Durval Discos

Posted by in Trópico de Câncer

O filme de título acima ensina que, mesmo em tempos de Compact Disc, continua existindo o lado A e o lado B para tudo nessa vida maledeta. Minha passagem por uma área de aproximadamente 2Km de extensão do litoral catarinense é um bom exemplo.

Certamente haverá quem possa duvidar que até o pão que eu não comi em Quatro Ilhas fora amassado pelo Diabo. Como evitar? Estou cercado de otimistas incorrigíveis, que em 90% dos casos, apesar de eu estar na merda, acham que eu poderia estar pior e por isso deveria me sentir bem…

Só que as coisas existem mesmo é dentro da nossa cabeça. Céu e Inferno. E Quatro Ilhas foi um inferno dentro de mim. No segundo dia, perdi a voz. A garganta começou a doer logo depois. Parecia estar em “carne viva”. Foi chegar a tarde e resolvi entrar no mar. Uma onda mais forte e mergulhei. Entrou água no ouvido esquerdo até eu ter sensação de que os tímpanos iam explodir. Fiquei surdo de imediato.

Resultado: a partir do terceiro dia, eu estava me comunicando por sinais, praticamente surdo do ouvido esquerdo e tinha sepultado todas as esperanças de voltar a comer. Isto sem falar no alto risco de voltar a me banhar no mar, o que poderia ser a pá de cal não fossem os três ou quatro shakes diários. Eu simplesmente não conseguia mais sentir o cheiro, quanto mais o gosto daquela porcaria.

O resto do tempo foi exercício de paciência. O pessoal da Zele voltou para Porto Alegre no mesmo dia. Mas JJ, Zelda e Polly experimentaram um convívio, digamos, mais próximo, com a minha nova fase. E eu, como bom cristão, até me senti culpado por terem sido obrigados a passar seis dias das suas férias ali. É que demora para entender como tudo funciona. Nem sempre dá para notar o que é “manha” e o que é real. Não fui, é claro, o que sou normalmente, embora tenha me esforçado para ser o palhaço de sempre, agora também mímico.

Na quarta madrugada eu já sussurrava para Tata que preferia estar em casa. E a partir dali foi a paciência, exigida pela espera, que me conduziram até em casa. Foi como se eu tivesse levado meu corpo para lá, mas minha mente estivesse aqui. Meu olhos viam Quatro Ilhas, meu nariz percebia os aromas de Quatro Ilhas, meus ouvidos estavam afogados com as águas de Quatro Ilhas. Mas eu estava aqui. No mesmo lugar, no mesmo campo de batalha, sentado, como um touro, bufando, esperando!

O sexto dia amanheceu chovendo, nublado. Eram 6h e eu já estava na cadeira de balanço, olhando para o mar. Logo JJ apareceu. Tomei alguns goles de chimarrão, mas parei porque o pó me fazia engasgar e tossir. Larguei assim como que por acaso a isca: Olha o tempo, JJ, “vam bora” mais cedo? Ele argumentou que não, talicoisa, que ainda tínhamos mais uma diária. Mas às 11h todos já estávamos convencidos de que ia chover o carnaval inteiro. Eram 15h quando começamos a voltar.

Aí JJ completou a musculação de paciência. O homem – que sempre fora um piloto – fez o trajeto de 563 Km a inacreditáveis e constantes 80 km/H, mesmo em pistas que permitiam velocidade superior. No final, depois de dizer a mim mesmo mais de duzentas vezes, em sete dias, que tivesse calma, que tudo ia terminar, não agüentei. Já na porta de casa, gritei para JJ: Ô meu, tu tá dirigindo como uma Tia Velha!

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Comentários do post 22336339
Caro hermano, embora já tenha passado muito tempo e, nada como o tempo para deixar as coisas com gosto de velhas, para mim a convivencia em 4 Ilhas foi dentro do esperado. Sabíamos que não seria como dos outros anos e que o sonho do paraiso, de pegar ondas, de mergulhar… só estava na tua expectativa. Aprendemos a conviver com o teu silencio e lá adotamos, como sempre, a política cada um faz o que quer dentro dos limites da convivencia pacifica. Quanto ao motorista… estava curtindo o seu brinquedo novo, ao seu modo! Do teu comportamento frente a doença/saúde, se tem “manha” ou é real… isso é assunto pra horas e certamente não seria pelo blog. Grande beijo e toca pra frente que já está dando certo.

Zelda | 01-03-2004 09:51:24