A foto…

Posted by in Trópico de Câncer

Nely cresceu linda e forte como toda criança daquela época. Corria livre e alegre pelos campos, brincava com coisas simples, a maoiria feitas a mão pelos tios, pela avó e pela mãe Maria. Pião, cavalinhos de osso, deitar na grama, respirar fundo e olhar para o céu, vendo desenhos imaginários nas núvens. Nem mesmo os dias de chuva eram tristes. Maria dizia que as gotas que caiam nas poças de água eram bailarinas dançando com suas lindas saias rodadas. Ela fechava os olhos e imaginava, imaginava…

O tempo passou e o carinho de todos por Nely cresceu como suas pernas finas e longas. Mãe Velha agora era só amor. Tirson vivia às brincadeiras com ela. E Maria…. Maria tinha realizado seu maior sonho. Era mãe! Agora, era preciso dar um pai para Nely. Sentada na escadinha que dava acesso à casa onde viviam, sonhava com um homem de verdade, capaz de lhe presentear com mais filhos, filhos nutridos na sua barriga, frutos de uma paixão de causar rubor enquanto pensava no assunto.

Um dia chegou uma carta para Tirso. Maria percebeu que ali tinha um conteúdo para o qual era a maior interessada. Suportou a curiosidade por todo o dia na sua saleta na sede dos Correios e Telégrafos. E se ela quisesse Nely de volta? E se ela realmente tivesse direito?

– Nunca! Ela é minha! Ela é minha Nequinha… Não vou deixar!

Quando o expediente terminou, Maria correu para casa, onde encontrou Tirso cevando o mate.

– Chegou estar carta pra ti.
– É da Sirlei…. a la putcha, é da Sirlei! Só falta…
– Abre, Tirso! Abre!

Tirso encostou o mate num canto da escadinha. Logo chegou Mãe Velha… Os três curvaram-se em direção a carta…

Tirso,

estou passando uns dias em é Alegrete. Pagam melhor, sabe como é. A vida não está fácil. Eu bem que tentei outras coisas pra fazer. Mas não compensa. Sinto falta da minha família, da vida de princesa que eu tinha lá. É uma lástima que eu tenha me perdido por causa de uma falso amor. Aquele maldito não moveu uma palha… Se tudo tivesse acontecido nos conformes eu não teria dado meu bebê. Como ela está? Pelos meus cálculos deve ter uns seis anos. Preciso ver ela. Não te preocupa, sei o que te prometi e sou mulher de palavra. Te escrevo para que possa tirar uma foto. Penso em ir até aí em setembro, dia 7, tiro a foto e me vou, não quero complicar com vocês. Espero que aceite meu pedido.

Com afeto,

Sirlei

Era agosto, ainda corria um vento frio e seco pelas manhãs. Maria não era mulher de chorar, por isso, pela coragem que sempre demonstrou, ela disse:

– Responde pra ela Tirso. Deixa ela tirar a foto. Ela é mãe. Vamos contar tudo pra Nely, tava mais do que na hora. Ela tem que saber.

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Trópico de Câncer
Comentários do post 38400816

Quem sabe um dia eu possa escrever com essa facilidade… a gente termina a história e manda atualizar a página pra ver se tu nao postou mais alguma coisa! um dia, lá em casa, eu pedi pra vó me contar um pouco da vida, no final ficamos horas sentadas no sofá. essa histótia me lembra esse dia… alias, tu sabias que ela pensou em fazer Artes Plásticas? é, essa história tem muito o que contar… aguardo ansiosamente a sequência, beijo

polly | 04-04-2006 12:49:40

Parabéns, Enrico. Esta é a história mais bonita da história do Blog. Emociona, enche de poesia esse momento de dor. Meu amigo, te admiro por seres capaz de nos conduzir por essa leitura, por trazeres tua família para partilhar essas memórias. Não deixa de escrever… Abraço. Claude.

Claude | 04-04-2006 01:15:09

Caro Amigo, Tenho saudades de ti. Fiquei sabendo pelo site sobre tua mãe, linda pessoa, bela cozinheira. Fiquei muito triste. Lindo o que tens escrito sobre a história dela. Sem dúvida és um dos grandes textos que já li, um belo jornalista. Tenho até uma inveja branca pelas minhas pequenas colunas, que me davam muito trabalho e prazer. Não sabia da história da Nely e por motivos que conheces, muito me emociona. Forte abraço de quem tem pensado muito e sempre em ti.

Cozinheiro | 03-04-2006 23:02:24

Minha mae falava isso quando eu era pequena…num dia, quando eu estava na escola, estava chovendo, e eu falei para uma melhor amiga, Joju… -sabe essas gotas que caiem no chao? e ela falou que nao sabia…e eu falei: -sao bailarinas dançando… entao nós duas ficamos imaginando que aquelas bailarinas eram nós dançando ballet, na epoca dançvamos ballet juntas. Quanta imaginaçao!! pelo jeito, passa de geraçao, para geraçao… heheheheheheeheheheh Beijos

Naninha | 03-04-2006 21:37:12

Nely gostava de olhar a chuva, Maria dizia que as gotas que caiam nas poças de água eram bailarinas dançando com suas lindas saias rodadas. Ela fechava os olhos e imagina, imaginava…

zele | 03-04-2006 21:27:45