O dia mais louco

Posted by in Trópico de Câncer

conviteO Plano: Comemorar meu aniversário de 38 anos. Agradecer e confraternizar com as pessoas que me deram apoio durante o tratamento. Reunir, num lugar bonito e com espaço suficiente, 60 convidados para um grande churrasco. Contratar uma banda, formada por alguns amigos, para dançar por pelo menos 3h. Beber a vontade.

A execução: Vale dizer que, depois de pensar sobre o assunto durante meses, quando passou a data verdadeira, dia 08, eu achei que não deveria executar O Plano. Ia dar muito trabalho, eu simplesmente não conseguia diminuir a lista de convidados, que era enorme, exigindo cada vez mais planejamento e recursos. Aí falei com a irmã Zeda e ela me mostrou que eu acabaria me arrependendo.

Em pouco mais de uma semana, a festa estava montada: convite feito profissionalmente e distribuído pela internet, salão alugado, estrutura para atendimento, assadores avisados, dois auxiliares contratados, tarefas acertadas entre amigos e parentes, banda, casal para show de dança de salão, bolo encomendado.

A Lista de Shindler: Definir quem seriam os convidados foi um caso a parte na execução do plano. Foi difícil escolher o local. E quando ele foi escolhido estávamos em cima da data. Só que apesar de adequado, o espaço fora todo preparado para receber 60 pessoas. Estavam disponíveis 60 talheres, 60 pratos, 60 copos, 15 mesas com espaço para quatro cadeiras, o que resultaria, obviamente, em 60 lugares sentados para o almoço. E eu tinha mais de 100 na minha lista. Fiz um corte radical e reduzi para 63 quando faltavam 15 dias para a festa, marcada para o dia 19, um sábado. Mas dois dias depois ela já estava em 88. Alguém me alertou que o percentual de faltas é acima de 10% nas festas. Mandei o convite para 79. Ainda tive cabeça para montar uma lista de espera.

Na quarta-feira, 16, minutos antes da meia-noite, Carol e Princesa Lea foram as últimas a confirmar pouco antes do prazo do RSVP encerrar. Urra! Começamos a pensar em alternativas. Pratos e copos de plástico, mil cálculos para salada, carne era assunto do Geisel. E só dele. Ninguém podia tocar no assunto. O homem estava empertigado, tenso como um general antes da batalha! E o que fazer com a lista de espera? E é claro que surgiram outras e mais outras pessoas. Eu sabia que quem estivesse de fora perderia algo muito importante. Nem eu era capaz de saber o que seria. Nem eu poderia sequer imaginar o que estaria por vir.

A revolta dos que não foram: A coisa toda da lista eram os que estavam fora dela, motivo de alguma tristeza todo o tempo. Os que estavam na de espera, aqueles que eu acabaria não convidando. Deborah e Elisah, Micha, Ana B., Iracy, Carmem Vera (mãe do Deco), Marcos, Luis e, meu Deus, tantos outros. O Professor, amigo recente, por exemplo. O Dr. Gumercindo Saraiva, logo descartado por Tata, que me alertou sobre preservar a relação médico/paciente. Maria Rita muito em especial, ainda mais depois de tudo passamos juntos há alguns anos atrás. Durou dias pensar que ela tinha que estar lá, porque me acompanhou tanto quanto Bia. E a Bia, então, por favor, ela deveria ser convidada de honra, como pude deixá-la de fora penso agora. Concluí o tempo inteiro uma grande bobagem, que ela não se agradaria daquele Andaraí todo. Teve também a Isabel, mas essa está em Londres ao menos. E teve o Figo e a Castelhana, único amigo perdido em todo o tratamento. Tivemos várias brigas antes, questão de temperamento, sabem como é. Só que eu não consigo ficar brigado com alguém por mais do que alguns dias. Logo dou um jeito de me desculpar ou de relevar os fatos. A única vez que não fiz isso perdi um cara importante. Antes de tudo acontecer ele fora importante. Mesmo agora ele continua importante: mas… alguém tinha que me deixar na mão na pior hora, né! Eu não sou tão gostosão assim! O mundo não é perfeito! Era uma questão estatística!

Como podem ver, foi mesmo “A Revolta Dos Que Não Foram” dentro da minha cabeça!

estradaA Caminho: O dia amanheceu lindo. Temer a chuva teria sido honesto nos dias que antecederam o encontro. A gente sabia, a previsão do tempo também, mais aquela gente sábia que conhece o tempo porque os ossos rangem, as cicatrizes ardem. Creio que todos sabíamos que o dia nasceria lindo. Tivemos tempo do banho, das roupas já escolhidas caírem pelos nossos corpos, perfume, uma ajeitada no cabelo, conferência da lista de coisas a serem carregadas para o carro e pronto: lá estávamos eu e Tata, deslizando pelo aslfato. A cunhada saltou da calçada para dentro do carro em segundos no lugar programado e dali em diante estaríamos a poucas quadras da confeitaria e do açougue, onde resgataríamos o bolo e a costela de porco, a última das carnes a chegar na festa. Antes de aterrissar lá ainda resgatamos o sogro, a sogra, as tias e o tio da Tata para que nos seguissem nos seus respectivos automóveis. O local era meio chato de ser encontrado. A caravana teve seus momentos de tensão com o sogro ficando para trás. Mas nos achamos logo depois e tudo deu certo.

Aguarde pelo próximo capítulo em breve….

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Comentários do post 28435562

Cocô – não me convidaste para a festa… Mas güenta que vão fazer uma só pra mim Tô lendo tudo do presente para o pretérito. E presente-preseente: teu presente e o que nos dete é GENIAL

Ritinha Maria Rita | Email | 20-07-2004 13:15:42

tá demorando…

mr | 28-06-2004 09:43:04

oi ! então está explicada a afinidade: somos de gêmeos. tu no oito e eu no catorze. um abraço, com carinho, mas cheio de rancor, por ter ficado de fora da grande festa. mas meu coração é cheio de bondade e nem me passa a idéia de não te convidar para aquele folclórico bacalhau !

carmenvera | Email | 27-06-2004 13:40:38

Adorei a descrição. Estou louca para ver as próximas cenas. Olha, quanto ao Figo, será que não está na hora de voces sentarem e terminarem logo com esta boboagem? todos nós temos divergências e as vezes aquelas pessoas que estão proximas não sabem como lidar com nosso sofrimento ou como gostaríamos que elas lidassem. Simplesmente se retiram ou falam coisas para mostrar que não somos coitadinhos e acreditam que assim estão nos dando força. Mas nós que estamos sofrendo sentimos como uma agressao. E olha na maioria das vezes elas que estão certas, a gente que não quer enxergar. Acho que uma amizade não termina da noite pro dia e eu sei que voces são amigos e ambos devem estar sofrendo com isso. Pensem e deêm o braço a torcer e parem para conversar. um grande abraço e desculpem se fui metida.

zele | 25-06-2004 20:42:22

a seguir cenas dos próximos capítulos…

mr | 25-06-2004 15:21:18