Sangue ruim

Posted by in Trópico de Câncer

Deleitem-se os que não entenderam até hoje que sou sangue bom. Meu sangue está ruim. É fio condutor do meu risco de vida elevado. Canhedo acelerou o pessoal do laboratório, ansioso por nos dizer que sou seu potencial cliente. Valentin compensou toda a dor e horror: saiu fumaça branca das chaminés do vaticano! “Metástase de carcinoma indiferenciado (linfoepitelioma) com intensa reação desmoplásica”. Eis a frase que marca meu destino, sorte ou azar. Recomenda-se calma, seis aplicações com intervalo de 21 dias de Taxol combinado com Carboplatina e dez sessões de radioterapia com foco na L5 e quadril. Efeitos colaterais possíveis: perda total de todos os pelos do corpo, reações alérgicas controláveis com Decadron, dores nas articulações (durante três dias após cada aplicação), ardência ao urinar e, eventualmente, diárreia (os dois últimos provocados pela radioterapia).

O sentimento até agora é de alívio, afinal, ao menos sabemos o que combater. Alguma raiva me dá por ter descoberto certas alegrias talvez tarde demais. Nada mais temo. De novo, meu papel é resistir. Vamos procurar Dr. Marquez para marcar consulta e relatar as novidades. É certo que rádio faremos lá. Vamos ver o que ele nos fala sobre o tratamento, não tenho dúvida de que surgirão novidades. Possivelmente, haverá discordância em relação aos medicamentos a serem utilizados na quimio. Pelo que nos disse Canhedo, a variedade é grande. Tanto que os preferidos dele podem ser trocados se até a terceira aplicação não ocorrer redução do tumor.

Lá fora alguns pássaros latem como cachorros em volta do meu prédio. Por longo tempo pensei que fossem realmente latidos roucos. Hoje desconfio que sejam os corvos de Poe.

1
Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
“Uma visita”, eu me disse, “está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais.”

2
Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu’ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P’ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais –
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!

3
Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
“É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais”.

4
E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
“Senhor”, eu disse, “ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi…” E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

5
A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais –
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isso só e nada mais.

6
Para dentro estão volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
“Por certo”, disse eu, “aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.”
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
“É o vento, e nada mais.”

7
Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.

8
E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
“Tens o aspecto tosquiado”, disse eu, “mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.”
Disse o corvo, “Nunca mais”.

9
Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome “Nunca mais”.

10
Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, “Amigo, sonhos – mortais
Todos – todos já se foram. Amanhão também te vais”.
Disse o corvo, “Nunca mais”.

11
A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
“Por certo”, disse eu, “são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp’rança de seu canto cheio de ais
Era este “Nunca mais”.

12
Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu’ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele “Nunca mais”.

13
Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!

14
Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
“Maldito!”, a mim disse, “deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!”
Disse o corvo, “Nunca mais”.

15
“Profeta”, disse eu, “profeta – ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
Disse o corvo, “Nunca mais”.

16
“Profeta”, disse eu, “profeta – ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Édem de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!”
Disse o corvo, “Nunca mais”.

17
“Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!”, eu disse. “Parte!
Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!”
Disse o corvo, “Nunca mais”.

18
E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
Libertar-se-á… nunca mais!

(O Corvo de Edgar Allan Poe)

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Trópico de Câncer
Comentários do post 35497386

Tchê… apesar da nossa amizade recente… estimo toda a força do mundo para encarares esta. Convicção sei que tu tens, basta seguir as orientações. Conte comigo e com a nossa equipe para o que precisares… não te acanha… e siga firme… temos muito, muito mesmo para construirmos juntos… Grande abraço

Rafael Scavone | Email | Homepage | 09-03-2005 11:24:02

querido mano Desculpe não ter ligado pra voces. Na verdade não sei o que dizer. Hoje, acessei o blogger e vi que continuas escrevendo e fiquei feliz, pois é uma forma de nos comunicarmos contigo e de termos notícias suas sem te atrapalhar com tantos telefonemas. Na verdade estamos todos em estado de choque, mas sei que vamos superar cada momento com muita fé, união e amor. Acredite sempre que você vai se curar. Sei que é difícil, mas nada é impossível quando se tem fé. Estamos aqui pra te ajudar em tudo que precisares. Conta conosco. Te amamos muito e a Tata também. Força, força. Todos dorme aqui em casa e eu perdi o sono com tantos pensamentos. Espero que voces já estejam descansando. boa noite. agora estarei aqui todos os dias. beijocas. zele

zele | 09-03-2005 00:45:54

Dílnei caro Dílnei Já coloquei toda a igreja que a minha irmã vai lá em livramento de prontidão. Começaram hoje uma corrente de oração por ti. várias pessoas vão estar rezando pela tua saúde todos os dias. E nós por aqui, também. “TUDO POSSO Naquele que me fortalece.” Nós te amamos e vamos estar do teu lado

Ricardo Morais | Email | Homepage | 08-03-2005 14:49:32