O dia mais louco – 4a parte

Posted by in Trópico de Câncer

festa1Antes do discurso: Na primeira vez em que pensei na festa, pensei que faria um discurso. Daquele dia em diante tive em mente mil roteiros, cada um mais bonito e emocionante do que o outro. Até quando pensei em desistir da festa o que mais lamentei foi não fazer o discurso. Depois de enviado o convite, Tata, Geisel e todos os demais envolvidos na estruturação estavam preocupados com espaços, quantidades, qualidades, transportes, sangue e areia, guerra e paz. Eu só fazia pensar no discurso. Cheguei a listar várias vezes o que diria. Depois fiz bilhetes que manteria nos bolsos para não esquecer de nada e de ninguém.

No dia da festa, eu esqueci do discurso. Durante o deslocamento, eu não pensei em nada além do deslocamento. Na chegada das pessoas, eu não pensei em nada além do quanto representava aquele momento. Comi pouco e bebi o que senti vontade. Abracei muito e ainda assim acho que foi pouco. Conversei muito e ainda assim acho que foi pouco. A superficialidade dos encontros foi tão profunda quanto poderia ser. Os encontros produziram explosões fugazes, mas lindas, coloridas! Não derramamos lágrimas, não falamos das coisas complexas, lembramos muito do convívio que tivemos uns com os outros, outros comigo, comigo e com todos. Teve quem recordasse da minha maneira de dançar nos anos 80, que naturalmente era diferente da minha maneira de dançar nos anos 90. Também quem contasse aventuras pelo asfalto, contrabando de sapatos, “Deixa comigo, com Federais não se brinca!”.

– E o Enrico puxando assunto com os policiais… HAHAHAHAHAH, q figura!

Durante o Discurso: Por volta das 16h chegou um rapaz. Era o responsável pela instalação do som. Indiquei o local, respondi perguntas básicas, iniciei um processo de concentração. Pensei em não falar nada. Mas eu adoro palco, não devo ser tão bom quanto imagino, mas, apesar do temor que ele me dá, é o tipo de desafio que gosto de enfrentar com grande prazer, especialmente no Durante. O Final é só alívio. O Antes em geral é só tensão. Ficou tudo pronto e uma hora depois os músicos começaram a chegar, dois deles ex-colegas de futebol. Eu não recordo como foi. Ninguém gritou para que eu lá subisse. Foi tudo muito rápido, só sei que quando percebi estava lá, curtindo muito dar um “Boa tardeeee” típico de apresentador de programa de auditório. E, sem bilhete, sem decoreba, sem letra, sem acorde, fiz o que passei a vida fazendo com inteligência, algum despeito, muita escatologia e, quase sempre, com algum sucesso: elogiei vários dos presentes na forma do deboche.

– Salva de palmas para os ilustres “perus” da festa!

Alguns amigos que não via há muitos anos compareceram na companhia de convidados.

– O verdadeiro assador dos assadores vive na sombra da estrela de meu pai. Quem é ele? Quem? O senhor Dode! Palmas para ele, senhoras e senhores!festa2

Dizem que ele chorou bastante nessa hora.

– Quem poderia deixar a mãe doente na companhia do irmão e não dos seus zelosos cuidados só para acompanhar um amigo carente até as corridas de Stock Car? Vocês devem lembrar do blog, senhoras e senhores! Sim, ele mesmo, aquele que teve seu nome confundido algumas vezes: o Pluto! Palmas para ele, palmas, mais palmas!

Os amigos da infância também foram lembrados. Contei algumas façanhas vergonhosas de um ou outro. Os cafés levados por tias e mães na sala de aula. As lambidas nos sanduíches para que ninguém pedisse pedaço. Os apelidos …

– Obrigado, Divino, Galocha, Marloca, Marceleza, Bolinha!

O pai do Clovinho também teve seu momento. O Clovinho também. O Giga. O JJ. Mas logo a lista foi ficando pequena. E eu que espertamente adotei o humor para fugir do que temia, logo me deparei com a família. Não descrevi nada ao chamar Geisel e Mamma. Agradeci e pedi apenas aplausos. Receberam muitos. Logo destaquei as irmãs, com valorização especial para Zele, porque ela realmente tem se revelado a mais bonita e pura de todos nós, ultimamente. O holofote virou para ela de forma natural em 2004. Foi bem emocionante ver o reconhecimento que todas tiveram, igualmente, mesmo assim. A voz mal embargou. Mas quando gritei que terminaria meu discurso com um obrigado mais do que especial. Que terminaria com o agradecimento mais importante. Que estava chegando a hora de homenagear a pessoa mais forte, solidária, amiga, parceira, companheira, aquela que foi a mais presente, que foi o meu maior presente no câncer… Quando eu disse algo parecido com isso… já estava às lágrimas… E a ladeira veio abaixo com um belo dum beijo na boca. E depois um abraço longo e verdadeiro! Tata… e aplausos… Tantos! Depois vieram abraços e mais abraços, todos os convidados vieram me congratular! Cantamos o parabéns em meio a tudo isso! E quando chegava o limite do choro descontrolado, preferi urrar e gargalhar, o que me pareceu mais adequado na hora. Logo a banda começou a tocar, todo mundo começou a dançar. Ainda subi no palco para chamar os mais tímidos. Meu coração parecia que ia explodir, então, saí do salão por uns 20 minutos, na companhia de James e Costello.

festa3Depois do Discurso: Sentamos num barranco de onde podíamos ver o sol se por sobre o Rio Guaíba. Tentamos desvendar aquele momento mágico, mas o mais importante nem eram as palavras. O Costello ficava me olhando como se quisesse decifrar afinal de contas o que eu estava sentindo. E eu, apesar de sempre pronto para especulações – tenho a impressão – não consegui chegar nem perto da descrição do que realmente estava bombando dentro do meu peito e se espalhando para o resto do meu corpo inteiro. Deu tempo de dizer não mais do que uma frase. A frase que melhor poderia descrever aquilo tudo e, ao mesmo tempo, não significava nada.

– Foi o dia mais louco da minha vida!

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Trópico de Câncer
Comentários do post 29249268
Estou emocionada. obrigado. Não sou tudo isto. Simplesmente sou sua irmã mais velha. abraços.

zele | 13-07-2004 23:00:52