Pastor no espeto

Posted by in Trópico de Câncer

Vamos aos fatos. Ninguém gosta de admitir erros. Mas quando você é dono de um negócio precisa aprender o mais antigo dos jargões. “O cliente sempre tem razão!” Se conseguir transmitir isso aos seus funcionários tanto melhor. A medicina é um negócio? É claro que é! Alguns médicos, entretanto, parecem tratar a relação com os pacientes com princípios da teologia. Só que ovelha pra mim é prato típico santanense!

Hoje cheguei na clínica certo de que plugaria a “bomba” e logo voltaria para casa. Nem almocei pelo mesmo motivo. Eu e Tata aguardamos na recepção até eu ser chamado. Caminhei pelos corredores até a área de quimioterapia, onde fui muito bem recebido por Sheila. Ela me convidou a sentar na poltrona, atendeu um ou dois telefonemas e quando ia iniciar o procedimento, Tata entra na sala e dispara a novidade:

– Tu sabias que vais passar a tarde aqui?
– Como assim?
– Eu perguntei na recepção se ias demorar e me disseram que tu vais passar toda a tarde aqui, hoje, quinta e sexta-feira.

Sheila nos olha espantada e esclarece que, sim, o tratamento prescrito pelo Dr. Rocha previa tomar Cisplatina por toda a tarde e no final plugar a “bomba” e seguir tomando Flouracil em casa.

– Não, não, peraí, tem coisa errada, ele nos disse que a parte final do tratamento seria pelo cateter.
– Quem sabe eu ligo para ele…
– Por favor!

A enfermeira tenta uma, duas, três vezes e cai na caixa postal. Ela percebeu que ficamos abalados, com toda a razão! Resolve, então, ligar para Carla, que aparentemente chefia a enfermagem da área de Quimioterapia. Explicou a situação, mas Carla insistiu para falar comigo pelo aparelho.

– Enrico, toma a primeira bolsa, que é de soro, enquanto Dr. Rocha não chega. Tens que falar com ele, ele é quem decide isso. Não deves falar com ninguém a não ser com o médico a respeito.
– Carla, quem vai decidir o que vou fazer sou eu e minha esposa, ninguém mais.
– Mas tu tens que colocar o soro, porque senão a tua punção vai perder a função, tem que passar alguma coisa ali pelo cateter ainda hoje! Do contrário, terás de fazer a punção de novo.
– Como te disse, quem vai decidir isso seremos minha esposa e eu. Não pretendo seguir discutindo o assunto contigo por telefone, obrigado.

Peço licença e converso com Tata. Ela me pergunta:

– E agora, amor?
– Quem sabe a gente faz na semana que vem.
– Se ele prescreveu para fazer hoje, faz hoje!
– É, agora o jeito é fazer, eu acho.

Antes de voltar para a sala de químio, peço para a assistente administrativa, Solange, que reserve um horário ainda hoje com o dono da clínica, Dr. Marquez. Ela informa que ele está viajando e diz que a pessoa imediatamente abaixo é Ieda, a gerente.

– Ok, pode ser com ela, então.

Tata sai na missão de comprar um sanduíche e um refrigerante, meu almoço. Eu sou acoplado à bolsa de soro e resignado, espero por Solange. Por volta das 15h, Tata não tinha voltado e peço para Sheila me ajudar a ir no toalete. Carla já estava na ante-sala, em seu computador, sem ter me dirigido uma palavra sequer. No caminho, avisto Solange e pergunto se havia esquecido do meu pedido. Ela diz que avisou Ieda na mesma hora e que achou que eu já havia sido atendido. Nisso aparece Tata com meu lanche. Discutimos se devemos ou não falar com Ieda naquela hora, enquanto tomava quimioterapia. Atrás dela aparece minha sogra, do nada, de olhos arregalados. Pergunta se estou bem. Respondo rápido que sim no meio da conversa com Tata. Acabamos decidindo falar com Ieda no final da tarde. Devoro um sanduíche com guaraná. Durmo o resto da tarde com três intervalos, dois para urinar. O terceiro é para travar uma discussão com Rocha. Ele chega e diz…

– E aí, rapaz, o que houve?
– Eu é que pergunto, Dr.! O senhor explica que o tratamento é em duas etapas. A primeira aqui na clínica. A segunda com cateter fora da clínica. O que estou fazendo aqui?
– Tu não sabias que ias fazer tratamento com Cisplatina?
– Sabia.
– E como foi o teu tratamento anterior com Cisplatina?
– O senhor não está supondo que eu tenha conhecimento suficiente para saber que a infusão de Cisplatina só pode ser feita numa clínica, está? O que eu sei é o que o senhor disse: o tratamento será feito em duas etapas. A primeira com sessões dentro da clínica. A segunda com um cateter que me garantiria mobilidade.
– Por que tu não me esperou para decidir o que fazer? Não devias ter falado com ninguém antes de falar comigo.
– Olha, doutor, o que senhor não está entendendo é que não questiono o tratamento. O problema não está aí. O problema é que me preparei para um tratamento diferente e não estou nada satisfeito por ter sido informado apenas agora. Eu não almocei e tinha uma série de planos para esta tarde.
– Nada deveria ser mais importante do que o teu tratamento…
– Doutor, eu não estava preparado nem psicologicamente para passar a tarde aqui mais uma vez e nem para tomar esta quantidade de Cisplatina. E eu sei o que ela é capaz de fazer.
– Devias ter me esperado então…
– Eu nem tenho mais o que falar com o senhor. O senhor não admite e eu discordo da sua postura. Quando as coisas chegam nesse ponto a gente resolve é com o dono da empresa. É o que vou fazer.

O assunto não avançou muito depois disso, naturalmente. Dormi o resto da tarde. Quando terminou o saco plástico com Cisplatina, Sheila, que todo o tempo ficou preocupada apenas com a minha condição de paciente, pluga a bomba com Flouracil no cateter e explica os cuidados que devo tomar ao dormir e ao tomar banho. Me despeço de Carla e ela não responde!

Parto pelos corredores e de longe percebo que Tata está discutindo em tom elevado com Rocha lá na outra ponta. Chego contemporizando para ir embora logo, porque estava sonolento e cansado de tanto rolo.Tata estava muito brava pelo jeito. Decidimos que a conversa com Ieda ficaria para amanhã. O mais engraçado é que quando estávamos na sala de espera, antes disso tudo acontecer, no início da tarde, uma das técnicas da radioterapia voltava do almoço e quando me viu perguntou:

– E aí, seu Enrico? Quando é que fica pronto o livro? Estamos todas loucas para ler o que o senhor escreveu sobre a clínica….

Trilha sonora do dia: Fight the power – Public Enemy.

BLOGGER

Trópico de Câncer
Comentários do post 23743591

Enrico: Tens total razão para a rebeldia. É um desaforo ! Que medicina virou um negócio, como qualquer outro, tudo bem, hoje em dia nem teria como ser diferente. Um dia te conto sobre as “barberagens” com consequências nefastas e arriscadas que levo para o restante da minha vida. Assim como a prática da medicina mudou, a paciência bovina dos pacientes/vítimas deve mudar na mesma proporção. Conheço bem esse tipinho de autor de livro. BOCA NO TROMBONE (no mínimo pela dosagem de endorfina no sangue, que é bem legal!). BeaBeatriz | Email | 25-03-2004 18:47:53
O teu livro merece um capítulo dedicado ao paciente e seus direitos, ou melhor, como se sente um paciente. A visão de quem sofre e a forma como é visto e tratados por outros. Investe nisso porque ajudará muitos pacientes a se posicionarem de forma diferente no seu tratamento. Os profissionais influenciam os pacientes que também influenciam a mudança dos profissionais, é a dialética. Sucesso!Zelda | Email | 25-03-2004 14:02:28
Mano, acho que se esse rolo todo não ajudar em nada no teu tratamento, poderá ajudar outros pacientes a serem melhor tratados no futuro. Pensa que tua doença pode ter servido para isso… alertar aqueles que mais precisam dos direitos que tem como usuários do sistema de saúde. talvez o medo da clínica seja que tu como jornalista possa desvelar um problema que é corrente na área da saúde: O paciente não tem voz, ele se submete! Os profissionais da saúde por vezes se esquecem de que lidam com gente e os procedimentos passam a ser mais importantes que a pessoa que está ali. Basta ver que somente Sheila se preocupou com a pessoa que sofria um abalo psicologico e que estava sendo bombardeada com uma dose cavalar de Cisplatina. Ela sabia que não estavas fazendo um sorinho… os demais estavam muito mais preocupados com a raiva, a reputação da clínica e com o rolo armado e vindo de quem… do paciente!!! Provalvelmente pensando: estamos fazendo tudo pra ele se curar e ele reclama! Mal agradecido…Zelda | Email | 25-03-2004 13:59:28
Por estas e algumas outras que presencio no dia a dia que em alguns momentos me envergonho de compartilhar o exercício da medicina com gente portadora deste grau de “sensibilidade”(ressalto que não chamo a este indivíduo de colega). Também não deveria esperar muito de quem fez questão de mostrar ser autor de um capítulo de livro na primeira consulta,… Lembro da piada que a diferença entre Deus e alguns médicos é que Deus sabe que não é médico; quanto a alguns médicos,… Aproveito para colocar parte do Código de Ética Médica, que talvez devesse ser novamente lido pelo indivíduo que cursou Medicina, citado acima: É vedado ao médico: Art. 56 – Desrespeitar o direito do paciente de decidir livremente sobre a execução de práticas diagnósticas ou terapêuticas, salvo em caso de iminente perigo de vida. Art. 61 – Abandonar paciente sob seus cuidados. Acredito firmemente que os que escolheram a Medicina são em sua esmagadora maioria bons e colocam seu saber a serviço dos pacientes. Exceções só confirmam regraJJ | 24-03-2004 22:08:01
querido mano e Tatá. Estava anciosa por notícias e então abri o blog diversas vezes. Já sabia pelo pai que havia mudanças no tratamento. Entendo a raiva pela falta de comunicaçao entre Dr. Rocha e voces. É chato quando a relação médico/paciente fica estremecida. Mas, infelizmente nós não entendemos nada e precisamos deles (carla, sheila, Ieda, Dr. Rocha e Marquez) por isso não adianta brigar. O negócio é engolir seco e fazer o que eles mandam e pensar que tudo vai passar logo e que todo esse sacrifíco é pela cura. Para voltares para a vida de uma forma melhor, sádia e com muitas coisas boas para curtir. O momento é difícil, os enjoos e tudo mais, mas o que adianta sofrer mais porque o médico informou isto ou aquilo? Fica frio! Pensa na cura e xinga eles depois de tudo acabado. Agora não. Lembra que são eles que estão te trazendo para a vida. boa noite, fique com Deus.zele | 24-03-2004 22:01:31