Medo

Posted by in Trópico de Câncer

Nely não lidou nada bem com a novidade. Uma sensação de solidão apertou o peito. Maria agora seria o que? Tia, Tia Maria? Madastra? Ela era minha mãe, agora o que será? Tanta dúvida e tristeza a fez sentir pena de si pela primeira vez. Difícil perceber o bem que a vida havia lhe reservado depois de uma revelação tão forte. E a mãe verdadeira, uma prostituta? Não, não… Por que me foi dada a vida se teria passar por tudo isso? Assim, sofrendo, Nely correu pelos campos, como se no final do fôlego fosse encontrar algo além do cansaço.

Maria e Mãe Velha perceberam a tristeza de Nely e sofreram em silêncio. Estava na hora de Nely começar a entender a vida, por mais complicada que ela parecece ser.

Passam os dias e novos telegrafos chegam. Maria e Sirlei combinam horário e local para o encontro. Sirlei pede para ficar a sós com Nely um tempo. Maria teme que Sirlei tente roubar Nely num momento de distração. Não se sabe a verdade até hoje. A única certeza que temos é que a foto foi tirada. E lá está mais do que clara a tensão!

Tudo indica que Sirlei tinha intenções de levar Nely, mas nada foi feito porque Maria e Mãe Velha não lhe deram nem um minuto a sós com ela. Enquanto isso, dá para imaginar quanto sofrimento causou tudo isso para a menina. Tadinha, odiava a mãe por tê-la deixado. Amava a madastra por tê-la acolhido. Amava a mãe por querê-la de volta. Odiava a madastra por não ser sua mãe. Passado tudo, a verdade é que para Nely nunca houve outra mãe desde então que não Maria, aquela que um dia seria minha única e querida vó.

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Trópico de Câncer
Comentários do post 38403662

Nely finalmente encontrou dois anjos que a protegeram e a criaram como filha. Dizia ter duas mães.A mãe velha e a mãe maria. Mais tarde me presenteou como afilhada de Maria e seu esposo passaram a ser a vó dinda e o vô dindo (batismo) e vó chica passou a ser a minha dinda de crisma. Contava a màe que eu dormia nos braços da vó chica logo que nasci pois era pequena demais e com as noites frias de Livramento ela tinha medo que me congelasse. Como não havia fraldas descartáveis e super secas, muitas noites ela acordava toda molhada. Lembro muito dela sentada na cadeira de balanço, com pernas grossas, sais cinzas e blusas xadres e de sua proteçao. Brigava com todos pra me defender. Da vó dinda, que posso dizer. Era uma pessoa pura, que adorava os netos. Fazia pão cazeiro e deixava a gente brincar com a massa fazendo bonequinhos, bolinhos fritos guardados na lata, café sempre pronto encima do fogão a lenha, gostava de dormir no seu colo. Até pouco tempo entre nós, era adorada pelas netas pela sua simplicidade.

zele | 06-04-2006 20:42:27

Não me canso de dizer: que história bonita.. sendo tecida dessa forma, nossa! Tudo anda tão raro nesse blog. Eu me declaro leitora viciada!!! Beijo com carinho.

Claude | 04-04-2006 20:37:09

Nossa querida vó sempre nos acolheu como netos de sangue. Sempre próxima, afetiva, cuidou de todos nós nas noites frias de Livramento. Chegava à noite com um chále de lã na cabeça para espantar o frio. Contava estórias e versos que só ela sabia. Nos divertia e acarinhava. Muitas horas passavamos em volta do seu fogão à lenha, víamos fazer benzeduras com braza e água para espantar quebrante de bebê, cozer “punho aberto” e tirar cisco de olho rezando pra Santa Luzia, coisas que Nely também herdou com o tempo. Maria foi doce e abençoada, ensinou-nos como é bom ter avó.

Zelda | 04-04-2006 20:23:31

Peço a todos que tenham colaborações sobre a história de vida da nossa Mãe querida que envie correspondências para mim. Isso pode ser feito aqui mesmo nos comentários, mas creio que terá mais graça se aparecer na historia.

Enrico | Email | 04-04-2006 16:46:33