Kill Gil

Posted by in Trópico de Câncer

A felicidade provoca uma certa empáfia, especialmente se você vive a euforia de achar que venceu uma grande guerra. As duas últimas semanas foram intensas na medida esperada. Eu não estou totalmente equilibrado. Muito menos tenho absoluto controle do que sinto. Apenas deixo sair o que vem a mente e ao coração. As coisas tem seu fluxo e saem do meu corpo ou da minha cabeça como luz. Não há agressividade, nem maldade, apenas uma energia positiva que flui aos gritos. Só que o maior erro para quem tem a doença é dar as costas para ela. Já repeti isso aqui várias vezes. Você pode dormir, mas deve ficar com um olho aberto. Você pode distrair a atenção para os prazeres, mas não pode perder o foco. Se na primeira fase a guerra era contra inimigos visíveis, os efeitos colaterais dos medicamentos, agora a guarda deve ser redobrada, porque a inveja ou a maldade está à espreita, é invisível, e pode emboscar até os entes mais queridos.

Na semana passada, tomei o primeiro baque. Um amigo. Ontem, o segundo. De onde menos podia esperar. As precauções que eu tinha tomado não foram suficientes. O primeiro passo foi me manter perto de quem me ama. O segundo foi evitar contatos longos com quem está fora do espectro sentimental e profissional traçado. Assim, sob a proteção de quem sabe o que estou vivendo, posso – imaginei eu – soltar a franga, me congratular com o fato de ter recorrido apenas às minhas convicções para sobreviver ao tratamento, de conseguir suportar com racionalidade extrema as explosões de adrenalina e festa de cunho até talvez egocêntrico. Estou eloqüente, eficiente, envolvente, engraçado, faço pirraça de mim mesmo, mas – o que é mais importante, estou me amando. E acho absolutamente natural que aconteça.

Mas isso tudo é apenas um plano. Uma visão da coisa. Tudo pode ruir se alguém quiser provar para você o óbvio: que você não está na perfeita saúde mental, física e psicológica. Porque, por incrível que possa parecer, há quem torça por você, mas não suporta a sua felicidade, mesmo que tenha ajudado para construí-la. Quem já sentiu sabe. A dor que dói mais é a da traição.

Exemplo. Você pode convidar alguém para ver Kill Bill. Pode convidar para, depois do filme, jantar o prato que a vítima mais gosta, no meu caso, churrasco. E pode, por seus fracassos sentimentais e profissionais, não suportar tantos relatos de sucesso no amor e na profissão. O filme trata sobre vingança. Este texto também.

Aí você pode mudar o restaurante combinado para um bem mais caro. E pode simplesmente não agüentar a energia irradiada por mim. Eu lá viajando, criativo, inventando histórias loucas, feliz com a minha capacidade de fazer um parêntese longo e voltar ao ponto onde estava anteriormente. Aí conto que minha mente está um dínamo de alta voltagem, na intenção de ser descritivo, mas você pode pensar que estou só me auto-elogiando. E talvez tenha razão.

– Não está gostando das minhas histórias? – perguntei.

Notei que algo não ia bem, né. Mas você responde com ar irônico que não, que está tudo ok, que está apenas me ouvindo, como quem não quer julgar valor. Mas é só o começo de uma estratégia de desestabilização da sua vítima. Não dei bola para o sinal. Segui em frente, agora conto sobre minhas palestras, revelo que tenho uma para dar no dia seguinte e dou umas pinceladas do que costumo fazer no início delas, na expectativa até de treinar um pouco, já que não havia me preparado muito bem para ela. Aí de repente eu perco o fio da meada.

– Ué, tu não és um dínamo?

Hum, pensei. Hum… Tem alguma coisa errada. Mas eu estava distraído comigo mesmo. E na presença de alguém de alta confiança. Supostamente alguém que sabe muito bem usar o fato de você estar usando preto. Alguém supostamente evoluído energeticamente. Alguém que te ama, mas que pode ser traído por algo mais profundo. Minha estratégia foi mudar de assunto. Apontei para as questões dela. Parei de falar de mim. O que poderia ser um acerto, provoca alta tensão. Os relatos não são de um grande momento profissional e afetivo. Portanto, cometi o erro estratégico de continuar ingênuo para os acontecimentos. Uma bomba ia explodir na minha frente e eu ficaria só em instantes.

– Eu acho que tu não estás bem. Acho que como tu mesmo reconheceu no blog tu estás descontrolado.
– Eu acho que estou bem porque eu sei que estou sob descontrole eventual, mas estou consciente. Não estou sendo dominado por nada.
– Eu acho que tu não estás bem. Que tu devias procurar um psiquiatra. Procurar ajuda. Vai tornar mais fáceis as coisas.
– Eu não quero ajuda. Quero vencer isso sozinho. Estou aproveitando para conhecer meus limites. Eu tinha convicções antes da doença. E agora é a hora de usá-las. Não quero ajuda de Deus. E se ele existe ou não está ciente ou não do meu respeito por ele ou não. De cima ou de baixo ou do meu lado ele parece respeitar minha decisão de lutar com meus recursos. E o psicólogo ou psiquiatra pode me ajudar, sim. Mas eu quero saber até onde vou. Quem não sabe quem é ou não tem convicções sobre as coisas é que recorre ao desconhecido. Ou pede ajuda profissional. Eu estou cada vez mais ciente de quem sou. Estou aproveitando tudo o que está acontecendo para evoluir. Como te disse, quero conhecer meus limites.
– Por que tu estás te irritando, estou querendo apenas te ajudar….

Como você deve saber, a primeira coisa que se faz para deixar alguém irritado é dizer que você está irritado quando você ainda não está totalmente irritado.

– Eu não estou irritado. Só não concordo com o que defendes. É nojento o que estás tentando fazer.
– Como não estás irritado? Tá na cara que tu não estás lidando bem com a tua dor e não aceitas isso! Agora mesmo eu fiz um teste contigo e tu caíste como um pato!
– Tu és muito filha da puta em fazer testes comigo no meu estado. Eu aqui de coração limpo e tu fazendo testes?
– Eu acho que tu vais é ficar sozinho e pagar esta conta. Tchau

Pois acreditem ou não, amigos, paguei o mico de ser abandonado na frente do garçom e de todos os demais presentes no restaurante. Fiquei com aquela cara de tacho de quem parece ter feito algo muito grave com a moça que me fazia companhia. O garçom passa e peço a saideira e a conta. Passo as mãos nos cabelos… Olho fixo para a frente… Tento entender o que se passou. Aí levanto, digo para a moça do caixa que está demorando para que me diga quanto devo. Ela responde que são R$68,00. Pago e faço um apelo.

– Sei que é uma pergunta inusitada. Mas alguém da sua equipe fuma? Eu não fumo mais. Mas o momento exige uma compensação.

Ela fica meio constrangida. Me dá o troco. E para minha surpresa quem me oferece uma carteira de Carlton, com a tampa aberta e um cigarro com meio corpo para fora é o garçom que viu tudo acontecer. Logo que ponho o maldito na boca, ele – eficiente – risca a pedra do isqueiro e puffffff, incendeia o fumo!

– Não te preocupes! Isso tudo vai passar!

Eu escuto e olho surpreso. Que frase perfeita para tudo o que estou vivendo agora! Dou uma tragada, afino as sobrancelhas e acuro a visão: “Ele é da raça, Deco” – pensei. “E é do bem”.

– Não sabes o bem que tua frase me fez.

Aquele garçom, só em filme.

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