Frigorífico

Posted by in Trópico de Câncer

Horas depois de eu ter escrito o texto abaixo dirigí-me para o local da biopsia. Geisel passou aqui em casa e fomos os três para o local, não mais do que três quadras aqui de casa. Depois da burocracia obrigatória, fomos conduzidos por um longo corredor branco até uma ante-sala de espera. Muito rapidamente fui convidado a entrar no vestiário, tirar a roupa, colocar um avental daqueles em que a bunda fica de fora e permanecer com meus sapatos. Depois pediram que eu sentasse numa confortável poltrona para a instalação de uma borboleta numa das veias da mão direita. O frio artificial e o corredor que tinha atravessado e que agora podia ver à frente me fez lembrar de um frigorífico. Adivinhem quem era a carne fresca?

Enquanto era picado pela enfermeira perguntei o que iria tomar. Ela respondeu que era um analgésico. Surpreso, respondi que preferia fazer o exame sedado. Ela riu e mandou eu ficar calmo. Tata ainda apareceu duas vezes para me abanar e mandar beijos. Um tanto constrangido, pedi para que saísse do meu campo de visão. Nessas horas prefiro estar só com meu medo. Em seguida, fui conduzido para o açougue. A sala onde já tinha feito uma tomografia semanas antes estava vazia. A enfermeira mandou eu deitar de barriga para baixo e bunda à mostra. Recomendou que eu escolhesse a melhor posição, pois não poderia me mexer mais até o final do exame. Alertei mais uma vez para as dores que teria se permanecesse imóvel daquele jeito. Um tapinha nas costas bastou como resposta. Saiu de cena e foram feitas algumas imagens. Em seguida entrou triunfante o médico, Dr. Victor Valetin. Não fez qualquer pergunta, pediu uma caneta para marcar os locais, riscou com rigor alguns pontos nas minhas costas. Falei asperamente: “Tá tudo errado, eu não deveria estar fazendo esse exame sem anestesia!”. “Nãããã… Tá tudo certo”, foi a resposta. E logo injetaram pela borboleta 2 ou 3 mililitros de dolantina.

O que aconteceu a seguir, amigos, foram cenas para maiores de 18 anos. No intervalo da captura das imagens, tive minha espinha martelada dezenas de vezes. Quanto maior a intensidade e a profundidade, maior o volume dos berros e urros que dei por cerca de ininterruptos e eternos 40 minutos. Não sentia dores no local, que ali tinha sido injetada anestesia. Mas minha perna esquerda sofria com choques a cada perfuração e manipulação da agulha enterrada no osso. E a resposta eram gritos aterrorisantes, seguidos de urros e soluços e gemidos e choramingos. Implorei por mais dolantina diversas vezes, exigi a presença de um anestesista. Concentrado, Valentin pedia que eu aguentasse mais um pouco. Ordenava réguas e outros instrumentos, agulhas mais finas, dava mais anestesia, perguntava se eu estava tonto, eu respondia que não. “Mais dois mls de dolantina”, ordenou, sem resultado.

Em determinado momento, o doutor comunicou que tinha terminado a coleta das partes moles, que faltava apenas o osso. “Me dá mais dolantina, filho da puta!” “Vais me dar a honra de ver a tua cara depois de tudo terminado, hein seu merda?” E a tortura continuou, comigo aos berros por mais uns dez minutos. Uma das enfermeiras não aguentou tanto sofrimento e me deu a mão. Aceitei o carinho e quase estraçalhei os dedinhos da moça a cada martelada. Ela ainda pediu que eu gritasse menos porque Tata poderia ouvir da sala de espera e ficar nervosa. Eu lá, pelado de bunda pra cima, tomando no cu, pensei que se ela estivesse ouvindo ou estava em prantos ou tentando invadir a sala. A coisa ficou tão feia que Valentin decidiu. “Nós vamos parar. Estamos sofrendo junto contigo. Não dá para continuar assim. Volta outro dia e faremos o procedimento com anestesia geral”. Retruquei que depois de ter sofrido tudo aquilo exigia o procedimento até o fim. “Preciso saber o resultado o quanto antes. Não pára porra nenhuma”. Ele continuou, e eu continuei berrando de dor. Não lembro de ter sentido nada pior em toda minha vida. Cheguei a lembrar do filme do Mel Gibson, “A Paixão de Cristo”, algumas vezes, o que talvez explique minha decisão de continuar por um estúpido raciocínio cristão de que tanto sofrimento resultaria na redenção quando nos fosse entregue o resultado do exame.

Já na sala de recuperação, Valentin veio fazer a entrevista que deveria ter feito antes do procedimento. Relatei todos fatos e ele confessou que se tivesse conhecimento não teria feito com anestesia local. Não foi alertado por Canhedo e não quis me ouvir, por isso foi o carrasco do dia. Tenho certeza que toda a equipe discorda da sua postura naquela tarde. E que ele foi assunto daquele bloco até o final de semana chegar. Filho da mãe arrongante! Como que na expectativa de me tranquilizar, com efeito, Victor garantiu que o material coletado foi excelente, em quantidade suficiente para um diagnóstico efetivo. Os momentos bizarros estavam longe de chegar ao fim, entretanto. Logo ficamos sabendo que Canhedo não tinha feito solicitação para exame. Falamos, então, para Valentin do anatomopatológico e de outros exames feitos em cultura da outra vez. Mas ele respondeu que já tinha posto os pedaços do meu osso em formol, e que exames em cultura não seriam mais possíveis. Fez mais. Deixou a coleta em potes de plástico transparentes nas mãos de Tata e se retirou, dizendo que ela teria que transportar meus restos até o laboratório, alguns andares acima. Antes, porém, é claro, ela ainda teve que correr até a clínica, porque Canhedo não fez a solicitação de exames necessária para que a coleta fosse entregue no laboratório. Isso não se faz! Na sexta, por telefone, relatei os acontecimentos para Canhedo, que prometeu repassar as queixas para a equipe do exame. Não assumiu, entretanto, sua parte na coisa toda.

Hoje, dois dias depois, ainda tenho a perna esquerda dormente. E alguma dificuldade para levantar e mover o pé para cima. Não pensamos mais no acontecido. Só no resultado. Sinceramente, apesar de todos pensarem o contrário, ainda desejo, peço aos céus e tenho fé que não tenho câncer. O próximo post dirá o que de mim será feito. Oremos.