar?) Passei muito bem a semana, voltei a comer e
estou trabalhando pelo menos duas horas por dia. Minha saliva melhora a
cada dia, mas o ouvido está uma porcaria. (Ah, sim, o nariz!) Estou
cuspindo uma secreção da mesma cor da que sai do meu ouvido. Ela também
vaza pelo nariz. Gumercindo começa a usar um aparelho para sugar o líquido
que passou a semana toda caminhando lá por dentro. É gostoso como cócega.
Depois ele raspa o tímpano com outro instrumento e dói um pouco, sai
bastante cera branca, não sei bem nem como descrevê-la. Gumercindo é
degolador gentil. Está doendo? Ele conta que sofreu um acidente de
automóvel. Quão importante é evoluir!
Parto com autorização para
tomar um antibiótico capaz de acabar com gonorréia. Deslizo de carro pela
cidade. Com vidros abertos, o vento refresca e amplia o movimento. A moça
na parada de ônibus, o senhor olhando para o céu na esquina, olha a casa
da Isabel ali... Volto decidido a um dia telefonar, mas quero dormir logo.
Eu e Fio Fino jantamos na casa do Costello ontem. Churrasquinho, cerveja e
tiros em Columbine. Tata me ligou para lembrar que estava tarde por volta
das 2h. Aos poucos, o cochilo vem... Não quero pensar em morte.
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Segunda-feira, Março 01, 2004
Publicado
11:57 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Orgia oral De volta da praia, retomei o uso do
xarope para a garganta. O tempo sem fazer rádio também ajudou. Tudo é
realmente uma questão de tempo e paciência. Aos poucos consegui voltar a
comer. Antes fui no otorrino, o Gumercindo, lembram dele? O cara se
emocionou quando falei da Gio. Receitou um antibiótico e gotas de um
remédio no ouvido. O resultado é que na terça passada comecei a viver uma
espécie de orgia oral. Aos poucos comecei a sentir o sal de volta. Só na
terça comi carne assada, leite condensado com chocolate, pipoca e um café
reforçado com sanduíches. Os dias seguintes também pude testar outras
iguarias, nem sempre com sucesso. Pizzas e massas ainda não deram certo.
Mas no domingo, quando a família esteve reunida para comemorar o
aniversário da Mama, devorei mais de 200 gramas de churrasco. O dia
anterior já tinha testado tomar uns copos de cerveja. Ah... muito
prazeroso. Pensei muito se não me boicotei na praia. Sabia que tinha que
ir no otorrino antes, que não podia mergulhar, ficar sem o xarope foi
estúpido. Mas concluí que na verdade fui levado pela emoção. Basta ler
minha despedida aqui no blog para entender. Eu achei que estava curado...
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Sábado, Fevereiro 28, 2004
Publicado
5:15 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
O Lado A Para não dizer que não falei do lado A,
que foi bom, mas não foi tão divertido quanto o B, o primeiro dia em
Quatro Ilhas foi muito legal. Eu e Tata chegamos e o pessoal, as famílias
da Zelda e da Zele, já estavam nos esperando para o almoço. Servi-me e saí
mandando! Não foi fácil, doeu um pouco aqui e ali, mas consegui e vi que
todos ficaram tão satisfeitos quanto eu. Também devorei vários livros e
revistas enquanto estive lá. Ainda peguei do JJ "As aventuras de Tom
Sawyer" e me diverti por 24h.
Talvez o mais interessante tenha
sido a experiência de falar menos e ouvir mais. Não que eu tivesse ouvido
algo que mudasse a minha vida. O curioso da coisa toda vem do fato de que,
quem me conhece, sabe o quanto isso é difícil para mim, embora eu não
tenha ficado exatamente em silêncio. Foi muito legal exercitar a
criatividade para, mesmo que com sinais, ruídos, caras e bocas, mandar
alguém tomar no cu, por exemplo. JJ, Zelda e Polly devem estar rindo
agora. Eu e Tata também. Comentários:
Publicado
5:15 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Durval Discos O filme de título acima ensina que,
mesmo em tempos de Compact Disc, continua existindo o lado A e o lado B
para tudo nessa vida maledeta. Minha passagem por uma área de
aproximadamente 2Km de extensão do litoral catarinense é um bom exemplo.
Certamente haverá quem possa duvidar que até o pão que eu não comi
em Quatro Ilhas fora amassado pelo Diabo. Como evitar? Estou cercado de
otimistas incorrigíveis, que em 90% dos casos, apesar de eu estar na
merda, acham que eu poderia estar pior e por isso deveria me sentir bem...
Só que as coisas existem mesmo é dentro da nossa cabeça. Céu e
Inferno. E Quatro Ilhas foi um inferno dentro de mim. No segundo dia,
perdi a voz. A garganta começou a doer logo depois. Parecia estar em
"carne viva". Foi chegar a tarde e resolvi entrar no mar. Uma onda mais
forte e mergulhei. Entrou água no ouvido esquerdo até eu ter sensação de
que os tímpanos iam explodir. Fiquei surdo de imediato.
Resultado:
a partir do terceiro dia, eu estava me comunicando por sinais,
praticamente surdo do ouvido esquerdo e tinha sepultado todas as
esperanças de voltar a comer. Isto sem falar no alto risco de voltar a me
banhar no mar, o que poderia ser a pá de cal não fossem os três ou quatro
shakes diários. Eu simplesmente não conseguia mais sentir o cheiro, quanto
mais o gosto daquela porcaria.
O resto do tempo foi exercício de
paciência. O pessoal da Zele voltou para Porto Alegre no mesmo dia. Mas
JJ, Zelda e Polly experimentaram um convívio, digamos, mais próximo, com a
minha nova fase. E eu, como bom cristão, até me senti culpado por terem
sido obrigados a passar seis dias das suas férias ali. É que demora para
entender como tudo funciona. Nem sempre dá para notar o que é "manha" e o
que é real. Não fui, é claro, o que sou normalmente, embora tenha me
esforçado para ser o palhaço de sempre, agora também mímico.
Na
quarta madrugada eu já sussurrava para Tata que preferia estar em casa. E
a partir dali foi a paciência, exigida pela espera, que me conduziram até
em casa. Foi como se eu tivesse levado meu corpo para lá, mas minha mente
estivesse aqui. Meu olhos viam Quatro Ilhas, meu nariz percebia os aromas
de Quatro Ilhas, meus ouvidos estavam afogados com as águas de Quatro
Ilhas. Mas eu estava aqui. No mesmo lugar, no mesmo campo de batalha,
sentado, como um touro, bufando, esperando!
O sexto dia amanheceu
chovendo, nublado. Eram 6h e eu já estava na cadeira de balanço, olhando
para o mar. Logo JJ apareceu. Tomei alguns goles de chimarrão, mas parei
porque o pó me fazia engasgar e tossir. Larguei assim como que por acaso a
isca: Olha o tempo, JJ, "vam bora" mais cedo? Ele argumentou que não,
talicoisa, que ainda tínhamos mais uma diária. Mas às 11h todos já
estávamos convencidos de que ia chover o carnaval inteiro. Eram 15h quando
começamos a voltar.
Aí JJ completou a musculação de paciência. O
homem - que sempre fora um piloto - fez o trajeto de 563 Km a
inacreditáveis e constantes 80 km/H, mesmo em pistas que permitiam
velocidade superior. No final, depois de dizer a mim mesmo mais de
duzentas vezes, em sete dias, que tivesse calma, que tudo ia terminar, não
agüentei. Já na porta de casa, gritei para JJ: Ô meu, tu tá dirigindo como
uma Tia Velha!
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Sexta-feira, Fevereiro 13, 2004
Publicado
11:36 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Fui, mas já volto! Tô indo, já devo ter ido, tô lá
em cima, aterrissei, o paraíso é aqui. Depois de tanta loucura, estou em
busca da paz. Antes de partir para as férias em Quatro Ilhas , quero abraçar
forte todos os que me escrevem, os que telefonam, os que dedicam tempo e
carinho para me confortar, fortalecer, ajudar. Juju, você que sempre
acreditou na idéia de que eu podia emagrecer, olá, baby, estou magérrimo,
em forma, que pena não poderes ver. Vai ficar melhor, porque já tomei uma
resolução importante e voltarei para a academia (e não será a de letras!).
Bea, alow tio e tia em Garopaba, minhas irmãs queridas, meu pais tão
companheiros e solidários, Sogrão e sogra, cunhadinhaaa, Ana B., puxa
vida, que boné LINDO, Cozinheiro, amigo velho, teremos aventuras novas
ainda em 2004, Maria Lúcia, a sempre tão presente Deborah, Elisa, as duas,
que saudade, por que tão silenciosas?, Fio Fino, companheiraço, me
perseguiste o tempo inteiro, agradeço!, Riva, o irmão que eu não tive, ALÔ
pessoal da REDAÇÃO, obrigado pelo CARINHO e por DAREM BOLA PRA MIM!,
salve, sócio, que frieza aí no pólo norte, hein? Olha o bacalhau da Carmem
Vera, olha!!!!, quero provar em março!
Claude, querida, fiel amiga
de tantas loucuras!, PRIMOOOO, muito legal nosso encontro nos últimos
anos, obrigado por aproximar tua família da nossa, RITINHAAAAAAA, tempos
selvagens mesmo eram os da ACS! Temos que conversar sobre o livro...;
salve Gustavo da BAHIA, Tchuco e Figo velhos companheiros do plantão (da
madrugada!), Divino, Velho URSO, MARLON, AMIGO DO MARINHEIRO NEGO LEE,
MARCOS DAS BELAS ENTEADAS, LUÍS MÍSTICO E INTEGRAL, vocês bem que podiam
dar uma fugida, num carro só, e me visitar, passar o dia comigo em 4
Ilhas, pois vou de avião! TIA NINA, CLÁUDIO, KAREN E FLIAS, que
saudade...; Malu, ZU, BABOO, Odette, Cláudia de SP, Daniela Silvestre,
Rebeca, Tutu, Fernando de SOLEDADE, GALOCHA, PELAMORDEDEUS, QUE BELOS
PAPOS; TÃNIA, TIA QUERIDA, Paula, Castilha, Marlene, Dolores, KAI, vou aí
te visitar em breve, SAUDOSO HORÁCIO, CAROL, MIMI, PRINCESA LÉAAAA,
GALVÃO, COSTELLO, Jaime, Renato Polêmica da Veiga, VERA, Márcia, Fakir,
seu ladrãozinho, e TU, JAGUARA, POR ONDE ANDAS?
Boa semana para
todos! Comentários:
Publicado
2:47 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Um esboço depois de 39 sessões Em instantes faço
minha última sessão de radioterapia. Pela manhã, na penúltima, tirei
algumas fotos com as técnicas, recebi abraços, beijos, muito carinho e
força. Cheguei a me emocionar se querem saber. Também tirei
algumas fotos dentro da câmara onde são feitas as aplicações para que
vocês tenham uma pequena idéia do que aconteceu comigo em 39 sessões. Mais
uma etapa está sendo vencida com louvor, estou muito feliz e pronto para
olhar o mar com outros olhos. Talvez a vida.
Por falar em olhos, o
meu esquerdo melhorou significativamente. Usei o colírio e ajudou
bastante. Mas acho sinceramente que quem matou a xarada foi meu sogro. Ele
acha que era falta de uma vitamina, não recordo qual. Devo ter
complementado recentemente, porque o "cisco" sumiu. Agora, se pintar
outro, será por emoção mesmo, apesar de que minha alimentação continue
baseada nos shakes de "Mega Mass". Quem veio aqui em casa viu que a
embalagem parece a de uma lata de óleo de motor, daquelas encontradas em
postos de gasolina. Espero que com o término da rádio eu esteja comendo
normalmente em 15 dias.
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Terça-feira, Fevereiro 10, 2004
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Segunda-feira, Fevereiro 09, 2004
Publicado
11:03 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Boletim de ocorrência Tivemos, eu e Tata, a tão
esperada reunião com o dr. Rocha hoje. Não foi exatamente uma surpresa o
resultado. Se não foi pedido exame de sangue para hoje era porque o médico
já tinha a decisão na semana passada, quando foi marcada a consulta. Rocha
considera que seria um ato de coragem desnecessário e arriscado tomar mais
uma dose de Cisplatina. "Mais importante é recuperar o estado físico e
nutricional para a nova etapa em março/abril". O risco de não conseguir
fazer esta parte, que inclui a colocação de um cateter para injeção de
Cisplatina e outro medicamento por cinco dias seguidos, ininterruptamente,
aí sim seria alto demais.
Ele explicou que o importante foi ter
feito a quimio durante a radioterapia. Rocha disse que não é exatamente a
quantidade de sessões o que vale mais, mas o fato de tomar a medicação
durante a radioterapia. Argumentamos que Marquez tinha nos dito que a
quimio aumentaria em 15% as chances de cura, totalizando 85%. Mas o doutor
rebateu que estes percentuais não são individuais e que o fato de eu
deixar de fazer a sessão não significa que eu tenha perdido 5% de chances.
A coisa toda é mais subjetiva e nem um pouco matemática.
Seria
melhor fazer assim mesmo? Estou tentando manter a cabeça noutra coisa
agora. Com autorização de Marquez, vamos acomodar as sessões de
radioterapia que eu faria nos dias 16 e 17, tomando duas num mesmo dia por
duas vezes durante a semana. Assim, estaremos livres no final da tarde
sexta. No sábado, pegamos um vôo para Navegantes, aeroporto que fica mais
perto de Bombinhas do que Floripa. Lá vamos encontrar JL e rumar para Four
Island, finalmente. Ficaremos até o final de semana seguinte. Pra mim
ficou de ótimo tamanho.
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Sexta-feira, Fevereiro 06, 2004
Publicado
12:25 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Ventilador radioativo Passei boa parte do dia na
rua. Exigiu pensar mais. Como expliquei para o Figo tenho exercitado o
"não pensar". Passo os dias assim numa espécie de meditação. Mas hoje foi
diferente. Acordei tarde porque dormi tarde. Depois fui na rádio com
Geisel e passamos na Mama logo na volta. Lá na Clínica me pesei e deu os
mesmos 74,5Kg, embora eu me sinta bem mais forte e disposto. Na Mama,
tomei dois copões de caldo de feijão com canudinho e aceitei bem. Senti o
sabor e o tempero, tanto que cheguei a pensar que estava percebendo o sal.
Depois fui no oculista, o cara diagnosticou o seguinte: "O que
você tem é deficiência da glândula lacrimal. Os motivos podem ser dois: ou
é um problema degenerativo, raro, porque só acontece com pessoas com mais
de 50 anos; ou então é por causa da rádio. Tudo indica que deve ser a
rádio, só que, como não te vi antes, não posso afirmar". Amanhã terei uma
conversa com Dr. Márquez. Eu já disse a ele que tive a sensação, algumas
vezes, de que meus olhos estavam sendo irradiados. De olhos fechados,
posso ver os "raios", como se piscassem, como se as astes de um ventilador
estivessem diante de minhas pálpebras, girando, girando, contra a luz.
No final da tarde, consegui ir ao cinema com Figo e ainda
encontrei o Tchuco, que já passou seis meses num hospital, quase perdeu
uma perda e fez oito cirurgias. Um belo currículo. Foi bom ouvir dele como
lidou com a crise. Voltei por volta das 21h para tomar minha mamadeira de
shake. Em seguida chegou Tata, que tirou o dia para ver amigas e
recarregar as baterias.
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Quarta-feira, Fevereiro 04, 2004
Publicado
9:23 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Marlon no Cacimba Eu poderia lembrar de dezenas de
pessoas, locais e situações que vivi com ele no que chamo de Tempos
Selvagens (de 85 a 92). Marlon é um cara genial, culto, mordaz, doido e de
pés enormes. Mas vou citar apenas um dos primeiros bares que conheci com
ele em Porto Alegre, logo que cheguei aqui, em 1985, porque sei que talvez
nem ele lembre disso.
O Cacimba era freqüentado por uma geração
que estava se acabando na noite de Porto Alegre. Um tipo "riponga" e
intelectual que de certa forma ainda existe por aí, possivelmente na
última mesa da Lancheria do Parque, ao lado do banheiro.
Reza a
lenda que o prédio do Cacimba, na Osvaldo Aranha, quase em frente ao
Hospital de Pronto Socorro, havia abrigado um cassino clandestino no
passado. Seria esta a explicação para o longo e estreito corredor que
intercalava as cinco salas com cerca de 8 m2 cada, todas com janelas
enormes, em forma de retângulo, separando um ambiênte do outro.
Foi por ali que começaram os Tempos Selvagens, vividos entre Porto
Alegre, Livramento, Pelotas e Florianópolis. Mas eu poderia falar ainda de
Escaler, Ocidente, Daniel Osho, Nado, RDZ, Marcelo "Baudelaire", Rosana,
Gloria (The Doors), Antônio Emílio Morga, Jair, prédio na esquina da
Barros Cassal com Independência, Opalão, Comício das Diretas, Almir,
Rimbaud, estacionamento da PUCRS, Fernando Pessoa, Beatniks, Hora do Jazz,
Opalão, Rádio JB no Morro do Caqueiro, Teté, Turquinho, Crespa, Bar do
Divino no estádio do Pelotas, Faio, Bueno, Iêssa, BlueJazz, Lugar Comum,
Claude e muito, muito mais. Comentários:
Publicado
7:44 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Marcos & Luis Na sexta-feira passada, recebi a
visita do Luís e do Marcos. Os dois foram amigos importantes da juventude
santanense e depois em grandes aventuras em Porto Alegre e Pelotas quando
o que chamo de tempos selvagens chegaram. Marcos mora em Florianópolis e
parou especialmente em minha casa, porque soube do câncer. Ele tem
experiências interessantes com drama similar e recomendou o livro ¿Poder
dos sucos¿ para facilitar na minha recuperação. Também sugeriu que eu
passasse a fazer minha própria comida, o que certamente resultaria em uma
alimentação mais regular. Achei a idéia genial, mas não adotei por não ter
paciência para nada. O livro estará na lista que estou preparando de
livros que me foram indicados ou dados durante o período. Se não são para
todos, individualmente, uns podem servir mais do que outros para quem
interessar possa. O maior presente da visita dos Marcos, entretanto,
talvez tenha sido a visita do Marlon no blog. Comentários:
Publicado
11:15 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Cisco no olho Já tem uma semana que não choro. Nem
antes de capotar de sono por volta das 2h da manhã. Mas um cisco no olho
vinha me intrigando no mesmo período. Não provocou lágrimas, nunca, só a
incomodação. Parece mais um cílio, só que nada aparecia no espelho quando
com o outro olho procurava. Coincidência ou não, o problema, é claro,
ocorre no lado esquerdo, o que me deixa com um pé atrás (o esquerdo
também). Resolvi visitar o oculista e lá foi diagnosticado ceratite e
receitado Fresh Tears Liquid Gel (colírio). Antes de investir na
medicação, aproveitamos a sessão de radioterapia para aprovar a medicação
com Dr. Marquez. Ele fica indignado quando ouve que a causa da ceratite,
segundo meu oculista, seria a radioterapia. "Nós não irradiamos teu olho!
Então não é a rádio! Vamos ouvir uma segunda opinião? Por favor." Pergunto
se ele acha que o problema é outro. Ele acha que é ceratite mesmo. Então,
fiquei com a sensação de que vou ouvir uma segunda opinião só porque ele
não gostou da conclusão do meu oculista. Por via das dúvidas, farei a
vontade de Marquez. Não brinco mais com meu lado esquerdo.
Comentários:
Publicado
11:04 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
21 gramas Há quem diga que eu quero pesar menos do
que peso. Há quem tenha afirmado que eu quero pesar menos 21g. Não acho
que seja o caso. Fato é que ontem, apesar dos litros de shake, aumentei
apenas 1kg. E os exames, mesmo com melhora significativa, não apresentaram
resultados considerados satisfatórios pelos médicos. Na segunda-feira que
vem saberemos se será feita ou não a última sessão de quimio. Ou melhoro
até lá ou talvez não faça. O médico diz que muitos não toleram a terceira
sessão. A questão é saber o quanto isso pode afetar no resultado do
tratamento. Não quero saber qual o peso da minha alma, se é obesa ou
tísica. Talvez arrisque um caldo de feijão ao meio dia...
Comentários:
Sábado, Janeiro 31, 2004
Publicado
3:08 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Gio, minha anjinho da guarda Depois deste e-mail
fico em dúvida sobre muita coisa. O que vale mais, o ovo ou a galinha? A
doença ou o blog? Sem um ou outro eu não teria recebido tantas cartas.
Muito menos a que faço questão de reproduzir abaixo.
Oi eu sou
a Gio e tenho 7 aninhos. Vejo minha mamâe ler todos os dias suas cartinhas
ela parou de fumar depois que te conheseu. Que pena nâo consiguo desenha
aí eu desenhava o meu anginho da guarda e te eprestava . giovanna
| 30-01-2004 15:57:36
Obrigado, Gio. Você é minha anjinho da
guarda! E graças a você eu fui o cara mais feliz do mundo por alguns
minutos!
Comentários:
Quinta-feira, Janeiro 29, 2004
Publicado
7:28 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Bingo! Deu na balança: 73,5Kg! Amanhã faço exame de
sangue para hemograma, plaquetas, creatinina, Na, K, Uréia e Albumina. Se
tudo der certo, a quimio terapia será feita na semana que vem. Achei cedo,
poderia conseguir resultados melhores se fosse na terça. Mas alguns exames
demoram para ficar prontos.
Hoje recebi visita da Mama, do Geisel
e do Riva. Dormi um pouco à tarde, foi revitalizador. Em geral, adormeço
por volta das 2h da manhã. Pensei bastante sobre a minha situação e sobre
o que o médico repetiu mais uma vez, que meu tratamento é um dos mais
difíceis. Por sorte, é um dos mais curtos. Só quero terminar tudo de uma
vez. Que venha a quimioterapia de uma vez... Dia 17 termina a radio e no
início de março saberei se estou livre dessa bomba. Aí é encarar o cateter
com a quimio em março e abril...
Comentários:
Quarta-feira, Janeiro 28, 2004
Publicado
9:06 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Calma, pessoal Acho que tem gente lendo mais as
mensagens do que meus textos. Fiquem calmos. Não sei de onde tiraram que
optei por morrer ou que estou depressivo. As manifestações estão
totalmente fora de tom. Não está sendo fácil, o stress está bem acima do
necessário, mas quem ler apenas os meus textos verá que não estamos na
beira de um penhasco.
O médico esclareceu o que precisa ser feito:
preciso ganhar peso, tenho que tomar o shake e adotar outros complementos.
Recomenda sopas e outros líquidos e pastosos. Estou adotando os que me
apetecem. Os demais estão afastados por existirem substitutos. Há quem
discorde de um ou outro item, mas é só. Eu tenho direito de decidir entre
as várias receitas disponíveis quais as que me agradam.
Ah, vale
esclarecer. A opção por tomar apenas Sustagem, uma tese que sustentei "com
fervor" em casa teve como base a orientação de Mário Marquez. Esta semana
ele esclareceu que o achocolotado deveria ser apenas complemento. Bem,
como ele me atendeu apenas no balcão e não no consultório, ficou o dito
pelo não dito. Então, tá na cara que houve um mal entendido. Minha
insistência tinha por base a informação de que bastaria o shake. Nada
além. Comentários:
Publicado
9:00 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Dia balofo Dia muito legal. Geisel chegou cedo como
era esperado. Respeitou minha decisão de ficar em casa e entendeu meu
raciocínio. Não tenho que comer o que eles acham que é bom, mas sim aquilo
que eu conseguir e que tiver o número de calorias exigido. Tudo muito
civilizado, me entendeu facilmente. No final da manhã, foi comigo e Tata
na clínica, onde fiz mais testes para o novo campo e finalmente aplicaram.
Estou recebendo quatro aplicações bem mais longas que as anteriores. Foi o
que consegui perceber, embora tenha dormido a maior parte do tempo (entre
os testes e a aplicação em si). Depois conversamos todos com o médico.
Ganhei meio quilo em 12 horas, o que foi considerado muito bom pelo Dr.
Mário Marquez.
Geisel passou a tarde aqui também. Leu, cochilou no
sofá, eu mergulhei nos videogames que me emprestou o Fio Fino. Tata
concentrou-se nos shakes. Tomei seis até agora. No total terão sido oito
até dormir. Mais de três mil calorias. Parece feito de pó te tijolo! O
gosto é de sorvete derretido. Em breve pretendo publicar aqui a receita
quilométrica de itens calóricos. Mas além do shake, também absorvi umas
duzentas gramas de abacate (800 calorias), tomei sucos de laranja e açaí
(mais de 300 calorias cada um), além dos ovos mexidos que tomarei esta
noite. Ufa... Tenho certeza de que estarei com 73,5 Kg amanhã mesmo.
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Publicado
2:09 AM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
O Céu que nos protege Ficou mais longe o céu de
Quatro Ilhas. Finalmente, foi replanejada minha radioterapia e carga que
vou receber. Continuarei recebendo radiação na área reduzida e a partir de
amanhã em um novo campo, atrás da orelha, até pelo menos 17 de fevereiro,
o que significa que não poderemos ir para a praia, programada inicialmente
para 08 a 20 de fevereiro. Zelda e JL decidem até amanhã o que fazem com a
reserva. Eu e Tata ficamos super chateados por eles.
A consulta
com o médico sobre a quimioterapia foi dramática. Ele sugeriu que eu me
internasse para tomar soro com vitaminas e que fosse colocada uma sonda
pelo nariz para que alimentos fossem "injetados" diretamente no estômago.
Para evitar, eu tenho duas semanas para ganhar peso, monocitos e
leucócitos. Eles vão observar dia-a-dia até o limite. Aí, se não der
certo, vou ter que ir para o hospital mesmo. Agora, estou tomando um
achocolatado que gera 400 calorias por copo de leite com 200 ml. Tenho que
beber oito vezes por dia para totalizar pelo menos 3.500 calorias. Isso
sem falar em outros líquidos e pastosos que vou ter que engolir de um
jeito ou de outro.
Meus pais estão muito preocupados. Ontem,
queriam que eu tivesse ido para a casa deles pela manhã. Foram um tanto
agressivos, pedi que respeitassem minha vontade de ficar em casa. Não
gostaram, é claro. Hoje, o pai vem pra cá às 9h para tentar me levar para
lá. Vou pedir que fiquem comigo aqui. Mas vão empurrar o que puderem pela
minha garganta. Que loucura tudo isso. Eu estou tentando manter a calma,
mas todos em volta estão começando a perdê-la. Um ambiente de ansiedade
não ajuda, é óbvio. Como esclarecer este detalhe sem magoar ninguém?
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Segunda-feira, Janeiro 26, 2004
Publicado
9:15 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Onde estão meus leucócitos? De quinta-feira para cá
o que aconteceu foi muita sustagem com leite e algumas bolachas. Resolvi
seguir a orientação do médico e não me estressar. Hoje pela manhã fiz
radioterapia com campo reduzido e logo depois exame de sangue para poder
fazer a quimioterapia amanhã.
O resultado ficou pronto de tarde e
Carla ligou para Tata para informar que eu não poderei fazer o tratamento
amanhã, porque o número de leucócitos estava abaixo do normal e eu poderia
pegar alguma infeccão. Teremos uma reunião para decidir o que será feito,
mas é certo que se eu me recuperar até a semana que vem poderei fazer.
Eu estou preferindo deixar para a volta de Quatro Ilhas, apesar de
que o plano da quimio era fazer paralelamente com a radioterapia. Por
outro lado, Dr. Rocha chegou a sugerir que fizéssemos no dia 17 de
fevereiro. Eu que não quis por causa da viagem. Vamos ver no que vai dar.
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Publicado
9:12 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Planos Passada toda esta loucura, tenho alguns
projetos. Pensei em coisas que ainda não fiz e gostaria de fazer. Segue a
lista:
- Curso de pilotagem; dirigir um carro preparado -
Aprender a andar a cavalo; cavalgar a toda velocidade campo a fora -
Aprender a andar de moto; ter uma moto para passear e viajar nos finais de
semana - Aprender algum instrumento musical (comecei as aulas de
violão hoje) - Aprender a surfar - Morar um mês por ano em cidades
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Publicado
9:08 PM por Enrico Miller enrico@mandic.com.br
Los Três Amigos No sábado, Leo e Figo passaram a
tarde comigo. Ajudaram também na questão do carro, que ficou sem bateria
por falta de uso. Nos divertimos bastante conversando e ouvindo música,
coisa que eu não fazia faz tempo. Lembrou os tempos de adolescência. Nada
melhor do que falar porcaria por longas horas com velhos amigos.
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